terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Já não me importo


 
Já não me importo
Até com o que amo ou creio amar.
Sou um navio que chegou a um porto
E cujo movimento é ali estar.
 
Nada me resta
Do que quis ou achei.
Cheguei da festa
Como fui para lá ou ainda irei
 
Indiferente
A quem sou ou suponho que mal sou,
 
Fito a gente
Que me rodeia e sempre rodeou,
 
Com um olhar
Que, sem o poder ver,
Sei que é sem ar
De olhar a valer.

E só me não cansa
O que a brisa me traz
De súbita mudança
No que nada me faz.
 
Fernando Pessoa


A escolha deste poema não foi em vão! Optei por “trabalhar” um poema de Fernando Pessoa Ortónimo pois já estou habituada á sua capacidade de racionalização, e confesso que toda a simplicidade de Alberto Caeiro, único heterónimo de Pessoa até agora estudado por nós, me deixa um tanto ou quanto baralhada, não só por o achar contraditório, mas também pelo facto de já estar habituada, de certa forma a racionalizar tudo, no que diz respeito á poesia pessoana.
Inicialmente quando li este poema não me tinha apercebido das suas características pouco comuns relativamente ao estilo “típico” de Ortónimo, mais tarde apercebi-me de que este apresenta alguns versos longos, e para além de quadras (marcas da lírica tradicional) com rima cruzada apresenta também dísticos, no entanto apresenta outras características mais presentes na poesia de Ortónimo como uma certa musicalidade, o ritmo marcado, bem como o uso de uma linguagem simples. Depois de confirmada a sua autenticidade, decidi que iria “trabalhar” pois esta dúvida inicial poderia ser bastante útil para reconhecer outros poemas de Fernando Pessoa Ortónimo que não apresentassem a estrutura comum da sua poesia.
Este poema demonstra logo de início, o desinteresse do sujeito poético por tudo, revelando alguma indiferença ao que acontece á sua volta, remetendo-nos assim para o desânimo, o tédio e a frustração.
O sujeito poético começa por se identificar com um navio que chegou ao porto e cujo movimento que lhe resta é ali estar. Neste contexto, o porto, pode ser identificado como o destino. No entanto, este destino acaba por se revelar um “não-destino” pois fica atracado á desilusão deste sentimento de incompletude perante um projecto falhado.
Sem destino, limita-se a ser indiferente a tudo e a todos, passando assim por uma angústia existencial. O desinteresse por tudo o que o rodeia é mais evidente, essencialmente na penúltima estrofe, quando o poeta diz que o seu olhar «é sem ar/ de olhar a valer», pretende com isto mostrar que está a olhar apenas por olhar, pois não encontra nada que desperte a sua atenção, ou seja, está presente mas não está a prestar atenção ao que se está a passar á sua volta. Esta é das únicas coisas com que me identifico neste poema, pois de certa forma ás vezes também me acontece o mesmo, ficando a “navegar” no pensamento não prestando atenção que supostamente estamos a ver, ou ao que nos está a ser contado.
Na última estrofe podemos concluir, baseado nos versos, “e só não me cansa/ o que a brisa me traz”, que ao poeta tudo o cansa. O tédio está constantemente presente neste poema, no entanto é de realçar que não se encontra a vontade do próprio sujeito poético em lutar contra este tédio, assim, em vez de viver o tempo deixa-se viver por ele.



Eduarda Silva Correia, 12º.A

[texto por editar pela professora]

2 comentários:

Anónimo disse...

Qual é a temática deste poema?

Anónimo disse...

Fragmentação do eu