terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Tomamos a Vila depois de um Intenso Bombardeamento



A criança loura

Jaz no meio da rua.
Tem as tripas de fora
E por uma corda sua
Um comboio que ignora.

A cara está um feixe
De sangue e de nada.
Luz um pequeno peixe
Dos que bóiam nas banheiras —

À beira da estrada.

Cai sobre a estrada o escuro.
Longe, ainda uma luz doura
A criação do futuro...

E o da criança loura?


Que escolhêssemos um que não estivesse no livro (mas que curiosamente se encontra no verso da folha do seu semelhante que tanto amo*), sem critério de selecção de autor, ortónimo, heterónimo – indiferente. Um. Que nos escolhesse, a nós.

Não, este não me escolheu. Escolhi-o eu entre os demais, não por haver uma identificação piegas-pessoal, não por ser mais ou menos academicamente enquadrado nas temáticas, não por ser linguisticamente belo (até porque a rima é musicalmente descoordenada), nem mesmo por identificação por oposição.
É verdade que comemos também com os olhos, e eu quase devorei papel de encantamento pelo título. Palavra(!): é gigante, atípico e Histórico… e nada esclarecedor.
Eis que num encolher de ombros, e induzida em erro, deixei que os cabelos louros se reflectissem na minha íris, o que não durou mais do que um verso, porque Pessoa não deixa, porque os cabelos que não respiram não brilham, e o sangue que perfilha a glória dos heróis de Homero, não é o mesmo imundo e rasteiro da estrada da Vila.
Não intento alongar-me a expor uma interpretação cuidada, uma defesa acérrima do poema…mas há impressões ressaltam – o comboio que a criança ignora, que sendo a sua consciência ou não, está impregnado de movimento e velocidade até ao tutano; o peixe, que mais vivo que a criança, carecendo da vida desta, permanece à beira da estrada; a última estrofe, no seu todo, sugestiva de um futuro que provém de uma luz que Ainda doura.
“E o da criança loura?” Com este verso, acrescento e concluo que o Ortónimo me deixou um gosto requintado na boca: quase com maldade, ou apenas desalento, remete o seu olhar (e o meu também), uma última vez, para a criança anómica, suspirando.


*O menino de sua mãe




[texto por editar pela professora]

1 comentário:

Beatriz Szwarc dos Santos disse...

Muitissimo obrigada! Excelente trabalho, nem eu própria o diria melhor ;)
continua sim?