quinta-feira, 5 de maio de 2011

Devaneios sobre uma imagem



MADRUGADA








São quatro horas da manhã e estou na varanda. Faz frio cá fora, muito mesmo, mas não consigo voltar para dentro. Dentro do meu quarto faz ainda mais frio. Não deste frio que sinto agora, mas doutro bem pior. Não estás cá e sinto a tua falta. Não consigo dormir. A minha cabeça só se ocupa de ti. Estou cansada, tenho sono, dói-me a cabeça de tanto te lembrar e, pior que tudo, não consigo voltar para dentro.

Prefiro ficar cá fora, com o vento a empurrar-me as lágrimas, tão gelado, mas, ainda assim, mais quente que o meu coração. Não suporto voltar para dentro e não te ver na minha cama à minha espera, deitar-me com o frio de quatro paredes e um coração partido. Cá fora não me sinto só. Nem acompanhada. Mas não me sinto só. E enquanto me sinto enregelar cá fora, não desespero lá dentro.

Chamem-me exagerada, se quiserem. Invejo quem nunca passou uma noite em claro por causa de alguém que ama, quem nunca acordou com vontade de voltar para a cama e dormir, só porque tudo lhe pesa tanto que não consegue respirar, quem nunca adormeceu com a cara molhada.

Sento-me no chão e a escuridão da noite não me incomoda. Constato que, nos filmes, tudo é mais perfeito do que aqui. Nos filmes reina um silêncio total, e a personagem não é incomodada. Já eu, sentada no chão, ouço o meu vizinho mandar os filhos ir dormir e lembro-me da minha mãe, que tantas vezes entrou de rompante no meu quarto, interrompendo-me a melancolia e mandando-me dormir, porque no dia seguinte tinha escola. Não lhe dizia nada e obedecia. Que lhe diria? Que me deixasse morrer e que não se preocupasse com a mundana escola? Não o poderia fazer, ainda que o desejasse.

Tudo mudou. Não vivo mais com os meus pais, não tenho mais a idade que tinha, mas continuo a fugir para a varanda. Poderia ficar aqui a noite toda com os meus dramas de vida, mas de que me adiantaria? Além do mais, o frio interior não se trata com o exterior. Já este último é fácil de tratar. Volto para dentro do quarto, onde o calor inesperado me conforta o corpo, mas não a alma. Deito-me e sinto novamente o frio. Lembro-me então de noites mais frias onde me sentia quente, por dentro. Eras tu quem estava a meu lado e eu não sentia frio algum. E ironicamente, no meio dos meus lençóis, cobertores e edredões não consigo aquecer. E fecho os olhos naquele vazio gelado. Vejo-te nitidamente. Estás marcado a ferros em mim. E vou-te imaginando, adormecendo por fim. O meu desejo era não acordar.


Inês Silva, 10º A

10 comentários:

Fátima Inácio Gomes disse...

Eis a nossa primeira participação, sem delongas! a imagem "chamou" impaciente pela Inês e ela respondeu-lhe sem demora :)
Pronunciem-se!

Inês disse...

Stora, o texto tem um erro pequenino, mas irrita-me vê-lo ali "...para a cama..."

Hugo Gonçalves disse...

Olha... amei.
E não consigo dizer mais que isto, porque, sinceramente, não consigo.. Fiquei completamente sem palavras.

Fátima Inácio Gomes disse...

Um homem sensível! que bom :)
Promissor...

Descansa, Inês, corrigirei o "erro"... a mim também me fazem muita comichão :D

Mayara Rodrigues disse...

Assino por baixo do comentário do hugo! É raro isto, mas faltam-me as palavras.

Inês disse...

A stora insiste para comentarem e uma mente brilhante lembra-se de dizer que está sem palavras ahahah :D
Nada de assinar por baixo, olha a originalidade.
Estou à espera dos vossos ;D

Ana Luisa disse...

eu até tenho uma palavra: soberbo!

Fátima Inácio Gomes disse...

Bem, é a Mayara a subscrever o Hugo e o Hugo a ficar sem palavras... o que este teu texto teve o poder de desencadear, hem? :p

Mayara Rodrigues disse...

Pronto, originalidade Inês...
Encantei-me com o texto, talvez porque identifico-me imenso com ele. Acho que a maior parte de nós se identifica. Parabéns (:

Angela disse...

B R U T A L

É a unica coisa que me vem á cabeça quando se acaba de ler esse texto. Está demais, mesmo..