terça-feira, 2 de dezembro de 2008

A Noite é Muito Escura



É noite. A noite é muito escura. Numa casa a uma grande distância
Brilha a luz duma janela.
Vejo-a, e sinto-me humano dos pés à cabeça.
É curioso que toda a vida do indivíduo que ali mora, e que não sei quem é,
Atrai-me só por essa luz vista de longe.
Sem dúvida que a vida dele é real e ele tem cara, gestos, família e profissão.

Mas agora só me importa a luz da janela dele.
Apesar de a luz estar ali por ele a ter acendido,
A luz é a realidade imediata para mim.
Eu nunca passo para além da realidade imediata.
Para além da realidade imediata não há nada.
Se eu, de onde estou, só veio aquela luz,
Em relação à distância onde estou há só aquela luz.
O homem e a família dele são reais do lado de lá da janela.
Eu estou do lado de cá, a uma grande distância.
A luz apagou-se.
Que me importa que o homem continue a existir?


Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"




Decidi
escolher este poema de um dos heterónimos de Fernando Pessoa, Alberto Caeiro, não por me identificar directamente com ele, mas sim por ter tido o privilégio de o ler e o ter apreciado imediatamente. A escolha por Alberto Caeiro foi propositada, devido a achar os seus poemas incrivelmente naturais e simples, levando-nos para um mundo que não parece nosso conhecido, devido à racionalização e comparação excessiva que os humanos tendem a fazer de tudo, mas que realmente é esse mesmo mundo, exterior, que nos rodeia. Caeiro tem este brilhante dom de nos fazer ver (e quando falo de ver, é ver realmente) aquilo que nós quando vemos tendemos de imediato a intelectualizar.

Quando o mestre Caeiro, refere no primeiro verso “É noite. A noite é muito escura.”, é quase como se o poeta estivesse a dizer que está triste por estar noite, pois a noite não o deixa ver a beleza da Natureza, que é tão prezada por este. Para se sentir feliz necessita de ver as cores vivas da luz. Ele procura essa mesma felicidade na luz de uma janela que se encontra a uma grande distância do centro dele. Caeiro, nitidamente, reage como um girassol, que por sua vez age por tropismo. Um girassol roda para onde estiver o sol, mesmo estando ele a uma distância bastante significativa. À noite o girassol não tem luz e por isso pára o seu movimento circular; enquanto que Caeiro agindo de um modo parecido, também, “pára”, ficando triste, porque a noite fá-lo pensar devido a não ter a irreflexão da luz para apenas o fazer ver a realidade das coisas.

Como é referido no verso nove “A luz é a realidade imediata para mim.”, a realidade para Caeiro não passa do momento presente, porque a luz o deixa ver o que é real ali naquele instante. Para que importa o passado e o futuro? O passado não vai além de uma recordação que trai a Natureza, pois a Natureza é a realidade verdadeira e pura daquele momento e se se pensar no que já passou, estaremos, de uma certa forma, a atraiçoá-la. O futuro não passa de um conjunto de meras ilusões e esperanças imaginadas e idealizadas. Quando o poeta diz que nunca passa da realidade imediata, ele refere-se a esta temática. Mostrando, também, que tudo aquilo que ele vê em cada instante e que já tenha visto, repetidamente, seja visto, quase, pela primeira vez e com um pasmo sempre diferente, ou seja, o que está presente nele é sempre o presente.

Nos versos doze e treze, Alberto Caeiro continua a privilegiar a visão como sendo o centro de tudo, pois se ele vê uma coisa, essa coisa nunca irá ultrapassar a veracidade que a visão lhe mostra, não estando mais nada por trás disso.

No momento em que a luz, da casa que se encontra a uma grande distância dele, se apaga (verso dezasseis), deixa de existir a realidade imediata que a luz proporcionava. Se não existia mais aquela luz, tudo que estava por trás dela não importava para Caeiro, porque como é dito por este “Eu nunca passo para além da realidade imediata.”.

No último verso (verso dezassete), não só neste último mas também nos versos seis e sete, nota-se um pouco o anti-socialismo [anti-sociabilidade?...] de Alberto Caeiro. O mestre era anti-social, porque para ele viver feliz apenas lhe chegava ver a Natureza com tudo aquilo que ela é, não podendo por isso nunca cegar, como é referido em alguns dos seus outros poemas, não necessitando do convívio com os outros seres humanos.


Ângela Gandra, 12º B

11 comentários:

Anónimo disse...

Olá, professora!
Eu acho que o poema divede-se em três partes, concorda?
1 parte: 1 a 6 linhas
2 parte: 7 a 15 linhas
3 parte: 16 a 18 linhas

Fátima Inácio Gomes disse...

Não concordarei... poderá até dividir-se... não divedir.

Depois, num espaço como este, não há necessidade de esquartejar os poemas... deixamo-los inteiros.

Seria bom que o anónimo se identificasse, por uma questão de lisura de trato... se fosse meu aluno, saberia que eu dei liberdade para que cada um apresentasse um poema de Pessoa e o tratasse livremente... aliás, deveria ser "o poema a escolher" o aluno e não o contrário.

Anónimo disse...

Professora, acabei de lhe enviar um e-mail! Recebeu?
Já agora, sou a Daniela!

Anónimo disse...

Boa tarde :)
Sou uma estudante do 12º ano do distrito de Setúbal. E estou a realizar um trabalho sobre Alberto Caeiro, o trabalho consiste em analisar este poema. Tenho alguma dificuldade em encontrar as figuras de estilo que estão presentes neste poema. Sei que Alberto Caeiro usa frequentemente comparações, repetição anafórica e metáforas . No entanto, não as consigo identificar no poema. Será que me poderia ajudar?

Obrigada.

Fátima Inácio Gomes disse...

Olá, anónima estudante de Setúbal.

De facto,na minha perspetiva muito pessoal, este poema não tem esses recursos de estilo. E isso, só por si, contribui para reforçar a filosofia objetivista de Caeiro. Usar um recurso de estilo seria já "pensar",fazer associações mentais, mais do que "ver" e Caeiro
defende aqui, absolutamente, a ideia do não pensar. Ou, no extremo, aquilo que ele designa, noutro poema, de "pensar com os olhos".

Poderá haver é quem, na perspetiva de leitor, considere que todo o poema é uma metáfora do desejo, de Caeiro, de só se ater ao concreto

Terei ajudado?... :)

Anónimo disse...

Sim, obrigada :)

Cátia Correia disse...

Em quantas partas é possível dividir o poema?

Paulo Jardim disse...

adoro este blogo e muiti giro e e bom para vermos quando precisarmos por acaso ja estou a gostar mais de ler poemas desperta uma certa e interessante curiosidade

Paulo Jardim disse...

será que podia explicar é que ainda n percebi muito bem o esquema rimatico e a métrica? será que podia-me ajudar ?

Fátima Inácio Gomes disse...

Olá Paulo Jardim,

agradeço as palavras.

Caeiro não será o melhor exemplo para falar de métrica e rima :)
Caeiro será aquilo que se pode chamar de um "espírito livre e natural" e, por isso, a sua escrita reflete isso, tanto nos temas como na forma.
Assim, a sua poesia não tem qualquer preocupação formal, não apresenta rima ou cuidado métrico.

Anónimo disse...

Olá professora, sou uma aluna do 12º ano.
Será que me pode ajudar, tenho de analisar o poema acordo de noite, muito de noite de alvaro de campo. De que temas nos fala este poema???

Obrigada