segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

“Aquela Senhora tem um piano”



“Aquela Senhora tem um piano
Que é agradável mas não é o correr dos rios
Nem o murmúrio que as arvores fazem.

Para que é preciso ter um piano?
O melhor é ter ouvidos
E amar a natureza.”

Alberto Caeiro


Em primeiro lugar convém explicar aos leitores o que me levou a escolher um poema de Alberto Caeiro e não de Fernando Pessoa.
Talvez tenha sido pelo facto de me identificar mais com a personalidade de Caeiro: pessoa simples, sensacionista e amante da Natureza, tal como eu. Caeiro é dotado de uma linguagem tão simples que se torna quase infantil, sem mecanismos de subordinação ou de pronominalização. Com este tipo de linguagem, o autor procura ser a voz da Terra, com toda a sua simplicidade e naturalidade, sem preocupações de ordem metafísica e social, como Pessoa, desnuda as coisas de sentidos filosóficos vendo-as tal como são.
Passo agora a explicar o que me levou a escolher este poema. Escolhi-o pela sua simplicidade e objectividade. Caeiro vive de impressões, na sua grande maioria visuais embora neste poema se encontre mais vincada a impressão auditiva, “ (…) Que é agradável mas não é como o correr dos rios/ Nem o murmúrio que as arvores fazem/ (…) O melhor é ter ouvidos (…)” Em quase todos os seus poemas, Caeiro faz comparações, comparações estas normalmente relacionadas com a Natureza, pois Caeiro assume-se como sendo o “poeta da Natureza”.
Não há nada mais belo para Caeiro que a Natureza, mas não nos podemos deixar cair na armadilha. Caeiro pretende ser “o descobridor da Natureza”, diz ama-la, mas acrescenta (noutros poemas) que “não a conhece”, que “não sabe o que ela é”. Mas como pode alguém amar uma coisa que desconhece? Caeiro não se importa com isso, simplesmente ama a Natureza. Ele mesmo afirma “Se falo da Natureza não é porque saiba o que ela é,/ Mas porque a amo, e amo-a por isso”. Ele quer, somente, ver as coisas simples da vida. Há nele a inocência de ver as coisas sem abstracções ou formulações de conceitos que levam á “dor de pensar”, como é o caso de Fernando Pessoa ortónimo. Vê a Natureza na sua constante renovação e crê na “eterna novidade das coisas”. A “recordação é uma traição á Natureza”. Interessa-lhe o concreto, o imediato, uma vez que é aí que as coisas se apresentam como realmente são.
Após o estudo de Fernando Pessoa Ortónimo e Alberto Caeiro, cheguei á conclusão que todos nós devíamos “retirar um pedaço” da intelectualização de Fernando Pessoa, e, outro “pedaço” do sensacionismo e naturalismo de Alberto Caeiro…pois só desta forma, do meu ponto de vista, é que conseguiremos ser felizes.

Cláudia Martins, 12ºA


[texto por editar pela professora]

Será isto crível?



A miséria do meu ser,


Do ser que tenho a viver,


Tornou-se uma coisa vista.


Sou nesta vida um qualquer


Que roda fora da pista.


Ninguém conhece quem sou


Nem eu mesmo me conheço


E, se me conheço, esqueço,


Porque não vivo onde estou.


Rodo, e o meu rodar apresso.


É uma carreira invisível,


Salvo onde caio e sou visto,


Porque cair é sensível


Pelo ruído imprevisto...~


Sou assim. Mas isto é crível?



Fernando Pessoa

Não consigo deixar de achar curiosa a quantidade de gente com que me esbarro todos os dias, que aparenta uma felicidade considerável. Falam da vida como quem fala de um parque de diversões, tratam os problemas por tu e jogam às cartas com a felicidade. E mesmo quando reparam que a sorte pode não estar do seu lado e o jogo em risco, limitam-se a flutuar, como balões de mão em mão a ondular, de tão leves que são em si, os efeitos das suas preocupações. Dizem-se felizes, mostram-se felizes, acreditam-se felizes.
Eu a mim própria vou perguntando, qual a credibilidade de tal felicidade. A verdade é que não consigo acreditar em tal conto de fadas. Sei que já fui assim. Em tempos acreditei nessa utopia a quem chamam felicidade, porque no fundo o que todos queremos é viver no sonho da certeza de que não somos nem nunca seremos miseráveis. Projectamos um eu que buscamos toda a vida. Seguimos regras e princípios. Vivemos, conhecemos os outros e o mundo e tentamos a todo o custo que conheçam de nós o que queremos ou queríamos ser, e não a miséria que muitas vezes somos, em que muitas vezes nos tornamos. Moldamo-nos a esse projecto que na sua base seria perfeito, lutamos por ele e pela sua concretização (por vezes cegamente) e, no entanto, o que resulta é a constante e gradual degradação desse eu, agravada pela constatação do falhanço. Deixamos de saber quem somos, surgindo a dúvida de alguma vez o termos chegado a saber. E depois, a solidão que completa a sensação de sacrifício em vão, de vida desperdiçada. E tudo que ambicionamos parece resumir-se num eu estranho, desconhecido por nós próprios, pelos que nos rodeiam, desenquadrado do mundo, da vida, porque tudo o que alguma vez desejou ser ou conseguir caiu por terra, deixando apenas um rasto de gente, “um qualquer” que vai rodando “fora da pista”. Resta apenas o eu e os seus fantasmas, aqueles que acordam bem cedinho de manhã, depois de adormecidos pelo sonho, e que trabalham o dia inteiro, carpinteiros fiéis que martelam as tábuas que restam do móvel que por vazio e inútil, se encontra desfeito.
E depois o duro momento de acção. Chegam os outros e o eu entra em palco. Toda a miséria é mascarada de felicidade ou qualquer coisa que a lembre. E assim aparece gente feliz neste mundo, gente que quando o dia acaba e os outros saem de cena, é apenas a miséria reflectida no espelho e uma máscara de felicidade caída no chão. E cada dia um novo acto desta peça depressiva que vai compondo toda uma vida, até que a força falhe e a vontade esgote, e a máscara caia não apenas à noite, e pelo seu “ruído imprevisto” seja vista essa miséria de ser.
Assim tentei resumir tudo o que este poema me transmite. É este poderoso realismo negativo que me fez escolhê-lo. Talvez a comparação do poema com a realidade que nos rodeia acabe por parecer uma interpretação exageradamente depressiva da mesma, e talvez um transportar excessivo da realidade pessoal para a exterior, mas a verdade é que onde muitos vêem felicidade, eu acabei por aprender a ver outras coisas mais. E quanto mais vivo, quanto mais conheço, quanto mais vejo do mundo que me constitui e me rodeia, mais certeza tenho de que no fundo, todos sentimos o que Fernando Pessoa, quanto a mim, transmite neste poema. Todos nos sentimos miseráveis, uns mais outros menos, uns sempre outros em certas fases da vida, quer o admitamos ou não, quer o queiramos ou não. Há quem tolere esse sofrimento ou prefira fingir que ele não existe, há quem o torne numa “coisa vista”, criando patologias com desfechos mais ou menos drásticos… e depois há Pessoa, que o escreveu e me faz agora, pelo menos a mim, sentir menos só (embora não menos miserável).
E se Pessoa interroga, no final, se será “isto crível?”, eu pergunto se haverá alguém para quem isto não seja crível?... Espero que sim.

Catarina Gonçalves, 12º C


[texto por editar pela professora]


Fernando Pessoa

Primeiro Fausto
Segundo Tema: O Horror de Conhecer






Maurice Denis «Sans titre»,
huile sur toile





















I

O inexplicável horror
De saber que esta vida é verdadeira,
Que é uma coisa real, que é [como um] ser
Em todo o seu mistério
Realmente real.
(...)



A realidade dói com correntes enferrujadas de consciência rotineira. Ainda que a ferrugem, enquanto humana ferrugem, dos elementos químicos, não oxide quimeras. Eis a fuga! A doce, terna e breve…tão breve que amarga, que devora – Fuga!
Erguem-se vórtices de gritos crescentes! São hostes negras que ecoam a voragem de caliginosos demónios! Erguem-se moribundos e babosos, de entre fendas nocturnas!
Isto tudo, dentro do meu café matinal, mais dentro ainda, dentro do eu mexer o café de manhã. Rugem inventados os demónios. Se sonho é verdade, eu tremo! Felicidade?! Sim, nestas migalhas de Tempo, quando estou a sós com os meus demónios e o sonho se espalha em tudo o que é, por não existir. Feliz, sim…até ter de acordar para pagar a conta, arrumar os livros e pôr a caneta no sítio da caneta, e apertar os cordões que por teimosia se desapertam…todos os dias. E isto, que esmaga o anterior isto ali de cima (sempre de cima, porque esse voa), cansa e faz sono. Tanto sono…





Para que a interpretação analítica e objectiva, de certas línguas vesgas, me não acuse, injustamente, de hermetismo complexó-ininteligível (quiçá talvez poético…), deixo uma breve análise, mais precisa e c-l-a-r-a, dum outro poema de Pessoa. Pois sempre saúdo os emproados, com beijos nos seus olhos não abertos.




O que me dói não é
O que há no coração
Mas essas coisas lindas
Que nunca existirão...

São as formas sem forma
Que passam sem que a dor
As possa conhecer
Ou as sonhar o amor.

São como se a tristeza
Fosse árvore e, uma a uma,
Caíssem suas folhas
Entre o vestígio e a bruma.

Fernando Pessoa, 5-9-1933


Os dois primeiros versos são concomitantes da linha de pensamento pessoana, visto justificarem a dicotomia entre a dor espontânea, pertencente ao domínio do sensível, e a dor intelectualizada, do domínio do pensamento.
Há, portanto, uma clara cisão entre a razão e a emoção, sendo que esta última se torna secundária, pois o poeta “sente com a imaginação” (como o diria no poema “Isto”) e não com o coração, ou seja, as emoções são intelectualizadas, de modo a cumprirem com o conceito de veracidade artística.
Assim, de acordo com Fernando Pessoa o poeta não deve senão “sentir literariamente as cousas”, suprimindo a sinceridade humana em detrimento do fingimento artístico.
Neste contexto, o que dói não é “o que há no coração” mas o que existe no pensamento, trata-se, portanto, duma dor transfigurada.
Percorrendo, ainda, a mesma estrofe do poema, surge, logo no verso seguinte, a expressão “coisas lindas”, peculiarmente pessoana.
“Essas coisas lindas” pertencem a uma dimensão de beleza artística idealizada pelo poeta, e são o resultado da transfiguração, através do pensamento, dum conjunto de vivências espontâneas, inseridas no domínio do real, e de vivências constituídas, por sonhos, criadas com o auxílio da imaginação, que por sua vez, é o elemento impulsionador que permite ao poeta fingir sentimentos.
E, de facto, “essas coisas (…) nunca existirão” ao nível do concreto, pois, de acordo com o que foi referido anteriormente, pertencem à dimensão do Ideal, que é forçosamente abstracto.
Finalmente, quanto à última estrofe, a sua estrutura passa inteiramente pelo uso da comparação, que está ao serviço da forma como F.P. pretende transpor a sensação de vago, de subtil, característica dum domínio Ideal e, por isso, impreterivelmente, enigmático e abstracto, daí também a presença dos vocábulos “vestígio” e “bruma”. Curiosamente, se se explorar mais esta ideia, poder-se-á, até, pensar que, quando se não tem um conhecimento concreto das coisas surge a necessidade do uso da comparação, para, neste contexto, descrever as “coisas lindas” na sua ampla concepção imaginária.
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Quando Caeiro diz...


Se às vezes digo que as flores sorriem
E se eu disser que os rios cantam,
Não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores
E cantos no correr dos rios…
É porque assim faço mais sentir aos homens falsos
A existência verdadeiramente real das flores e dos rios.

Porque escrevo para eles me lerem sacrifico-me às vezes
À sua estupidez de sentidos…
Não concordo comigo mas absolvo-me
Porque só sou essa coisa séria, um intérprete da Natureza,
Porque há homens que não percebem a sua linguagem, por ela não ser linguagem nenhuma.


Alberto Caeiro


Ao princípio, tive dificuldades em escolher um poema de Fernando Pessoa ou de um dos seus heterónimos, mas por fim optei por escolher este poema de Alberto Caeiro pois, das poesias que estudamos na aula do Ortónimo e Alberto Caeiro, é com Caeiro que mais me identifico.
A maneira como ele descreve a Natureza na sua poesia, sem lhe dar segundas intenções, sem que entre a subjectividade, é uma coisa impressionante. E depois a linguagem simples que ele usa, mostra que ele não procura significados para as coisas que vê. Estas são algumas das razões que me levaram a escolher este poema. Um poema simples e que é muito caracterizador de Alberto Caeiro.
Os primeiros quatro versos revelam o olhar nítido do poeta, sem passar pelo “crivo” da razão, olhar esse, que para o poeta, é que é o olhar verdadeiro, aquele que é objectivo, aquele que não atribui significados, aquele que vê tudo ao natural:
“Uma flor acaso tem beleza?
Tem beleza acaso um fruto?
Não: têm cor e forma
E existência apenas.
Os 2 últimos versos da 1ª estrofe mostram-nos que o poeta rejeita o pensamento e valoriza as sensações, principalmente a visual. Quando fala dos homens falsos está a referir-se aos homens que privilegiam o pensamento, aqueles que não se contentam em observar apenas, aqueles que preferem ver o lado místico de, por exemplo, uma flor e que a associam logo a emoções e gestos humanos, não se contentando que ser apenas uma flor e nada mais do que isso.
Na 2ª estrofe Caeiro afirma que, às vezes,tem que se sacrificar à estupidez de sentidos dos homens falsos, mostrando que, às vezes, também pensa. Mas para Caeiro, não são os pensamentos que provocam as ideias, estes aparecem como algo passivo que só é utilizado para guardar as ideias, a sua poesia é natural, assim como a natureza. O que está no pensamento é o resultado da percepção imediata e é isso que regista nos seus versos.
Assume-se como o intérprete da natureza, aquele que a percebe, pois não há nada a perceber a não ser que o que existe é a própria natureza.
Nos dois últimos versos o poeta torna a afirmar que a natureza não é mais do que isso, a natureza.
Neste poema, o poeta usa uma linguagem simples, vocabulário pobre, predomínio de nomes concretos, ausência de adjectivos, pois ele não atribui significados, por exemplo, a uma flor, e por isso não precisa de adjectivos, verbos no presente, o que exprime actualidade, permanência, variedade métrica e rítmica, estrofes com seis versos - sextilhas, ligação de orações por coordenação.

Manuela, 12ºB

Os nossos poemas




Os meus pensamentos resumem-se a sensações,
Penso com as mãos e com os pés,
E com o nariz e a boca,
E com os olhos e os ouvidos.

O Mundo não se criou para o pensarmos,
Mas sim para ser observado.
E sei vê-lo, pois vejo-o sem pensar,
E sem pensar consigo sentir
Consigo sentir-me parte dele.

Sinto-me a florir a cada momento,
Pronto a enfrentar aquilo que o Mundo me trouxer.
Sou como poeira,
Navegando ao sabor do vento,
Sem rumo, à deriva…
E sinto-me assim
A cada dia que passa,
Sinto-me feliz!


Alberto Caeiro



Eu escolhi este poema devido a que pareceu me ser um dos mais simples que vi, pois tal como o poema eu penso de uma maneira simples. Senti alguma ligação entre mim e o poema, pois mesmo que seja uma pessoa simples, penso que estamos destinados a certas coisas como a poeira esta destinada a ser levada ao sabor do vento.
Mas claro que como todas as pessoas valentes acho que num determinado tempo todos nós nos levantamos e tentamos ir contra o vento, mesmo que fracassamos, pois ai ainda seremos mais felizes. Esta é a felicidade que Caetano não atingira pois deixou-se ir a deriva.

Rui Lima, 12ºC

[texto por editar pela professora]

Antes o voo da ave


Antes o voo da ave, que passa e não deixa rasto,
Que a passagem do animal, que fica lembrada no chão.
A ave passa e esquece, e assim deve ser.
O animal, onde já não está e por isso de nada serve,
Mostra que já esteve, o que não serve para nada.
A recordação é uma traição à Natureza,
Porque a Natureza de ontem não é Natureza.
O que foi não é nada, e lembrar é não ver.
Passa, ave, passa, e ensina-me a passar!



Alberto Caeiro



Porquê escolher este poema? Logo que li este poema identifiquei-me com ele, talvez por me identificar com o autor, Alberto Caeiro. Embora seja contra a escrita de Caeiro, este poema ensina-nos uma Filosofia de vida: viver a vida no presente sem ter grandes recordações. Não será a melhor forma de viver? Para quê recordar se já não serve para nada o passado? Caeiro mostra-nos isto nos últimos dois versos da primeira estrofe. Tal como nos diz Caeiro o presente e real e objectivo, passado e fruto do pensamento e da recordação que para ele pensar e “estar doentes dos olhos” que nos é mostrado no verso “lembrar é não ver” e o futuro é algo de metafísico e como Caeiro é anti-metafísico o futuro não lhe diz nada.
Neste poema Caeiro utiliza metáfora para nos falar das recordações, sendo essas metáforas com algo concreto e da Natureza (como é seu hábito). Classifica as recordações como rastos de animais. Com o primeiro verso da segunda estrofe Caeiro mostra-nos que a recordação não e própria da Natureza é uma traição pois recordar é pensar e se a Natureza pensasse não era Natureza pois Natureza para Caeiro e o que a visão nos mostra.





Rui Costa 12º A

[texto por editar pela professora]

Sensações verdadeiras


Os meus pensamentos resumem-se a sensações,
Penso com as mãos e com os pés,
E com o nariz e a boca,
E com os olhos e os ouvidos.


O Mundo não se criou para o pensarmos,
Mas sim para ser observado.
E eu sei vê-lo, pois vejo sem pensar,
E sem pensar consigo sentir
Consigo sentir-me parte dele.
Sinto-me a florir a cada momento,
Pronto a enfrentar aquilo que o Mundo me trouxer.
Sou como poeira, Navegando ao saber do vento,
Sem rumo, à deriva… E sinto-me assim
A cada dia que passa,
Sinto-me feliz.




Alberto Caeiro


Este é um típico poema de Alberto Caeiro, não existe a menor da dúvida que quem o começa a ler diz logo sem pensar duas vezes e sem saber a que heterónimo de Fernando Pessoa corresponde diz: “Sem sombra para dúvida isto é do Alberto Caeiro”. Bem eu escolhi este poema pois de todos aqueles que eu li, tanto na sala de aula como em casa, na Internet… Este foi o que mais me interessou. Este poema mostra a importância que Caeiro dá as sensações. Neste poema são também evidentes algumas características da sua poesia o facto de ele defender que o real é o visível, da sua poesia “deambulatória” entre outras. Mostra a recusa dele perante o pensamento. Este é sem dúvida alguma um poema daquele que foi e continuará sempre a ser “O Mestre”. Para Caeiro tudo o que existe no Mundo não é para ser pensado é para ser sentido e observado pois ele é o que nos mostra ser. Este poema tem uma simplicidade incrível, encoraja-nos na minha opinião, a sentir a vida sem rodeios, sem ter que pensar sempre em tudo, pois nós só temos uma vida e se não a aproveitarmos enquanto podemos, como vai ser depois? Apesar de eu também julgar que o raciocínio seja indispensável para a humanidade, às vezes nós (humanos obviamente!) precisamos de esquecermo-nos de tudo por breves instantes e sentir aquilo que o Mundo nos transmite. Concluindo como Caeiro diz “Sinto-me a florir a cada momento, / Pronto a enfrentar aquilo que o mundo me trouxer”.


Vanessa Múrias, 12ºA


[texto por editar pela professora]


Falas de civilização...

Falas de civilização, e de não dever ser,
Ou de não dever ser assim.
Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,
Com as coisas humanas postas desta maneira,
Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos.
Dizes que se fossem como tu queres, seriam melhor.
Escuto sem te ouvir.
Para que te quereria eu ouvir?
Ouvindo-te nada ficaria sabendo.
Se as coisas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.
Se as coisas fossem como tu queres, seriam só como tu queres.
Ai de ti e de todos que levam a vida
A querer inventar a máquina de fazer felicidade!

Alberto Caeiro


Vivemos sempre o dia-a-dia a favor do encontro de uma felicidade plena e irredutível. Guiámos as nossas acções em direcção a uma meta, felicidade. Mas o que é a felicidade? Quando é que a sentimos, se é possível tal coisa? Não existe essa felicidade plena, essa”máquina de fazer felicidade”, na qual é possível carregar num botão e obter a felicidade desejada para toda a vida. A felicidade são momentos, em que nós nos realizamos, nos sentimos superiores á realidade fatal que nos governa. Nós conseguimos atingir essa felicidade em certos momentos, e por isso mesmo, por serem momentos, são passageiros, num momento sentimo-la noutro logo a seguir, já não a vemos…
“Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos, / Com as coisas humanas postas desta maneira,”, nós estamos sujeitos ao que somos, não o podemos mudar, actuamos como devemos actuar, pensamos como devemos pensar, estamos como que fechados num círculo onde tudo o que nos diz respeito já está escrito, marcado com caneta permanente, e por isso quase todos, ou uma grande parte desse todo sofrem. Mas se conseguíssemos ser diferentes, apagar essa caneta, seríamos mais felizes? É um pouco complicado desligarmo-nos do pensamento, pois este é um factor que caminha sempre presente na nossa vida. Mas acredito que caso tal fosse possível a felicidade era muito mais fácil de atingir, porque era tudo mais real, veríamos as coisas tal como elas são na realidade, sem interrogações acerca do seu aspecto, as coisas seriam como elas são, nada mais: “se as coisas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.”
Por isso, devemos aproveitar cada momento, como se fosse o último, e viver mais as coisas como ela são, sem reticências.


Letícia Fortes, 12ºC

[texto por editar pela professora]

Poema do Menino Jesus


http://users.isr.ist.utl.pt/~cfb/VdS/v020.txt (poema completo)

(…)
Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu tudo era falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas -
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque nem era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E que nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!

Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o Sol
E desceu no primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.
(…)
Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?

Alberto Caeiro



Considero-me deveras pecadora, primeiro porque odeio a religião católica, segundo porque cometo pecados, como a preguiça, e terceiro porque por ter preguiça iria deixar passar este poema sem o ler…
Como pecadora que sou quando olhei este poema tive desde logo preguiça, como era muito extenso fechei o documento e abri um outro, contudo não poderia deixar de reter o título: “Poema do menino Jesus”.
Cerrada na minha ignorância não me ocorreu logo que Alberto Caeiro era um poeta antimetafísico, antifilofia e pagão e pensei então que se tratava de mais um poema a enaltecer a religião e a sagrada história de como foi concebido o menino Jesus…Como hereges que sou o título ainda me fez repudiar mais o poema.
Até que me ocorreu que tal poesia não ia de encontro ao que tinha estudado acerca do poeta, era incoerente que ele tivesse escrito um poema deste tipo.
Voltei atrás, apressei-me a ler e foi então que descobri a mais fiel, mais bonita e natural descrição do menino Jesus que até hoje ouvi…
Este poema encantou-me!
A simplicidade com que Caeiro descreve um menino normal e a ousadia com que lhe chama de menino Jesus, humanizando o divino absoluto, é simplesmente perfeita. Aliás, também a forma como descreve todos os outros elementos do divino com comportamentos similares aos dos restantes comuns, como a virgem Maria a fazer meia, reduzindo assim o Céu à Terra e elevando a Terra ao Céu, tudo isto é de um mérito inigualável só concretizado pelo grande Pã.
Então, pecadora? Religiões? Filosofias? Entender o mundo?
O essencial é saber ver o Mundo sensível onde se revela o divino…
“As coisas não têm significado: têm existência.”

Eva Castanheira, 12ºF

[texto por editar pela professora]

Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar
Seria mais feliz um momento…
Mas eu nem sempre quero ser feliz
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural…

Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se,
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva…

O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica…
Assim é e assim seja…

(Alberto Caeiro)



Eu escolhi este poema porque eu prefiro a poesia de Alberto Caeiro a outra que tenha estudado para já. Aquilo que Caeiro exprime neste poema é a sua felicidade, na primeira estrofe, com os versos " Mas eu nem sempre quero ser feliz/É preciso ser de vez em quando infeliz/Para se poder ser natural…" e isto identifica-se com Caeiro que também liga estes versos a Natureza sendo ele o "poeta da Natureza".
Caeiro vê o mundo sem necessidade de explicações "Que haja montanhas e planícies/E que haja rochedos e erva…", para ele é algo maravilhoso e inexplicável. É um poema simples, só Caeiro possui esta característica, apesar de ter alguns versos compridos, que também tem a ver com Caeiro (métrica irregular).
A estrofe que mais aprecio é a última devido ao jogo de palavras que possui. No fundo poema interessantíssimo.
Logo se assim é, assim seja...

Manuel Sarmento, 12ºA

[texto por editar pela professora]