sábado, 3 de novembro de 2012

Escorraçaram-me





     Para além de ser aconselhado a emigrar por parte do primeiro ministro do meu país, o que me soou a algo do género "fujam que o barco está a afundar", sinto-me completamente desarticulado da minha própria cultura. Cheguei a tal conclusão num pachorrento domingo à tarde, em que liguei a televisão e me deparei com o programa de cariz popular "somos portugal".


     Este programa tem a fantástica capacidade de se autodescrever através dos temas musicais que lá passam, que me transportam até à parte mais instintiva e selvagem do meu subconsciente, imaginando todo aquele povo em orgias e bacanais. Sim, as orgias são nesse sentido...
     Mas para melhor compreender este auditório (se é que tem compreensão) basta fazer uma síntese do que a maior parte dele faz a um domingo.
     Como domingo é dia do senhor (fique esclarecido que quanto a religiões tenho tanto contra como a favor) a maioria vai à missa matinal,com a intenção de pedir misericórdia ao Nosso Senhor pelos seus pecados, e é precisamente neste ponto que surge um estrondoso contra senso, devido ao facto de os anjinhos da parte da manhã se transformarem em discípulos de Satanás da parte da tarde, espalhando a palavra do "TXU" do "TXA", enfia carro ali, "até o padre ajudou" lá no meio do bacanal, "pisca pisca" ao da direita, "pisca pisca" ao da esquerda e entram numa incessante busca pelo pai da criança.
     Por incrível que pareça, penso que nem a própria mãe sabe quem é o pai, mas mais estranho ainda é que não deve estar tão curiosa como estes discípulos que também fizeram questão de adoptar o kuduro à cultura portuguesa, através de fabulosos artistas de renome nacional especializados em playback e orgias. Nem nos meus piores sonhos imaginei poder ver pessoas da idade dos meus avós a dançar kuduro.
    Para o descalabro final, a maioria destas pessoas ocupam o serão de domingo à noite a ver um reality show, a famosa Casa dos Segredos, e não vou expressar a minha opinião sobre este programa de tamanha estupidez e futilidade, porque teria de escrever uma crónica dentro de outra crónica e instalava-se o pandemónio.

     Agora questiono-me, isto é Portugal? Porque é a cultura algo de tão difícil acesso ao zé povinho? Será porque o sal não salga? ou porque o zé não se deixa salgar? Não tenho a mínima dúvida que temos sal com qualidade em Portugal.
    Qual a necessidade de sermos sempre pequenos e de não ampliarmos a linha dos nossos horizontes? Não existem só cisnes brancos! Onde está o povo que destruiu os limites do mundo, irrompendo oceano fora? Se calhar, este povo agora faz parte dos antepassados de muitos Holandeses... deve estar no nosso DNA expulsar mão de obra qualificada...

    No meio destas questões só chego a uma conclusão: se isto é Portugal,eu não quero ser português.


Rudy, 11º F

7 comentários:

Fátima Inácio Gomes disse...

Gostei muito, Rudy. Parabéns.
Deves prestar atenção a algumas questões formais, para não comprometeres a qualidade do conteúdo.

Gostei em particular, claro está, da intertextualidade com o Sermão. Bem visto! E, concordo, o nosso "sal cultural" é de qualidade e não falta.

Não percebi foi a referência aos "cisnes brancos"... :/

Rudy disse...

A referência aos cisnes brancos surgiu,devido ao facto de os nossos ante passados acreditarem que existiam apenas cisnes brancos,porque apenas viam cisnes brancos.Se pensarmos isso em termos culturais,apercebemos-nos que irá sempre existir um mundo que desconhecemos,que temos por explorar.É necessário ter a noção disso,não podemos simplesmente fechar os nossos horizontes e não permitir que nada mais consiga lá entrar.
Caso um dia alguém acorde desse estado de cegueira irá aperceber-se que de facto até existem cisnes negros.

Fátima Inácio Gomes disse...

Ah! Bravo!
Desconhecia essa relação. Sempre a aprender!... e ainda bem! :)


"Caso um dia alguém acorde desse estado de cegueira" e esta afirmação já daria, também, para outras relações, verdade? Não só aludindo ao Saramago e seu ensaio, mas ao Peixe de Tobias (se tivesses escrito hoje, já poderias ter explorado esta relação, também :D)

Rudy disse...

Estava na aula e pensei nisso,mas numa outra oportunidade, caso se justifique, exploro essa relação claro

Fátima Inácio Gomes disse...

;-)

Mayara Rodrigues disse...

Continuo uma visitante regular do blog e estou a gostar dos novos textos... Continuação de bom trabalho, a si e aos novos alunos (:

Fátima Inácio Gomes disse...

E eu fico encantada por te saber por cá! :)
E, já sabes, escreve sempre;-) E aqui terás sempre um espaço para publicar :)