terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Se eu pudesse trincar a terra toda


Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
Seria mais feliz um momento...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...

Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva...

O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja...

Alberto Caeiro



Alberto Caeiro, um dos muitos heterónimos de Fernando Pessoa, é o autor deste poema. Uma das razões pela qual optei por este poema é [foi] simplesmente, pelo facto que, de todos os heterónimos de Fernando Pessoa, de quem mais gosto é de Caeiro, por este ser tão frontal, objectivo e viver a vida sempre naturalmente.
Caeiro, o poeta da Natureza, tem aqui mais um poema onde, com naturalidade, privilegia os sentidos, neste caso o paladar, mas desta vez começa de uma forma um pouco curiosa. Logo a começar pelo primeiro verso, onde cita [refere/aponta]: “Se eu pudesse trincar a terra toda” temos que concordar que é no mínimo um verso misterioso e incomum.
Pois bem, para mim, deixa de ser incomum e misterioso ao longo da leitura do poema, porque consegue transmitir-me uma mensagem deveras importante. Esta não é nada mais que o facto de as pessoas deverem aprender a lidar com fases boas e com fases menos boas, assim como momentos de felicidade e de infelicidade.
Se Caeiro diz que toma a infelicidade e a felicidade juntas e sente-se um momento mais feliz, então porque é que nós não fazemos o mesmo? Segundo Caeiro: “Nem tudo é dias de sol, E a chuva, quando falta muito, pede-se”. Passo a explicar o verso: aqui Caeiro refere-se à chuva como uma coisa má comparando com o sol, todavia a chuva também é necessária para se viver. Portanto a gente precisa é “passar por elas”, por momentos felizes mas também por momentos infelizes, para se poder ser natural. Mau grado termos de passar por momentos infelizes, com certeza que daremos muito mais valor aos momentos felizes.
Para suportarmos estas oscilações, o que é preciso é sermos naturais e calmos e viver a vida a cada momento, não olhando para traz nem para a frente, mas seguindo o “conselho” de Caeiro: “Sentir como quem olha E pensar como quem anda”.

Nota: Apesar de ainda só ter estudado Fernando Pessoa – Ortónimo e Alberto Caeiro, de certa forma posso dizer que admiro naturalmente Caeiro. Não desrespeitando o Ortónimo, porque seja como for, a gente também precisa de racionalizar de vez em quando. Contudo, regalo-me com os poemas de Caeiro, devido ao seu modo básico, simples e natural de exprimir o que “pensa” sobre o Mundo, pelo facto de ele admitir que a maior filosofia é não ter filosofia nenhuma. Deixo aqui esse pequeno pedido, com o intuito de que isto de não se precisar de filosofia nenhuma, não chegue aos ouvidos de uma certa pessoa que a gente cá conhece, porque senão passamos todos a ser um bando de incompetentes.


Gilberto Veloso, 12ºB

Um dia destes...


Creio que irei morrer.
Mas o sentido de morrer não me move,
Lembro-me que morrer não deve ter sentido.
Isto de viver e morrer são classificações como as das plantas.
Que folhas ou que flores têm uma classificação?
Que vida tem a vida ou que morte a morte?
Tudo são termos onde se define.

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"
Heterónimo de Fernando Pessoa



A escolha deste poema deve-se essencialmente pela desvalorização que o autor( Alberto Caeiro) faz sobre a morte.
Ele usa o facto de a morte ser algo inevitável como argumento para o "carpe diem" ao qual tantas vezes se refere na sua obra.
O que mais me chamou a atenção neste poema foi o facto de o autor referir que a morte e apenas um termo onde se define o fim da vida encarando a morte como uma coisa absolutamente normal .
Compreendo que ache este texto um pouco curto mas, por muito que tenha gostado do poema, a espírito deste é bastante evidente, e não quero escrever mais que o que ele me diz.



Rafael Ferreira nº11 / 12ºF

[texto por editar pela professora]

Pessoa...












































Pessoa…

Sonhei, confuso, e o sono foi disperso,
Mas, quando despertei da confusão
Vi que esta vida aqui e este universo
Não são mais claros do que os sonhos são

Obscura luz paira onde estou converso
A esta realidade da ilusão
Se fecho os olhos, sou de novo imerso
Naquelas sombras que há na escuridão.

Escuro, escuro, tudo, em sonho ou vida,
É a mesma mistura de entre-seres
Ou na noite, ou ao dia transferida.


Nada é real, nada em seus vãos moveres
Pertence a uma forma definida,
Rastro visto de coisa só ouvida.

In Inéditos



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No Túmulo de Christian Rosencreutz

I

Quando, despertos deste sono, a vida,
Soubermos o que somos, e o que foi
Essa queda até Corpo, essa descida
Até à Noite que nos a Alma obstrui,

Conheceremos pois toda a escondida
Verdade do que é tudo que há ou flui?
Não: nem na Alma livre é conhecida…
Nem Deus, que nos criou, em Si a inclui.

Deus é o Homem de outro Deus maior.
Adão Supremo, também teve Queda;
Também, como foi nosso Criador,

Foi criado, e a Verdade lhe morreu…
De além o Abismo, ‘Sprito Seu, Lha veda;
Aquém não a há no Mundo, Corpo Seu.

II

Mas antes era o Verbo, aqui perdido
Quando a Infinita Luz, já apagada,
Do Caos, chão do Ser, foi levantada
Em Sombra, e o Verbo ausente escurecido.

Mas se a Alma sente a sua forma errada,
Em si, que é Sombra, vê enfim luzido
O Verbo deste Mundo, humano e ungido,
Rosa Perfeita, em Deus crucificada.

Então, senhores do limiar dos Céus,
Podemos ir buscar além de Deus
O Segredo do Mestre e o Bem profundo;

Não só de aqui, mas já de nós, despertos,
No sangue actual de Cristo enfim libertos
Do a Deus que morre a geração do Mundo.

III

Ah, mas aqui, onde irreais erramos,
Dormimos o que somos, e a verdade,
Inda que enfim em sonhos a vejamos,
Vemo-la, porque em sonho, em falsidade.

Sombras buscando corpos, se os achamos
Como sentir a sua realidade?
Com mãos de sombra, Sombras, que tocamos?
Nosso toque é ausência e vacuidade.

Quem desta Alma fechada nos liberta?
Sem ver, ouvimos para além da sala
Calmo na falsa morte a nós exposto,
O Livro ocluso contra o peito posto,
Nosso Pai Rósea-Cruz conhece e cala.

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Fui-me negando todos os poemas pessoanos que li até não conseguir prescindir mais, e foram estes dois que se me quedaram, um poema em soneto e três sonetos num poema, ambos de um rigor formal que atestam a sua mais que capacidade, natureza talvez, mas que nada tem a ver com o porquê de escolhê-los…

O primeiro, “Sonhei, confuso, e o sono foi disperso”, encanto-me não só pelo fluir poético que é por si só genial, mas pela compleição inquisitiva, reflexo de uma busca por algo tão impalpável como eram incolores as lágrimas que esta ambição sem meta seguramente azaravam, àquele pobre homem que, por desprovido d’ignorâncias que indubitavelmente foi, ousou viver de mãos dadas a um querer tão maior que o mundo, razão pela qual, inatingível…

Quanto ao segundo, “no túmulo de Christian Rosencreutz”, aparte de tudo o que ele é e representa, é-me querido por, bem, ser um estandarte do melhor que vejo em Pessoa e dolorosamente não em mim. Desde pequeno que Fernando se mostrou mais que capaz de se adaptar ao mundo (entenda-se o enquadramento circunstancial no qual existia)… Se este mundo é pequeno, sonha-se outro; se sou demasiado grande para caber em mim, pois bem, façam-se algumas dúzias de “Eus” para distribuir a fartura, e por aí fora…

Bfff… É-me muito difícil escrever o que, agora que tento colocar algo dele e de mim na mesma página, me ocorre, razão pela qual espero que se perdoem algumas quebras no acontecer do meu texto, mas…

Bem, Pessoa… Teve ânsias como todos, mas o ele ser, bem, Ele, fez com que estas fossem “gravemente exageradas” (como a morte de um congénere, talvez seu desconhecido). Foi o génio, e não a dor à qual estava condenado à nascença, que tanto o fizeram sofrer, porque ao contrario das outras pessoas, mais simples, como Pessoa gostaria de ter sido, ele sentia que sofria, via quanto sofria, mas não lhe eram suficientes as explicações para a dor que mais que bastavam a todos os outros, daí talvez o ocultismo ter surgido como parte da resposta ao problema que sempre lhe foi jugo.

É nisto que falho, e que mais me custa falhar agora que o tenho como exemplo… Tenho ânsias e problemas como todos, mas vendo quão grandes ou mesquinhas são, e sabendo porque me afligem, escolho sem pensar manter-me ao lado da caminhos que identifico como meus, deitado numa cama de memórias falsas com um cobertor de inércia a resguardar-me os olhos da luz que me põe a nu a fraqueza…




Não tenho mais que escrever contudo o texto soa-me incompleto… Se algo mais me ocorrer eu comunico.



Bruno Senra

Num Meio-Dia de Fim de Primavera


VIII - Num Meio-Dia de Fim de Primavera

Poema completo:
Num meio-dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se ao longe.
Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas...
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!
Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães,
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em rancho pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.
A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.
Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou -
«Se é que ele as criou, do que duvido» -.
«Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres».
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.
..................................................................
Alberto Caeiro

Numa época em que a maioria da população mantinha uma crença muito forte na igreja católica e em Deus e em que muito poucos punham em causa a veracidade da existência de um Deus, Caeiro vai mais longe e, através deste poema, critica toda esta crença num Deus que nunca se mostrou. No núcleo da sua critica está a comparação de Jesus Cristo, a um menino, um menino da aldeia, que tem comportamentos traquinas, como qualquer criança, que “arranca flores para as deitar fora”, que “foi à caixa dos milagres e roubou três”, que “limpa o nariz ao braço direito”, “atira pedras aos burros, rouba a fruta dos pomares”, que “corre atrás das raparigas pelas estradas… E levanta-lhes a saia”.
Este poema certamente que trouxe polémica quando publicado, visto que a imagem de Jesus Cristo, da Virgem Maria e de Deus é, neste poema, retratada como sendo pessoas normais, que têm defeitos, mas maltratando particularmente a imagem de Deus que é “um velho estúpido e doente, sempre a escarrar no chão e a dizer "indecências” e a Igreja Católica como sendo estúpida, como tudo no céu.
Escolhi este poema principalmente por também não manter uma crença em Deus e na Igreja, mas também pela simplicidade e convicção com que Caeiro exprime e sua descrença numa religião e num Deus que não se mostra. Isto remete-nos para o facto, de nos seus poemas, Caeiro manter sempre um culto e uma forte ligação com a natureza e tudo aquilo que ele vê e ouve, sendo dos rostos que melhor representam o paganismo.

Ana Lara, 12ºB

Se eu pudesse…

Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
Seria mais feliz um momento...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...
Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva...
O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja...


Alberto Caeiro, o mestre dos heterónimos e de Fernando Pessoa, nasceu a 16 de Abril de 1969 em Lisboa. Viveu a maior parte da sua vida numa quinta em Ribatejo onde veio a conhecer Álvaro de Campos. A sua educação cingiu-se à primária, o que combina com a simplicidade e a naturalidade que ele próprio reclama. É dotado de uma aparência muito diferente dos outros heterónimos, mais frágil, de olhos azuis, louro, e de estatura média. Morreu, precocemente, de tuberculose em 1915.
Alberto Caeiro é, como Fernando Pessoa queria para irritar Sá-Carneiro, um pagão [não era o ser pagão que irritaria Sá-Carneiro]. O paganismo revela um culto à natureza, e o de Alberto era como Ricardo Reis escreveu “uma reconstrução integral do paganismo, na sua essência absoluta, tal como nem os gregos nem os romanos que viveram nele e por isso o não pensaram, o puderam fazer». Nos seus poemas este culto está bem presente e o que eu escolhi não foge à regra. Ao fim de uma enorme pesquisa por entre sites e ao fim de ter escolhido dois que já tinham sido postados, encontrei este, no meio de tantos outros de Alberto Caeiro, 30 e tal acho eu.

Este poema fala sobre a Terra e para mim basta: a Terra é a essência da vida, o suporte do mundo, um infinito de felicidade. E é isso que Caeiro quer dizer com “trincar a terra toda /E sentir-lhe um paladar”, porque a terra é o berço da vida e o descanso dos corpos na morte. No entanto, o poeta não quer uma felicidade absoluta, porque quer ter dias felizes e outros menos felizes, uns de sol e outros de chuva, porque a chuva também faz falta, nem que seja para nos lavar a cara e preencher a terra ainda com mais vida. Tudo para Caeiro é natural. É natural ser feliz e infeliz, é natural nascer-se e morrer-se, afinal não somos seres vivos e não é isso que nos define? É natural chover e fazer sol, até é natural pensar, porque somos seres racionais. E é isto que o distingue de Fernando Pessoa, Ortónimo, porque Caeiro não entra em conflitos interiores, porque os contrastes existem, pois são naturais.
Caeiro considera-se um anti-filósofo, porque eles [os filósofos] são doentes, no entanto apresenta um discurso axiomático. Mas, não se enganem a sua filosofia é intuitiva e não pensada. Esta filosofia anti-filosófica de Caeiro é o ideal para se viver bem a vida. Sem conflitos interiores, sem complicações, viver a vida dia após dia, sem passado nem futuro, apenas o presente e o presente já passou.

Cátia Ferreira, 12ºB

Quem me Dera que eu Fosse o Pó da Estrada




Quem me dera que eu fosse o pó da estrada


E que os pés dos pobres me estivessem pisando...


Quem me dera que eu fosse os rios que correm


E que as lavadeiras estivessem à minha beira...


Quem me dera que eu fosse os choupos à margem do rio


E tivesse só o céu por cima e a água por baixo. . .


Quem me dera que eu fosse o burro do moleiro


E que ele me batesse e me estimasse...


Antes isso que ser o que atravessa a vida


Olhando para trás de si e tendo pena ...




Fernando Pessoa

Este poema, escolhi-o por mostrar um desejo de anti-solidão. Neste aspecto identifico-me bastante com o seu autor.
Muitas vezes, utilizamos o famoso dito “Mais vale sozinho, do que mal acompanhado”, mas isso, quando a companhia que se rejeita, é para algo temporário. Agora, quando é uma decisão definitiva, é a pior escolha a tomar, pois a solidão é como uma sentença de morte: muda, enlouquece!
A solidão tira a felicidade, a solidão tira a simpatia, a solidão tira consciência. Ela tira a vontade de viver. Ela mata gradualmente. Sozinho não se vive para ninguém. Sozinho num mundo cheio de gente, e morre-se sozinho, sem ninguém para chorar por aquela solitária alma.
Se fossemos “o pó da estrada”, os pés daquelas pessoas dariam por nós, os rios davam por nós, e mesmo as lavadeiras. Se fossemos “o burro do moleiro”, o moleiro que bate e estima, caso morrêssemos, o moleiro poderia não chorar, mas sentiria a falta.
E, olhar para trás, e ver que toda a vida se caminhou sozinho, o melhor é encontrar uma “estrada” que precise de “pó”.

Patrícia Duarte 12ºB

Leve...

“Leve, leve, muito leve,
Um vento muito leve passa,
E vai-se, sempre muito leve.
E eu não sei o que penso
Nem procuro sabê-lo. “




Alberto Caeiro

Este poema fascinou-me pela sua simplicidade, pelo facto de Fernando Pessoa conseguir transmitir, a partir deste heterónimo, o que é preciso para se ser feliz.
Para Caeiro (heterónimo de Fernando Pessoa) o mundo é visto sem necessidade de explicações, recusa o pensamento metafísico (“E eu não sei o que penso / Nem procuro sabê-lo”), insistindo naquilo a que chama “aprendizagem de desaprender”, ou seja, a apreender a não pensar. Para ele, o pensamento gera a infelicidade (“Pensar incomoda como andar à chuva”). Como ele não pensa, pois não tem necessidade de racionalizar os sentidos, a única tristeza que ele sente tem resultado do excesso de sensações.
Caeiro foi o heterónimo que melhor interpretou o Sensacionismo. Alberto Caeiro não passa além do realismo sensorial, o sentido das coisas fica reduzido à cor, forma e existência. Vive aderindo espontaneamente às coisas, tais como são, e procura gozá-las despreocupadamente.
Representando a reconstrução integral do paganismo, descreve o mundo sem pensar nele e cria um conceito de universo que não contém uma interpretação, usando uma linguagem simples, com a predominância das formas verbais no presente do indicativo. Tem um ritmo lento e ausência de rima.
PS.:Podemos observar estas características neste poema com bastante facilidade.

Andreia Senra 12ºB






segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Para seres grande sê inteiro!


Para ser grande, sê inteiro:

nada Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa.


Põe quanto és

No mínimo que fazes.


Assim em cada lago a lua toda

Brilha, porque alta vive


Ricardo Reis



Então, gostaram deste poema? Pois, eu também gostei. A verdade é que o descobri de forma inesperada e, desde a primeira vez que o li, não mais me saíram do pensamento estas palavras: “Põe quanto és no mínimo que fazes”.Todo este poema é um grande conselho, intemporal. Nele, Ricardo Reis diz-nos para sermos sempre nós mesmos, completos, na mais pequena coisa que façamos. Diz-nos ainda que nada nosso devemos exagerar ou excluir, que devemos ser, simplesmente, nós mesmos e que assim seremos grandes e brilharemos como a lua.Estas palavras de Ricardo Reis são grandes, simples e dizem tanto. Acho que falo por todos quando digo que nos fazem pensar na nossa vida e fazer a pergunta: “será que ponho tudo de mim em tudo o que faço?”. E eu respondo que talvez não, porque há coisas que nós fazemos sem querermos realmente, e talvez nessas coisas não ponhamos tudo de nós.
Ricardo Reis deu-nos um grande conselho e registou-o para ficar para sempre. Por isso o escolhi, por ser um grande conselho e, também, porque este poema me escolheu, veio ter comigo e deu-me a mão. Agora depende de nós, queremos ou não ser grandes?


Bárbara Loureiro, 12º B


A morte chega cedo



A morte chega cedo,
Pois breve é toda vida
O instante é o arremedo
De uma coisa perdida.

O amor foi começado,
O ideal não acabou,
E quem tenha alcançado
Não sabe o que alcançou.

E tudo isto a morte
Risca por não estar certo
No caderno da sorte
Que Deus deixou aberto.

Fernando Pessoa


Felizmente não posso dizer que para mim a morte chegou cedo porque ainda não morri. Não sei se estarei por cá muito mais tempo, espero estar pelo menos para atingir os meus objectivos de vida, mas será que toda agente quando morresse, se pudesse falar poderia dizer que atingiu os objectivos da sua vida? Penso que não, até porque como ninguém sabe quando vai morrer ninguém está preparado para atingir essas metas uma vez não atingidas durante a vida.
Este poema toca-me especialmente por falar de toda a vida em “meia dúzia” de versos. Ouço constantemente pessoas a dizerem-me para eu aproveitar bem a vida já que ainda sou novo, pois se tivessem a minha idade e soubessem o que sabem hoje, mudariam o rumo das suas vidas. Porque é que dizem isto? Se lhes fosse cedida a oportunidade de fazerem isso, passando alguns anos não diriam o mesmo? Penso que sim. Acabamos a vida sem nunca concretizar todos os nossos sonhos, até porque se calhar seria impossível de concretizar todos os sonhos, ou porque são muitos, ou porque a vida é realmente curta, e a morte chega cedo. Para Pessoa a morte chegou realmente cedo, mais cedo dois anos do que ele esperava, mas não teria ele planeado coisas importantes para esses últimos dois anos, que marcariam o rumo da sua história de vida? Já dizia António Variações: “Não deixes para amanha o que podes fazer hoje.”. Quando temos a oportunidade de fazer uma coisa que queiramos temos que aproveitar esse preciso momento para se tivermos oportunidade, fazer essa coisa pois não sabemos quando a morte nos vai chegar e como diz Pessoa: “A morte chega cedo”. Não podemos arriscar a deixar objectivos da nossa vida por atingir, pois ao que se sabe vida é só uma e tem que ser bem aproveitada, para não dizermos que a morte chegou cedo.

Tiago Luso Coelho, 12ºC

[texto por editar pela professora]

Carpe Diem


Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
O que não pode ver-se.

Porque tão longe ir pôr o que está perto –
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este é o momento, isto
É quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
O dia, porque és ele.


Ricardo Reis


Escolhi este poema não por me identificar com ele, mas precisamente pelo oposto. Por perder demasiado tempo com coisas inúteis, por deixar para amanhã o que podia fazer hoje (por isso estou a escrever isto hoje, porque fui deixando sempre para “amanhã”, até que chegou o último “amanhã”, que é hoje… pelo menos o último que está dentro do prazo). Faço-o recorrentemente, até que chego a um ponto em que deixei tantas coisas para “amanhã” (que é hoje), que não tenho tempo para as fazer ou aprecia-las como essas coisas mereciam. No final, tudo se resume a isto: Tempo. O Tempo passa, e nós passamos com ele. Até que chegamos a um ponto em que deixamos de passar, e paramos no Tempo. E acabou. Finito! Kaput! E olhamos para trás (ou não, depende d’aquilo em que cada um acreditar) e vemos aquilo que fizemos, ou o que não fizemos, e já não há nada a fazer.
Não vivamos com os olhos no passado, porque, por ser passado, já passou. Não vivamos com os olhos no futuro, porque, por ser futuro, ainda não foi, e não sabemos como será. Não sabemos sequer se existiremos nele. Memento Mori – lembra-te que morrerás! Eu sou. Agora!

Nuno Areia, 12º C