
Apesar de o quadro, que René Magritte conspurcou de Génio com a obra que apresento, ser só um retrato renascentista, Madame Récamier por Jacques Louis David, sempre me remeteu, pelo divã talvez, ou pelo divã de certeza, a sessões de terapia e às memórias visuais que tenho dos tempos em que as tinha, não que o que aqui diga tenha o que quer que seja a ver com o que quer que nessas minhas sessões se tenha dito, passado ou feito, mas enfim, a obra…
A ideia pré-concebida, ou sustentada por (aquela palavra feia na qual meio mundo se enterra, enquanto que a outra metade em tudo que não ela se soterra para não ter que nela pensar) fé de que somos reparáveis, facilmente purgados dos defeitos que concebemos, ou dos que o mundo, com eventos bruscos e impetuosos, se nos confia nos inumados planos em que imaginamos o que de intangível temos, só não me é indiferente porque me ocorre uma certa meio-pena, meio-inveja sobre quem acredita nela.
Acho tão inumanamente redutor pensar -se é que é possível alterar o que de interior nos afecta, só porque remete a algo de que não se gostou (e deixo aqui espaço para o cruel, horrendo, castrador e dilacerante), ou influi ruidosamente com o nosso estrato e procedimento social, pelo simples motivo de existir uma centelha de após, logo diferente, em todos os grãos de areia de todas as cores e formatos que caem na ampulheta, fácil metáfora de existência.
Sobre o tema dos dois parágrafos que antecedem este, não me acho capaz de escrever mais o que quer que seja sem cair num discurso tautológico, razão pela qual volto à imagem que aqui me trouxe… Uma interpretação mais séria, e não menos sentimental e interior ao que já escrevi, é o ver no caixão, ou melhor, imaginar que Magritte vê, ao olhar o caixão, a sua mãe que viu pescada do rio Sambre, afluente da margem esquerda do rio Meuse, que se vê a braços com o Reno antes de chegar ao mar, apenas com a camisa de noite enovelando-lhe a cabeça e deixando um filho no segundo ano da adolescência inglesa enterrado numa memória cruel, horrenda, castradora e dilacerante que levou consigo durante 54 anos até que aos 68 um cancro lhe deu talvez o sossego que desde os 14 desejava.
Bruno Senra









