
Este é um espaço para os meus alunos de Português... os que o são, os que o foram... os alunos da Escola Secundária de Barcelos... (e seus amigos que, se "vierem por bem", serão muito bem recebidos!)... Poderá vir a ser um ponto de encontro, onde a palavra escrita imperará, porque acreditamos, ao contrário de Torga, que escrever não é "um acto inútil"... inútil é calar.
terça-feira, 20 de outubro de 2009
Poesia de Pessoa
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domingo, 4 de outubro de 2009
6 am
Agora acordas, meu coração…
Escolhes a hora de todos dormirem,
Para que não te vejam
Só e Aflito,
no desejo de cuspires
Todo o teu sangue contra mim.
Mas, ó meu coração,
que te adianta isso da fúria,
se toda a ânsia jura
ser apenas rubra água?!
Repousa guerreiro cansado…
Já passou o tempo
deste
onde ainda latejas
morto
Acreditar em ti.
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Linhas Corridas
O quarto está demasiado arrumado para que se deflagre o teu incêndio.
É preciso virar a cama de pernas para o ar e manchar as paredes com sujidade escatológica, sem limpeza de retorno .
Se não te pendurares de cabeça para baixo, has-de nunca saber o maravilhoso de passeares com ela no todo da tua decadência corporal.
Vira-te do avesso e vê por dentro, do lado de fora.
Sentes-te Deus agora?
*
Se “o outro” é um reflexo de nós mesmos, tens só de juntar todos os outros para criares o teu espelho de carne.
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Umbigo Interior
Se descarrilassem todos os comboios
em direcção às goelas do Abismo;
Ou vos caísse uma bomba em cima,
mas uma por cada cabeça
não haja resistência
há que ter a certeza;
Se colidissem os hemisférios cósmicos,
num aglutinar de divina aniquilação,
E vos esfarelasse todos,
E vos calasse de vez,
Para que, enfim,
a todos calhasse um pouco mais de sabedoria.
Mas nada descarrila, nada cai, nada colide como deve ser – que é com o brio de um trabalho acabado.
Passeiam-se como baratas de quitina pétrea…
Era vê-las esmagadas contra o chão e contra o tecto ou contra outra coisa qualquer, desde que bem esmagadas e suplicando a sua minúscula vida de insectos.
É preciso explodir de Novo com tudo o que é velho e com tudo o que é novo mas sonoro ou argumentativo ou pensante,
E com a mesma violência da criação universal.
Sabeis
Sabeis bem isso,
sempre o soubeste desde o começo do Ínicio
Mas o umbigo interior engole-vos
num medo exclusivo da vossa própria morte:
- Que me salve sempre Senhor! Ámen
Se não acreditais na fertilidade da auto-destruição,
não mereceis contemplar o pó das estrelas nocturnas,
nem a frescura matutina da água
ou os rostos mortais das vossas Mães.
Sois apenas dignos de esmagamento - fissural e leproso.
É o que todos mereceis,
Todos excepto “eu”.
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POETA MEU DAS COISAS GRANDES
Querido poeta meu,
Que dizes morar em mim dentro
Tão dândi e romanesco
De sedas rubras e manto de breu,
És pois tu
Quem me forja um nervo sensível às coisas?
Ou pinta-las de maneira tua –
Que é à cabeçada em vivas cores?!
Ricos contrastes encabeças tu…
Doidos amores
Sonoros suspiros,
Tantos
quantas colaterais danças ,
com vestidos de mágoa
e lágrimas de prata.
Bravo! Além de poeta, és pintor e coreografo!
Virtuoso poeta meu,
De admirável bravura, de admirável palavra;
Espada em sonho
Cavalo ao vento
Herói dos errantes, dos injustiçados,
dos tristes e dos mais fracos.
Prezado poeta meu,
Permita-me que,
com a mais profunda e solene vontade,
lhe diga:
Enfie Vossa Excelência
sua nobre causa, pelo cu acima.
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A Viúva
A viúva diz que
quando a tristeza é profunda e irremediável,
as lágrimas acabam por secar com o seu próprio bafo:
Porque nem a água, apesar do sal,
resiste a tão quente dor.
Porque nem os sentidos
se sabem expressar
de tão estarrecidos que ficam.
Porque nem o rosto da tua mãe
lembras
de tão estranha ela te ser.
Porque tudo pára e se entrelaça no teu pescoço,
que já nem teu é.
Tudo se acorrenta mecanicamente
àquilo que pensamos que somos,
e que afinal, em linguagem de tristeza,
De nada nos vale.
- Porque, perante a eternidade da minha treva interior
Nada se ergue, Nada se rivaliza
nem mesmo o murmúrio desta criança
que dizem ser meu filho.
Amor, meus olhos há muito que secaram…
E fora a esta Viúva que nos entregámos
logo à nascença.
E é esta Viúva de vida que nos espera,
um por um,
no final da nossa malha descosida.
Tristezas não pagam dívidas,
Mas à tristeza bruta, até o medo sucumbe…
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