
Em "O Amor nos Tempos de Cólera", do Gabriel Garcia Márquez, a mãe do grande amoroso, Florentino Ariza, recomenda-lhe: "Aproveita agora que és novo para sofreres o mais que puderes, porque estas coisas [as do amor] não duram toda a vida".
E ele comprazia-se com o seu sofrimento amoroso, porque a sua maior glória era amar.
Não serei tão severa conselheira quanto a mãe de Florentino, mas que o Amor, seja o feliz ou o infeliz, sentido, é o maior potenciador criativo que conheço, ah isso é...
Aqui vos deixo dois poemas do "nosso" Edd, que já não faz trabalhos para a professora, mas que não se inibe de partilhar o que de belo cria comigo, connosco.
Fui mas fiquei, agora permanecerei
Ela estava longe, distante como uma luz no universo...
O caminho encurtava-se, já lhe sentia o peito a encher-se e esvaziar-se conforme o sopro de vida.
Via os lábios, de um cor de rosa tão perfeito, que faria chorar qualquer cor.
Aproximava-se cada vez mais.
Ela não se movia, era eu que corria.
Estava quase a chegar, quando flutuei no seu aroma.
Era como o carvalho humedecido pelo orvalho da manhã, fazia-me sentir livre.
Já sentia o calor emanado da sua pele.
O meu coração palpitava com uma força tal, que, se não estivesse anestesiado
talvez pensasse que estava a tentar fugir.
Ela abriu os braços.
Fiquei deliciado, sorri e corri ainda mais.
Era uma sombra, nas sombras.
Ia tocar-lhe, mas nada aconteceu, ultrapassei-a era como se ela não estivesse lá.
Ela virou-se enquanto chorava e gritava "NÃO, PORQUÊ? PORQUÊ QUE TE FOSTE SEM MIM?"
Olhava para um corpo inerte, imóvel, rijo.
Com uma cara fria e pálida, branca como cal.
Os seus olhos ficavam baços, com a cor castanha avelã a esgotar-se a cada segundo que passava.
Eram-me tão familiares.
Foi aí que o deixei de sentir. O coração que fugia. Libertou-se com a ultima batida.
Ali, estendido aos pés daquela que jamais poderia tocar outra vez, estava eu...
Outubro 2009
Lua Nova
No mais fundo dos precipícios, onde a penumbra me cobria
ninguém me olhou, com ou sem olhos de ver, era eu nada mais nada menos que uma fonte seca.
Onde nem água nem fogo fluíam, elementos que outrora secaram.
Mesmo no mais profundo dos silêncios, onde até a morte que rastejava lentamente
tinha medo de se fazer ouvir
eu ouvia quem me chamasse, lá no topo, eu tentava focar
mas nada via, rostos marcados a negro que passavam fugazmente como ilusões.
De um momento para o outro, um calor, uma névoa levanta-se e eu não sentia o meu corpo.
Tudo branco.
Que claridade é esta? Que fogo me consome e que água me acalma?
Nada via, fechava os olhos para tentar entender, mas nisso vinha a escuridão.
Era uma palavra que não queria e não voltaria a sentir, implorei que conseguisse para sempre ficar
sem pestanejar, pois um milésimo de segundo que fosse sem aquele meu novo mundo era uma eternidade.
Neste novo imenso por explorar, só te via e ouvia, enquanto me olhavas e sussurravas com
uma delicadeza tal que me senti perfeito.
E os segundos pareceram décadas, era imortal!
Até que comum a tudo, o mundo desvaneceu-se, desapareceu e eu rastejava, praguejava e esquartejava as paredes do precipício, tentando escalar sem nada subir.
A mesma lua coberta de preto voltou a assombrar-me, e enquanto me gozava eu deixei-me ficar. Espero pelo calor e névoa da lua nova,
e pela música que encanta e aquece as minhas veias.
Não sei nada de nada, não sei o que fui ou o que deixei de ser.
Dezembro 2009
Eduardo Silva








