domingo, 4 de outubro de 2009

6 am

Agora acordas, meu coração…

Escolhes a hora de todos dormirem,

Para que não te vejam

Só e Aflito,

no desejo de cuspires

Todo o teu sangue contra mim.


Mas, ó meu coração,

que te adianta isso da fúria,

se toda a ânsia jura

ser apenas rubra água?!


Repousa guerreiro cansado…


Já passou o tempo

deste meu corpo

onde ainda latejas

morto

Acreditar em ti.

Linhas Corridas

*
O quarto está demasiado arrumado para que se deflagre o teu incêndio.
É preciso virar a cama de pernas para o ar e manchar as paredes com sujidade escatológica, sem limpeza de retorno .
Se não te pendurares de cabeça para baixo, has-de nunca saber o maravilhoso de passeares com ela no todo da tua decadência corporal.
Vira-te do avesso e vê por dentro, do lado de fora.
Sentes-te Deus agora?

*
Se “o outro” é um reflexo de nós mesmos, tens só de juntar todos os outros para criares o teu espelho de carne.

Umbigo Interior


Se descarrilassem todos os comboios

em direcção às goelas do Abismo;

Ou vos caísse uma bomba em cima,

mas uma por cada cabeça

não haja resistência

há que ter a certeza;

Se colidissem os hemisférios cósmicos,

num aglutinar de divina aniquilação,

E vos esfarelasse todos,

E vos calasse de vez,

Para que, enfim,

a todos calhasse um pouco mais de sabedoria.

Mas nada descarrila, nada cai, nada colide como deve ser – que é com o brio de um trabalho acabado.

Passeiam-se como baratas de quitina pétrea…

Era vê-las esmagadas contra o chão e contra o tecto ou contra outra coisa qualquer, desde que bem esmagadas e suplicando a sua minúscula vida de insectos.


É preciso explodir de Novo com tudo o que é velho e com tudo o que é novo mas sonoro ou argumentativo ou pensante,

E com a mesma violência da criação universal.


Sabeis

Sabeis bem isso,

sempre o soubeste desde o começo do Ínicio

Mas o umbigo interior engole-vos

num medo exclusivo da vossa própria morte:

- Que me salve sempre Senhor! Ámen


Se não acreditais na fertilidade da auto-destruição,

não mereceis contemplar o pó das estrelas nocturnas,

nem a frescura matutina da água

ou os rostos mortais das vossas Mães.


Sois apenas dignos de esmagamento - fissural e leproso.


É o que todos mereceis,

Todos excepto “eu”.

POETA MEU DAS COISAS GRANDES


Querido poeta meu,

Que dizes morar em mim dentro

Tão dândi e romanesco

De sedas rubras e manto de breu,


És pois tu

Quem me forja um nervo sensível às coisas?

Ou pinta-las de maneira tua –

Que é à cabeçada em vivas cores?!

Ricos contrastes encabeças tu…

Doidos amores

Sonoros suspiros,

Tantos

quantas colaterais danças ,

com vestidos de mágoa

e lágrimas de prata.

Bravo! Além de poeta, és pintor e coreografo!


Virtuoso poeta meu,

De admirável bravura, de admirável palavra;

Espada em sonho

Cavalo ao vento

Herói dos errantes, dos injustiçados,

dos tristes e dos mais fracos.


Prezado poeta meu,

Permita-me que,

com a mais profunda e solene vontade,

lhe diga:

Enfie Vossa Excelência

sua nobre causa, pelo cu acima.

A Viúva


A viúva diz que
quando a tristeza é profunda e irremediável,
as lágrimas acabam por secar com o seu próprio bafo:

Porque nem a água, apesar do sal,
resiste a tão quente dor.

A pureza eleva-se ao céu sob ebulição.

Porque nem os sentidos
se sabem expressar
de tão estarrecidos que ficam.

À tristeza bruta até o medo sucumbe…

Porque nem o rosto da tua mãe
lembras
de tão estranha ela te ser.

…até a memória se prostra.

Porque tudo pára e se entrelaça no teu pescoço,
que já nem teu é.
Tudo se acorrenta mecanicamente
àquilo que pensamos que somos,
e que afinal, em linguagem de tristeza,
De nada nos vale.

- Porque, perante a eternidade da minha treva interior
Nada se ergue, Nada se rivaliza
nem mesmo o murmúrio desta criança
que dizem ser meu filho.
Amor, meus olhos há muito que secaram…

E fora a esta Viúva que nos entregámos
logo à nascença.
E é esta
Viúva de vida que nos espera,
um por um,
no final da nossa malha descosida.

Tristezas não pagam dívidas,

nem alfaiates


Mas à tristeza bruta, até o medo sucumbe…

…até a Viúva chora
onde a morte se esconde.