sábado, 3 de março de 2007

O Poder de um voto branco...


“Ensaio Sobre a Lucidez”. Mais um livro de José Saramago, o controverso, amado por uns, criticado por outros. Nasceu na aldeia ribatejana de Azinhaga, concelho de Golegã, no dia 16 de Novembro de 1922, embora o registo oficial mencione o dia 18. No seu primeiro emprego foi serralheiro mecânico, tendo depois exercido diversas outras profissões: desenhador, funcionário da saúde e da previdência social, editor, tradutor, jornalista. Publicou o seu primeiro livro, um romance ("Terra do Pecado"), em 1947. Foi laureado com o Prémio Nobel da Literatura em 1998.
A acção desenrola-se na capital de um país não identificado, onde ocorrem umas eleições dentro da normalidade, ou pelo menos, parecia. Após a contagem dos votos, eis o descalabro: mais de setenta por cento dos votos que foram depositados nas urnas estavam em branco. O governo, perplexo, exigiu que as eleições fossem repetidas oito dias depois. Assim foi, mas o número de votos brancos aumentou, desta vez para oitenta por cento. O governo, em vez de procurar descobrir o porquê desta deliberação popular, desencadeia uma operação policial para apurar o, ou os responsáveis por este atentado à democracia. Embora o país não esteja identificado, o nosso imaginário, é mauzinho, e tem tendência a reconhecer o país como se fosse o nosso. Vai-se lá saber porquê!“Ensaio sobre a Lucidez” vem na sequência de “Ensaio sobre Cegueira”, onde esta capital havia sido assolada por uma epidemia de cegueira, à qual só uma pessoa tinha escapado: uma mulher. Traço característico de Saramago, que faz em quase todas as suas obras referência a uma mulher. Mas continuando, esta operação policial desencadeada pelo governo de direita, numa clara crítica de José Saramago a esta orientação partidária, governo este opressor e ditatorial, chega ao ponto em que a mulher que havia escapado à cegueira é descoberta. Esta mulher é perseguida, acusada de ter chefiado toda esta operação que deixou no caos a democracia daquele país.Qual será o seu destino? Não desvendarei este facto,mas posso já adiantar que, quanto a mim, não foi a melhor opção do autor, uma vez que a mulher poderia ser a chave para descodificar outros mistérios a relatar numa obra futura.
Para quem leu “Ensaio sobre a Cegueira”, “Ensaio sobre a Lucidez” não passa disso mesmo, de um ensaio, uma vez que não há tanta acção, e quem gosta mesmo de acção, provavelmente irá achar este livro uma seca. Mas para quem é fã de Saramago, gosta de política, ou mesmo para quem gosta de debater as questões de fundo da democracia mundial, é um livro interessante.
Despeço-me com uma citação (estão na moda!!)
“Todas as artes só produziram maravilhas: a arte de governar só produziu monstros” (Saint-Just, Louis).

5 comentários:

Li disse...

Já me falaram dos dois livros. Gostei da tua apresentação, por seres criticamente realista em relação à tua opinião sobre livro, ainda que isso te obrigue a tomares um partido não muito a favor dele.
No entanto, conseguíste abrir-me o apetite para ler "Ensaio sobre Cegueira". Acho que o tenho aqui em casa... :)

Li disse...

ahh... Excelente título. Veria nele uma crítica...

Fátima Inácio Gomes disse...

Perfeito, Pedro! :D
Mais uma abordagem de grande qualidade!!!
Aliás, aproveitaste a tua análise para dares uma piscadela de olho a outro dos romances, o "Ensaio sobre a Cegueira".

Aquele que eu mais recomendo, mas creio que há muito de afectivo nesta escolha já que foi o primeiro que li do Saramago, andava eu no secundário), é "O Ano da Morte de Ricardo Reis". Contudo, acho melhor que o leiam depois de termos estudado Pessoa, assim terão uma visão mais lúcida :P do livro. Genial é, ainda, o "Memorial do Convento"!

Ana Marta Pimenta :P disse...

Olá!
Pedro, esta tua análise desse livro só vem confirmar as tuas excelentes capacidades a nível da língua portuguesa!
A nossa geração está a degradar-se:os jovens ignoram cada vez mais a leitura. Jovens esses que consideram Saramago "uma seca" e sem interesse nenhum, muito antes de terem sequer folheado algum livro deste grande escritor. Estas ideias pré-definidas são contrariadas nesta tua apresentação! Abordaste muito bem o assunto (sem se tornar maçudo) e vincaste a tua opinião, ainda que contrária ao que Saramago escreveu, tal como disse a lili!
Muitos parabéns! E continua com este tipo de trabalhos!

João Martins disse...

Bravo Pi!!!