sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Posso ter defeitos






Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar algumas vezes irritado,
mas não esqueço que a minha vida é a maior empresa do mundo.
E posso evitar que ela vá à falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver,
apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e tornar-se autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis
no recôndito da tua alma.
É agradecer a Deus em cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo. É ter coragem para ouvir um “não”.
É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.
Pedras no caminho? Guardo-as todas, um dia vou construir um castelo…

Fernando Pessoa


Escolhi este poema de Fernando Pessoa porque desde a primeira vez que o li fiquei fascinado, apesar de não saber quem era o autor. Só mais tarde vim a descobrir que esta era mais uma obra de Pessoa.
Em algumas das fases menos boas da nossa vida, quando tudo parece correr mal e nos vitimizamos e nos martirizamos, pensamos nos “porquês” - “Porquê eu?”; “Porquê a mim?”; “Que mal é que eu fiz para merecer isto?”…
E andamos a pensar, a remexer tudo vezes sem conta, num “ciclo vicioso de porquês”. No entanto, a atitude que devemos ter é [deve ser] igual à que Pessoa descreve: ”Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e tornar-se autor da própria história”. Vitimizarmo-nos só serve para nos deixar “no fundo do poço” e não nos leva a lado nenhum. Devemos levantar a cabeça e recolher forças nas coisas boas que nos aconteceram, e recolher todas as pedras que temos no caminho, para que um dia, também nós possamos construir um castelo. O nosso castelo.

E, para acabar, pegando nas palavras de Pessoa: “Mas não esqueço que a minha vida é a maior empresa do mundo. E posso evitar que ela vá à falência”. Só pensamentos positivos atraem as coisas positivas.



Ivan Torres 12ºB

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Poema em Linha Recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,

Eu que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;

Eu, que tenho sido cómico criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,
Para fora da possiblidade do soco;
Eu que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu que verifico que não tenho par nisto neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo,
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu um enxovalho,
Nunca foi senão - princípe - todos eles princípes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana,
Quem confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que, contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Ó princípes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde há gente no mundo?

Então só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Álvaro de Campos


Bastou-me ler os dois primeiros versos para o escolher. Gostei logo desta primeira confissão. Daí para a frente foi só deparar-me com uma realidade muito actual.
Álvaro de Campos sentia-se sozinho, achava-se muito diferente em relação ao homem comum e, demonstrou-o aqui, radicalmente.
Começo por referir que errar é o que de mais humano há. O problema é que nem todos pensamos assim e então fingimos que fazemos tudo bem, que somos muito inocentes e que somos perfeitos. Mas não existe perfeição, portanto não devíamos ter medo de admitir que erramos, que fazemos asneiras. Quantas vezes acontece de estragarmos algo quando ninguém está a ver e então voltamos a pôr tudo no seu devido lugar, na esperança de que as culpas não recaiam sobre nós?! Também já me aconteceu a mim.
É triste pensar que somos o que de mais vil há e que só os outros são príncipes. Mas para quem ainda pensa assim, é importante referir que há alturas para tudo. Há uma altura em que somos príncipes, uma altura em que somos insignificantes, uma altura em que somos reles, uma altura em que somos hipócritas, outra em que negamos a hipocrisia e passamos a ser verdadeiros. Depois, cada um escolhe como quer ser, como quer ficar.
Aprecio imenso a verdade, e como tal gostei do facto de Campos ter admitido todos os seus problemas, toda a sua sujidade. Nem todos temos coragem para admitir que burlamos os outros, que somos ridículos. Mas mesmo assim ele fá-lo e apela a que os outros o façam.
"Quem me dera ouvir de alguém a voz humana" diz ele. Esta voz humana ainda é pouco recorrente. É pena. Neste poema, Álvaro de Campos, ironicamente, passa a ser superior pois é o único capaz de se mostrar vil e erróneo, sem titubear.
Acabo agora com a moral, não da história, mas sim do poema: "Os pobres da humanidade não são quem erra, mas quem não tem coragem para admitir que errou!".


Sara Vila-Chã 12ºC


[texto ainda por editar, pela professora]

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Tomamos a Vila depois de um Intenso Bombardeamento



A criança loura

Jaz no meio da rua.
Tem as tripas de fora
E por uma corda sua
Um comboio que ignora.

A cara está um feixe
De sangue e de nada.
Luz um pequeno peixe
Dos que bóiam nas banheiras —

À beira da estrada.

Cai sobre a estrada o escuro.
Longe, ainda uma luz doura
A criação do futuro...

E o da criança loura?


Que escolhêssemos um que não estivesse no livro (mas que curiosamente se encontra no verso da folha do seu semelhante que tanto amo*), sem critério de selecção de autor, ortónimo, heterónimo – indiferente. Um. Que nos escolhesse, a nós.

Não, este não me escolheu. Escolhi-o eu entre os demais, não por haver uma identificação piegas-pessoal, não por ser mais ou menos academicamente enquadrado nas temáticas, não por ser linguisticamente belo (até porque a rima é musicalmente descoordenada), nem mesmo por identificação por oposição.
É verdade que comemos também com os olhos, e eu quase devorei papel de encantamento pelo título. Palavra(!): é gigante, atípico e Histórico… e nada esclarecedor.
Eis que num encolher de ombros, e induzida em erro, deixei que os cabelos louros se reflectissem na minha íris, o que não durou mais do que um verso, porque Pessoa não deixa, porque os cabelos que não respiram não brilham, e o sangue que perfilha a glória dos heróis de Homero, não é o mesmo imundo e rasteiro da estrada da Vila.
Não intento alongar-me a expor uma interpretação cuidada, uma defesa acérrima do poema…mas há impressões ressaltam – o comboio que a criança ignora, que sendo a sua consciência ou não, está impregnado de movimento e velocidade até ao tutano; o peixe, que mais vivo que a criança, carecendo da vida desta, permanece à beira da estrada; a última estrofe, no seu todo, sugestiva de um futuro que provém de uma luz que Ainda doura.
“E o da criança loura?” Com este verso, acrescento e concluo que o Ortónimo me deixou um gosto requintado na boca: quase com maldade, ou apenas desalento, remete o seu olhar (e o meu também), uma última vez, para a criança anómica, suspirando.


*O menino de sua mãe




[texto por editar pela professora]

Ontem à tarde um homem das cidades





Ontem à tarde um homem das cidades
Falava à porta da estalagem.
Falava comigo também.
Falava da justiça e da luta para haver justiça
E dos operários que sofrem,
E do trabalho constante, e dos que têm fome,
E dos ricos, que só têm costas para isso.
E, olhando para mim, viu-me lágrimas nos olhos
E sorriu com agrado, julgando que eu sentia
O ódio que ele sentia, e a compaixão
Que ele dizia que sentia.

(Mas eu mal o estava ouvindo.
Que me importam a mim os homens
E o que sofrem ou supõem que sofrem?
Sejam como eu — não sofrerão.

Todo o mal do mundo vem de nos importarmos uns com os outros,
Quer para fazer bem, quer para fazer mal.
A nossa alma e o céu e a terra bastam-nos.
Querer mais é perder isto, e ser infeliz.)

Eu no que estava pensando
Quando o amigo de gente falava
(E isso me comoveu até às lágrimas),
Era em como o murmúrio longínquo dos chocalhos
A esse entardecer
Não parecia os sinos duma capela pequenina
A que fossem à missa as flores e os regatos
E as almas simples como a minha.

(Louvado seja Deus que não sou bom,
E tenho o egoísmo natural das flores
E dos rios que seguem o seu caminho
Preocupados sem o saber
Só com florir e ir correndo.
É essa a única missão no Mundo,
Essa — existir claramente,
E saber faze-lo sem pensar nisso.

E o homem calara-se, olhando o poente.
Mas que tem com o poente quem odeia e ama?



Alberto Caeiro





Opinião Pessoal


Escolhi este poema porque apreciei a perspectiva do poeta em relação á sociedade, ao modo descreve a relação do Homem na sua época.
O poeta fala de um homem que, em jeito de desabafo, relata a situação desconfortável em que vivem as pessoas com menos posses. Alberto Caeiro é enigmático, embora seja um poeta com pouca instrução é um homem obscuro e oculto, é um homem da natureza e diz que quando pensa isso causa-lhe complexidade e desconforto mental.
Como tal o poeta só quer viver no que é belo e simples. E foi o que mais me impressionou no poema, foi a forma como Caeiro, de certa forma, solucionou os graves problemas que incomodavam a sociedade dessa altura, embora para Caeiro obscuros e ocultos. O Mestre “pediu” para as pessoas só se preocuparem com a sua vida com o seu caminho e mais importante, fazer isso bem e “sem pensar muito nisso”.



Tiago Pereira, 12ºC

[texto por editar pela professora]

Cansaço


O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço...

Álvaro de Campos


Por que razão escolhi eu este poema para postar no maravilhoso blogue (graxa!) da nossa tão querida professora (olha?! Mais graxa!)?
A resposta a essa pergunta pode ser dividida em duas partes:
Primeiro, o poema cujo tema era o prazer de não fazer um dever já tinha sido reclamado, e eu gosto de ser original;
Segundo, o que havia em mim era mesmo cansaço, aliás, o que há em mim, neste momento é cansaço, porque, parecendo que não, escolher um poema entre as centenas, senão milhares, de escritos Fernando Pessoa, cansa.
Eu sei que há pessoas que esperavam alguma coisa mais profunda e mais poética. Mas querem algo mais poético do que a verdade, ela mesma poesia? (deixem-me adivinhar. Sim!)
Eu tenho reparado que a maior parte das pessoas fazem análises extensivas ao poema. Eu não. Até porque eu não percebo nada de poesia, e, sinceramente, não tenho interesse neste tipo de escrita. Por isso vou só focar um ou outro aspecto interessante (ou não tão interessante assim) deste poema.
Posso começar por focar cansaço provocado pelas sensações inúteis, nomeadamente, as paixões ardentes e coisas tais, mas eu posso acrescentar, neste contexto, aquilo a que eu chamo: o poetismo extremo, que é um estado mental em que as pessoas vivem no que elas pensam ser um planeta cor-de-rosa poético-filosófico chamado jet-set. Uma conversa com essas pessoas soaria mais ou menos a isto:
- Eurecââââ! Des-co-briiiii?!
- Descobriste o quê? A solução para todos os problemas da Humanidade? Como dividir um ângulo em três com uma régua, um esquadro e um compasso?
- Não. Acabei de pensar na coisâ mâis fútil que o ser humano conseguirá pensareee.
- O quê? - Pergunta a personagem com uma impaciência conformada.
- Estar vievúu é o contrário de estar mortôôôô?!*


*(nota: algumas partes estão escritas em Lili-caneçiano)**

**(nota da nota: isto era totalmente desnecessário mas tenho de desviar a atenção da minha incapacidade de interpretar poemas)***

Mas continuando, eu acho que o que Álvaro de Campos queria dizer com cansaço era, mais a sensação de perda de tempo provocada por estes sentimentos de pura futilidade, que acaba por ser irritante e, até mesmo, cansativa.
Outra coisa que eu gostaria de focar era a felicidade que ele sente por se sentir cansado das coisas mencionadas no poema, que pode ser interpretada como uma sensação de liberdade. Uma liberdade provocada por saber que não é alguém que terá de andar a perseguir amores ardentes, ou a seguir filosofias fúteis. É uma sensação de gozo por nem sequer pensar o que é a vida, se está vivo, ou sequer, se é feliz assim.***


***(De notar que aguentei 625 palavras sem fazer qualquer critica à ministra da educação)


Tiago Cordeiro, 12º C
[texto por editar pela professora]

Caeiro...

Alberto Caeiro, conhecido como o «mestre», entre os outros heterónimos, nasceu em Abril de 1889, em Lisboa, mas viveu grande parte da sua vida numa quinta no Ribatejo. Fez apenas a escolaridade primária, o que combina perfeitamente com a simplicidade e naturalidade da sua escrita, a sua vida foram os seus poemas. Caeiro aparece a Fernando Pessoa de forma espontânea, numa altura em que Pessoa se debatia com a necessidade de ultrapassar o paúlismo (define-se pela voluntária confusão do subjectivo e do objectivo, «associação de ideias desconexas», frases nominais, exclamativas, pelas aberrações da sintaxe, vocabulário expressivo de tédio, vazio da alma, pelo uso de maiúsculas que traduzem a profundidade espiritual de certas palavras), o subjectivismo (trata-se de um sistema filosófico que não admite outra realidade se não a realidade do ser pensante), e o misticismo (Crença numa ordem de realidades sobrenaturais e na possibilidade de uma união íntima e directa com Deus). É nesse momento conflituoso que aparece, e se “ri” desses misticismos, reage contra o ocultismo, nega o transcendental, defendendo a sinceridade da produção poética, rejeita doutrinas e filosofias. É nesse mesmo dia que escreve por pura inspiração trinta e tal poemas, é a esse alguém aquém dá o nome de Alberto Caeiro.



O Único Mistério do Universo
O único mistério do Universo é o mais e não o menos.
Percebemos demais as cousas — eis o erro, a dúvida.
O que existe transcende para mim o que julgo que existe.
A Realidade é apenas real e não pensada.

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O Espelho
O espelho reflecte certo; não erra porque não pensa.
Pensar é essencialmente errar.
Errar é essencialmente estar cego e surdo.


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Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol.
Ambos existem; cada um como é.



Escolhi para o meu trabalho estes três poemas de Alberto Caeiro, posso dizer que são dos meus predilectos, e justifico também por serem de pequenas dimensões. Gosto principalmente da forma como se expressa, directamente e sou adepta da sua simplicidade e espontaneidade.“O Único Mistério do Universo” pensar demais sobre o Universo é o que faz o mistério em seu torno, esse é o erro que faz permanecer a dúvida, a realidade é o que existe, o que vemos, não temos de pensar nem questiona-la, por isso ele diz no poema “O Espelho” que o espelho não erra pois ele mostra apenas a realidade, sem a questionar, para Alberto Caeiro pensar é estar surdo e essencialmente cego.
“Um Dia de Chuva”, o que mais gosto neste poema é que se o comparar com o ser humano, esse pensamento seria perfeito. Porquê distinguir o ser por ser mais belo ou menos belo? Todos existimos, e cada um é como é…
Por vezes gostaria de ser um pouco como Caeiro, os momentos de felicidade mais intensos são vividos, e não pensados.


Juliana Barroso, 12ºA


[texto por editar pela professora]

Ora até que enfim..., perfeitamente...



Ora até que enfim..., perfeitamente...
Cá está ela!
Tenho a loucura exactamente na cabeça.

Meu coração estourou como uma bomba de pataco,
E a minha cabeça teve o sobressalto pela espinha acima...

Graças a Deus estou doido!
Que tudo quanto dei me voltou em lixo,
E, como cuspo atirado ao vento,
Me dispersou pela cara livre!
Que tudo que fui se me atou aos pés,
Como a serapilheira para embrulhar coisa nenhuma!
Que tudo quanto pensei me faz cócegas na garganta
E me quer fazer vomitar sem eu ter comido nada!

Graças a Deus, porque, como na bebedeira,
Isto é uma solução,
Arre, encontrei uma solução, e foi preciso o estômago!
Encontrei uma verdade, senti-a com os intestinos!
Poesia transcendental, já a fiz também!
Grandes raptos líricos, também já por cá passaram!
A organização de poemas relativos à vastidão de cada assunto
resolvido com vários -
Também não é novidade.
Tenho vontade de vomitar, e de me vomitar a mim...
Tenho uma náusea que, se pudesse comer o universo
para o despejar comia-o.
Com esforço, mas era para bom fim.
Ao menos era para um fim.
E assim como sou não tenho fim nem vida...

Álvaro de Campos










Decidi escolher Álvaro de Campos, não é que não tenha gostado de Fernando Pessoa Ortónimo ou de Alberto Caeiro, até é pelo contrário, não me conseguia decidir no poema! Então desisti da ideia de escolher entre Mestre e Ortónimo para abrir horizontes a novos heterónimos! A partir do momento em que decidir procurar Álvaro de Campos, este poema foi uma escolha bastante fácil!
Não o escolhi porque me identifico com ele (ou pelos menos esta é a versão oficial e juro-a até à morte!), mas antes escolhi-o porque é simplesmente e loucamente genial! Tem uma visão bastante distorcida de realização pessoal, dá a ideia tresloucada de vida concretizada… ou não!
É quase um grito de libertação das convenções e das ideias pré concebidas de “como se deve viver!”; “o que devemos e não devemos esperar da vida!”… parece que tudo o que fazemos deve ter um fim e esse fim é a perfeição e nunca o lixo!!!
Mal comecei a ler este poema, deu-me uma enorme vontade de me levantar da cadeira, colocar o pé direito em cima dela e de mão ao peito, lê-lo a gritar! E esta foi a razão principal que me fez escolher este poema - por mexeu comigo. E um poema não precisa de ser belo ou de me descrever na perfeição para eu o escolher e gostar dele… precisa de ter aquele toque especial que não sei explicar, mas garanto que este poema tem!
Precisa de ser louco e de quebrar estereótipos.
Adorei este poema e gritei! Sabe muito bem, experimentem!


Daniela Santos, 12ºC

A Criança que fui chora na estrada


I
A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.

Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.

Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,

Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.

II
Dia a dia mudamos para quem
Amanhã não veremos. Hora a hora
Nosso diverso e sucessivo alguém
Desce uma vasta escadaria agora.

E uma multidão que desce, sem
Que um saiba de outros. Vejo-os meus e fora.
Ah, que horrorosa semelhança têm!
São um múltiplo mesmo que se ignora.

Olho-os. Nenhum sou eu, a todos sendo.
E a multidão engrossa, alheia a ver-me,
Sem que eu perceba de onde vai crescendo.

Sinto-os a todos dentro em mim mover-me,
E, inúmero, prolixo, vou descendo
Até passar por todos e perder-me.

III
Meu Deus! Meu Deus! Quem sou, que desconheço
O que sinto que sou? Quem quero ser
Mora, distante, onde meu ser esqueço,
Parte, remoto, para me não ter.


Fernando Pessoa, grande poeta e escritor português, foi um marco importantíssimo na literatura portuguesa, sendo até comparado a Luís Vaz de Camões. Escreveu várias obras e todas elas de grande importância e empenho por parte do poeta, pois poeta é aquele que consegue traduzir melhor por palavras aquilo que sentimos e não sabemos descrever e, em Pessoa, as suas obras são a sua biografia.

“Os poetas não têm biografia. Sua obra é a sua biografia. Pessoa, que duvidou sempre da realidade deste mundo, aprovaria sem vacilar que se fosse directamente aos seus poemas, esquecendo os incidentes e acidentes da sua existência terrestre. Nada na sua vida é surpreendente – nada, excepto os seus poemas.”
Octávio Paz, Fernando Pessoa, o desconhecido de si mesmo, Vega

Escolhi então este poema por ser, para mim, o supra-sumo, o grande, por se basear na infância, na nostalgia do bem perdido e do mundo fantástico da infância, que provoca angústia existencial, entre outros sentimentos. Este poema descreve, para mim, mais do que qualquer outro poema, o sentimento de Pessoa. Faz lembrar um outro menino, que também chorou, numa enorme estrada, que teve que percorrer.
A infância ocupa na obra (o que é mais do que evidente, neste poema) de Fernando Pessoa, uma firme harmonia entre a realidade e o mito. O poeta mostra ao mundo todo o potencial da sua experiência, ao não conseguir realizar-se, idealiza ainda mais o passado. A infância é sempre sinónima de inconsciência, segurança, pureza, felicidade, entre outras. As amarguras desse mundo, sentidas pelo poeta, desaparecem com a dor de saber que esse bem é irrecuperável e, por isso, o presente do poeta é marcado por uma forte saudade da infância perdida.
O poeta sente-se descontente por não ser mais do que é, deseja regressar ao tempo em que foi feliz e voltar a ser a criança que não pensa, só sente. A infância não desapareceu por completo, apenas está submersa na pessoa que é agora, à espera de ser recuperada, já que Pessoa decidiu ser diferente e abdicar dela. Porém, a criança, que deveria ser feliz, chora, ou seja, representa sofrimento e abandono indevido (oposição temporal).
Neste poema está descrito um sentimento de querer/vontade do sujeito poético em que se fala, na 1ª quadra, da nostalgia da infância. Na 2ª quadra, pode-se observar a imobilização psicológica por não encontrar a infância e, também, a condição/possibilidade de conseguir observar a infância perdida através do presente e, ao vê-la, poder recuperá-la ou encontrar um pouco dela em si.
Em termos de gramática, são usadas neste poema frases negativas e declarativas, com vocabulário simples, uso dos verbos copulativos [quais?] (que mostram a dúvida do sujeito poético ao longo do poema), e evidencia-se também a oposição temporal e a interrogativa retórica [onde?]. Estes são os termos gramaticais mais utilizados e evidentes neste poema.


“Querer não é poder. Quem pôde, quis antes de poder só depois de poder. Quem quer nunca há-de poder, porque se perde em querer.”
Fernando Pessoa

Natalia Pereira 12ºB

Para seres grande...

Para ser grande, sê inteiro

Para ser grande, sê inteiro: nada

Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és

No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda

Brilha, porque alta vive.

Ricardo Reis

Por mais difícil que tenha sido de encontrar um poema de Fernando Pessoa encontrei um que se enquadra perfeitamente comigo.

Para quê ficarmos pelo superficial se nos podemos entregar de corpo e alma a todo o tipo de situações? Boas ou más não interessa, o que importa é que sabemos o que fazemos da melhor maneira possível, porque no final só nos traz benefícios. Mas quais benefícios? Como o poema diz: “Assim em cada lago a lua toda/ Brilha, porque alta vive.”, ou seja, a solução está dentro de nós. Se temos a plena noção de que demos tudo por tudo para concretizar algo, por mais simples que seja, então a nossa consciência vai estar completamente tranquila, e é nessa altura que a lua que está dentro de nós vai brilhar lá no alto.

Como um poema tão pequeno nos diz tanto!

Ana Teresa, 12º C



[texto por editar pela professora]