A única verdade em mim mora naquilo que é (cuidadosamente) invisível para os outros, mesmo para os outros que me constroem a mim com os seus corpos e vozes, afazeres e opções – tudo som, tudo existência.
Esses outros-eu, se fossem raspados de mim com muita força, de unhas e navalhas empenhadas, não me sobejaria Nada. Um Nada que é a única verdade em mim; tenazmente minha, como um embaraço líquido que se me entornou pela consciência abaixo.
Mas como caiu em pano escuro, sendo escura, ninguém repara, excepto eu, quando vou para aqueles sítios que nos roubam os olhos, encontrar-me com a única verdade em mim.
Fica sempre muito calada, mesmo quando a olho de perto, não com os olhos, que esses foram roubados em linha outra, mas olho-a com as mãos e com o que isso possa ter de sólido Absurdo.
Que inutilidade que é tudo! É inútil a única verdade em mim, e encontrar-me com ela, mas é sobretudo inútil e ridículo dizer isso com palavras.
E sei-o, e continuo a dize-lo como uma voz gravada. Inquieta-se o Absurdo de contente, por entre os meus dedos.
O eu esbarrado, que nem um coelho veloz, contra os limites da sua própria inteligência. Desfaz-se o roedor nestas vãs corridas. É ver as vísceras centrifugadas contra o chão…
Quanto sangue…
Madre Protégenos
Segura-nos com o teu braço, Mãe, encosta os teus cabelos ao nosso peito até eles nos sufocarem de conforto e aconchego. Lança as tuas unhas contra os nossos corpos para que se libertem deste sangue.
Mas, a única verdade em mim fica sempre serena e sempre calada. Só quando lhe viro as costas para ir embora é que ela sussurra como quem inventa uma verdade:
-Olha para ti embuste…
Lembras-te de ontem?
Estiveste sentada em cima do muro a morder a língua, fazendo figas com tanta força, que quase caías.
Esqueceste o Tempo durante a tarde toda, e só quando passou o camião do lixo, lembras? Resulima, amarelo, carregado de realidades encardidas, é que começaste a sentir dores verdadeiras: a língua mordida pelos dentes aflitos, as pernas dormentes de pensamentos pequeninos como agulhas…e já os perdeste no palheiro que és.
Mas ainda Hoje lá estás sobre o muro e com o mesmo olhar desoladoramente vazio…
Quando te conseguires levantar, é porque terás terminado, enfim, a tua risível incerteza, que, por enquanto, te vai passando, delirante, em rodapé neural.
Já nem dormes…
Quando te conseguires levantar, arfando de viva ou de morta, terás já escolhido entre o 7 e o 9. E quer tenhas optado por um ou por outro, não hás-de, à mesma, acertar na chave da lotaria …
Talvez essa chave com que tanto sonhas, acordada, porque já não dormes, sirva para abrir uma outra porta… aquela demoradamente talhada…com enfeites dourados….e ondeantes…iguais às dos contos das fadas sem dentes. Ou então não serve para Nada.
Olha para ti embuste…olha para ti…
Agora tenho de ir embora, pois não tenho? Obrigou-me a ir embora… Vou pela rua abaixo, tenho de ir tratar daquilo antes que feche. Onde era mesmo? Lá ao fundo, pois claro.
Encontro a montra. Entro.
- A seguir?...bom dia. Tem a factura?
Ali atrás, as esferográficas arrumadas por cores. O mesmo preço, cores diferentes. Cartolinas, capas, tesouras... Tenho tanto sono. Verdes, azuis, pretas...
Mas os lápis desta papelaria não sabem o sono. E os livros também não. Nem nas vezes em que adormecemos sobre eles, as páginas se interessam em percebe-lo. E tanto faz ser livro de muito saber, como de pouco.
- O seu nome, por favor?
Segura na cabeça, por entre o rosto, os cabelos louros fingidos. É pálida e tem dedos longos e pálidos, de beber chá em porcelana azul. Acho que gosta de me fazer perguntas. Não sorri, já não é jovem, nem velha o suficiente para sorrir.
Cinco minutos de espera e as minhas pernas fraquejam, também elas resmungam sono.
-Pode passar aqui para a semana.
Vou em direcção à porta forrada com revistas. Ainda conservo na cabeça o eco das suas perguntas em voz seca. O meu nome? Vou pelas ruas, pelas mais húmidas e estreitas. É dia...
À noite, os que percorrem as azinhagas escuras, são os forasteiros e as prostitutas...e Ela.
Ela é quem anda pelo telhado, ao som da lua, atiçando os cães, para vos ladrar ao sono.
É prostituta forasteira da própria sombra - da qual não se quer livrar ainda. Cola-se-lhe ao corpo, como a dor ao peito, a dor de sentir que a única verdade em si, é afinal uma mentira de penas e bunodontes.
Ela cresce em mim na ânsia de me ser.
E dentro dela,
Eu caio.
- Desculpe, boa noite,
podia dizer-me as horas que lhe restam?
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