domingo, 9 de janeiro de 2011

A crítica...


Segundo Fialho de Almeida (contemporâneo de Eça), "Deus fez o homem à sua imagem e semelhança, e fez o crítico à semelhança do gato", misto de graça elegante e garra afiada. E desafia-nos: 

"Desde que o nosso tempo englobou o homem em três categorias de brutos, o burro, o cão e o gato - isto é, o animal de trabalho, o animal de ataque e o animal de humor e fantasia - porque não escolheremos nós o travesti do último? É o que se quadra mais ao nosso tipo, e aquele que melhor nos livrará da escravidão do asno, e das dentadas famintas do cachorro. 
Razão porque nos acharás aqui, leitor, miando pouco, arranhando sempre, e não temendo nunca."

O desafio é, agora, meu: até ao fim do mês, transformem-se em gatos :) e apresentem um artigo crítico sobre um filme, um livro... já sabem quais as regras que devem seguir ;-) mas, não esqueçam, devem cruzar a componente da informação com a componente da opinião, os protótipos descritivo/explicativo com o argumentativo.




Fico à espera... rooooonroooooon

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Poemário



Eis-nos entrados em 2011!
Nada melhor, para começar o ano, que pôr um poema na MESA... alimenta a alma e não acresce em calorias :)





Acabámos o ano com um poema trazido pelo Diogo Mota e começamos novo ano com um poema trazido... pelo Diogo Mota. Foi este que mais tocou os corações da turma, mas ficam os louvores a Alberto Caeiro e Alexandre O'Neill, outros grandes poetas que nos visitaram.


na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco
 









Eis outros poemas, ditos pelo próprio:










A palavras para o próximo poemário: AVE.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Poemário


E, como o Natal está próximo, a palavra chave deste poemário não poderia ter sido outra. Fomos visitados por David Mourão Ferreira, por Sidónio Muralha, por Pessanha e por Pessoa, mas foi Manuel Alegre o eleito pela turma, mérito do Diogo Mota, que o trouxe e tão bem o soube dizer.



NATAL


Acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.
Era gente a correr pela música acima.
Uma onda uma festa. Palavras a saltar.


Eram carpas ou mãos. Um soluço uma rima.
Guitarras guitarras. Ou talvez mar.
E acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.


Na tua boca. No teu rosto. No teu corpo acontecia.
No teu ritmo nos teus ritos.
No teu sono nos teus gestos. (Liturgia liturgia).
Nos teus gritos. Nos teus olhos quase aflitos.
E nos silêncios infinitos. Na tua noite e no teu dia.
No teu sol acontecia.


Era um sopro. Era um salmo. (Nostalgia nostalgia).
Todo o tempo num só tempo: andamento
de poesia. Era um susto. Ou sobressalto. E acontecia.
Na cidade lavada pela chuva. Em cada curva
acontecia. E em cada acaso. Como um pouco de água turva
na cidade agitada pelo vento.


Natal Natal (diziam). E acontecia.
Como se fosse na palavra a rosa brava
acontecia. E era Dezembro que floria.
Era um vulcão. E no teu corpo a flor e a lava.
E era na lava a rosa e a palavra.
Todo o tempo num só tempo: nascimento de poesia.



Manuel Alegre, "Coisa Amar" 1976

 

E um maravilhoso Natal para todos!

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Poemário

Com atraso de uma semana chega o poema que fala de AR... e dos restantes elementos! :)
Foi o Pedro Pinto quem o apresentou e convenceu os colegas a escolherem-no.




Sou poeta do mar
Da terra e do ar
Sou poeta do fogo
Do que não pode calar
Do que arde em chamas intrépidas
Do que é preciso lagrimar
Em versos ritmados
Em desejos alados
Em suspiros recolhidos
Em conchas de brocados
Sou poeta das montanhas, das rochas 
Do vento
Dos desertos sem alento
Sou poeta do dia e da noite
Das madrugadas cortadas no açoite
Dos pensamentos sombrios
Dos incontidos desvarios
Sou poeta das matas, dos rios
Da fauna e da flora
Das estrelas do escuro manto
E da aurora
Sou poeta do riso e do pranto
Poeta dos simples, das crianças
Dos rejeitados e oprimidos
Em suas andanças
Sou poeta do amor
Poeta da dor
Dos jovens e velhos
Em suas esperanças
Sou poeta de toda gente
De todo lugar
Sou poeta
Poeta sou


                       Úrsula Avner (Úrsula de Almeida Vairo Maia)




Sobre a autora: http://recantodasletras.uol.com.br/autor.php?id=51352




Quanto ao nosso Poemário, só voltaremos em meados de Dezembro. A palavra, naturalmente - NATAL.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Feliz Aniversário!

Hoje Saramago faz 88 anos. Uso o presente intencionalmente: homens assim não morrem.
O aniversário é do Saramago, a prenda recebia eu.
A Ana Luísa trouxe-me, precisamente hoje, um texto que escreveu inspirada pelo do Saramago "O Sorriso". Ela consentirá que partilhe esta prenda convosco.



     O sorriso não tem descrição única, não tem situação marcada, nem até uma emoção determinada.  O seu simples acto lança variadas manifestações, assim como o chafariz lança cada gota de água.
     O sorriso varia com as pessoas, as experiências e os sentimentos. Mas todas as pessoas já foram merecedoras de sorrisos e já sorriram, espontaneamente. O sorriso transmite paz, simpatia, alegria, veracidade e, até, ousadia. Acalma o coração da gente e dos animais. Até eles percebem o que um sorriso transmite. O sorriso serve de "sim" e uma pergunta inesperada, num dia, num jardim, entre duas pessoas enamoradas. Ela sorri e segue-se um outro sorriso da parte dele, como uma nascente enchendo-se de novo, sem parar de fluir neles.
     Um verdadeiro sorriso, que seja simples e sereno, contém uma empatia e uma emoção tão puros que nem um riso melódico pode superar, ou até mesmo o olhar de uma ninfa. A simplicidade é o segredo, é esse o valor que tem. Sem sorrir, as emoções não são extravasadas para o mundo cá fora, há dureza, rostos sem expressão, palavras por dizer e sorrisos que os completam.
     Acredito que o sorriso seja a verdadeira luz da emoção.


Ana Luísa, 10º A






O texto de Saramago, que inspirou o da Luísa, é este:


O Sorriso - José Saramago
Sorriso, diz-me aqui o dicionário, é o acto de sorrir. E sorrir é rir sem fazer ruído e executando contracção muscular da boca e dos olhos.
O sorriso, meus amigos, é muito mais do que estas pobres definições, e eu pasmo ao imaginar o autor do dicionário no acto de escrever o seu verbete, assim a frio, como se nunca tivesse sorrido na vida. Por aqui se vê até que ponto o que as pessoas fazem pode diferir do que dizem. Caio em completo devaneio e ponho-me a sonhar um dicionário que desse precisamente, exactamente, o sentido das palavras e transformasse em fio-de-prumo a rede em que, na prática de todos os dias, elas nos envolvem.
Não há dois sorrisos iguais. Temos o sorriso de troça, o sorriso superior e o seu contrário humilde, o de ternura, o de cepticismo, o amargo e o irónico, o sorriso de esperança, o de condescendência, o deslumbrado, o de embaraço, e (por que não?) o de quem morre. E há muitos mais. Mas nenhum deles é o Sorriso.
O Sorriso (este, com maiúsculas) vem sempre de longe. É a manifestação de uma sabedoria profunda, não tem nada que ver com as contracções musculares e não cabe numa definição de dicionário. Principia por um leve mover de rosto, às vezes hesitante, por um frémito interior que nasce nas mais secretas camadas do ser. Se move músculos é porque não tem outra maneira de exprimir-se. Mas não terá? Não conhecemos nós sorrisos que são rápidos clarões, como esse brilho súbito e inexplicável que soltam os peixes nas águas fundas? Quando a luz do sol passa sobre os campos ao sabor do vento e da nuvem, que foi que na terra se moveu? E contudo era um sorriso.




terça-feira, 9 de novembro de 2010

Poemário

Hoje, o poema seleccionado pela turma chegou pelas mãos da Ana Luísa. 
Trata-se de um soneto, como era apanágio da autora, Florbela Espanca:







Languidez


Tardes da minha terra, doce encanto,
Tardes duma pureza de açucenas,
Tardes de sonho, as tardes de novenas,
Tardes de Portugal, as tardes d’Anto,

Como eu vos quero e amo! Tanto! Tanto!…
Horas benditas, leves como penas,
Horas de fumo e cinza, horas serenas,
Minhas horas de dor em que eu sou santo!

Fecho as pálpebras roxas, quase pretas,
Que poisam sobre duas violetas,
Asas leves cansadas de voar…

E a minha boca tem uns beijos mudos…
E as minhas mãos, uns pálidos veludos,
Traçam gestos de sonho pelo ar…




 Aqui fica um pouco da vida e obra da autora:
http://www.vidaslusofonas.pt/florbela_espanca.htm








A palavra da próxima semana, para acabar o ciclo dos quatro elementos: AR


Uma Declaração pouco convencional...

No âmbito dos textos transaccionais, trabalhou-se a Declaração.
Depois da análise formal, o desafio foi outro: recriar e torcer a estrutura formal deste protótipo textual... :)
Ficam aqui algumas dessas criações:





Declaro que o Senhor Manuel Espadinha
Sairá em liberdade condicional do Tribunal da Vida
Será livre em todo o local público e particular
Poderá participar em acções sociais
Contrair matrimónio e ter um lar
Porque como consta nos processos judiciais
Todo o homem condicionalmente livre pode sonhar.


Ana Luísa, Carla Gonçalves, Mayara Rodrigues, Miguel Ângelo, Weverton







Declaração de Presença


Declara-se, para os devidos efeitos, que a pessoa que mais amei na vida e a quem tudo dei esteve presente num dos momentos mais marcantes e intensos da minha existência, sendo a luz que me guiou através dos obstáculos, me consolou quando mais ninguém lá estava para o fazer e me amou mais do que alguém alguma vez me poderá amar.
Por tudo isto, agradeço a sua presença na minha vida, mesmo que tenha sido por tão pouco tempo. Para mim, bastaria para sempre.


Barcelos, 26 de Outubro de 2010-11-09


Bruna, Catarina, Carla, Inês, Marta





Declaramos o estado de necessidade
De um grande festival
Para a nossa felicidade
Queremos beber compal

Para cabeça de cartaz
Os Holocausto Canibal
Para festejar a paz
E a independência de Portugal

De cabelos grandes ou curtos
Do hip-hop ao metal
Entram os grandes e putos
O que é bom é nacional

Declaramos a Música
Um direito Universal!



Ana Sofia, Paulo Sampaio, Pedro Miguel, 
Renato Barbosa, Sérgio Fernandes

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Poemário

O poema desta semana foi trazido pela Carla Gonçalves:


O  VERÃO

Estás no verão,

num fio de repousada água, nos espelhos perdidos sobre
a duna.
Estás em mim,
nas obscuras algas do meu nome e à beira do nome
pensas:
teria sido fogo, teria sido ouro e todavia é pó,
sepultada rosa do desejo, um homem entre as mágoas.
És o esplendor do dia,
os metais incandescentes de cada dia.
Deitas-te no azul onde te contemplo e deitada reconheces
o ardor das maçãs,
as claras noções do pecado.
Ouve a canção dos jovens amantes nas altas colinas dos
meus anos.
Quando me deixas, o sol encerra as suas pérolas, os
rituais que previ.
Uma colmeia explode no sonho, as palmeiras estão em
ti e inclinam-se.
Bebo, na clausura das tuas fontes, uma sede antiquíssima.
Doce e cruel é setembro.
Dolorosamente cego, fechado sobre a tua boca.


José Agostinho Baptista
Paixão e Cinzas (1992)
In Biografia Lisboa, Assírio & Alvim, 2000 



Sobre o autor:  http://www.jabaptista.com/



A próxima palavra: TERRA

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Poemário


Inauguramos o nosso poemário com um belíssimo poema de Eugénio de Andrade, trazido pela Ângela Barros,  e que mereceu a escolha da maioria da turma.



                                                     Adeus

 Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.


Eugénio de Andrade



O palavra da próxima semana: FOGO.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Poemário



A partir da próxima semana, todas as semanas, teremos um poema eleito na turma.

Em cada semana haverá uma "palavra chave" e cada um procurará um poema em que essa palavra apareça.

Na aula, apresentá-lo-á e será escolhido, por todos, o "poema predilecto" dessa semana - será esse o poema do nosso poemário semanal.

A primeira palavra: Água.