quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Paisagens de Inverno




Paisagens de Inverno


I

Ó meu coração, torna para trás.
Onde vais a correr, desatinado?
Meus olhos incendidos que o pecado
Queimou! o sol! Volvei, noites de paz.
Vergam da neve os olmos dos caminhos.
A cinza arrefeceu sobre o brasido.
Noites da serra, o casebre transido...
Ó meus olhos, cismai como os velhinhos.
Extintas primaveras evocai-as:
_ Já vai florir o pomar das maceiras.
Hemos de enfeitar os chapéus de maias._
Sossegai, esfriai, olhos febris.
_ E hemos de ir cantar nas derradeiras
Ladainhas...Doces vozes senis..._

II

Passou o outono já, já torna o frio...
_ Outono de seu riso magoado.
llgido inverno! Oblíquo o sol, gelado...
_ O sol, e as águas límpidas do rio.
Águas claras do rio! Águas do rio,
Fugindo sob o meu olhar cansado,
Para onde me levais meu vão cuidado?
Aonde vais, meu coração vazio?
Ficai, cabelos dela, flutuando,
E, debaixo das águas fugidias,
Os seus olhos abertos e cismando...
Onde ides a correr, melancolias?
_ E, refratadas, longamente ondeando,
As suas mãos translúcidas e frias...



Camilo Pessanha

'Clepsidra'


terça-feira, 23 de dezembro de 2008

NATAL em noz! :D


Está quase a chegar o Pai Natal... ou o Menino Jesus, conforme as opções... o que interessa é que, por uns momentos, podemos/devemos deixar de nos flagelar pela culpa do excessivo espírito consumista - VAMOS APROVEITAR, MEUS AMIGOS!!!! OFEREÇAM E RECEBAM COM ALEGRIA! :D

Deixo-vos a minha prenda, inspirada por Ricardo Reis,

(...) Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.
(...)
Colhe/ O dia, porque és ele.


(Carpe Diem)


... e com a ajudinha da Daniela Falcão, que soube exactamente do que eu estava a falar e encontrou o "tal" vídeo...



sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Um dia de chuva


Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol.
Ambos existem; cada um como é.



Alberto Caeiro



Este poema, de Alberto Caeiro, inspirou-me pela sua simplicidade, por dizer tanto em apenas dois versos.
Penso que é um dos poemas que melhor define a poesia de Caeiro, cada coisa é como é, tal e qual como a vemos e não como pensamos ou, muitas vezes, queremos ver.
Neste poema conseguimos ver a sua objectividade e amor pela Natureza, pois nem todos dizemos (de maneira tão simples) que um dia de chuva é tão belo como um dia de sol.
Para ele, talvez, pela existência de luz, quer chova ou não, porque o importante é ver, é “sentir com os olhos”, contrariamente ao ortónimo, que intelectualiza tudo o que vê e sente [frase?]. Para este, um dia de chuva era explicado pelo Inverno ou Outono e não simplesmente porque choveu.
Acho que, hoje em dia, todos somos um bocado como o ortónimo, pensamos demasiado e esquecemo-nos do simples e belo, do que é natural. Depois vem a tal “dor de pensar”, a “angústia de viver” e a “frustração”. Nada disso aconteceria se víssemos apenas o que está à nossa frente, sem racionalizações.
Mas como, se isso acontecesse, tudo mudava, limitamo-nos a ser como os outros, a guiarmo-nos pela sociedade e a pensar, pensar e pensar.
Para mim, Caeiro era o “mestre” por se conseguir abstrair tão facilmente e ser feliz dessa maneira.



Sara Beatriz, 12ºB

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

O Argonauta das Sensações Verdadeiras


Procuro despir-me do que aprendi,
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,
E raspar a tinta com que me pintaram os sentido,
Desencaixotar as minhas emoçoes verdadeiras,
Desembrulhar-me e ser eu, nao Alberto Caeiro,
Mas um aninal humano que a Natureza produziu.

E assim escrevo, querendo sentir a Natureza, nem sequer como um homem,
Mas como quem sente a Naturteza, e mais nada.
E assim escrevo, ora bem, ora mal,
Ora acertando com o que quero dizer, ora errando,
Caindo aqui, levantando-me acolá,
Mas indo sempre no meu caminho como um cego teimoso.

Ainda assim, sou alguém.
Sou um Descobridor da Natureza.
Sou um Argonauta das sensaçoes verdadeiras.
Trago ao Universo um novo Universo
Porque trago ao Universo ele-próprio.

Alberto Caeiro


Eu escolhi este poema de Alberto Caeiro, porque este procura ser a voz da Terra, com a sua simplicidade e naturalidade, sem preocupações de ordem metafísica e social. Caeiro desnuda as coisas de sentidos filosóficos, vendo-as tal como são. Este poema também me chamou à atenção pelo facto de ele, como eu, achar que uma pessoa, ao abordar uma situação diferente, deve ir desprovido de pré-conceitos ou preconceitos, pois nunca se deve julgar um livro pela capa e que tambem é humano errar e com esses erros é que nós aprendemos e devemos sempre tentar superar as nossas dificuldades, por muito difícil que seja. E, apesar de todos os erros que possamos cometer, ninguém nos pode apontar o dedo e dizer que somos menos que esse alguém. Gosto principalmente dos dois últimos versos, porque dizem-me que, quando conhecemos alguém, "o Universo" [?], damos-lhe a conhecer uma coisa nova, o nosso Universo.



Ana Monteiro
12º A

O INFANTE



Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,
E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.
Quem te sagrou criou-te portuguez.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!



Fernando Pessoa


Eu escolhi este poema pela referência aos Descobrimentos, que é a época da História Portuguesa que eu prefiro e a única em que o nosso país conseguiu fazer-se notar pela positiva.
Além do tema, gostei da estrutura. Não sendo eu um apreciador de poesia, canso-me menos com o que é directo e bem explícito, como este poema, com rimas e versos populares e linguagem acessível, sem muitas conotações.


Helder Ribeiro, 12ºC

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Vive no presente!


Vive, dizes, no presente,
Vive só no presente.

Mas eu não quero o presente, quero a realidade;
Quero as cousas que existem, não o tempo que as mede.

O que é o presente?
É uma cousa relativa ao passado e ao futuro.
É uma cousa que existe em virtude de outras cousas existirem.
Eu quero só a realidade, as cousas sem presente.

Não quero incluir o tempo no meu esquema.
Não quero pensar nas cousas como presentes; quero pensar nelas como cousas.
Não quero separá-las de si-próprias, tratando-as por presentes.

Eu nem por reais as devia tratar.
Eu não as devia tratar por nada.
Eu devia vê-las, apenas vê-las;
Vê-las até não poder pensar nelas,
Vê-las sem tempo, nem espaço,
Ver podendo dispensar tudo menos o que se vê.
É esta a ciência de ver, que não é nenhuma.

Alberto Caeiro,
In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Fernando Cabral Martins, Richard Zenith, 2001



A escolha deste poema assentou, acima de tudo, em dois pontos: o seu autor ser Alberto Caeiro (Fernando Pessoa) e ser, a meu ver, um dos seus melhores poemas.
Fernando Pessoa, como todos sabemos, foi um autor genial, pela forma como escrevia e, sobretudo, pela sua capacidade de criar e dar vida a novas personagens (heterónimos), sem nunca deixar de ser ele próprio.
De todas as personagens (heterónimos) de Fernando Pessoa, o que me chamou a atenção e me conseguiu cativar foi Alberto Caeiro. Chamou-me a atenção e cativou-me pela sua maneira de ver o mundo, ou mesmo de unicamente ver o mundo e pela maneira exacta e objectiva como o vê. Nessa maneira de o olhar, não há espaço para mal entendidos, nem duplos sentidos, nem mesmo manipulações.
As coisas são como são e o que são. E a minha estima por Alberto Caeiro, resume-se a isto.
Não fugindo à regra, neste poema estão explícitas e implícitas as virtudes anteriormente mencionadas. Mas também nos revela uma outra mensagem interessante, que consiste em não nos deixarmos controlar pelo tempo.
Estamos, por vezes, tão absorvidos com a falta ou com o excesso tempo, que por vezes deixamos de ver. De ver o que realmente é importante e verdadeiro (objectivo), deixamos de ver o mundo como ele é realmente, para o ver dentro do que o tempo nos permite.
Se reflectirmos sobre este ponto de vista, certamente que este poema nos consegue marcar.


Hugo Salgueiro
12ºF

"O amor quando se revela "






O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente
Cala: parece esquecer

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pra saber que a estão a amar!
Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar...

Fernando Pessoa



De toda a poesia pessoana que li, este foi o poema de que mais gostei, embora não seja dos mais conhecidos do autor .
O poema "O amor quando se revela", redigido numa linguagem simples e acessível a todos, traduz em cinco estrofes a complexidade do amor criada pelo ser humano. Este poema confessa algo que a maioria das pessoas não tem coragem de admitir, muitas vezes por medo ou até mesmo por cobardia.
A palavra amor não é mera linguagem, mas também sentimento, algo inexplicável, questionável, como diz Caeiro "Quem ama não sabe porque ama, nem o que é amar". O amor deve ser vivido e não complicado .



Anabela Miranda
12ºC

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Já não me importo




Já não me importo
Até com o que amo ou creio amar.
Sou um navio que chegou a um porto
E cujo movimento é ali estar.

Nada me resta
Do que quis ou achei.
Cheguei da festa
Como fui para lá ou ainda irei

Indiferente
A quem sou ou suponho que mal sou,

Fito a gente
Que me rodeia e sempre rodeou,

Com um olhar
Que, sem o poder ver,
Sei que é sem ar
De olhar a valer.

E só me não cansa
O que a brisa me traz
De súbita mudança
No que nada me faz.

Fernando Pessoa


E aqui…
Eu vi, vi por palavras que a angústia me corrói neste desesperançar de viver-morrer, num amontoado de pensamentos sem o mínimo vislumbre, sem uma fugaz escapatória quase possível… E o aprisionamento a este corpo atrofia-me a nesga quase possível da aragem para o lado de lá…
Enquanto jovem que sou, procuro o meu ser-ter-estar, um propósito sem propósito, um rumo, zumbido de zéfiro, ou o decifrar a nuvem que tudo obnubila.
As palavras mostram-escondem que a minha deriva é contínua… na busca de o não sei o quê… Como posso anular o meu ser antes mesmo de o conhecer, até mesmo, desejar a morte? Não sou suicida, apenas quero um bilhete de ida, de “barco” para o “porto” e não voltar…

Vejo muros pintados pela espessa tinta das sombras: elas rodeiam-me, e eu, sem saber porquê, continuo à deriva, em fuga. Então, por que existo? Há sentido? Há razão? A minha loucura não é suficiente para entender isto e aquilo e aqueloutro?
Para onde quer que vá não haverá o que procuro e morrerei como cheguei ao mundo - sem sentido.
Olharei, sem nada ver; apalparei sem nada sentir; beberei sem parar; respirarei o ar viciado de uma luz tão ténue que nem a vejo; abrirei os ouvidos sem nada escutar e todo o meu corpo está alquebrado pela fúria da palavra.


Eduardo Silva, 12º A

domingo, 14 de dezembro de 2008

Pobre velha música!


Pobre velha música!
Não sei por que agrado,
Enche-se de lágrimas
Meu olhar parado.


Recordo outro ouvir-te,
Não sei se te ouvi
Nessa minha infância
Que me lembra em ti.


Com que ânsia tão raiva
Quero aquele outrora!
E eu era feliz? Não sei:
Fui-o outrora agora.

Fernando Pessoa

Escolhi este tema de Fernando Pessoa por causa da sua temática, memória da infância perdida é o tema que mais me agrada na poesia pessoana. A racionalização dos sentimentos feita por Pessoa não o permite de felicidade [?], refugiando-se então nas suas memórias de infância, quando era contente inconscientemente.
Logo, a referência “Pobre Velha Música” refere-se à infância que ele pretendia viver. Embora ele a queira reviver, Fernando pretende manter a consciência que tinha na sua fase de adulto, e a felicidade. Logo isto, faz-me pensar se serei tão feliz como fui até agora e se o desenvolvimento do racionalismo é um factor positivo para o “eu” de cada pessoa.

Tiago Barbosa 12ºB

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Caeiro apaixonado...


Todos os dias agora acordo com alegria e pena.
Antigamente acordava sem sensação nenhuma; acordava.
Tenho alegria e pena porque perco o que sonho.
E posso estar na realidade onde está o que sonho.
Não sei o que hei-de fazer das minhas sensações.
Não sei o que hei-de ser comigo sozinho.
Quero que ela me diga qualquer cousa para eu acordar de novo.

Quem ama é diferente de quem é
É a mesma pessoa sem ninguém.


Alberto Caeiro


Simples, directo e profundo. Assim é Alberto Caeiro. Os seus poemas são, aparentemente, algo de banal. Mas a poesia não pode ser apenas lida. Ela também tem de ser sentida!
Este verdadeiro sensacionista cativou muitas mentes com os seus poemas. Tornou-se uma grande figura da Literatura Portuguesa.
Alberto Caeiro sempre se baseou nas sensações e nos seus sentimentos para escrever os seus poemas. A Natureza era a verdadeira realidade para ele, porque era tudo o que conseguia ver. Nada mais era tão real do que aquilo que ele via. Para ele, o pensamento era sinónimo de cegueira e de mau estar.
Neste poema, Caeiro sente-se vazio e impotente por não conseguir perceber as suas sensações. Foi por isso que me despertou especial interesse. Eu acho que se as pessoas intelectualizam os seus sentimentos não estão a ser verdadeiras com elas próprias nem com aqueles que as rodeiam. Aquilo que sentimos deverá ser algo de sincero. Assim, concordo plenamente com este heterónimo de Fernando Pessoa quando é atribuído um grande valor às sensações e aos sentimentos. Por vezes, quando não conseguimos descrever no que os nossos sentimentos se traduzem, sentimo-nos perdidos, sem um rumo na vida.
Alberto Caeiro até pode não ter tido muitos estudos, mas foi um ser muito inteligente e dotado de talento. A sua poesia é tão objectiva, mas provoca em nós um montão de interpretações. E assim é um grande poeta.



Joana Cordeiro
12º A