domingo, 30 de novembro de 2008

NÃO SEI SER TRISTE...



Não sei ser triste a valer

Nem ser alegre deveras

Acreditem: não sei ser.


Serão as almas sinceras

Assim também, sem saber?

Ah, ante a ficção da alma


E a mentira da emoção

Com que prazer me dá calma

Ver uma flor sem razão


Florir sem ter coração!

Mas enfim não há diferença.

Se a flor flore sem querer,


Sem querer a gente pensa.

O que nela é florescer

Em nós é ter consciência.
Depois, a nós como a ela,


Quando o Fado os faz passar,

Surgem as patas dos deuses

E a ambos nos vêm calcar.


‘Stá bem, enquanto não vêm,

Vamos florir ou pensar.

Este é mais um dos poemas do nosso queridíssimo Amigo Fernando Pessoa, em que ele nos fala sobre a dor de pensar, consciência introduzindo também o conceito de sinceridade.
É na 1ª quadra que o sujeito poético reflecte sobre a sinceridade das pessoas, para ele estas vêem o “ser sincero” como “ser verdadeiro”, mas ele vê a sinceridade de um ponto de vista intelectual, ou seja, a sinceridade não é entendida em termos de verdade ou mentira, mas sim como a capacidade de usar a inteligência que transforma as sensações em ideias.
Fernando Pessoa escreve sobre a flor, pois esta é desprovida de razão, contrariamente ao Homem, por outro lado, eles são semelhantes, no aspecto em que, tal como a “flor flore” naturalmente, também o Homem pensa, sendo este acto natural.
Vemos então, que a razão pela qual o poeta não consegue “ser triste a valer / Nem alegre deveras” é porque não consegue libertar-se da dor de pensar e viver apenas ao nível do sentir, como acontece com a flor. Ele vê na flor aquilo que deseja ser, pois esta é desprovida de razão.
É também visível no poema a ideia da força esmagadora da morte e do Destino que se abatem sobre o poeta e a flor.
O que me cativou neste poema foi o facto de Pessoa comparar um simples ser inanimado com o ser humano complexo para nos mostrar mais uma vez que a dor de pensar é uma das problemáticas que sempre o acompanha. Fernando Pessoa apercebe-se que a morte é uma coisa certa, pois nascemos logo morremos, enquanto esta não vem, e ele não consegue deixar de pensar termina o poema dizendo “Vamos florir ou pensar”sendo este um verso que se aplica à vida, pois muitas vezes deparamo-nos com situações às coisas não podemos fugir, só nos resta aceita-las.

Emília Oliveira, 12ºB



[texto por editar pela professora]

1 comentário:

antonio disse...

ESSE POEMA ME DEIXOU MUITO COMOVIDO PELO FATO DE QUE O AUTOR EXPRESSA O SEU EU INTERIOR AO MÁXIMO EM PÚBLICO.