sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Leve, breve, suave



Leve, breve, suave,
Um canto de ave
Sobe no ar com que principia
O dia.
Escuto, e passou...
Parece que foi só porque escutei
Que parou.

Nunca, nunca em nada,
Raie a madrugada,
Ou 'splenda o dia, ou doure no declive,
Tive
Prazer a durar
Mais do que o nada, a perda, antes de eu o ir
Gozar.

Fernando Pessoa

Escolhi este poema de Pessoa Ortónimo porque, apesar de ser pequeno (duas estrofes de sete versos cada), diz o essencial sobre o seu problema da consciência/ inconsciência.
O poema inicia-se com três adjectivos – leve, breve e suave – que caracterizam o canto da ave. Este primeiro verso tem um ritmo lento devido às pausas que as vírgulas provocam, que de seguida se torna mais rápido pois os versos seguintes, graças ao encavalgamento, lêem-se sem pausas. Depois desta descrição do canto (no quinto verso), o Eu poético afirma “Escuto e passou”. É aqui que se coloca o problema da consciência. A partir do momento em toma consciência do canto (escutar é um acto intencional muito diferente do acto de ouvir, que é involuntário), o prazer desaparece. A partir do momento em que o poeta passa do plano dos sentidos para o da razão (se torna racional) a felicidade e a alegria que o canto transmite acabam. Na segunda estrofe, o Eu poético está amargurado e exprime essa amargura através da repetição do “nunca” reforçado pela referência aos diferentes momentos do dia (madrugada, meio-dia e o pôr-do-sol) para vincar bem que nunca teve prazer que durasse para lá do momento em que dele tomou consciência. Antes mesmo de o gozar, já esse momento desapareceu, pois a sua consciência sobrepôs-se e impediu-o de ser feliz.
O que me agradou mais foi a capacidade de, em tão poucas palavras, ter conseguido exprimir tão bem a sua incapacidade de ser inconsciente e, por isso mesmo feliz e de ter dito de uma forma tão musical, com tantas variedades de ritmo, recorrendo apenas às pausas e ao encavalgamento.



Rui Bonifácio Viana Lopes, 12ºC

Acordo...


Acordo de noite subitamente,
E o meu relógio ocupa a noite toda.
Não sinto a Natureza lá fora.
O meu quarto é uma coisa escura com paredes vagamente brancas.

Lá fora há um sossego como se nada existisse.
Só o relógio prossegue o seu ruído.
E esta pequena cousa de engrenagens que está em cima da minha mesa

Abafa toda a existência da terra e do céu...
Quase que me perco a pensar o que isto significa,
Mas estaco, e sinto-me sorrir na noite com os cantos da boca,
Porque a única cousa que o meu relógio simboliza ou significa
Enchendo com a sua pequenez a noite enorme
É a curiosa sensação de encher a noite enorme
Com a sua pequenez...


Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XLIV"


Depois da leitura de muitos poemas e da indecisão sobre qual, na verdade, iria escolher, decidi que este era aquele que procurava.
Realmente, é um poema simples, como todos os outros de Caeiro, mas é realmente isso que me deixa curioso.
Caeiro rege-se pelas sensações que os órgãos sensoriais lhe transmitem, e acho que isso está bem patente neste poema…
Agora, a meu ver, acho simplesmente fascinante a maneira como Caeiro vê o mundo, como algo tão simples, quando eu e muitos mais fazemos dele um problema, com ainda mais uns quantos dentro desse mesmo problema, criando preocupações e medos…
Pensamos e pensamos e tornamos a pensar, até que tornamos algo que é estupidamente simples, em algo muito complicado, somos como dizia Caeiro, uns doentes!
Claro que, na minha opinião se todos visse-mos tudo de modo tão simples, não chegávamos a grandes conclusões e nada faríamos a não ser viver e apreciar, não havendo evolução.
Mas não é essa a questão, a questão é que, no meu ver, esta maneira de viver é realmente gratificante para Caeiro, não tem de se preocupar com “nada”, vê as coisas como elas são e não como pensa que realmente são, é quase como um escudo protector de desilusões, que muitos procuramos mas não encontramos, porque não podemos deixar de pensar, em vários pontos de vista sobre o que quer que seja, fazendo-o muitas vezes para tentar entender, o que já está muitas vezes entendido…


Gonçalo Fonseca, 12ºA

[texto não editado pela professora]

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Todas as Opiniões


Nunca fizeram crescer uma erva ou nascer uma flor.
Toda a sabedoria a respeito das cousas
Nunca foi cousa em que pudesse pegar como nas cousas;
Se a ciência quer ser verdadeira,
Que ciência mais verdadeira que a das cousas sem ciência?
Fecho os olhos e a terra dura sobre que me deito
Tem uma realidade tão real que até as minhas costas a sentem.
Não preciso de raciocínio onde tenho espáduas.

Alberto Caeiro


Gostei deste poema e assumi que Alberto Caeiro é um realista/naturalista, que acredita no natural(natureza). Eu identifico-me um bocado com dois versos em que Caeiro fala da ciência ("Se a ciência quer ser verdadeira", "Que ciência mais verdadeira que a das cousas sem ciência?”). Isto é cada vez mais uma verdade pura (para mim, é claro): com o avanço da ciência, durante estes séculos, e os seus resultados incríveis, as pessoas começaram a acreditar que a ciência salva o mundo, que arranja solução para tudo, esquecendo quem lhes forneceu alimento, quem curou (plantas medicinais) milhares de pessoas e permitiu a sobrevivência humana. Estou, certamente, a falar da natureza.
Com as pessoas a acreditar na ciência como a salvadora do mundo, quase um deus, temo-nos esquecido da natureza e estamos a prejudicá-la com os nossos actos violentos: aquecimento global, desflorestamento, água poluída, são alguns exemplos de como nos comportamos com a natureza. As pessoas comportam-se desta maneira devido à crença que têm na ciência: acreditam que o planeta será salvo pela ciência, que uma cura aparecerá, limpará os resíduos tóxicos que poluimos o que nos alimenta. Achamos cruel matar os pais, que nos alimentam, mas é-nos indiferente matar a natureza que também nos alimenta e ajuda durante estes séculos todos. Tantas opiniões que há sobre a Natureza: "Nunca fizeram crescer uma erva ou nascer uma flor.” - Não podemos só falar, temos de agir, vamos ajudar a salvar a mãe natureza e ajudamo-nos nós próprios, não custa nada dar uma mãozinha.


Bruno Pereira, 12º F

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Aniversário

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim mesmo,
O que fui de coração e parentesco.,
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui - ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho... )
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos ...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas - doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado -,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos. . .
Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! ...
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...


O poema “Aniversário”, de Álvaro de Campos, realça a felicidade vivida por Fernando Pessoa na sua infância, rodeado de entes queridos, onde a sabedoria e o pensamento não eram características de um pequeno rapaz, apenas se vivia feliz na simplicidade. A época da infância é, assim, marcada pela inconsciência, pois a criança não tem noção do que se passa à sua volta “Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma”.
O Ser Humano, no seu processo de crescimento, adquire conhecimentos, aprende errando e enfrentando dificuldades e Fernando Pessoa, sendo um pensador nato, um operário da inteligência e sonhador da paz na ignorância, escreve por Campos, um dos mais pesados e sentidos poemas no seu todo, recordando a família e a casa, usando a comparação do passado com o presente julgando que, perdendo os princípios da sua infância, também lhe fora roubado tudo o resto.
“O que eu sou hoje é terem vendido a casa”/ É terem morrido todos, / É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio..."
Álvaro de Campos já não vive na sua casa, já não se senta e festeja o aniversário, tem uma vida diferente daquilo que merece ser chamada de vida. Na infância, apesar de muito aprendermos quando de sorriso aberto falam para nós, somos vítimas do próprio processo de crescimento, e em Campos a infância perdeu-se fazendo com que o poeta sentisse essa perda como a sua identidade feliz.
Quem sabe se, um dia, o tempo retrocede e conquista requintes que no presente julga reviver. No presente, não há mais aniversários “ Hoje já não faço anos” - resta ao poeta durar “Duro”, porque o pensamento o impede de ter a inconsciência de outrora. Sentir saudade do passado é, para Álvaro de Campos, enraizar a sua existência num dos maiores e maravilhosos períodos da vida, na Infância.



Filipa 12ºB

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Escrever é Esquecer

Porque acabámos um pequeno trabalho sobre Fernando Pessoa, ou a maior parte acabou este trabalho, quem melhor do que Pessoa para expressar o seu sentimento acerca da Poesia?


Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. A música embala, as artes visuais animam, as artes vivas (como a dança e a arte de representar) entretêm. A primeira, porém, afasta-se da vida por fazer dela um sono; as segundas, contudo, não se afastam da vida - umas porque usam de fórmulas visíveis e portanto vitais, outras porque vivem da mesma vida humana. Não é o caso da literatura. Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso.

Bernardo Soares, in "Livro do Desassossego"

Posso ter defeitos






Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar algumas vezes irritado,
mas não esqueço que a minha vida é a maior empresa do mundo.
E posso evitar que ela vá à falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver,
apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e tornar-se autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis
no recôndito da tua alma.
É agradecer a Deus em cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo. É ter coragem para ouvir um “não”.
É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.
Pedras no caminho? Guardo-as todas, um dia vou construir um castelo…

Fernando Pessoa


Escolhi este poema de Fernando Pessoa porque desde a primeira vez que o li fiquei fascinado, apesar de não saber quem era o autor. Só mais tarde vim a descobrir que esta era mais uma obra de Pessoa.
Em algumas das fases menos boas da nossa vida, quando tudo parece correr mal e nos vitimizamos e nos martirizamos, pensamos nos “porquês” - “Porquê eu?”; “Porquê a mim?”; “Que mal é que eu fiz para merecer isto?”…
E andamos a pensar, a remexer tudo vezes sem conta, num “ciclo vicioso de porquês”. No entanto, a atitude que devemos ter é [deve ser] igual à que Pessoa descreve: ”Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e tornar-se autor da própria história”. Vitimizarmo-nos só serve para nos deixar “no fundo do poço” e não nos leva a lado nenhum. Devemos levantar a cabeça e recolher forças nas coisas boas que nos aconteceram, e recolher todas as pedras que temos no caminho, para que um dia, também nós possamos construir um castelo. O nosso castelo.

E, para acabar, pegando nas palavras de Pessoa: “Mas não esqueço que a minha vida é a maior empresa do mundo. E posso evitar que ela vá à falência”. Só pensamentos positivos atraem as coisas positivas.



Ivan Torres 12ºB

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Poema em Linha Recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,

Eu que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;

Eu, que tenho sido cómico criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,
Para fora da possiblidade do soco;
Eu que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu que verifico que não tenho par nisto neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo,
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu um enxovalho,
Nunca foi senão - princípe - todos eles princípes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana,
Quem confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que, contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Ó princípes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde há gente no mundo?

Então só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Álvaro de Campos


Bastou-me ler os dois primeiros versos para o escolher. Gostei logo desta primeira confissão. Daí para a frente foi só deparar-me com uma realidade muito actual.
Álvaro de Campos sentia-se sozinho, achava-se muito diferente em relação ao homem comum e, demonstrou-o aqui, radicalmente.
Começo por referir que errar é o que de mais humano há. O problema é que nem todos pensamos assim e então fingimos que fazemos tudo bem, que somos muito inocentes e que somos perfeitos. Mas não existe perfeição, portanto não devíamos ter medo de admitir que erramos, que fazemos asneiras. Quantas vezes acontece de estragarmos algo quando ninguém está a ver e então voltamos a pôr tudo no seu devido lugar, na esperança de que as culpas não recaiam sobre nós?! Também já me aconteceu a mim.
É triste pensar que somos o que de mais vil há e que só os outros são príncipes. Mas para quem ainda pensa assim, é importante referir que há alturas para tudo. Há uma altura em que somos príncipes, uma altura em que somos insignificantes, uma altura em que somos reles, uma altura em que somos hipócritas, outra em que negamos a hipocrisia e passamos a ser verdadeiros. Depois, cada um escolhe como quer ser, como quer ficar.
Aprecio imenso a verdade, e como tal gostei do facto de Campos ter admitido todos os seus problemas, toda a sua sujidade. Nem todos temos coragem para admitir que burlamos os outros, que somos ridículos. Mas mesmo assim ele fá-lo e apela a que os outros o façam.
"Quem me dera ouvir de alguém a voz humana" diz ele. Esta voz humana ainda é pouco recorrente. É pena. Neste poema, Álvaro de Campos, ironicamente, passa a ser superior pois é o único capaz de se mostrar vil e erróneo, sem titubear.
Acabo agora com a moral, não da história, mas sim do poema: "Os pobres da humanidade não são quem erra, mas quem não tem coragem para admitir que errou!".


Sara Vila-Chã 12ºC


[texto ainda por editar, pela professora]

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Tomamos a Vila depois de um Intenso Bombardeamento



A criança loura

Jaz no meio da rua.
Tem as tripas de fora
E por uma corda sua
Um comboio que ignora.

A cara está um feixe
De sangue e de nada.
Luz um pequeno peixe
Dos que bóiam nas banheiras —

À beira da estrada.

Cai sobre a estrada o escuro.
Longe, ainda uma luz doura
A criação do futuro...

E o da criança loura?


Que escolhêssemos um que não estivesse no livro (mas que curiosamente se encontra no verso da folha do seu semelhante que tanto amo*), sem critério de selecção de autor, ortónimo, heterónimo – indiferente. Um. Que nos escolhesse, a nós.

Não, este não me escolheu. Escolhi-o eu entre os demais, não por haver uma identificação piegas-pessoal, não por ser mais ou menos academicamente enquadrado nas temáticas, não por ser linguisticamente belo (até porque a rima é musicalmente descoordenada), nem mesmo por identificação por oposição.
É verdade que comemos também com os olhos, e eu quase devorei papel de encantamento pelo título. Palavra(!): é gigante, atípico e Histórico… e nada esclarecedor.
Eis que num encolher de ombros, e induzida em erro, deixei que os cabelos louros se reflectissem na minha íris, o que não durou mais do que um verso, porque Pessoa não deixa, porque os cabelos que não respiram não brilham, e o sangue que perfilha a glória dos heróis de Homero, não é o mesmo imundo e rasteiro da estrada da Vila.
Não intento alongar-me a expor uma interpretação cuidada, uma defesa acérrima do poema…mas há impressões ressaltam – o comboio que a criança ignora, que sendo a sua consciência ou não, está impregnado de movimento e velocidade até ao tutano; o peixe, que mais vivo que a criança, carecendo da vida desta, permanece à beira da estrada; a última estrofe, no seu todo, sugestiva de um futuro que provém de uma luz que Ainda doura.
“E o da criança loura?” Com este verso, acrescento e concluo que o Ortónimo me deixou um gosto requintado na boca: quase com maldade, ou apenas desalento, remete o seu olhar (e o meu também), uma última vez, para a criança anómica, suspirando.


*O menino de sua mãe




[texto por editar pela professora]

Ontem à tarde um homem das cidades





Ontem à tarde um homem das cidades
Falava à porta da estalagem.
Falava comigo também.
Falava da justiça e da luta para haver justiça
E dos operários que sofrem,
E do trabalho constante, e dos que têm fome,
E dos ricos, que só têm costas para isso.
E, olhando para mim, viu-me lágrimas nos olhos
E sorriu com agrado, julgando que eu sentia
O ódio que ele sentia, e a compaixão
Que ele dizia que sentia.

(Mas eu mal o estava ouvindo.
Que me importam a mim os homens
E o que sofrem ou supõem que sofrem?
Sejam como eu — não sofrerão.

Todo o mal do mundo vem de nos importarmos uns com os outros,
Quer para fazer bem, quer para fazer mal.
A nossa alma e o céu e a terra bastam-nos.
Querer mais é perder isto, e ser infeliz.)

Eu no que estava pensando
Quando o amigo de gente falava
(E isso me comoveu até às lágrimas),
Era em como o murmúrio longínquo dos chocalhos
A esse entardecer
Não parecia os sinos duma capela pequenina
A que fossem à missa as flores e os regatos
E as almas simples como a minha.

(Louvado seja Deus que não sou bom,
E tenho o egoísmo natural das flores
E dos rios que seguem o seu caminho
Preocupados sem o saber
Só com florir e ir correndo.
É essa a única missão no Mundo,
Essa — existir claramente,
E saber faze-lo sem pensar nisso.

E o homem calara-se, olhando o poente.
Mas que tem com o poente quem odeia e ama?



Alberto Caeiro





Opinião Pessoal


Escolhi este poema porque apreciei a perspectiva do poeta em relação á sociedade, ao modo descreve a relação do Homem na sua época.
O poeta fala de um homem que, em jeito de desabafo, relata a situação desconfortável em que vivem as pessoas com menos posses. Alberto Caeiro é enigmático, embora seja um poeta com pouca instrução é um homem obscuro e oculto, é um homem da natureza e diz que quando pensa isso causa-lhe complexidade e desconforto mental.
Como tal o poeta só quer viver no que é belo e simples. E foi o que mais me impressionou no poema, foi a forma como Caeiro, de certa forma, solucionou os graves problemas que incomodavam a sociedade dessa altura, embora para Caeiro obscuros e ocultos. O Mestre “pediu” para as pessoas só se preocuparem com a sua vida com o seu caminho e mais importante, fazer isso bem e “sem pensar muito nisso”.



Tiago Pereira, 12ºC

[texto por editar pela professora]