sábado, 3 de novembro de 2012

Escorraçaram-me





     Para além de ser aconselhado a emigrar por parte do primeiro ministro do meu país, o que me soou a algo do género "fujam que o barco está a afundar", sinto-me completamente desarticulado da minha própria cultura. Cheguei a tal conclusão num pachorrento domingo à tarde, em que liguei a televisão e me deparei com o programa de cariz popular "somos portugal".


     Este programa tem a fantástica capacidade de se autodescrever através dos temas musicais que lá passam, que me transportam até à parte mais instintiva e selvagem do meu subconsciente, imaginando todo aquele povo em orgias e bacanais. Sim, as orgias são nesse sentido...
     Mas para melhor compreender este auditório (se é que tem compreensão) basta fazer uma síntese do que a maior parte dele faz a um domingo.
     Como domingo é dia do senhor (fique esclarecido que quanto a religiões tenho tanto contra como a favor) a maioria vai à missa matinal,com a intenção de pedir misericórdia ao Nosso Senhor pelos seus pecados, e é precisamente neste ponto que surge um estrondoso contra senso, devido ao facto de os anjinhos da parte da manhã se transformarem em discípulos de Satanás da parte da tarde, espalhando a palavra do "TXU" do "TXA", enfia carro ali, "até o padre ajudou" lá no meio do bacanal, "pisca pisca" ao da direita, "pisca pisca" ao da esquerda e entram numa incessante busca pelo pai da criança.
     Por incrível que pareça, penso que nem a própria mãe sabe quem é o pai, mas mais estranho ainda é que não deve estar tão curiosa como estes discípulos que também fizeram questão de adoptar o kuduro à cultura portuguesa, através de fabulosos artistas de renome nacional especializados em playback e orgias. Nem nos meus piores sonhos imaginei poder ver pessoas da idade dos meus avós a dançar kuduro.
    Para o descalabro final, a maioria destas pessoas ocupam o serão de domingo à noite a ver um reality show, a famosa Casa dos Segredos, e não vou expressar a minha opinião sobre este programa de tamanha estupidez e futilidade, porque teria de escrever uma crónica dentro de outra crónica e instalava-se o pandemónio.

     Agora questiono-me, isto é Portugal? Porque é a cultura algo de tão difícil acesso ao zé povinho? Será porque o sal não salga? ou porque o zé não se deixa salgar? Não tenho a mínima dúvida que temos sal com qualidade em Portugal.
    Qual a necessidade de sermos sempre pequenos e de não ampliarmos a linha dos nossos horizontes? Não existem só cisnes brancos! Onde está o povo que destruiu os limites do mundo, irrompendo oceano fora? Se calhar, este povo agora faz parte dos antepassados de muitos Holandeses... deve estar no nosso DNA expulsar mão de obra qualificada...

    No meio destas questões só chego a uma conclusão: se isto é Portugal,eu não quero ser português.


Rudy, 11º F

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

O barco português anda à deriva



    

 A democrática instituição que entra pelos países adentro para tomar decisões que interessam a todos, reconheceu ter errado nos cálculos dos impactos da austeridade nos países que passam por dificuldades, como Portugal. Mas estão a brincar connosco? Será que eles sabem que quando se fala em 15% de desempregados em Portugal, se fala em mais de 827 mil pessoas desempregadas a passar por dificuldades? Não são só números, são vidas, senhores economistas.
    Desde que começaram a falar em “crise económica” que em Portugal se têm tomado medidas que visam a redução das despesas. Mas todos os subsídios tirados, todas as empresas que fecharam levando famílias inteiras para o desemprego, todos os funcionários públicos despedidos, todos os cortes em pilares da sociedade como a saúde e educação, apenas trouxeram uma avalanche de problemas e parece-me que os efeitos dessa bola de neve incontrolável não foram os mais desejados. Eu não sou economista, não sei apontar medidas, mas não é preciso ser muito estudiosa para entender que, quando se corta ao consumo numa sociedade capitalista baseada nesse mesmo consumo, não vai correr bem. Mas não foi isso que entenderam os entendidos da matéria, concluíram eles que a austeridade era a saída para esta crise, e os resultados estão à vista: um país mergulhado nesta crise até ao pescoço, já com pessoas sem conseguirem respirar e outras já mesmo sem fôlego. Mas o que eles nos dizem é que temos de ter paciência, que não há alternativa, mas o que eu gostava de saber era até quando isto irá continuar, porque já existe pouco ar, o afogamento está eminente.
    Em terra de marinheiros sonhadores que viram a glória além mar, lá fora, hoje parece que temos de fazer esse papel também: descobrir uma saída lá fora, longe do nosso adorado e amado Portugal. Num país em que a educação está a ser também posta de parte pelas medidas de salvação nacional aconselhadas por não sei bem quem, mas que certamente não é português, é por demais evidente que existe uma descrença nesta área. E como quer um país crescer se não apostar na educação dos seus jovens?! Está visto que vamos ser os mesmos atrasadinhos para sempre. Aqueles que hoje conseguem finalizar os estudos não veem o futuro com que sempre sonharam, que muitas vezes os seus pais tiveram e que eles nunca irão ter. É por isso que hoje, o mais necessário para muita gente é a procura de uma solução lá fora, onde o valor de jovens que passaram parte da vida a estudar é reconhecido. Prova disso é o conselho do nosso salvador da pátria, Pedro Passos Coelho: "emigrem!". Mas por muito que me custe, reconheço que ele tem razão, não vale a pena insistir mais neste cão abandonado, sem rumo, cheio de parasitas e farto de ser atropelado por gigantes, em que a solução terá mesmo de ser o abate. É claro que estou a falar do nosso país, não de um cão, porque a um cão ainda se pode reabilitar e dar-lhe um final feliz, ao nosso país não.
   É com este sentimento de descrença nacional que me fico. Portugal está ultrapassado e já nem com rezas ou com um D. Sebastião vai lá, que até agora rezar e esperar pelo nosso salvador era isso que sabíamos fazer, mas está visto que não tiveram bons resultados. Agora, aos sonhadores, resta-lhes lutar, aos demais eu digo: deixem morrer. 



Raquel Pereira, 11ºF

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

" E é na morte de um poeta que se principia a ver que o mundo é eterno..."


MANUEL ANTÓNIO PINA (18 Nov. 1943 - 19 Out. 2012)
 
 
 Hoje é um dia triste, como o são todos os dias em que perdemos a promessa de o dia seguinte nos trazer um momento de beleza. Manuel António Pina era uma promessa sempre cumprida. Quantas vezes procurei as suas crónicas, sabendo de antemão que me fariam sorrir, com a sua fina ironia, com a sua escrita simples e depurada.
Felizmente, recebeu em mãos, no ano passado, o prémio Camões.
E deixo o convite para o descobrirem, ao virar de uma página de jornal, neste mundo virtual, num conto infantil (tão adultos!), numa peça de teatro, na poesia...
 
A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não acabarem).

Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei:
“Que fez algum poeta por este senhor?”

E a pergunta afligiu-me tanto
por dentro e por fora da cabeça que
tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
– Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar?


quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Os Exames Nacionais e o Ministro Ninja






Bem, de certeza que neste nosso adorável país, os nossos ministros sobretudo, o da educação, tiveram a honra de fazer os exames (fáceis, que dizer. Sim, porque os alunos obtêm excelentes notas...) para concluir o secundário. Exames esses que, até Junho, eram só com a matéria do secundário mas, uns dias atrás, estava eu a ver as noticias e deparo-me a ler “A matéria que constará nos exames nacionais a realizar a partir do ano letivo de 2012/2013 e a partir daí será trienal”.

Passou-me logo pela cabeça organizar manifestações atrás de manifestações, mas acalmei-me. Se o nosso excelente doutor ministro da educação fez isto, é porque acha que está a fazer um excelente trabalho. Claro que estou de acordo que os alunos devem fazer os exames com a matéria dos 3 anos, ou ainda mais difícil, porque é que não mudam esse exame para o fim do 13º ano? Seria uma ótima ideia. E se pensarem bem, o 13º ano seria um ótimo ano para fazer duas disciplinas, porque os pais dos alunos, como todos sabem, estão num país que está a passar por um momento extraordinário. Dinheiro é o que não falta e, desta forma enchem, mais os cofres à custa dos que cá andam.
  
Mas, ironia do destino, descobri que o nosso ministro da educação é um ninja (e só anda com aqueles fatos todos bonitos para disfarçar!). No dia em que me dediquei imenso a escrever este texto, enquanto navegava no facebook, leio que, afinal, essa medida tão educativa só entra em vigor para os alunos que entraram este ano para o 10º ano. Senhor ministro, se precisar de si para mais alguma missão, terá a honra de receber uma chamada minha. É tudo, por agora.  



Rita Gonçalves, 11ºF

Um 5 de Outubro às direitas






     As cerimónias do 5 de outubro de 2012, à primeira vista, foram apenas marcadas pela bandeira nacional hasteada ao contrário. Ora desengane-se.
     Para começar, as comemorações oficiais do 5 de outubro foram, este ano, desviadas do Largo do Município, onde costumam decorrer todos os anos, para o Pátio da Galé. Tudo bem que foi no Largo do Município que foi proclamada a República, mas imaginemos que os professores ou os populares se lembravam de organizar uma manifestação? Parece que não, mas não dá jeito nenhum ouvir as palavras sábias do Excelentíssimo Presidente da República e, como som de fundo, as queixas de pessoas piegas que não querem é trabalhar. Já para não falar que os potentes carros dos deputados precisam de espaço para circular. Não os podemos comparar aos Clios, nem aos submarinos que passam “por baixo”, em qualquer lado.
     Em segundo lugar, a bandeira foi hasteada ao contrário. Ao que parece, António Costa mandou um pedido de desculpas formal a Aníbal Cavaco Silva, mas o Presidente da Republica contra-argumenta explicando que a culpa foi das secretas. Parece que tinha a sensação de estar a ser espiado e isso, parece que não, coloca muita pressão num presidente que está mais habituado a não aparecer em público.
     Depois desse lamentável incidente, uma enganadora desempregada de 57 anos interrompeu o discurso oficial. Com isso infringiu duas regras: primeiro não tinha convite para entrar (sim, porque isto da República não é para ser comemorado por todos) e, segundo, não apresentava uma indumentária apropriada. Disse enganadora porque, ao que parece, tinha comprado a roupa nas promoções do Freeport. Ora, toda a gente sabe que quem está ligado ao caso Freeport está cheio de dinheiro. Felizmente, os gorilas de Aníbal Cavaco Silva amordaçam gente desta estirpe.
     Enquanto o discurso decorria, as secretas entravam em ação. Parece que andavam a circular vários e-mails secretos, o que fez com que a bandeira fosse hasteada corretamente, sem que ninguém se apercebesse. Aníbal Cavaco Silva, mais uma vez, mostrou ter razão.
Este feriado de 5 de outubro marcou a diferença. É pena ter sido o último. Ou então, aí é que está a diferença.




Sara Silva, 11ºF

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Homenagem a Teresa Horta




Não só de poemas (superiores, desafiantes) se faz esta Mulher.
Ela é um exemplo de coerência e de cidadania.
Ela é aquilo que cada português deveria ser: corajoso, digno, pensante, com valores humanizados.



Por isso, recordo estes seus versos, de 1963! A coerência é isto: quase 40 anos depois, recusa-se a que o seu discurso seja "conivente":

"(...)

E se palavras tenho
como armas
moldando-as uma a uma
consciente
é de habitá-las hoje
que suponho não mais poder
usá-las conivente"

                        (poema "Palavras", in Amor Habitado, 1963)





Presto-lhe homenagem por esta notícia de hoje:

http://www.publico.pt/Cultura/maria-teresa-horta-recusase-a-receber-premio-d-dinis-das-maos-de-passos-coelho--1563564

Presto-lha, com um poema seu:


Poema sobre a recusa

Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
nem na polpa dos meus dedos
se ter formado o afago
sem termos sido a cidade
nem termos rasgado pedras
sem descobrirmos a cor
nem o interior da erva.

Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
minha raiva de ternura
meu ódio de conhecer-te
minha alegria profunda.




E uma pequena entrevista:


terça-feira, 24 de julho de 2012

Do amor...




     O que falar sobre o amor? Há tanta coisa e ao mesmo tempo nada… Os temas mais falados e mais complexos são os mais complicados de se escrever, pelo menos para mim. Representam um grande desafio, pois com tantas informações já disponíveis em relação ao tal assunto, temo cair em repetição. Porém, nunca tive uma atração pela facilidade, por isso insisto no amor.
     Como é possível que apenas quatro letrinhas juntas possam ter um significado tão grande e representar o melhor e mais poderoso de todos os sentimentos existentes? É isso que me fascina na escrita, a capacidade da junção de letras que se transformam em palavras extraordinárias e indispensáveis para a nossa existência.
     Tal como sabemos, o amor trata-se de um sentimento e como tal, é abstrato, logo, não palpável. No dicionário consta que amor é a afeição viva por alguém ou por alguma coisa, havendo várias formas de amar/amor. E é sobre este último que me vou focar, as diferentes formas de amor. Mas antes disso, tenho que fazer um aparte e relembrar que estou a falar de amor e não de paixão, normalmente as pessoas confundem estes dois conceitos... Paixão é aquilo que sentimos ao olhar, é algo momentâneo, que passa em pouco tempo. Relações cuja base é a paixão não duram muito. Já o amor é infinito. Uma vez que se ama alguém/algo, amar-se-á eternamente, aconteça o que acontecer, o sentimento estará sempre connosco. O amor, cada dia que passa, torna-se mais raro mas as pessoas confundem-no constantemente com a paixão, por isso não notam a sua escassez e isto incomoda-me imenso! Contudo, já estou a entrar em outro tema que, embora traga muita discussão e seja muito apelativo, não é o meu tema principal desta vez, por isso chega de divagar! Vamos voltar ao assunto principal… e qual era mesmo? Ah, diferentes formas de amor, exatamente. Bom, certamente já sabem que há diversas formas de amor, embora sei que algumas estão mais esquecidas que outras, por isso vou tentar relembrá-las uma a uma.
     Há o amor entre membros duma família: pais/filhos, avós/netos, tios/afilhados, etc. O mais caricato neste tipo de amor é que, mesmo que haja um problema, uma discussão grave que leve a rompimentos e cortes nas relações, passado um tempo, a família voltará a unir-se. A duração temporal varia de família em família, mas uma coisa é certa: mais cedo ou mais tarde retornarão a ser a mesma família de sempre. É a prova de que laços de sangue jamais serão quebrados, não importa o que aconteça.
     Também há o amor platónico… Platónico vem de Platão, filósofo grego que defendia que a arte de filosofar vem da admiração. Então tudo que desperta a admiração, sem outras consequências que não seja o ato de admirar, ficou conhecido por platónico. As pessoas tendem a classificar este tipo de amor como um amor impossível. Nada disso. O amor platónico consiste num amor que nasce da admiração, um amor com ausência de relacionamento físico.
     E já que falei em relacionamento físico, mencionarei agora o amor entre um casal ou amor entre amantes. Este tipo de amor é, talvez, o mais conhecido e mais falado. É este amor que muitas vezes é confundido com a paixão, como disse acima. É o único tipo de amor que envolve relacionamento físico, onde existe romance. Pode ser um amor entre pessoas de sexo diferente ou do mesmo sexo, trata-se de encontrarmos a nossa alma-gémea, a nossa cara-metade ou como lhe queiram chamar.
     Outro tipo de amor é o amor por algo que nos mova, como uma lema de vida: o amor à fé, à vida, ou a uma profissão. Ainda outro tipo de amor… O amor entre amigos. Sim, entre amigos. Este tipo de amor é o mais difícil de se encontrar e o menos compreendido. A maioria das pessoas com mais idade não acredita nesta forma de amor, mas não os censuro. A culpa é nossa, dos jovens. Dois jovens num dia são capazes de dizer várias vezes “amo-te” um ao outro e depois nunca mais se falarem. Trata-se da banalização do termo amigo. Os adolescentes fazem a distinção entre melhores amigos e amigos quando deviam fazer a distinção entre amigos e conhecidos. Isso de "melhor amigo" não existe, meus caros. Ou se é amigo ou não. O que vocês definem como melhor amigo é, sem tirar nem pôr, a definição de amigo. E o que vocês definem como amigo é a definição de conhecido. Conhecidos temos às dezenas. Já os amigos contam-se com os dedos das mãos. Por favor, não baralhem os termos! Graças a nós, este tipo de amor está cada vez mais desgastado e desacreditado. O amor entre amigos existe, SIM. Apenas depende de cada um de nós (neste tipo de amor também está incluído os nossos animais de estimação, pois não deixam de ser nossos amigos).
     Por último, mas não menos importante (antes pelo contrário), está o amor-próprio. Confesso que este é o meu tipo de amor preferido e com o qual tenho aprendido muito ultimamente, por isso não me condenem se me alongar um pouco mais aqui. Em todos os diferentes tipos de amor, este tem que ser o primeiro e o mais importante durante toda a nossa vida. Todos sabemos que é importante gostarmos de nós mesmos, mas nem sempre está clara a definição de amor-próprio. Trata-se de amar a nós próprios, não podemos amar os outros sem antes nos amarmos a nós mesmos. Porém, gostarmos de nós não é olhar apenas para o próprio umbigo e muito menos implica que nos centremos apenas na satisfação das próprias necessidades, por isso não pode ser confundido com egoísmo ou egocentrismo. Uma pessoa que gosta de si mesma não tem que ver satisfeitos todos os seus desejos, nem está permanentemente em estado de euforia. Mas amar a si mesmo é um requisito fundamental para sermos felizes. Aquele que não se ama a si próprio, não reconhece em si qualidades e talentos e se acha inferior aos outros, dificilmente conseguirá amar verdadeiramente outra pessoa, pois o seu amor será sempre revestido de medo. Com o amor-próprio descobrimo-nos a nós mesmos e percebemos que a nossa felicidade depende unicamente de nós. “O amor começa com você mesmo, assim ele pode se espalhar. Ele vai se espalhando a sua própria maneira; você não precisa fazer nada para espalhá-lo. Ame-se a si mesmo” (Buda).

     Estes são os diferentes tipos de amor e tudo o que amamos de verdade irá encaixar-se num destes tipos. Caso contrário, é qualquer coisa menos amor. Existem termos como: amor doentio, amor possessivo, amor egoísta ou amor não-correspondido - classificá-los como amor é completamente errado. O amor é, como já referi, o melhor sentimento que existe, logo traz-nos coisas boas e nunca algo mau. É um sentimento que fala do bem-querer, sendo possível amar qualquer ser vivo ou objeto, seja o que for, desde que seja um sentimento nobre, que traga apenas bons sentimentos para a alma humana.



Mayara

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Boas férias!... logo que acabem os exames :)



Citando o nosso Cesário, "aquilo que me preocupa é o que me rodeia" e, creiam ou não, muito do que vos preocupa também me preocupa a mim, falando das aulas de Português.
Gozem estas férias... avizinha-se a vossa reta final. E, satisfeitos ou não com aquilo que vos põem no prato, a verdade é que é esse o menu que terão à mesa dos exames.  Tenho tentado dar-vos essa ementa em doses pequeninas, mas vão levar com ela até ao fim :) como o óleo de fígado de bacalhau que os pais de outros tempos impingiam aos filhos...
E, por tudo isto, não resisto em deixar-vos o texto de uma escritora dos nossos tempos, que tive o privilégio de ter como professora.

E deixo-vos já a minha mensagem final: contra os Adamastores que se erguem nas aulas, por força dos programas, ou por incompetência dos professores, amem sempre a Literatura ;-)



Teolinda Gersão
Escritora

Tempo de exames no secundário, os meus netos pedem-me ajuda para estudar português. Divertimo-nos imenso, confesso. E eu acabei por escrever a redacção que eles gostariam de escrever. As palavras são minhas, mas as ideias são todas deles.
Aqui ficam, e espero que vocês também se divirtam. E depois de rirmos espero que nós, adultos, façamos alguma coisa para libertar as crianças disto.

Redacção – Declaração de Amor à Língua Portuguesa

Vou chumbar a Língua Portuguesa, quase toda a turma vai chumbar, mas a gente está tão farta que já nem se importa. As aulas de português são um massacre. A professora? Coitada, até é simpática, o que a mandam ensinar é que não se aguenta. Por exemplo, isto: No ano passado, quando se dizia “ele está em casa”, ”em casa” era o complemento circunstancial de lugar. Agora é o predicativo do sujeito. “O Quim está na retrete” : “na retrete” é o predicativo do sujeito, tal e qual como se disséssemos “ela é bonita”. Bonita é uma característica dela, mas “na retrete” é característica dele? Meu Deus, a setôra também acha que não, mas passou a predicativo do sujeito, e agora o Quim que se dane, com a retrete colada ao rabo.
No ano passado havia complementos circunstanciais de tempo, modo, lugar etc., conforme se precisava. Mas agora desapareceram e só há o desgraçado de um “complemento oblíquo”. Julgávamos que era o simplex a funcionar: Pronto, é tudo “complemento oblíquo”, já está. Simples, não é? Mas qual, não há simplex nenhum,o que há é um complicómetro a complicar tudo de uma ponta a outra: há por exemplo verbos transitivos directos e indirectos, ou directos e indirectos ao mesmo tempo, há verbos de estado e verbos de evento,e os verbos de evento podem ser instantâneos ou prolongados, almoçar por exemplo é um verbo de evento prolongado (um bom almoço deve ter aperitivos, vários pratos e muitas sobremesas). E há verbos epistémicos, perceptivos, psicológicos e outros, há o tema e o rema, e deve haver coerência e relevância do tema com o rema; há o determinante e o modificador, o determinante possessivo pode ocorrer no modificador apositivo e as locuções coordenativas podem ocorrer em locuções contínuas correlativas. Estão a ver? E isto é só o princípio. Se eu disser: Algumas árvores secaram, ”algumas” é um quantificativo existencial, e a progressão temática de um texto pode ocorrer pela conversão do rema em tema do enunciado seguinte e assim sucessivamente.
No ano passado se disséssemos “O Zé não foi ao Porto”, era uma frase declarativa negativa. Agora a predicação apresenta um elemento de polaridade, e o enunciado é de polaridade negativa.
No ano passado, se disséssemos “A rapariga entrou em casa. Abriu a janela”, o sujeito de “abriu a janela” era ela, subentendido. Agora o sujeito é nulo. Porquê, se sabemos que continua a ser ela? Que aconteceu à pobre da rapariga? Evaporou-se no espaço?
A professora também anda aflita. Pelo vistos no ano passado ensinou coisas erradas, mas não foi culpa dela se agora mudaram tudo, embora a autora da gramática deste ano seja a mesma que fez a gramática do ano passado. Mas quem faz as gramáticas pode dizer ou desdizer o que quiser, quem chumba nos exames somos nós. É uma chatice. Ainda só estou no sétimo ano, sou bom aluno em tudo excepto em português, que odeio, vou ser cientista e astronauta, e tenho de gramar até ao 12º estas coisas que me recuso a aprender, porque as acho demasiado parvas. Por exemplo, o que acham de adjectivalização deverbal e deadjectival, pronomes com valor anafórico, catafórico ou deítico, classes e subclasses do modificador, signo linguístico, hiperonímia, hiponímia, holonímia, meronímia, modalidade epistémica, apreciativa e deôntica, discurso e interdiscurso, texto, cotexto, intertexto, hipotexto, metatatexto, prototexto, macroestruturas e microestruturas textuais, implicação e implicaturas conversacionais? Pois vou ter de decorar um dicionário inteirinho de palavrões assim. Palavrões por palavrões, eu sei dos bons, dos que ajudam a cuspir a raiva. Mas estes palavrões só são para esquecer. Dão um trabalhão e depois não servem para nada, é sempre a mesma tralha, para não dizer outra palavra (a começar por t, com 6 letras e a acabar em “ampa”, isso mesmo, claro.)
Mas eu estou farto. Farto até de dar erros, porque me põem na frente frases cheias deles, excepto uma, para eu escolher a que está certa. Mesmo sem querer, às vezes memorizo com os olhos o que está errado, por exemplo: haviam duas flores no jardim. Ou : a gente vamos à rua. Puseram-me erros desses na frente tantas vezes que já quase me parecem certos. Deve ser por isso que os ministros também os dizem na televisão. E também já não suporto respostas de cruzinhas, parece o totoloto. Embora às vezes até se acerte ao calhas. Livros não se lê nenhum, só nos dão notícias de jornais e reportagens, ou pedaços de novelas. Estou careca de saber o que é o lead, parem de nos chatear. Nascemos curiosos e inteligentes, mas conseguem pôr-nos a detestar ler, detestar livros, detestar tudo. As redacções também são sempre sobre temas chatos, com um certo formato e um número certo de palavras. Só agora é que estou a escrever o que me apetece, porque já sei que de qualquer maneira vou ter zero.
E pronto, que se lixe, acabei a redacção – agora parece que se escreve redação. O meu pai diz que é um disparate, e que o Brasil não tem culpa nenhuma, não nos quer impôr a sua norma nem tem sentimentos de superioridade em relação a nós, só porque é grande e nós somos pequenos. A culpa é toda nossa, diz o meu pai, somos muito burros e julgamos que se escrevermos ação e redação nos tornamos logo do tamanho do Brasil, como se nos puséssemos em cima de sapatos altos. Mas, como os sapatos não são nossos nem nos servem, andamos por aí aos trambolhões, a entortar os pés e a manquejar. E é bem feita, para não sermos burros.
E agora é mesmo o fim. Vou deitar a gramática na retrete, e quando a setôra me perguntar: Ó João, onde está a tua gramática? Respondo: Está nula e subentendida na retrete, setôra, enfiei-a no predicativo do sujeito.


João Abelhudo, 8º ano, turma C (c de c…r…o, setôra, sem ofensa para si, que até é simpática