
Um homem com sonhos e ambições como tantos outros.
Sonhou um dia, em pequeno, em ser grande.
Sonhou com uma vida digna de um homem digno de vida.
Fez de tudo um pouco: estudou, trabalhou, saiu, passeou, fez amigos, namorou e casou.
Casou e planeou uma família como a maioria dos casais: sonhou com filhos a correr pela casa, sonhou em ouvir a primeira palavra do rebento que já havia anunciado a sua chegada após quatro anos de casamento.
Sonhou… e quem é que nunca sonhou?
Grande ironia do destino. Nunca viu a casa cheia de crianças a correr nem ouviu a minha primeira palavra! Caramba… a vida é mesmo cruel!
Pai…não me ouviste a falar, não viste os meus primeiros passos, não acompanhaste as minhas primeiras brincadeiras, não me contaste histórias para adormecer… não e não.
Juraste à mãe que voltavas em menos de um ano. Ela jurou-me que vinhas a tempo de me ensinar a andar. Juraste-lhe que nunca mais ias embora… mas foste. Disseste que era uma situação provisória… mas não foi. A culpa foi minha? Pensei tantas vezes que não gostavas de mim…chorei tanto e questionei tantas vezes a mãe:
Porque é que os meus amigos vivem com o pai e com a mãe, Porque vivo só contigo? Foram tantas as minhas inquietações…Sempre que ias embora eu ficava doente. Doente mesmo. Adormecia abraçada às tuas camisas, contemplava as tuas fotos, chorava às escondidas para que a mãe não me visse assim. Não queria ir para a escola, não queria conversar com ninguém, só queria o “meu mundo”. Um mundo de solidão e de enorme tristeza, de mágoa e de saudade. Queria tanto ter-te aqui, pai! De todas as vezes que ias, era como se de mim levasses uma parte. Uma parte do peito, do coração.
Hoje tenho quase 18 anos e nada mudou. As tuas visitas são pontuais: Dezembro, Abril e Agosto. A saudade não mudou, nem a tristeza, nem a mágoa, nem a solidão, nem o coração partido. Mas agora há uma pequena grande diferença: Compreendo. Sei porque vais e já não acredito na velha máxima da mãe: “Desta vez ele vem de vez”.
Eu sei que não vens. Sei que vou crescer e continuar a ouvir o mesmo de sempre: “Estás cada vez maior” ou então: “Estás uma mulher, ainda há pouco eras uma criança”. Isto repete-se todos os anos. Repete-se também a quantidade incontável de lágrimas que perco quando te vais. Perco o número de sorrisos e de unhas ruídas quando estás para chegar. Vejo o brilho nos olhos da mãe: de alegria quando chegas e de tristeza quando partes. Não quero contar mais o número de minutos que falamos pelo telefone. Cansei. Não quero contar o número de vezes que te escrevi. Não adianta. Não serve de nada. Quero apenas guardar comigo as boas recordações: as nossas viagens, os nossos acampamentos, as tuas brincadeiras de criança, quando vamos às compras, o teu sorriso, o teu perfume, o teu olhar e a tua maneira de ser.
Amo-te por seres como és. Amo-te por me mimares. Amo-te pela tua força. Venero a tua coragem. Respeito as tuas decisões. Nunca te vou julgar, porque, apesar da tua ausência física, nunca estiveste longe de mim.
Cláudia Martins, 12ºA