terça-feira, 26 de junho de 2007

Alma Perdida

Toda esta noite o rouxinol chorou,
Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
Alma de rouxinol, alma de gente,
Tu és, talvez, alguém que se finou!

Tu és, talvez, um sonho que passou,
Que se fundiu da Dor, suavemente…
Talvez sejas a alma, a alma doente
D’alguém que quis amar e nunca amou!

Toda a noite choraste… e eu chorei
Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei
Que ninguém é mais triste do que nós!

Contaste tanta coisa à noite calma,
Que eu pensei que tu eras a minh’alma
Que eu chorasse perdida em tua voz!…


Florbela Espanca, Sonetos


O tema deste poema é o sofrimento amoroso. O sujeito poético começa por falar do rouxinol cujo sofrimento é descrito em crescendo, “chorou, / gemeu, rezou, gritou”, corroborado com o advérbio "perdidamente", que nos dá a ideia de um sofrimento contínuo, assim como a expressão “toda esta noite”. Ainda na primeira parte do poema, as duas quadras, o sujeito poético estabelece uma analogia entre o rouxinol, que revela o que lhe vai na alma, “alma de rouxinol”, e alguém, “alma de gente”, e interpreta esse sofrimento como um sofrimento amoroso “Talvez sejas a alma, a alma doente / D’alguém que quis amar e nunca amou!”.
Na segunda parte do poema, os dois tercetos, o sujeito poético identifica-se com o rouxinol “choraste… e eu chorei”. Essa identificação que começa a primeira parte do poema entre o rouxinol e “alguém”, continua com “tu” e “eu”, “choraste… e eu chorei” e atinge o auge nas expressões “ninguém é mais triste do que nós” e “pensei que tu eras a minh’alma / que eu chorasse perdida em tua voz”, ou seja, o choro, os gemidos, os gritos do rouxinol são a voz do sujeito poético que exprime o seu sofrimento. Daí o título “Alma Perdida”. O adjectivo “perdida” que surge no último verso e os advérbios da primeira quadra “perdidamente” e “suavemente”, dão-nos a ideia de um sofrimento contínuo, tanto a nível fónico, como a nível semântico.
Escolhi este poema porque me identifico muito com ele, e porque acho fantástica a maneira como está escrito.

9 comentários:

Fátima Inácio Gomes disse...

Bela análise!!!! Sentida e com grande qualidade na abordagem! Tocaste os pontos fundamentais com mestria ;)
Já agora... uma consulta ao dicionário de símbolos também teria dado uma ajuda... o rouxinol é o pássaro símbolo do amor e dos sentimentos, mas apresenta um íntimo laço entre o amor e a morte, além de que, por ser uma ave, se liga ao plano superior (e por isso, como foscaste, à Alma). Um exemplo da ligação amor-morte está no "Romeu e Julieta", de Shakespeare, em que os amantes ouvem o canto de um pássaro que, caso seja a cotovia, anuncia a separação deles e que continuarão vivos; porém, se for o canto do rouxinol, eles ficarão juntos e morrerão por esse amor. Que foi o que aconteceu!

Nuno_Areia disse...

vendo as coisas assim, ainda fica mais interessante... fica prá próxima.

Cláudia disse...

;) afinal de contas sempre tenho uma insignificante influência
qqr dia estás a ouvir metal... :D

Nuno_Areia disse...

não me parece...

Scorpionster disse...

calma areias... mando-te um deathmetal sinfonico e tu entras em ácidos...

é melhor que Bartok... xD

tá bonito o trabalho pá...

Fátima Inácio Gomes disse...

Olha que Bartok tem pinta!!!
Por falar em "clássica"... antes dos Dream Theater darem início ao concerto, o que se ouvia eram uns senhores que fazem coisas fantásticas com cordas clássicas com temas de Tool, Dream Theater, metallica, Black Sabath ando so one... MUITO BONS!!! "String Quartet Tribute"

Entretanto, toca a ouvir Apocaliptica! \m/
Não gostas, Nuno?!

Anónimo disse...

Ninguém sabe porque há uma repetição da palavra " alma " neste poema ?

Anónimo disse...

Gostei da análise e ajudou me num trabalho (: obrigado

Anónimo disse...

Gostei muito da analise feita ao poema mas gostava de saber quais sao os recusos expressivos presentes no mesmo poema se me puder ajudar agradeceria imenso