terça-feira, 2 de dezembro de 2008

A Criança que fui chora na estrada


I
A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.

Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.

Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,

Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.

II
Dia a dia mudamos para quem
Amanhã não veremos. Hora a hora
Nosso diverso e sucessivo alguém
Desce uma vasta escadaria agora.

E uma multidão que desce, sem
Que um saiba de outros. Vejo-os meus e fora.
Ah, que horrorosa semelhança têm!
São um múltiplo mesmo que se ignora.

Olho-os. Nenhum sou eu, a todos sendo.
E a multidão engrossa, alheia a ver-me,
Sem que eu perceba de onde vai crescendo.

Sinto-os a todos dentro em mim mover-me,
E, inúmero, prolixo, vou descendo
Até passar por todos e perder-me.

III
Meu Deus! Meu Deus! Quem sou, que desconheço
O que sinto que sou? Quem quero ser
Mora, distante, onde meu ser esqueço,
Parte, remoto, para me não ter.


Fernando Pessoa, grande poeta e escritor português, foi um marco importantíssimo na literatura portuguesa, sendo até comparado a Luís Vaz de Camões. Escreveu várias obras e todas elas de grande importância e empenho por parte do poeta, pois poeta é aquele que consegue traduzir melhor por palavras aquilo que sentimos e não sabemos descrever e, em Pessoa, as suas obras são a sua biografia.

“Os poetas não têm biografia. Sua obra é a sua biografia. Pessoa, que duvidou sempre da realidade deste mundo, aprovaria sem vacilar que se fosse directamente aos seus poemas, esquecendo os incidentes e acidentes da sua existência terrestre. Nada na sua vida é surpreendente – nada, excepto os seus poemas.”
Octávio Paz, Fernando Pessoa, o desconhecido de si mesmo, Vega

Escolhi então este poema por ser, para mim, o supra-sumo, o grande, por se basear na infância, na nostalgia do bem perdido e do mundo fantástico da infância, que provoca angústia existencial, entre outros sentimentos. Este poema descreve, para mim, mais do que qualquer outro poema, o sentimento de Pessoa. Faz lembrar um outro menino, que também chorou, numa enorme estrada, que teve que percorrer.
A infância ocupa na obra (o que é mais do que evidente, neste poema) de Fernando Pessoa, uma firme harmonia entre a realidade e o mito. O poeta mostra ao mundo todo o potencial da sua experiência, ao não conseguir realizar-se, idealiza ainda mais o passado. A infância é sempre sinónima de inconsciência, segurança, pureza, felicidade, entre outras. As amarguras desse mundo, sentidas pelo poeta, desaparecem com a dor de saber que esse bem é irrecuperável e, por isso, o presente do poeta é marcado por uma forte saudade da infância perdida.
O poeta sente-se descontente por não ser mais do que é, deseja regressar ao tempo em que foi feliz e voltar a ser a criança que não pensa, só sente. A infância não desapareceu por completo, apenas está submersa na pessoa que é agora, à espera de ser recuperada, já que Pessoa decidiu ser diferente e abdicar dela. Porém, a criança, que deveria ser feliz, chora, ou seja, representa sofrimento e abandono indevido (oposição temporal).
Neste poema está descrito um sentimento de querer/vontade do sujeito poético em que se fala, na 1ª quadra, da nostalgia da infância. Na 2ª quadra, pode-se observar a imobilização psicológica por não encontrar a infância e, também, a condição/possibilidade de conseguir observar a infância perdida através do presente e, ao vê-la, poder recuperá-la ou encontrar um pouco dela em si.
Em termos de gramática, são usadas neste poema frases negativas e declarativas, com vocabulário simples, uso dos verbos copulativos [quais?] (que mostram a dúvida do sujeito poético ao longo do poema), e evidencia-se também a oposição temporal e a interrogativa retórica [onde?]. Estes são os termos gramaticais mais utilizados e evidentes neste poema.


“Querer não é poder. Quem pôde, quis antes de poder só depois de poder. Quem quer nunca há-de poder, porque se perde em querer.”
Fernando Pessoa

Natalia Pereira 12ºB

Para seres grande...

Para ser grande, sê inteiro

Para ser grande, sê inteiro: nada

Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és

No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda

Brilha, porque alta vive.

Ricardo Reis

Por mais difícil que tenha sido de encontrar um poema de Fernando Pessoa encontrei um que se enquadra perfeitamente comigo.

Para quê ficarmos pelo superficial se nos podemos entregar de corpo e alma a todo o tipo de situações? Boas ou más não interessa, o que importa é que sabemos o que fazemos da melhor maneira possível, porque no final só nos traz benefícios. Mas quais benefícios? Como o poema diz: “Assim em cada lago a lua toda/ Brilha, porque alta vive.”, ou seja, a solução está dentro de nós. Se temos a plena noção de que demos tudo por tudo para concretizar algo, por mais simples que seja, então a nossa consciência vai estar completamente tranquila, e é nessa altura que a lua que está dentro de nós vai brilhar lá no alto.

Como um poema tão pequeno nos diz tanto!

Ana Teresa, 12º C



[texto por editar pela professora]

O Binómio de Newton...



O Binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo.
O que há é pouca gente para dar por isso.

óóóó - óóóóóóóóó - óóóóóóóóóóóóóóó
(O vento lá fora.)

Álvaro de Campos

Após ler uma série de poemas de Pessoa Ortónimo e dos seus vários heterónimos, deparei-me com este pequeno poema de Álvaro de Campos. À primeira vista achei esta comparação, do Binómio de Newton com a Vénus de Milo um pouco estranha, contudo o homem no seu esforço constante de compreender o universo acabou por criar uma ciência tão complexa e exacta que pode ser considerada mais divina que humana, a Matemática. Não é de admirar que alguns matemáticos cheguem mesmo a afirmar que têm como principal objectivo desenvolver a beleza e não a utilidade de um determinado teorema, tal como disse Hermann Weyl: "o meu trabalho sempre tentou unir o verdadeiro e o belo, mas, quando tive de escolher entre um e o outro, escolhi normalmente o belo."


O problema é que esta beleza que reside na matemática pode não ser visível aos olhos de toda a gente, aquilo que para um matemático pode parecer magnífico pode não ter qualquer valor artístico para outra pessoa. Pode até admitir que tem alguma funcionalidade ou até que tem uma boa estrutura, mas quanto a sua beleza, existirão várias dúvidas. É claro que isto não sucede apenas na matemática, em qualquer outra arte podem existir várias opiniões sobre a mesma obra. O mesmo quadro pode ser considerado fantástico por uns e ao mesmo tempo ser considerado horrível ou ridículo por outros. Penso que é exactamente a isto que Campos se refere com o poema, que a matemática tem o mesmo valor artístico que qualquer outra forma de arte é apenas diferente.

Carlos Fitas

12ºC



[texto por editar pela professora]

Já não me importo


 
Já não me importo
Até com o que amo ou creio amar.
Sou um navio que chegou a um porto
E cujo movimento é ali estar.
 
Nada me resta
Do que quis ou achei.
Cheguei da festa
Como fui para lá ou ainda irei
 
Indiferente
A quem sou ou suponho que mal sou,
 
Fito a gente
Que me rodeia e sempre rodeou,
 
Com um olhar
Que, sem o poder ver,
Sei que é sem ar
De olhar a valer.

E só me não cansa
O que a brisa me traz
De súbita mudança
No que nada me faz.
 
Fernando Pessoa


A escolha deste poema não foi em vão! Optei por “trabalhar” um poema de Fernando Pessoa Ortónimo pois já estou habituada á sua capacidade de racionalização, e confesso que toda a simplicidade de Alberto Caeiro, único heterónimo de Pessoa até agora estudado por nós, me deixa um tanto ou quanto baralhada, não só por o achar contraditório, mas também pelo facto de já estar habituada, de certa forma a racionalizar tudo, no que diz respeito á poesia pessoana.
Inicialmente quando li este poema não me tinha apercebido das suas características pouco comuns relativamente ao estilo “típico” de Ortónimo, mais tarde apercebi-me de que este apresenta alguns versos longos, e para além de quadras (marcas da lírica tradicional) com rima cruzada apresenta também dísticos, no entanto apresenta outras características mais presentes na poesia de Ortónimo como uma certa musicalidade, o ritmo marcado, bem como o uso de uma linguagem simples. Depois de confirmada a sua autenticidade, decidi que iria “trabalhar” pois esta dúvida inicial poderia ser bastante útil para reconhecer outros poemas de Fernando Pessoa Ortónimo que não apresentassem a estrutura comum da sua poesia.
Este poema demonstra logo de início, o desinteresse do sujeito poético por tudo, revelando alguma indiferença ao que acontece á sua volta, remetendo-nos assim para o desânimo, o tédio e a frustração.
O sujeito poético começa por se identificar com um navio que chegou ao porto e cujo movimento que lhe resta é ali estar. Neste contexto, o porto, pode ser identificado como o destino. No entanto, este destino acaba por se revelar um “não-destino” pois fica atracado á desilusão deste sentimento de incompletude perante um projecto falhado.
Sem destino, limita-se a ser indiferente a tudo e a todos, passando assim por uma angústia existencial. O desinteresse por tudo o que o rodeia é mais evidente, essencialmente na penúltima estrofe, quando o poeta diz que o seu olhar «é sem ar/ de olhar a valer», pretende com isto mostrar que está a olhar apenas por olhar, pois não encontra nada que desperte a sua atenção, ou seja, está presente mas não está a prestar atenção ao que se está a passar á sua volta. Esta é das únicas coisas com que me identifico neste poema, pois de certa forma ás vezes também me acontece o mesmo, ficando a “navegar” no pensamento não prestando atenção que supostamente estamos a ver, ou ao que nos está a ser contado.
Na última estrofe podemos concluir, baseado nos versos, “e só não me cansa/ o que a brisa me traz”, que ao poeta tudo o cansa. O tédio está constantemente presente neste poema, no entanto é de realçar que não se encontra a vontade do próprio sujeito poético em lutar contra este tédio, assim, em vez de viver o tempo deixa-se viver por ele.



Eduarda Silva Correia, 12º.A

[texto por editar pela professora]

Não, não é cansaço...


Não, não é cansaço...

É uma quantidade de desilusão

Que se me entranha na espécie de pensar.

É um domingo às avessas

Do sentimento,

Um feriado passado no abismo...

Não, cansaço não é...

É eu estar existindo

E também o mundo,

Com tudo aquilo que contém,

Como tudo aquilo que nele se desdobra

E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.

Álvaro Campos

O poema que escolhi é um exemplo da fase decadentista que caracteriza o Campos. Tal e qual como Campos também sinto o cansaço da vida monocórdica, calendarizada sem escrúpulos, sem nada de novo apenas engrenagens e mais engrenagens que se vão amontoando e moendo umas as outras numa cadeia de eventos meticulosamente programados por um qualquer entidade (ou a falta dela) com uma agenda bem livre e pouca imaginação no que toca a variabilidade sensacional.

Assim como a Campos as coisas parecem-me não ter sabor de tantas vezes mastigadas ou sem cheiro de tantas vezes que já foram respiradas. Se bem que ao contrário do Campos que parecia não encontrar sentido par a vida eu encontro, o único problema é que o caminho parece demasiado desenxabido e homogéneo. As flores estão lá mas todas da mesma cor…assim como tudo o que não tem cor e que para mim parece ter a mesma cor, que é a mesma que as flores…



Tiago Faria, 12ºC

[texto por editar pela professora]

A Noite é Muito Escura



É noite. A noite é muito escura. Numa casa a uma grande distância
Brilha a luz duma janela.
Vejo-a, e sinto-me humano dos pés à cabeça.
É curioso que toda a vida do indivíduo que ali mora, e que não sei quem é,
Atrai-me só por essa luz vista de longe.
Sem dúvida que a vida dele é real e ele tem cara, gestos, família e profissão.

Mas agora só me importa a luz da janela dele.
Apesar de a luz estar ali por ele a ter acendido,
A luz é a realidade imediata para mim.
Eu nunca passo para além da realidade imediata.
Para além da realidade imediata não há nada.
Se eu, de onde estou, só veio aquela luz,
Em relação à distância onde estou há só aquela luz.
O homem e a família dele são reais do lado de lá da janela.
Eu estou do lado de cá, a uma grande distância.
A luz apagou-se.
Que me importa que o homem continue a existir?


Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"




Decidi
escolher este poema de um dos heterónimos de Fernando Pessoa, Alberto Caeiro, não por me identificar directamente com ele, mas sim por ter tido o privilégio de o ler e o ter apreciado imediatamente. A escolha por Alberto Caeiro foi propositada, devido a achar os seus poemas incrivelmente naturais e simples, levando-nos para um mundo que não parece nosso conhecido, devido à racionalização e comparação excessiva que os humanos tendem a fazer de tudo, mas que realmente é esse mesmo mundo, exterior, que nos rodeia. Caeiro tem este brilhante dom de nos fazer ver (e quando falo de ver, é ver realmente) aquilo que nós quando vemos tendemos de imediato a intelectualizar.

Quando o mestre Caeiro, refere no primeiro verso “É noite. A noite é muito escura.”, é quase como se o poeta estivesse a dizer que está triste por estar noite, pois a noite não o deixa ver a beleza da Natureza, que é tão prezada por este. Para se sentir feliz necessita de ver as cores vivas da luz. Ele procura essa mesma felicidade na luz de uma janela que se encontra a uma grande distância do centro dele. Caeiro, nitidamente, reage como um girassol, que por sua vez age por tropismo. Um girassol roda para onde estiver o sol, mesmo estando ele a uma distância bastante significativa. À noite o girassol não tem luz e por isso pára o seu movimento circular; enquanto que Caeiro agindo de um modo parecido, também, “pára”, ficando triste, porque a noite fá-lo pensar devido a não ter a irreflexão da luz para apenas o fazer ver a realidade das coisas.

Como é referido no verso nove “A luz é a realidade imediata para mim.”, a realidade para Caeiro não passa do momento presente, porque a luz o deixa ver o que é real ali naquele instante. Para que importa o passado e o futuro? O passado não vai além de uma recordação que trai a Natureza, pois a Natureza é a realidade verdadeira e pura daquele momento e se se pensar no que já passou, estaremos, de uma certa forma, a atraiçoá-la. O futuro não passa de um conjunto de meras ilusões e esperanças imaginadas e idealizadas. Quando o poeta diz que nunca passa da realidade imediata, ele refere-se a esta temática. Mostrando, também, que tudo aquilo que ele vê em cada instante e que já tenha visto, repetidamente, seja visto, quase, pela primeira vez e com um pasmo sempre diferente, ou seja, o que está presente nele é sempre o presente.

Nos versos doze e treze, Alberto Caeiro continua a privilegiar a visão como sendo o centro de tudo, pois se ele vê uma coisa, essa coisa nunca irá ultrapassar a veracidade que a visão lhe mostra, não estando mais nada por trás disso.

No momento em que a luz, da casa que se encontra a uma grande distância dele, se apaga (verso dezasseis), deixa de existir a realidade imediata que a luz proporcionava. Se não existia mais aquela luz, tudo que estava por trás dela não importava para Caeiro, porque como é dito por este “Eu nunca passo para além da realidade imediata.”.

No último verso (verso dezassete), não só neste último mas também nos versos seis e sete, nota-se um pouco o anti-socialismo [anti-sociabilidade?...] de Alberto Caeiro. O mestre era anti-social, porque para ele viver feliz apenas lhe chegava ver a Natureza com tudo aquilo que ela é, não podendo por isso nunca cegar, como é referido em alguns dos seus outros poemas, não necessitando do convívio com os outros seres humanos.


Ângela Gandra, 12º B

Se eu pudesse trincar a terra toda


Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
Seria mais feliz um momento...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...

Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva...

O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja...

Alberto Caeiro



Alberto Caeiro, um dos muitos heterónimos de Fernando Pessoa, é o autor deste poema. Uma das razões pela qual optei por este poema é [foi] simplesmente, pelo facto que, de todos os heterónimos de Fernando Pessoa, de quem mais gosto é de Caeiro, por este ser tão frontal, objectivo e viver a vida sempre naturalmente.
Caeiro, o poeta da Natureza, tem aqui mais um poema onde, com naturalidade, privilegia os sentidos, neste caso o paladar, mas desta vez começa de uma forma um pouco curiosa. Logo a começar pelo primeiro verso, onde cita [refere/aponta]: “Se eu pudesse trincar a terra toda” temos que concordar que é no mínimo um verso misterioso e incomum.
Pois bem, para mim, deixa de ser incomum e misterioso ao longo da leitura do poema, porque consegue transmitir-me uma mensagem deveras importante. Esta não é nada mais que o facto de as pessoas deverem aprender a lidar com fases boas e com fases menos boas, assim como momentos de felicidade e de infelicidade.
Se Caeiro diz que toma a infelicidade e a felicidade juntas e sente-se um momento mais feliz, então porque é que nós não fazemos o mesmo? Segundo Caeiro: “Nem tudo é dias de sol, E a chuva, quando falta muito, pede-se”. Passo a explicar o verso: aqui Caeiro refere-se à chuva como uma coisa má comparando com o sol, todavia a chuva também é necessária para se viver. Portanto a gente precisa é “passar por elas”, por momentos felizes mas também por momentos infelizes, para se poder ser natural. Mau grado termos de passar por momentos infelizes, com certeza que daremos muito mais valor aos momentos felizes.
Para suportarmos estas oscilações, o que é preciso é sermos naturais e calmos e viver a vida a cada momento, não olhando para traz nem para a frente, mas seguindo o “conselho” de Caeiro: “Sentir como quem olha E pensar como quem anda”.

Nota: Apesar de ainda só ter estudado Fernando Pessoa – Ortónimo e Alberto Caeiro, de certa forma posso dizer que admiro naturalmente Caeiro. Não desrespeitando o Ortónimo, porque seja como for, a gente também precisa de racionalizar de vez em quando. Contudo, regalo-me com os poemas de Caeiro, devido ao seu modo básico, simples e natural de exprimir o que “pensa” sobre o Mundo, pelo facto de ele admitir que a maior filosofia é não ter filosofia nenhuma. Deixo aqui esse pequeno pedido, com o intuito de que isto de não se precisar de filosofia nenhuma, não chegue aos ouvidos de uma certa pessoa que a gente cá conhece, porque senão passamos todos a ser um bando de incompetentes.


Gilberto Veloso, 12ºB

Um dia destes...


Creio que irei morrer.
Mas o sentido de morrer não me move,
Lembro-me que morrer não deve ter sentido.
Isto de viver e morrer são classificações como as das plantas.
Que folhas ou que flores têm uma classificação?
Que vida tem a vida ou que morte a morte?
Tudo são termos onde se define.

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"
Heterónimo de Fernando Pessoa



A escolha deste poema deve-se essencialmente pela desvalorização que o autor( Alberto Caeiro) faz sobre a morte.
Ele usa o facto de a morte ser algo inevitável como argumento para o "carpe diem" ao qual tantas vezes se refere na sua obra.
O que mais me chamou a atenção neste poema foi o facto de o autor referir que a morte e apenas um termo onde se define o fim da vida encarando a morte como uma coisa absolutamente normal .
Compreendo que ache este texto um pouco curto mas, por muito que tenha gostado do poema, a espírito deste é bastante evidente, e não quero escrever mais que o que ele me diz.



Rafael Ferreira nº11 / 12ºF

[texto por editar pela professora]

Pessoa...












































Pessoa…

Sonhei, confuso, e o sono foi disperso,
Mas, quando despertei da confusão
Vi que esta vida aqui e este universo
Não são mais claros do que os sonhos são

Obscura luz paira onde estou converso
A esta realidade da ilusão
Se fecho os olhos, sou de novo imerso
Naquelas sombras que há na escuridão.

Escuro, escuro, tudo, em sonho ou vida,
É a mesma mistura de entre-seres
Ou na noite, ou ao dia transferida.


Nada é real, nada em seus vãos moveres
Pertence a uma forma definida,
Rastro visto de coisa só ouvida.

In Inéditos



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No Túmulo de Christian Rosencreutz

I

Quando, despertos deste sono, a vida,
Soubermos o que somos, e o que foi
Essa queda até Corpo, essa descida
Até à Noite que nos a Alma obstrui,

Conheceremos pois toda a escondida
Verdade do que é tudo que há ou flui?
Não: nem na Alma livre é conhecida…
Nem Deus, que nos criou, em Si a inclui.

Deus é o Homem de outro Deus maior.
Adão Supremo, também teve Queda;
Também, como foi nosso Criador,

Foi criado, e a Verdade lhe morreu…
De além o Abismo, ‘Sprito Seu, Lha veda;
Aquém não a há no Mundo, Corpo Seu.

II

Mas antes era o Verbo, aqui perdido
Quando a Infinita Luz, já apagada,
Do Caos, chão do Ser, foi levantada
Em Sombra, e o Verbo ausente escurecido.

Mas se a Alma sente a sua forma errada,
Em si, que é Sombra, vê enfim luzido
O Verbo deste Mundo, humano e ungido,
Rosa Perfeita, em Deus crucificada.

Então, senhores do limiar dos Céus,
Podemos ir buscar além de Deus
O Segredo do Mestre e o Bem profundo;

Não só de aqui, mas já de nós, despertos,
No sangue actual de Cristo enfim libertos
Do a Deus que morre a geração do Mundo.

III

Ah, mas aqui, onde irreais erramos,
Dormimos o que somos, e a verdade,
Inda que enfim em sonhos a vejamos,
Vemo-la, porque em sonho, em falsidade.

Sombras buscando corpos, se os achamos
Como sentir a sua realidade?
Com mãos de sombra, Sombras, que tocamos?
Nosso toque é ausência e vacuidade.

Quem desta Alma fechada nos liberta?
Sem ver, ouvimos para além da sala
Calmo na falsa morte a nós exposto,
O Livro ocluso contra o peito posto,
Nosso Pai Rósea-Cruz conhece e cala.

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Fui-me negando todos os poemas pessoanos que li até não conseguir prescindir mais, e foram estes dois que se me quedaram, um poema em soneto e três sonetos num poema, ambos de um rigor formal que atestam a sua mais que capacidade, natureza talvez, mas que nada tem a ver com o porquê de escolhê-los…

O primeiro, “Sonhei, confuso, e o sono foi disperso”, encanto-me não só pelo fluir poético que é por si só genial, mas pela compleição inquisitiva, reflexo de uma busca por algo tão impalpável como eram incolores as lágrimas que esta ambição sem meta seguramente azaravam, àquele pobre homem que, por desprovido d’ignorâncias que indubitavelmente foi, ousou viver de mãos dadas a um querer tão maior que o mundo, razão pela qual, inatingível…

Quanto ao segundo, “no túmulo de Christian Rosencreutz”, aparte de tudo o que ele é e representa, é-me querido por, bem, ser um estandarte do melhor que vejo em Pessoa e dolorosamente não em mim. Desde pequeno que Fernando se mostrou mais que capaz de se adaptar ao mundo (entenda-se o enquadramento circunstancial no qual existia)… Se este mundo é pequeno, sonha-se outro; se sou demasiado grande para caber em mim, pois bem, façam-se algumas dúzias de “Eus” para distribuir a fartura, e por aí fora…

Bfff… É-me muito difícil escrever o que, agora que tento colocar algo dele e de mim na mesma página, me ocorre, razão pela qual espero que se perdoem algumas quebras no acontecer do meu texto, mas…

Bem, Pessoa… Teve ânsias como todos, mas o ele ser, bem, Ele, fez com que estas fossem “gravemente exageradas” (como a morte de um congénere, talvez seu desconhecido). Foi o génio, e não a dor à qual estava condenado à nascença, que tanto o fizeram sofrer, porque ao contrario das outras pessoas, mais simples, como Pessoa gostaria de ter sido, ele sentia que sofria, via quanto sofria, mas não lhe eram suficientes as explicações para a dor que mais que bastavam a todos os outros, daí talvez o ocultismo ter surgido como parte da resposta ao problema que sempre lhe foi jugo.

É nisto que falho, e que mais me custa falhar agora que o tenho como exemplo… Tenho ânsias e problemas como todos, mas vendo quão grandes ou mesquinhas são, e sabendo porque me afligem, escolho sem pensar manter-me ao lado da caminhos que identifico como meus, deitado numa cama de memórias falsas com um cobertor de inércia a resguardar-me os olhos da luz que me põe a nu a fraqueza…




Não tenho mais que escrever contudo o texto soa-me incompleto… Se algo mais me ocorrer eu comunico.



Bruno Senra

Num Meio-Dia de Fim de Primavera


VIII - Num Meio-Dia de Fim de Primavera

Poema completo:
Num meio-dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se ao longe.
Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas...
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!
Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães,
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em rancho pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.
A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.
Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou -
«Se é que ele as criou, do que duvido» -.
«Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres».
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.
..................................................................
Alberto Caeiro

Numa época em que a maioria da população mantinha uma crença muito forte na igreja católica e em Deus e em que muito poucos punham em causa a veracidade da existência de um Deus, Caeiro vai mais longe e, através deste poema, critica toda esta crença num Deus que nunca se mostrou. No núcleo da sua critica está a comparação de Jesus Cristo, a um menino, um menino da aldeia, que tem comportamentos traquinas, como qualquer criança, que “arranca flores para as deitar fora”, que “foi à caixa dos milagres e roubou três”, que “limpa o nariz ao braço direito”, “atira pedras aos burros, rouba a fruta dos pomares”, que “corre atrás das raparigas pelas estradas… E levanta-lhes a saia”.
Este poema certamente que trouxe polémica quando publicado, visto que a imagem de Jesus Cristo, da Virgem Maria e de Deus é, neste poema, retratada como sendo pessoas normais, que têm defeitos, mas maltratando particularmente a imagem de Deus que é “um velho estúpido e doente, sempre a escarrar no chão e a dizer "indecências” e a Igreja Católica como sendo estúpida, como tudo no céu.
Escolhi este poema principalmente por também não manter uma crença em Deus e na Igreja, mas também pela simplicidade e convicção com que Caeiro exprime e sua descrença numa religião e num Deus que não se mostra. Isto remete-nos para o facto, de nos seus poemas, Caeiro manter sempre um culto e uma forte ligação com a natureza e tudo aquilo que ele vê e ouve, sendo dos rostos que melhor representam o paganismo.

Ana Lara, 12ºB