terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Ontem à tarde um homem das cidades





Ontem à tarde um homem das cidades
Falava à porta da estalagem.
Falava comigo também.
Falava da justiça e da luta para haver justiça
E dos operários que sofrem,
E do trabalho constante, e dos que têm fome,
E dos ricos, que só têm costas para isso.
E, olhando para mim, viu-me lágrimas nos olhos
E sorriu com agrado, julgando que eu sentia
O ódio que ele sentia, e a compaixão
Que ele dizia que sentia.

(Mas eu mal o estava ouvindo.
Que me importam a mim os homens
E o que sofrem ou supõem que sofrem?
Sejam como eu — não sofrerão.

Todo o mal do mundo vem de nos importarmos uns com os outros,
Quer para fazer bem, quer para fazer mal.
A nossa alma e o céu e a terra bastam-nos.
Querer mais é perder isto, e ser infeliz.)

Eu no que estava pensando
Quando o amigo de gente falava
(E isso me comoveu até às lágrimas),
Era em como o murmúrio longínquo dos chocalhos
A esse entardecer
Não parecia os sinos duma capela pequenina
A que fossem à missa as flores e os regatos
E as almas simples como a minha.

(Louvado seja Deus que não sou bom,
E tenho o egoísmo natural das flores
E dos rios que seguem o seu caminho
Preocupados sem o saber
Só com florir e ir correndo.
É essa a única missão no Mundo,
Essa — existir claramente,
E saber faze-lo sem pensar nisso.

E o homem calara-se, olhando o poente.
Mas que tem com o poente quem odeia e ama?



Alberto Caeiro





Opinião Pessoal


Escolhi este poema porque apreciei a perspectiva do poeta em relação á sociedade, ao modo descreve a relação do Homem na sua época.
O poeta fala de um homem que, em jeito de desabafo, relata a situação desconfortável em que vivem as pessoas com menos posses. Alberto Caeiro é enigmático, embora seja um poeta com pouca instrução é um homem obscuro e oculto, é um homem da natureza e diz que quando pensa isso causa-lhe complexidade e desconforto mental.
Como tal o poeta só quer viver no que é belo e simples. E foi o que mais me impressionou no poema, foi a forma como Caeiro, de certa forma, solucionou os graves problemas que incomodavam a sociedade dessa altura, embora para Caeiro obscuros e ocultos. O Mestre “pediu” para as pessoas só se preocuparem com a sua vida com o seu caminho e mais importante, fazer isso bem e “sem pensar muito nisso”.



Tiago Pereira, 12ºC

[texto por editar pela professora]

Cansaço


O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço...

Álvaro de Campos


Por que razão escolhi eu este poema para postar no maravilhoso blogue (graxa!) da nossa tão querida professora (olha?! Mais graxa!)?
A resposta a essa pergunta pode ser dividida em duas partes:
Primeiro, o poema cujo tema era o prazer de não fazer um dever já tinha sido reclamado, e eu gosto de ser original;
Segundo, o que havia em mim era mesmo cansaço, aliás, o que há em mim, neste momento é cansaço, porque, parecendo que não, escolher um poema entre as centenas, senão milhares, de escritos Fernando Pessoa, cansa.
Eu sei que há pessoas que esperavam alguma coisa mais profunda e mais poética. Mas querem algo mais poético do que a verdade, ela mesma poesia? (deixem-me adivinhar. Sim!)
Eu tenho reparado que a maior parte das pessoas fazem análises extensivas ao poema. Eu não. Até porque eu não percebo nada de poesia, e, sinceramente, não tenho interesse neste tipo de escrita. Por isso vou só focar um ou outro aspecto interessante (ou não tão interessante assim) deste poema.
Posso começar por focar cansaço provocado pelas sensações inúteis, nomeadamente, as paixões ardentes e coisas tais, mas eu posso acrescentar, neste contexto, aquilo a que eu chamo: o poetismo extremo, que é um estado mental em que as pessoas vivem no que elas pensam ser um planeta cor-de-rosa poético-filosófico chamado jet-set. Uma conversa com essas pessoas soaria mais ou menos a isto:
- Eurecââââ! Des-co-briiiii?!
- Descobriste o quê? A solução para todos os problemas da Humanidade? Como dividir um ângulo em três com uma régua, um esquadro e um compasso?
- Não. Acabei de pensar na coisâ mâis fútil que o ser humano conseguirá pensareee.
- O quê? - Pergunta a personagem com uma impaciência conformada.
- Estar vievúu é o contrário de estar mortôôôô?!*


*(nota: algumas partes estão escritas em Lili-caneçiano)**

**(nota da nota: isto era totalmente desnecessário mas tenho de desviar a atenção da minha incapacidade de interpretar poemas)***

Mas continuando, eu acho que o que Álvaro de Campos queria dizer com cansaço era, mais a sensação de perda de tempo provocada por estes sentimentos de pura futilidade, que acaba por ser irritante e, até mesmo, cansativa.
Outra coisa que eu gostaria de focar era a felicidade que ele sente por se sentir cansado das coisas mencionadas no poema, que pode ser interpretada como uma sensação de liberdade. Uma liberdade provocada por saber que não é alguém que terá de andar a perseguir amores ardentes, ou a seguir filosofias fúteis. É uma sensação de gozo por nem sequer pensar o que é a vida, se está vivo, ou sequer, se é feliz assim.***


***(De notar que aguentei 625 palavras sem fazer qualquer critica à ministra da educação)


Tiago Cordeiro, 12º C
[texto por editar pela professora]

Caeiro...

Alberto Caeiro, conhecido como o «mestre», entre os outros heterónimos, nasceu em Abril de 1889, em Lisboa, mas viveu grande parte da sua vida numa quinta no Ribatejo. Fez apenas a escolaridade primária, o que combina perfeitamente com a simplicidade e naturalidade da sua escrita, a sua vida foram os seus poemas. Caeiro aparece a Fernando Pessoa de forma espontânea, numa altura em que Pessoa se debatia com a necessidade de ultrapassar o paúlismo (define-se pela voluntária confusão do subjectivo e do objectivo, «associação de ideias desconexas», frases nominais, exclamativas, pelas aberrações da sintaxe, vocabulário expressivo de tédio, vazio da alma, pelo uso de maiúsculas que traduzem a profundidade espiritual de certas palavras), o subjectivismo (trata-se de um sistema filosófico que não admite outra realidade se não a realidade do ser pensante), e o misticismo (Crença numa ordem de realidades sobrenaturais e na possibilidade de uma união íntima e directa com Deus). É nesse momento conflituoso que aparece, e se “ri” desses misticismos, reage contra o ocultismo, nega o transcendental, defendendo a sinceridade da produção poética, rejeita doutrinas e filosofias. É nesse mesmo dia que escreve por pura inspiração trinta e tal poemas, é a esse alguém aquém dá o nome de Alberto Caeiro.



O Único Mistério do Universo
O único mistério do Universo é o mais e não o menos.
Percebemos demais as cousas — eis o erro, a dúvida.
O que existe transcende para mim o que julgo que existe.
A Realidade é apenas real e não pensada.

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O Espelho
O espelho reflecte certo; não erra porque não pensa.
Pensar é essencialmente errar.
Errar é essencialmente estar cego e surdo.


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Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol.
Ambos existem; cada um como é.



Escolhi para o meu trabalho estes três poemas de Alberto Caeiro, posso dizer que são dos meus predilectos, e justifico também por serem de pequenas dimensões. Gosto principalmente da forma como se expressa, directamente e sou adepta da sua simplicidade e espontaneidade.“O Único Mistério do Universo” pensar demais sobre o Universo é o que faz o mistério em seu torno, esse é o erro que faz permanecer a dúvida, a realidade é o que existe, o que vemos, não temos de pensar nem questiona-la, por isso ele diz no poema “O Espelho” que o espelho não erra pois ele mostra apenas a realidade, sem a questionar, para Alberto Caeiro pensar é estar surdo e essencialmente cego.
“Um Dia de Chuva”, o que mais gosto neste poema é que se o comparar com o ser humano, esse pensamento seria perfeito. Porquê distinguir o ser por ser mais belo ou menos belo? Todos existimos, e cada um é como é…
Por vezes gostaria de ser um pouco como Caeiro, os momentos de felicidade mais intensos são vividos, e não pensados.


Juliana Barroso, 12ºA


[texto por editar pela professora]

Ora até que enfim..., perfeitamente...



Ora até que enfim..., perfeitamente...
Cá está ela!
Tenho a loucura exactamente na cabeça.

Meu coração estourou como uma bomba de pataco,
E a minha cabeça teve o sobressalto pela espinha acima...

Graças a Deus estou doido!
Que tudo quanto dei me voltou em lixo,
E, como cuspo atirado ao vento,
Me dispersou pela cara livre!
Que tudo que fui se me atou aos pés,
Como a serapilheira para embrulhar coisa nenhuma!
Que tudo quanto pensei me faz cócegas na garganta
E me quer fazer vomitar sem eu ter comido nada!

Graças a Deus, porque, como na bebedeira,
Isto é uma solução,
Arre, encontrei uma solução, e foi preciso o estômago!
Encontrei uma verdade, senti-a com os intestinos!
Poesia transcendental, já a fiz também!
Grandes raptos líricos, também já por cá passaram!
A organização de poemas relativos à vastidão de cada assunto
resolvido com vários -
Também não é novidade.
Tenho vontade de vomitar, e de me vomitar a mim...
Tenho uma náusea que, se pudesse comer o universo
para o despejar comia-o.
Com esforço, mas era para bom fim.
Ao menos era para um fim.
E assim como sou não tenho fim nem vida...

Álvaro de Campos










Decidi escolher Álvaro de Campos, não é que não tenha gostado de Fernando Pessoa Ortónimo ou de Alberto Caeiro, até é pelo contrário, não me conseguia decidir no poema! Então desisti da ideia de escolher entre Mestre e Ortónimo para abrir horizontes a novos heterónimos! A partir do momento em que decidir procurar Álvaro de Campos, este poema foi uma escolha bastante fácil!
Não o escolhi porque me identifico com ele (ou pelos menos esta é a versão oficial e juro-a até à morte!), mas antes escolhi-o porque é simplesmente e loucamente genial! Tem uma visão bastante distorcida de realização pessoal, dá a ideia tresloucada de vida concretizada… ou não!
É quase um grito de libertação das convenções e das ideias pré concebidas de “como se deve viver!”; “o que devemos e não devemos esperar da vida!”… parece que tudo o que fazemos deve ter um fim e esse fim é a perfeição e nunca o lixo!!!
Mal comecei a ler este poema, deu-me uma enorme vontade de me levantar da cadeira, colocar o pé direito em cima dela e de mão ao peito, lê-lo a gritar! E esta foi a razão principal que me fez escolher este poema - por mexeu comigo. E um poema não precisa de ser belo ou de me descrever na perfeição para eu o escolher e gostar dele… precisa de ter aquele toque especial que não sei explicar, mas garanto que este poema tem!
Precisa de ser louco e de quebrar estereótipos.
Adorei este poema e gritei! Sabe muito bem, experimentem!


Daniela Santos, 12ºC

A Criança que fui chora na estrada


I
A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.

Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.

Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,

Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.

II
Dia a dia mudamos para quem
Amanhã não veremos. Hora a hora
Nosso diverso e sucessivo alguém
Desce uma vasta escadaria agora.

E uma multidão que desce, sem
Que um saiba de outros. Vejo-os meus e fora.
Ah, que horrorosa semelhança têm!
São um múltiplo mesmo que se ignora.

Olho-os. Nenhum sou eu, a todos sendo.
E a multidão engrossa, alheia a ver-me,
Sem que eu perceba de onde vai crescendo.

Sinto-os a todos dentro em mim mover-me,
E, inúmero, prolixo, vou descendo
Até passar por todos e perder-me.

III
Meu Deus! Meu Deus! Quem sou, que desconheço
O que sinto que sou? Quem quero ser
Mora, distante, onde meu ser esqueço,
Parte, remoto, para me não ter.


Fernando Pessoa, grande poeta e escritor português, foi um marco importantíssimo na literatura portuguesa, sendo até comparado a Luís Vaz de Camões. Escreveu várias obras e todas elas de grande importância e empenho por parte do poeta, pois poeta é aquele que consegue traduzir melhor por palavras aquilo que sentimos e não sabemos descrever e, em Pessoa, as suas obras são a sua biografia.

“Os poetas não têm biografia. Sua obra é a sua biografia. Pessoa, que duvidou sempre da realidade deste mundo, aprovaria sem vacilar que se fosse directamente aos seus poemas, esquecendo os incidentes e acidentes da sua existência terrestre. Nada na sua vida é surpreendente – nada, excepto os seus poemas.”
Octávio Paz, Fernando Pessoa, o desconhecido de si mesmo, Vega

Escolhi então este poema por ser, para mim, o supra-sumo, o grande, por se basear na infância, na nostalgia do bem perdido e do mundo fantástico da infância, que provoca angústia existencial, entre outros sentimentos. Este poema descreve, para mim, mais do que qualquer outro poema, o sentimento de Pessoa. Faz lembrar um outro menino, que também chorou, numa enorme estrada, que teve que percorrer.
A infância ocupa na obra (o que é mais do que evidente, neste poema) de Fernando Pessoa, uma firme harmonia entre a realidade e o mito. O poeta mostra ao mundo todo o potencial da sua experiência, ao não conseguir realizar-se, idealiza ainda mais o passado. A infância é sempre sinónima de inconsciência, segurança, pureza, felicidade, entre outras. As amarguras desse mundo, sentidas pelo poeta, desaparecem com a dor de saber que esse bem é irrecuperável e, por isso, o presente do poeta é marcado por uma forte saudade da infância perdida.
O poeta sente-se descontente por não ser mais do que é, deseja regressar ao tempo em que foi feliz e voltar a ser a criança que não pensa, só sente. A infância não desapareceu por completo, apenas está submersa na pessoa que é agora, à espera de ser recuperada, já que Pessoa decidiu ser diferente e abdicar dela. Porém, a criança, que deveria ser feliz, chora, ou seja, representa sofrimento e abandono indevido (oposição temporal).
Neste poema está descrito um sentimento de querer/vontade do sujeito poético em que se fala, na 1ª quadra, da nostalgia da infância. Na 2ª quadra, pode-se observar a imobilização psicológica por não encontrar a infância e, também, a condição/possibilidade de conseguir observar a infância perdida através do presente e, ao vê-la, poder recuperá-la ou encontrar um pouco dela em si.
Em termos de gramática, são usadas neste poema frases negativas e declarativas, com vocabulário simples, uso dos verbos copulativos [quais?] (que mostram a dúvida do sujeito poético ao longo do poema), e evidencia-se também a oposição temporal e a interrogativa retórica [onde?]. Estes são os termos gramaticais mais utilizados e evidentes neste poema.


“Querer não é poder. Quem pôde, quis antes de poder só depois de poder. Quem quer nunca há-de poder, porque se perde em querer.”
Fernando Pessoa

Natalia Pereira 12ºB

Para seres grande...

Para ser grande, sê inteiro

Para ser grande, sê inteiro: nada

Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és

No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda

Brilha, porque alta vive.

Ricardo Reis

Por mais difícil que tenha sido de encontrar um poema de Fernando Pessoa encontrei um que se enquadra perfeitamente comigo.

Para quê ficarmos pelo superficial se nos podemos entregar de corpo e alma a todo o tipo de situações? Boas ou más não interessa, o que importa é que sabemos o que fazemos da melhor maneira possível, porque no final só nos traz benefícios. Mas quais benefícios? Como o poema diz: “Assim em cada lago a lua toda/ Brilha, porque alta vive.”, ou seja, a solução está dentro de nós. Se temos a plena noção de que demos tudo por tudo para concretizar algo, por mais simples que seja, então a nossa consciência vai estar completamente tranquila, e é nessa altura que a lua que está dentro de nós vai brilhar lá no alto.

Como um poema tão pequeno nos diz tanto!

Ana Teresa, 12º C



[texto por editar pela professora]

O Binómio de Newton...



O Binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo.
O que há é pouca gente para dar por isso.

óóóó - óóóóóóóóó - óóóóóóóóóóóóóóó
(O vento lá fora.)

Álvaro de Campos

Após ler uma série de poemas de Pessoa Ortónimo e dos seus vários heterónimos, deparei-me com este pequeno poema de Álvaro de Campos. À primeira vista achei esta comparação, do Binómio de Newton com a Vénus de Milo um pouco estranha, contudo o homem no seu esforço constante de compreender o universo acabou por criar uma ciência tão complexa e exacta que pode ser considerada mais divina que humana, a Matemática. Não é de admirar que alguns matemáticos cheguem mesmo a afirmar que têm como principal objectivo desenvolver a beleza e não a utilidade de um determinado teorema, tal como disse Hermann Weyl: "o meu trabalho sempre tentou unir o verdadeiro e o belo, mas, quando tive de escolher entre um e o outro, escolhi normalmente o belo."


O problema é que esta beleza que reside na matemática pode não ser visível aos olhos de toda a gente, aquilo que para um matemático pode parecer magnífico pode não ter qualquer valor artístico para outra pessoa. Pode até admitir que tem alguma funcionalidade ou até que tem uma boa estrutura, mas quanto a sua beleza, existirão várias dúvidas. É claro que isto não sucede apenas na matemática, em qualquer outra arte podem existir várias opiniões sobre a mesma obra. O mesmo quadro pode ser considerado fantástico por uns e ao mesmo tempo ser considerado horrível ou ridículo por outros. Penso que é exactamente a isto que Campos se refere com o poema, que a matemática tem o mesmo valor artístico que qualquer outra forma de arte é apenas diferente.

Carlos Fitas

12ºC



[texto por editar pela professora]

Já não me importo


 
Já não me importo
Até com o que amo ou creio amar.
Sou um navio que chegou a um porto
E cujo movimento é ali estar.
 
Nada me resta
Do que quis ou achei.
Cheguei da festa
Como fui para lá ou ainda irei
 
Indiferente
A quem sou ou suponho que mal sou,
 
Fito a gente
Que me rodeia e sempre rodeou,
 
Com um olhar
Que, sem o poder ver,
Sei que é sem ar
De olhar a valer.

E só me não cansa
O que a brisa me traz
De súbita mudança
No que nada me faz.
 
Fernando Pessoa


A escolha deste poema não foi em vão! Optei por “trabalhar” um poema de Fernando Pessoa Ortónimo pois já estou habituada á sua capacidade de racionalização, e confesso que toda a simplicidade de Alberto Caeiro, único heterónimo de Pessoa até agora estudado por nós, me deixa um tanto ou quanto baralhada, não só por o achar contraditório, mas também pelo facto de já estar habituada, de certa forma a racionalizar tudo, no que diz respeito á poesia pessoana.
Inicialmente quando li este poema não me tinha apercebido das suas características pouco comuns relativamente ao estilo “típico” de Ortónimo, mais tarde apercebi-me de que este apresenta alguns versos longos, e para além de quadras (marcas da lírica tradicional) com rima cruzada apresenta também dísticos, no entanto apresenta outras características mais presentes na poesia de Ortónimo como uma certa musicalidade, o ritmo marcado, bem como o uso de uma linguagem simples. Depois de confirmada a sua autenticidade, decidi que iria “trabalhar” pois esta dúvida inicial poderia ser bastante útil para reconhecer outros poemas de Fernando Pessoa Ortónimo que não apresentassem a estrutura comum da sua poesia.
Este poema demonstra logo de início, o desinteresse do sujeito poético por tudo, revelando alguma indiferença ao que acontece á sua volta, remetendo-nos assim para o desânimo, o tédio e a frustração.
O sujeito poético começa por se identificar com um navio que chegou ao porto e cujo movimento que lhe resta é ali estar. Neste contexto, o porto, pode ser identificado como o destino. No entanto, este destino acaba por se revelar um “não-destino” pois fica atracado á desilusão deste sentimento de incompletude perante um projecto falhado.
Sem destino, limita-se a ser indiferente a tudo e a todos, passando assim por uma angústia existencial. O desinteresse por tudo o que o rodeia é mais evidente, essencialmente na penúltima estrofe, quando o poeta diz que o seu olhar «é sem ar/ de olhar a valer», pretende com isto mostrar que está a olhar apenas por olhar, pois não encontra nada que desperte a sua atenção, ou seja, está presente mas não está a prestar atenção ao que se está a passar á sua volta. Esta é das únicas coisas com que me identifico neste poema, pois de certa forma ás vezes também me acontece o mesmo, ficando a “navegar” no pensamento não prestando atenção que supostamente estamos a ver, ou ao que nos está a ser contado.
Na última estrofe podemos concluir, baseado nos versos, “e só não me cansa/ o que a brisa me traz”, que ao poeta tudo o cansa. O tédio está constantemente presente neste poema, no entanto é de realçar que não se encontra a vontade do próprio sujeito poético em lutar contra este tédio, assim, em vez de viver o tempo deixa-se viver por ele.



Eduarda Silva Correia, 12º.A

[texto por editar pela professora]

Não, não é cansaço...


Não, não é cansaço...

É uma quantidade de desilusão

Que se me entranha na espécie de pensar.

É um domingo às avessas

Do sentimento,

Um feriado passado no abismo...

Não, cansaço não é...

É eu estar existindo

E também o mundo,

Com tudo aquilo que contém,

Como tudo aquilo que nele se desdobra

E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.

Álvaro Campos

O poema que escolhi é um exemplo da fase decadentista que caracteriza o Campos. Tal e qual como Campos também sinto o cansaço da vida monocórdica, calendarizada sem escrúpulos, sem nada de novo apenas engrenagens e mais engrenagens que se vão amontoando e moendo umas as outras numa cadeia de eventos meticulosamente programados por um qualquer entidade (ou a falta dela) com uma agenda bem livre e pouca imaginação no que toca a variabilidade sensacional.

Assim como a Campos as coisas parecem-me não ter sabor de tantas vezes mastigadas ou sem cheiro de tantas vezes que já foram respiradas. Se bem que ao contrário do Campos que parecia não encontrar sentido par a vida eu encontro, o único problema é que o caminho parece demasiado desenxabido e homogéneo. As flores estão lá mas todas da mesma cor…assim como tudo o que não tem cor e que para mim parece ter a mesma cor, que é a mesma que as flores…



Tiago Faria, 12ºC

[texto por editar pela professora]

A Noite é Muito Escura



É noite. A noite é muito escura. Numa casa a uma grande distância
Brilha a luz duma janela.
Vejo-a, e sinto-me humano dos pés à cabeça.
É curioso que toda a vida do indivíduo que ali mora, e que não sei quem é,
Atrai-me só por essa luz vista de longe.
Sem dúvida que a vida dele é real e ele tem cara, gestos, família e profissão.

Mas agora só me importa a luz da janela dele.
Apesar de a luz estar ali por ele a ter acendido,
A luz é a realidade imediata para mim.
Eu nunca passo para além da realidade imediata.
Para além da realidade imediata não há nada.
Se eu, de onde estou, só veio aquela luz,
Em relação à distância onde estou há só aquela luz.
O homem e a família dele são reais do lado de lá da janela.
Eu estou do lado de cá, a uma grande distância.
A luz apagou-se.
Que me importa que o homem continue a existir?


Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"




Decidi
escolher este poema de um dos heterónimos de Fernando Pessoa, Alberto Caeiro, não por me identificar directamente com ele, mas sim por ter tido o privilégio de o ler e o ter apreciado imediatamente. A escolha por Alberto Caeiro foi propositada, devido a achar os seus poemas incrivelmente naturais e simples, levando-nos para um mundo que não parece nosso conhecido, devido à racionalização e comparação excessiva que os humanos tendem a fazer de tudo, mas que realmente é esse mesmo mundo, exterior, que nos rodeia. Caeiro tem este brilhante dom de nos fazer ver (e quando falo de ver, é ver realmente) aquilo que nós quando vemos tendemos de imediato a intelectualizar.

Quando o mestre Caeiro, refere no primeiro verso “É noite. A noite é muito escura.”, é quase como se o poeta estivesse a dizer que está triste por estar noite, pois a noite não o deixa ver a beleza da Natureza, que é tão prezada por este. Para se sentir feliz necessita de ver as cores vivas da luz. Ele procura essa mesma felicidade na luz de uma janela que se encontra a uma grande distância do centro dele. Caeiro, nitidamente, reage como um girassol, que por sua vez age por tropismo. Um girassol roda para onde estiver o sol, mesmo estando ele a uma distância bastante significativa. À noite o girassol não tem luz e por isso pára o seu movimento circular; enquanto que Caeiro agindo de um modo parecido, também, “pára”, ficando triste, porque a noite fá-lo pensar devido a não ter a irreflexão da luz para apenas o fazer ver a realidade das coisas.

Como é referido no verso nove “A luz é a realidade imediata para mim.”, a realidade para Caeiro não passa do momento presente, porque a luz o deixa ver o que é real ali naquele instante. Para que importa o passado e o futuro? O passado não vai além de uma recordação que trai a Natureza, pois a Natureza é a realidade verdadeira e pura daquele momento e se se pensar no que já passou, estaremos, de uma certa forma, a atraiçoá-la. O futuro não passa de um conjunto de meras ilusões e esperanças imaginadas e idealizadas. Quando o poeta diz que nunca passa da realidade imediata, ele refere-se a esta temática. Mostrando, também, que tudo aquilo que ele vê em cada instante e que já tenha visto, repetidamente, seja visto, quase, pela primeira vez e com um pasmo sempre diferente, ou seja, o que está presente nele é sempre o presente.

Nos versos doze e treze, Alberto Caeiro continua a privilegiar a visão como sendo o centro de tudo, pois se ele vê uma coisa, essa coisa nunca irá ultrapassar a veracidade que a visão lhe mostra, não estando mais nada por trás disso.

No momento em que a luz, da casa que se encontra a uma grande distância dele, se apaga (verso dezasseis), deixa de existir a realidade imediata que a luz proporcionava. Se não existia mais aquela luz, tudo que estava por trás dela não importava para Caeiro, porque como é dito por este “Eu nunca passo para além da realidade imediata.”.

No último verso (verso dezassete), não só neste último mas também nos versos seis e sete, nota-se um pouco o anti-socialismo [anti-sociabilidade?...] de Alberto Caeiro. O mestre era anti-social, porque para ele viver feliz apenas lhe chegava ver a Natureza com tudo aquilo que ela é, não podendo por isso nunca cegar, como é referido em alguns dos seus outros poemas, não necessitando do convívio com os outros seres humanos.


Ângela Gandra, 12º B