quarta-feira, 7 de maio de 2008

Forester, o Forasteiro




Sir William Forester nasceu no seio de uma família tradicional inglesa, conhecida pela sua determinação, coragem e destreza. Não era uma família abastada, contudo, ajudava sempre os mais necessitados e lutava sempre contra as injustiças.
Forester herdou os traços dos seus antepassados e, durante muitos anos, esteve ao serviço da Família Real. Chegou mesmo a ver ser-lhe atribuído pela Rainha o título “Sir”, pelos serviços prestados à nação.
Aos trinta e três anos decidiu abandonar o seu país e ir à descoberta de novos territórios.
Comprou um balão a ar quente e lá foi ele, subindo por entre o nublado céu de Inglaterra.
Passaram-se meses e meses até que Sir Forester decidiu parar. Parecia-lhe uma bela zona, aquela. A paisagem era magnífica. Via as vivas águas dos rios a moldarem os vales de velhas montanhas. Olhava mais para Este, e via as ondas do mar azul a bateram no vastíssimo areal coberto pelos doirados raios que o sol não se cansava de irradiar.
Decidiu parar, era o local perfeito!
Durante toda a viagem sonhou o dia do seu desembarque, no qual todos os habitantes locais o iriam receber com popa e circunstância, como um verdadeiro “sir” merece!
Estávamos a três de Junho, Forester decidiu, então, fazer um diário sobre a sua estadia naquela terra sedutoramente desconhecida.

3 de Junho

“Pisei pela primeira vez o solo da minha nova terra!
Foi estranho… o zunzum das pessoas a andarem de um lado para o outro não foi quebrado com a minha chegada. Parecia fazerem de mim mais um deles. Realmente, o plano anatómico não era muito diferente… Mas não, eu não me sentia como tal!
Andavam cabisbaixos, pesarosos, pareciam preocupados.
Talvez por isso não me tenham dado a devida atenção e feito o festim de que estava à espera, tinham mais com o que se preocupar.”

10 de Junho

“Tenho tentado aproximar-me destes seres. Tem sido difícil, mas já consegui fazer um amigo, é o senhor José Alfredo.
A língua tem sido um entrave à comunicação, mas já percebi que é um bom ser humano. Vive com a sua companheira e as duas crias [?]. Trabalha desde que o primeiro raio de luz surge até que o último se despede. É baixo, barrigudo e um farfalhudo bigode salienta-se por entre os seus lábios, quase sempre molhados pelo bom vinho da zona.
Perguntou-me se queria ficar hospedado na sua casa. Eu aceitei.
É pequena, humilde, sem luxos. Está cheia de retratos familiares e há galos em tudo o que é sítio, vermelhos, amarelos, azuis. Deve ser uma tradição local…”

8 de Julho

“Estou a pensar sair de cá de casa, o ambiente está pesado. Não há dia em que não adormeça com os gritos do Alfredo e da companheira. A razão é sempre a mesma, dinheiro, papel, graveto ou lá como eles lhe chamam.
Nas ruas todos se queixam do mesmo. Queixam-se dos poderosos, dizem que trabalham e que, o que recebem, não chega para dar de comer aos filhos.
Não consigo continuar a ver isto, as pessoas envelhecem a cada dia, estão sem esperança.”

18 de Julho

“Chega! Cansei-me! Não aguento mais tais injustiças. Vejo miseráveis a morrerem a cada dia para porem um bocado de pão em cima da mesa, enquanto que os responsáveis políticos dizem que está tudo bem, cada vez melhor!
Querem mostrar trabalho com novas medidas teoricamente milagrosas mas que na prática fazem com que a pátria se afunde cada vez mais.
Estou a organizar uma manifestação!
Está a ser difícil, os habitantes têm medo, mas eu tenho-os convencido. Algo tem de mudar.”

23 de Julho

“As faixas estão prontas. São enormes, do fundo negro eleva-se o vermelho da ira das palavras de luta e de revolta..
Faltam poucos dias, são centenas aqueles que me têm ajudado e milhares aqueles que me telefonam a marcar presença na “Grande Manifestação”.”

26 de Julho

“A manifestação foi um fiasco. Éramos meia-dúzia.
Os prometidos milhares tinham recebido, na véspera, visitas pouco amistosas.
No dia seguinte, tinham ficado com dorzinhas na garganta e cabeça, diziam eles.
E o pior não foi isso.
O Alfredo bateu à porta de minha nova casa pouco depois de termos rodopiado as bandeiras da indignação junto à praça da cidade.
- Fui despedido - disse ele com as mãos aterrorizadas presas à cabeça. - Fui despedido, o que vou fazer?
Não soube o que dizer. À medida que ele ia falando do filho que teria de deixar a escola e ir trabalhar, da filha que não poderia ser advogada como sempre sonhou, da mulher que não parava de dizer que a culpa tinha sido daquela “manifestaçãozeca”, as lágrimas caiam. Caiam na minha face e no bigode farfalhudo do Alfredo.”

27 de Julho

“Acordei decidido a contar a toda a gente as represálias anti-democráticas a que o Alfredo tinha sido sujeito.
Fui para cima da cadeira do café “Central” e declamei em alto e bom som palavras de indignação e revolta contra o regime absolutista e ditatorial vigente.
Não houve palmas, assobios, muito menos gritos de apoio. Pelo contrário, à medida que as palavras iam saindo vigorosamente da minha boca, um langoroso silêncio ia invadindo o café.
Passados alguns minutos ali estava eu, sozinho em cima duma cadeira. Desprezado!”


4 de Agosto

“Estou mal! Por todo o lado sou evitado, ao verem-me as pessoas atravessam a rua. Parece que sou eu o causador da sua miséria.
Até o Alfredo não me visita mais. Parece que após muitos dias de apelo à extrema bondade do patrão conseguiu reconquistar o emprego de que sempre se lamentou.
Hoje, antes de vir para casa, já noite, passei por casa dele. Os gritos e discussões continuam, parecem estar ainda piores. Mas, pelo menos, a filha voltou para a escola. O filho não, trabalha agora com o pai. Não recebe muito, mas sempre dá para ajudar em casa e comprar uma roupita nova no final do mês.
Decidi não entrar, não seria bem-vindo. Afinal, tinha sido eu o causador da perturbação pontual naquela boa vidinha da família.”


30 de Dezembro

“Tenho andado sozinho, a vaguear por entre as ruas da cidade, observando estes seres cabisbaixos a quem eu, um dia, lhes tentei levantar a cabeça.
Continuam cabisbaixos e pesarosos, vivendo, ou deixando-se viver à mercê das linhas tortas por Ele irremediavelmente traçadas. Afinal foi a que Ele lhes deu e nada podem contra isso…”


Forester descobriu assim Portugal.
Um país pequenino “à beira mar plantado”, preso nas suas gloriosas raízes que, ao longo dos tempos, se esqueceu de desabrochar.





Tânia Daniela Falcão, 11º B

2 comentários:

Fátima Inácio Gomes disse...

Bravo, Daniela! Óptimo texto de estilo diarístico. Discurso com muita qualidade e uma dureza na crítica tremendas! Contudo, essa dureza não retirou beleza ao texto na sua globalidade. Muito, muito bem conseguda! :)

Luis Loureiro disse...

muito bom mesmo! Um final fenomenal e criticas fantasticas.


PARABENS!