domingo, 24 de maio de 2009

"cadáver adiado que procria"


Apesar de o quadro, que René Magritte conspurcou de Génio com a obra que apresento, ser só um retrato renascentista, Madame Récamier por Jacques Louis David, sempre me remeteu, pelo divã talvez, ou pelo divã de certeza, a sessões de terapia e às memórias visuais que tenho dos tempos em que as tinha, não que o que aqui diga tenha o que quer que seja a ver com o que quer que nessas minhas sessões se tenha dito, passado ou feito, mas enfim, a obra…

A ideia pré-concebida, ou sustentada por (aquela palavra feia na qual meio mundo se enterra, enquanto que a outra metade em tudo que não ela se soterra para não ter que nela pensar) fé de que somos reparáveis, facilmente purgados dos defeitos que concebemos, ou dos que o mundo, com eventos bruscos e impetuosos, se nos confia nos inumados planos em que imaginamos o que de intangível temos, só não me é indiferente porque me ocorre uma certa meio-pena, meio-inveja sobre quem acredita nela.

Acho tão inumanamente redutor pensar -se é que é possível alterar o que de interior nos afecta, só porque remete a algo de que não se gostou (e deixo aqui espaço para o cruel, horrendo, castrador e dilacerante), ou influi ruidosamente com o nosso estrato e procedimento social, pelo simples motivo de existir uma centelha de após, logo diferente, em todos os grãos de areia de todas as cores e formatos que caem na ampulheta, fácil metáfora de existência.

Sobre o tema dos dois parágrafos que antecedem este, não me acho capaz de escrever mais o que quer que seja sem cair num discurso tautológico, razão pela qual volto à imagem que aqui me trouxe… Uma interpretação mais séria, e não menos sentimental e interior ao que já escrevi, é o ver no caixão, ou melhor, imaginar que Magritte vê, ao olhar o caixão, a sua mãe que viu pescada do rio Sambre, afluente da margem esquerda do rio Meuse, que se vê a braços com o Reno antes de chegar ao mar, apenas com a camisa de noite enovelando-lhe a cabeça e deixando um filho no segundo ano da adolescência inglesa enterrado numa memória cruel, horrenda, castradora e dilacerante que levou consigo durante 54 anos até que aos 68 um cancro lhe deu talvez o sossego que desde os 14 desejava.



Bruno Senra

11 comentários:

Scorpionster disse...

youtube.com/watch?v=T-dKn56oYf0

:p

Fátima Inácio Gomes disse...

ahahahahah o video tirou-me as palavras da boca. :D
Acho que há algo de Saramaguiano no teu discurso...
Obrigas-nos a um grande exercício de leitura... em busca da coesão textual. Existe? não existe? Será um mito urbano alimentado nas aulas de português por uma professora manipulada pelo programa e manipuladora do discursos dos seus discente???
Mas existe!
Encontrá-la quase daria um episódio do National Geografic apresentado pelo mítico Attenborough, mas está lá! :D

(que queres?... conheces-me a natureza...) ;-)

Scorpionster disse...

igualmente :p ... na treta com a Cláudia saiu que o meu texto foi escrito por um filho do saramago e da senhora que faz apartes muito grandes... mas enfim... não tenho desculpa nem cura para o estilo de escrita... mas e o resto?

Cláudia disse...

;)






Ora a gente óspois fazermos a dissecação analiticó-gramaticaló-textualó-ideológica de ambos os coises
http://likeasummerrose.files.wordpress.com/2007/04/cafe.jpg

Scorpionster disse...

I await the summoning...

Scorpionster disse...

apercebi-me agora que não chegou a falar do texto... acho que desistiu de o decifrar a meio e começou a falar da bbc para desconversar... ande lá... um gaijo precisa de baluartes onde revisitar a infância... :p

Fátima Inácio Gomes disse...

Tens razão! :/

I'll be back! ;-)

Anónimo disse...

Interessante :)

Bárbara Simões, Barcelos

Fátima Inácio Gomes disse...

Nunca cá voltei, com "o resto" :)
Agora, à volta dos textos, e há textos aqui que me deliciam, reencontrei-me com o teu divã.
Que dizer, serás daqueles autores para amar ou detestar, mas nunca deixarás ninguém indiferente. Eu gosto dessa armadilhas do discurso que se vira para dentro - desafiam-me.
Mas, como sempre te disse, nunca subvertas o pensamento à forma - liberta-o. Há algo de claustrofóbico no teu estilo o que, mais uma vez, tem tanto de sedutor como poderá ter de... desencorajador.

E, estás a ver... lá me fico eu agrilhoada ao estilo do discurso!

Pois do que dizes, mas do que como o dizes: fica que, a propósito das dores do Magritte, numa interpretação contextualizada e biografista,consegues fazer uma excursão interior, muito sugerida pelo divã: seremos reparáveis?

Como não? somos até capazes de esquecer, vê lá tu! ou então, somos capazes de cultivar a memória. Mas tudo isso parte de uma acção voluntária do sujeito... ou estarei a ser ingénua?

Mas, que melhor interpretação que a tua própria escolha do título? Que bem que se enquadra o verso do Pessoa... mas, que se completa com a mais autêntica resposta: para lá do cadáver, somos o que a loucura faz de nós. Porque insistiremos, então, em tratar-nos?Só a "loucura", no sentido do sonho, do transcender-se, nos elevada da inevitável condição de cadáver... pelo menos, em vida.

Fátima Inácio Gomes disse...

Ah! para rematar, para citar outro GRANDE, do poema Sísifo: "Só é tua a loucura onde, com lucidez, te reconheças..."

Scorpionster disse...

a 19 dias de fazer dois anos, ah...

espere resposta por outros meios...

e agradecido :)