No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim mesmo,
O que fui de coração e parentesco.,
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui - ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho... )
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos ...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas - doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado -,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos. . .
Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! ...
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...
O poema “Aniversário”, de Álvaro de Campos, realça a felicidade vivida por Fernando Pessoa na sua infância, rodeado de entes queridos, onde a sabedoria e o pensamento não eram características de um pequeno rapaz, apenas se vivia feliz na simplicidade. A época da infância é, assim, marcada pela inconsciência, pois a criança não tem noção do que se passa à sua volta “Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma”.
O Ser Humano, no seu processo de crescimento, adquire conhecimentos, aprende errando e enfrentando dificuldades e Fernando Pessoa, sendo um pensador nato, um operário da inteligência e sonhador da paz na ignorância, escreve por Campos, um dos mais pesados e sentidos poemas no seu todo, recordando a família e a casa, usando a comparação do passado com o presente julgando que, perdendo os princípios da sua infância, também lhe fora roubado tudo o resto.
“O que eu sou hoje é terem vendido a casa”/ É terem morrido todos, / É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio..."
Álvaro de Campos já não vive na sua casa, já não se senta e festeja o aniversário, tem uma vida diferente daquilo que merece ser chamada de vida. Na infância, apesar de muito aprendermos quando de sorriso aberto falam para nós, somos vítimas do próprio processo de crescimento, e em Campos a infância perdeu-se fazendo com que o poeta sentisse essa perda como a sua identidade feliz.
Quem sabe se, um dia, o tempo retrocede e conquista requintes que no presente julga reviver. No presente, não há mais aniversários “ Hoje já não faço anos” - resta ao poeta durar “Duro”, porque o pensamento o impede de ter a inconsciência de outrora. Sentir saudade do passado é, para Álvaro de Campos, enraizar a sua existência num dos maiores e maravilhosos períodos da vida, na Infância.
Filipa 12ºB
Este é um espaço para os meus alunos de Português... os que o são, os que o foram... os alunos da Escola Secundária de Barcelos... (e seus amigos que, se "vierem por bem", serão muito bem recebidos!)... Poderá vir a ser um ponto de encontro, onde a palavra escrita imperará, porque acreditamos, ao contrário de Torga, que escrever não é "um acto inútil"... inútil é calar.
quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
Aniversário
Publicada por
Fátima Inácio Gomes
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12:24 da manhã
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sexta-feira, 5 de dezembro de 2008
Escrever é Esquecer
Porque acabámos um pequeno trabalho sobre Fernando Pessoa, ou a maior parte acabou este trabalho, quem melhor do que Pessoa para expressar o seu sentimento acerca da Poesia?
Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. A música embala, as artes visuais animam, as artes vivas (como a dança e a arte de representar) entretêm. A primeira, porém, afasta-se da vida por fazer dela um sono; as segundas, contudo, não se afastam da vida - umas porque usam de fórmulas visíveis e portanto vitais, outras porque vivem da mesma vida humana. Não é o caso da literatura. Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso.
Bernardo Soares, in "Livro do Desassossego"
Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. A música embala, as artes visuais animam, as artes vivas (como a dança e a arte de representar) entretêm. A primeira, porém, afasta-se da vida por fazer dela um sono; as segundas, contudo, não se afastam da vida - umas porque usam de fórmulas visíveis e portanto vitais, outras porque vivem da mesma vida humana. Não é o caso da literatura. Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso.
Bernardo Soares, in "Livro do Desassossego"
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Posso ter defeitos

Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar algumas vezes irritado,
mas não esqueço que a minha vida é a maior empresa do mundo.
E posso evitar que ela vá à falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver,
apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e tornar-se autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis
no recôndito da tua alma.
É agradecer a Deus em cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo. É ter coragem para ouvir um “não”.
É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.
Pedras no caminho? Guardo-as todas, um dia vou construir um castelo…
Fernando Pessoa
Escolhi este poema de Fernando Pessoa porque desde a primeira vez que o li fiquei fascinado, apesar de não saber quem era o autor. Só mais tarde vim a descobrir que esta era mais uma obra de Pessoa.
Em algumas das fases menos boas da nossa vida, quando tudo parece correr mal e nos vitimizamos e nos martirizamos, pensamos nos “porquês” - “Porquê eu?”; “Porquê a mim?”; “Que mal é que eu fiz para merecer isto?”…
E andamos a pensar, a remexer tudo vezes sem conta, num “ciclo vicioso de porquês”. No entanto, a atitude que devemos ter é [deve ser] igual à que Pessoa descreve: ”Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e tornar-se autor da própria história”. Vitimizarmo-nos só serve para nos deixar “no fundo do poço” e não nos leva a lado nenhum. Devemos levantar a cabeça e recolher forças nas coisas boas que nos aconteceram, e recolher todas as pedras que temos no caminho, para que um dia, também nós possamos construir um castelo. O nosso castelo.
E, para acabar, pegando nas palavras de Pessoa: “Mas não esqueço que a minha vida é a maior empresa do mundo. E posso evitar que ela vá à falência”. Só pensamentos positivos atraem as coisas positivas.
Ivan Torres 12ºB
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quinta-feira, 4 de dezembro de 2008
Caeiro versão sec. XXI - liga dos últimos
.
"É preciso Ber! Ber!"
--> min 1:44
"É preciso Ber! Ber!"
--> min 1:44
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quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
Poema em Linha Recta
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,
Para fora da possiblidade do soco;
Eu que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu que verifico que não tenho par nisto neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo,
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu um enxovalho,
Nunca foi senão - princípe - todos eles princípes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana,
Quem confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que, contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó princípes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde há gente no mundo?
Então só eu que é vil e erróneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
[texto ainda por editar, pela professora]
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,
Para fora da possiblidade do soco;
Eu que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu que verifico que não tenho par nisto neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo,
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu um enxovalho,
Nunca foi senão - princípe - todos eles princípes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana,
Quem confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que, contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó princípes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde há gente no mundo?
Então só eu que é vil e erróneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Álvaro de Campos
Bastou-me ler os dois primeiros versos para o escolher. Gostei logo desta primeira confissão. Daí para a frente foi só deparar-me com uma realidade muito actual.
Álvaro de Campos sentia-se sozinho, achava-se muito diferente em relação ao homem comum e, demonstrou-o aqui, radicalmente.
Começo por referir que errar é o que de mais humano há. O problema é que nem todos pensamos assim e então fingimos que fazemos tudo bem, que somos muito inocentes e que somos perfeitos. Mas não existe perfeição, portanto não devíamos ter medo de admitir que erramos, que fazemos asneiras. Quantas vezes acontece de estragarmos algo quando ninguém está a ver e então voltamos a pôr tudo no seu devido lugar, na esperança de que as culpas não recaiam sobre nós?! Também já me aconteceu a mim.
É triste pensar que somos o que de mais vil há e que só os outros são príncipes. Mas para quem ainda pensa assim, é importante referir que há alturas para tudo. Há uma altura em que somos príncipes, uma altura em que somos insignificantes, uma altura em que somos reles, uma altura em que somos hipócritas, outra em que negamos a hipocrisia e passamos a ser verdadeiros. Depois, cada um escolhe como quer ser, como quer ficar.
Aprecio imenso a verdade, e como tal gostei do facto de Campos ter admitido todos os seus problemas, toda a sua sujidade. Nem todos temos coragem para admitir que burlamos os outros, que somos ridículos. Mas mesmo assim ele fá-lo e apela a que os outros o façam.
"Quem me dera ouvir de alguém a voz humana" diz ele. Esta voz humana ainda é pouco recorrente. É pena. Neste poema, Álvaro de Campos, ironicamente, passa a ser superior pois é o único capaz de se mostrar vil e erróneo, sem titubear.
Acabo agora com a moral, não da história, mas sim do poema: "Os pobres da humanidade não são quem erra, mas quem não tem coragem para admitir que errou!".
Sara Vila-Chã 12ºC
[texto ainda por editar, pela professora]
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terça-feira, 2 de dezembro de 2008
Tomamos a Vila depois de um Intenso Bombardeamento
A criança loura
Jaz no meio da rua.
Tem as tripas de fora
E por uma corda sua
Um comboio que ignora.
A cara está um feixe
De sangue e de nada.
Luz um pequeno peixe —
Dos que bóiam nas banheiras —
À beira da estrada.
Cai sobre a estrada o escuro.
Longe, ainda uma luz doura
A criação do futuro...
E o da criança loura?
Que escolhêssemos um que não estivesse no livro (mas que curiosamente se encontra no verso da folha do seu semelhante que tanto amo*), sem critério de selecção de autor, ortónimo, heterónimo – indiferente. Um. Que nos escolhesse, a nós.
Não, este não me escolheu. Escolhi-o eu entre os demais, não por haver uma identificação piegas-pessoal, não por ser mais ou menos academicamente enquadrado nas temáticas, não por ser linguisticamente belo (até porque a rima é musicalmente descoordenada), nem mesmo por identificação por oposição.
É verdade que comemos também com os olhos, e eu quase devorei papel de encantamento pelo título. Palavra(!): é gigante, atípico e Histórico… e nada esclarecedor.
Eis que num encolher de ombros, e induzida em erro, deixei que os cabelos louros se reflectissem na minha íris, o que não durou mais do que um verso, porque Pessoa não deixa, porque os cabelos que não respiram não brilham, e o sangue que perfilha a glória dos heróis de Homero, não é o mesmo imundo e rasteiro da estrada da Vila.
Não intento alongar-me a expor uma interpretação cuidada, uma defesa acérrima do poema…mas há impressões ressaltam – o comboio que a criança ignora, que sendo a sua consciência ou não, está impregnado de movimento e velocidade até ao tutano; o peixe, que mais vivo que a criança, carecendo da vida desta, permanece à beira da estrada; a última estrofe, no seu todo, sugestiva de um futuro que provém de uma luz que Ainda doura.
“E o da criança loura?” Com este verso, acrescento e concluo que o Ortónimo me deixou um gosto requintado na boca: quase com maldade, ou apenas desalento, remete o seu olhar (e o meu também), uma última vez, para a criança anómica, suspirando.
*O menino de sua mãe
[texto por editar pela professora]
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Ontem à tarde um homem das cidades

Ontem à tarde um homem das cidades
Falava à porta da estalagem.
Falava comigo também.
Falava da justiça e da luta para haver justiça
E dos operários que sofrem,
E do trabalho constante, e dos que têm fome,
E dos ricos, que só têm costas para isso.
E, olhando para mim, viu-me lágrimas nos olhos
E sorriu com agrado, julgando que eu sentia
O ódio que ele sentia, e a compaixão
Que ele dizia que sentia.
(Mas eu mal o estava ouvindo.
Que me importam a mim os homens
E o que sofrem ou supõem que sofrem?
Sejam como eu — não sofrerão.
Todo o mal do mundo vem de nos importarmos uns com os outros,
Quer para fazer bem, quer para fazer mal.
A nossa alma e o céu e a terra bastam-nos.
Querer mais é perder isto, e ser infeliz.)
Eu no que estava pensando
Quando o amigo de gente falava
(E isso me comoveu até às lágrimas),
Era em como o murmúrio longínquo dos chocalhos
A esse entardecer
Não parecia os sinos duma capela pequenina
A que fossem à missa as flores e os regatos
E as almas simples como a minha.
(Louvado seja Deus que não sou bom,
E tenho o egoísmo natural das flores
E dos rios que seguem o seu caminho
Preocupados sem o saber
Só com florir e ir correndo.
É essa a única missão no Mundo,
Essa — existir claramente,
E saber faze-lo sem pensar nisso.
E o homem calara-se, olhando o poente.
Mas que tem com o poente quem odeia e ama?
Alberto Caeiro
Opinião Pessoal
Escolhi este poema porque apreciei a perspectiva do poeta em relação á sociedade, ao modo descreve a relação do Homem na sua época.
O poeta fala de um homem que, em jeito de desabafo, relata a situação desconfortável em que vivem as pessoas com menos posses. Alberto Caeiro é enigmático, embora seja um poeta com pouca instrução é um homem obscuro e oculto, é um homem da natureza e diz que quando pensa isso causa-lhe complexidade e desconforto mental.
Como tal o poeta só quer viver no que é belo e simples. E foi o que mais me impressionou no poema, foi a forma como Caeiro, de certa forma, solucionou os graves problemas que incomodavam a sociedade dessa altura, embora para Caeiro obscuros e ocultos. O Mestre “pediu” para as pessoas só se preocuparem com a sua vida com o seu caminho e mais importante, fazer isso bem e “sem pensar muito nisso”.
Tiago Pereira, 12ºC
[texto por editar pela professora]
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Cansaço

O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço...
Álvaro de Campos
Por que razão escolhi eu este poema para postar no maravilhoso blogue (graxa!) da nossa tão querida professora (olha?! Mais graxa!)?
A resposta a essa pergunta pode ser dividida em duas partes:
Primeiro, o poema cujo tema era o prazer de não fazer um dever já tinha sido reclamado, e eu gosto de ser original;
Segundo, o que havia em mim era mesmo cansaço, aliás, o que há em mim, neste momento é cansaço, porque, parecendo que não, escolher um poema entre as centenas, senão milhares, de escritos Fernando Pessoa, cansa.
Eu sei que há pessoas que esperavam alguma coisa mais profunda e mais poética. Mas querem algo mais poético do que a verdade, ela mesma poesia? (deixem-me adivinhar. Sim!)
Eu tenho reparado que a maior parte das pessoas fazem análises extensivas ao poema. Eu não. Até porque eu não percebo nada de poesia, e, sinceramente, não tenho interesse neste tipo de escrita. Por isso vou só focar um ou outro aspecto interessante (ou não tão interessante assim) deste poema.
Posso começar por focar cansaço provocado pelas sensações inúteis, nomeadamente, as paixões ardentes e coisas tais, mas eu posso acrescentar, neste contexto, aquilo a que eu chamo: o poetismo extremo, que é um estado mental em que as pessoas vivem no que elas pensam ser um planeta cor-de-rosa poético-filosófico chamado jet-set. Uma conversa com essas pessoas soaria mais ou menos a isto:
- Eurecââââ! Des-co-briiiii?!
- Descobriste o quê? A solução para todos os problemas da Humanidade? Como dividir um ângulo em três com uma régua, um esquadro e um compasso?
- Não. Acabei de pensar na coisâ mâis fútil que o ser humano conseguirá pensareee.
- O quê? - Pergunta a personagem com uma impaciência conformada.
- Estar vievúu é o contrário de estar mortôôôô?!*
*(nota: algumas partes estão escritas em Lili-caneçiano)**
**(nota da nota: isto era totalmente desnecessário mas tenho de desviar a atenção da minha incapacidade de interpretar poemas)***
Mas continuando, eu acho que o que Álvaro de Campos queria dizer com cansaço era, mais a sensação de perda de tempo provocada por estes sentimentos de pura futilidade, que acaba por ser irritante e, até mesmo, cansativa.
Outra coisa que eu gostaria de focar era a felicidade que ele sente por se sentir cansado das coisas mencionadas no poema, que pode ser interpretada como uma sensação de liberdade. Uma liberdade provocada por saber que não é alguém que terá de andar a perseguir amores ardentes, ou a seguir filosofias fúteis. É uma sensação de gozo por nem sequer pensar o que é a vida, se está vivo, ou sequer, se é feliz assim.***
***(De notar que aguentei 625 palavras sem fazer qualquer critica à ministra da educação)
Tiago Cordeiro, 12º C
[texto por editar pela professora]
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Caeiro...
Alberto Caeiro, conhecido como o «mestre», entre os outros heterónimos, nasceu em Abril de 1889, em Lisboa, mas viveu grande parte da sua vida numa quinta no Ribatejo. Fez apenas a escolaridade primária, o que combina perfeitamente com a simplicidade e naturalidade da sua escrita, a sua vida foram os seus poemas. Caeiro aparece a Fernando Pessoa de forma espontânea, numa altura em que Pessoa se debatia com a necessidade de ultrapassar o paúlismo (define-se pela voluntária confusão do subjectivo e do objectivo, «associação de ideias desconexas», frases nominais, exclamativas, pelas aberrações da sintaxe, vocabulário expressivo de tédio, vazio da alma, pelo uso de maiúsculas que traduzem a profundidade espiritual de certas palavras), o subjectivismo (trata-se de um sistema filosófico que não admite outra realidade se não a realidade do ser pensante), e o misticismo (Crença numa ordem de realidades sobrenaturais e na possibilidade de uma união íntima e directa com Deus). É nesse momento conflituoso que aparece, e se “ri” desses misticismos, reage contra o ocultismo, nega o transcendental, defendendo a sinceridade da produção poética, rejeita doutrinas e filosofias. É nesse mesmo dia que escreve por pura inspiração trinta e tal poemas, é a esse alguém aquém dá o nome de Alberto Caeiro.
O Único Mistério do Universo
O único mistério do Universo é o mais e não o menos.
Percebemos demais as cousas — eis o erro, a dúvida.
O que existe transcende para mim o que julgo que existe.
A Realidade é apenas real e não pensada.
_______________________________________
O Espelho
O espelho reflecte certo; não erra porque não pensa.
Pensar é essencialmente errar.
Errar é essencialmente estar cego e surdo.
______________________________________
Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol.
Ambos existem; cada um como é.
Escolhi para o meu trabalho estes três poemas de Alberto Caeiro, posso dizer que são dos meus predilectos, e justifico também por serem de pequenas dimensões. Gosto principalmente da forma como se expressa, directamente e sou adepta da sua simplicidade e espontaneidade.“O Único Mistério do Universo” pensar demais sobre o Universo é o que faz o mistério em seu torno, esse é o erro que faz permanecer a dúvida, a realidade é o que existe, o que vemos, não temos de pensar nem questiona-la, por isso ele diz no poema “O Espelho” que o espelho não erra pois ele mostra apenas a realidade, sem a questionar, para Alberto Caeiro pensar é estar surdo e essencialmente cego.
“Um Dia de Chuva”, o que mais gosto neste poema é que se o comparar com o ser humano, esse pensamento seria perfeito. Porquê distinguir o ser por ser mais belo ou menos belo? Todos existimos, e cada um é como é…
Por vezes gostaria de ser um pouco como Caeiro, os momentos de felicidade mais intensos são vividos, e não pensados.
Juliana Barroso, 12ºA
[texto por editar pela professora]
O Único Mistério do Universo
O único mistério do Universo é o mais e não o menos.
Percebemos demais as cousas — eis o erro, a dúvida.
O que existe transcende para mim o que julgo que existe.
A Realidade é apenas real e não pensada.
_______________________________________
O Espelho
O espelho reflecte certo; não erra porque não pensa.
Pensar é essencialmente errar.
Errar é essencialmente estar cego e surdo.
______________________________________
Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol.
Ambos existem; cada um como é.
Escolhi para o meu trabalho estes três poemas de Alberto Caeiro, posso dizer que são dos meus predilectos, e justifico também por serem de pequenas dimensões. Gosto principalmente da forma como se expressa, directamente e sou adepta da sua simplicidade e espontaneidade.“O Único Mistério do Universo” pensar demais sobre o Universo é o que faz o mistério em seu torno, esse é o erro que faz permanecer a dúvida, a realidade é o que existe, o que vemos, não temos de pensar nem questiona-la, por isso ele diz no poema “O Espelho” que o espelho não erra pois ele mostra apenas a realidade, sem a questionar, para Alberto Caeiro pensar é estar surdo e essencialmente cego.
“Um Dia de Chuva”, o que mais gosto neste poema é que se o comparar com o ser humano, esse pensamento seria perfeito. Porquê distinguir o ser por ser mais belo ou menos belo? Todos existimos, e cada um é como é…
Por vezes gostaria de ser um pouco como Caeiro, os momentos de felicidade mais intensos são vividos, e não pensados.
Juliana Barroso, 12ºA
[texto por editar pela professora]
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Ora até que enfim..., perfeitamente...

Ora até que enfim..., perfeitamente...
Cá está ela!
Tenho a loucura exactamente na cabeça.
Meu coração estourou como uma bomba de pataco,
E a minha cabeça teve o sobressalto pela espinha acima...
Graças a Deus estou doido!
Que tudo quanto dei me voltou em lixo,
E, como cuspo atirado ao vento,
Me dispersou pela cara livre!
Que tudo que fui se me atou aos pés,
Como a serapilheira para embrulhar coisa nenhuma!
Que tudo quanto pensei me faz cócegas na garganta
E me quer fazer vomitar sem eu ter comido nada!
Graças a Deus, porque, como na bebedeira,
Isto é uma solução,
Arre, encontrei uma solução, e foi preciso o estômago!
Encontrei uma verdade, senti-a com os intestinos!
Poesia transcendental, já a fiz também!
Grandes raptos líricos, também já por cá passaram!
A organização de poemas relativos à vastidão de cada assunto
resolvido com vários -
Também não é novidade.
Tenho vontade de vomitar, e de me vomitar a mim...
Tenho uma náusea que, se pudesse comer o universo
para o despejar comia-o.
Com esforço, mas era para bom fim.
Ao menos era para um fim.
E assim como sou não tenho fim nem vida...
Álvaro de Campos
Decidi escolher Álvaro de Campos, não é que não tenha gostado de Fernando Pessoa Ortónimo ou de Alberto Caeiro, até é pelo contrário, não me conseguia decidir no poema! Então desisti da ideia de escolher entre Mestre e Ortónimo para abrir horizontes a novos heterónimos! A partir do momento em que decidir procurar Álvaro de Campos, este poema foi uma escolha bastante fácil!
Não o escolhi porque me identifico com ele (ou pelos menos esta é a versão oficial e juro-a até à morte!), mas antes escolhi-o porque é simplesmente e loucamente genial! Tem uma visão bastante distorcida de realização pessoal, dá a ideia tresloucada de vida concretizada… ou não!
É quase um grito de libertação das convenções e das ideias pré concebidas de “como se deve viver!”; “o que devemos e não devemos esperar da vida!”… parece que tudo o que fazemos deve ter um fim e esse fim é a perfeição e nunca o lixo!!!
Mal comecei a ler este poema, deu-me uma enorme vontade de me levantar da cadeira, colocar o pé direito em cima dela e de mão ao peito, lê-lo a gritar! E esta foi a razão principal que me fez escolher este poema - por mexeu comigo. E um poema não precisa de ser belo ou de me descrever na perfeição para eu o escolher e gostar dele… precisa de ter aquele toque especial que não sei explicar, mas garanto que este poema tem!
Precisa de ser louco e de quebrar estereótipos.
Adorei este poema e gritei! Sabe muito bem, experimentem!
Daniela Santos, 12ºC
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