segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Sou um evadido...



Sou um evadido.
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi.
Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,
Do mesmo ser
Por que não se cansar?
Minha alma procura-me
Mas eu ando a monte,
Oxalá que ela
Nunca me encontre.
Ser um é cadeia,
Ser eu é não ser.
Viverei fugindo
Mas vivo a valer.

Fernando Pessoa

O ser humano orgulha-se de ser o único ser à face da Terra dotado de uma capacidade racional. Esta razão dá-nos uma liberdade imensa.
Contudo, o estatuto de ser humano traz também consigo inúmeras limitações. Ora vejamos: o Homem não tem asas, logo não consegue voar. Todavia, desde o início dos tempos que engenhos são construídos para que possamos vaguear por entre a brisa e descobrir os trilhos que delineiam o destino dos seres genuinamente voadores.
E a verdade é que conseguimos. Temos o avião, o foguetão e até saltamos de pára-quedas.
Outra das nossas grandes ambições era a descoberta do meio marinho. Não temos barbatanas, muito menos brânquias, mas isso não nos fez parar. Se o Homem quer, o Homem consegue!
Hoje em dia temos barcos, submarinos e equipamento de mergulho altamente sofisticado que nos permite mergulhar até muitos e muitos metros de profundidade.
Devem estar a pensar que me enganei e que em vez de estar a escrever sobre um poema de Fernando Pessoa estou a dissertar sobre as grandes descobertas da Humanidade.
Ambas são verdade, uma vez que o poema que escolhi fala sobre a necessidade que Pessoa tinha de desocupar a sua pessoa, ignorar as restrições inerentes à sua condição humana e partir à descoberta de outras que o preenchessem e o realizassem a cada momento.
Daí ele afirmar que é um “evadido” porque não ficou enclausurado nas grades de um comum dos mortais, nascido a 13 de Junho de 1888, pelas 15h20min, no Largo de S. Carlos em Lisboa, denominado Fernando António Nogueira Pessoa.
Não! Viver eternamente e sempre só com isto é demasiado incapacitante e cansativo.
Assim, ele não tem outra opção senão fugir, abandonar-se a si mesmo.
Todavia, a sua alma, o seu intelecto, procura saber o seu paradeiro, procura resgatá-lo e algemá-lo a uma espécie de bilhete de identidade que o tenta definir, mas não consegue porque não o deixa redefinir-se.
Deste modo, Pessoa foge, foge para bem longe porque sabe que a única forma de se encontrar é continuar em fuga. Ele sabe que “ser eu é não ser”.
Assim foi a vida deste foragido, uma vida construída não sobre a ânsia de saber quem é mas sim de viver quem está a ser a cada instante.

Tânia Daniela Teixeira Falcão, 12ºB

Hoje de manhã saí muito cedo





Hoje de manhã saí muito cedo,
Por ter acordado ainda mais cedo
E não ter nada que quisesse fazer...

Não sabia que caminho tomar
Mas o vento soprava forte, varria para um lado,
E segui o caminho para onde o vento me soprava nas costas.

Assim tem sido sempre a minha vida, e
Assim quero que possa ser sempre
Vou onde o vento me leva e não me
Sinto pensar.

Alberto Caeiro


Neste poema o leitor pode observar que este heterónimo de Fernando Pessoa difere muito do seu ortónimo. Quando lemos este poema, ou outro qualquer de Caeiro, apercebemo-nos logo que, ao contrário do seu ortónimo, é espontâneo na sua escrita, tendo assim uns poemas que fogem às regras da poesia, assim dizendo. Caeiro é espontâneo porque ele deambula sem um destino olhando para tudo e vendo a sua essência sem pensar em segundas interpretações, escrevendo assim o que ele está a observar. Caeiro difere de muitos poetas quando recusa a pensar nos sentidos de uma “coisa”, porque pensar é estar doente come ele diz, por exemplo uma flor é uma flor e mais nada, não há que ter uma outra interpretação.
Eu escrevi esta introdução para me ajudar a explicar ao leitor este poema que eu decidi abordar. Neste poema podemos observar logo nas duas primeiras estrofes a deambulação de Caeiro quando ele diz que acordou cedo sem ter nada para fazer e não saber que caminho escolher sendo levado assim pelo vento. Ao mesmo tempo que vemos a característica de deambular, vemos também o seu contacto com a Natureza quando ele se deixa levar pelo vento. Na última estrofe Caeiro descreve resumidamente a sua vida dizendo que sempre foi levado pelo vento sem nunca ter um destino, e ao mesmo tempo vemos que é isso que ele deseja para o seu futuro, porque assim sendo levado pelo vento nunca terá de pensar, e pensar para ele é algo de errado, logo não pensar, a inconsciência para o resto da sua vida é o ideal.
Escolhi este poema porque gosto muito de verificar a diferença contrastante entre Caeiro e Pessoa sendo eles, supostamente a mesma pessoa. Também escolhi porque acho mais interessante a maneira que Caeiro tem de olhar para o mundo, e como deve viver a sua vida sendo um homem livre para poder observar a beleza da essência de uma flor, depois outro factor que me levou a escolher este poema é a sua simplicidade e ao mesmo tempo a mensagem que consegue passar.



Rafael Mendes, 12ºB

[texto por editar pela professora]

Tenho pena e não respondo

Tenho pena e não respondo.
Mas não tenho culpa enfim
De que em mim não correspondo
Ao outro que amaste em mim.

Cada um é muita gente.
Para mim sou quem me penso,
Para outros --- cada um sente
O que julga, e é um erro imenso.

Ah, deixem-me sossegar.
Não me sonhem nem me outrem.
Se eu não me quero encontrar,
Quererei que outros me encontrem?

Fernando Pessoa


De toda a gama de poesia pessoana, Fernando Pessoa Ortónimo é aquele que me fascina absolutamente.
Depois de horas de pesquisa encontrei poemas lindíssimos e com uma transmissão de ideias do outro mundo, por isso, a escolha do poema tornou-se num princípio de uma tentativa falhada.
Decidi depois falar do poema “ Tenho pena e não respondo”, não só pela sua beleza interna mas pelo que nos transmite para o exterior, que na minha opinião, não deixa de ser uma experiência dramática de vida.
Ás vezes dou por mim, a ler poemas de diversos temas, e o eu reflexo é leva-los de imediato para o lado sentimental, e este poema sem dúvida é todo ele sentimentalista. É claro que quando falo de sentimentalista em relação a Fernando Pessoa o significado torna-se literalmente diferente, pois Fernando Pessoa idealiza o sentimento e coloca a razão o intelecto, acima de qualquer tipo de sentimento.
Contudo, na minha opinião essa estética utilizada pelo poeta não se enquadra de todo neste poema, pois ele é de uma intensidade suprema que nos entra directamente para a emoção.
“Tenho pena e não respondo” encaixa-se perfeitamente no meu estado de espírito desde o momento que toca no sentimento eterno, o amor, até á desilusão criada pelo próprio poeta. Essa desilusão só foi criada pelo simples facto de criarem uma imagem para o poeta que jamais seria a dele. E se ele próprio não sabe quem é como e que alguém o pode julgar em vão? Não deixa de ser uma boa pergunta mas acho que de todo é retórica da minha parte. Não existe ninguém que nos conheça melhor que nos próprios Fernando Pessoa não sabe quem é e jamais ira ser o que os outros sonham, pois o que verdadeiramente interessa é o que ele pensa que é. De todo o poema não posso deixar passar ao lado o desfecho emocionante, longe de qualquer tipo de castelo de fadas, mostrando que às vezes a solidão é mais que nossa amiga e as vezes a própria escuridão é que nos trás a felicidade ou ate mesmo, a paz interior. E essa ideia não deixa de ser deliciosa.
Acho que este poema e dos únicos que não me canso de reler e de todas as vezes que o recordo sinto uma imensa vontade de ter sido eu a escreve-lo. Mas infelizmente não sou Fernando Pessoa muito menos aquilo que os outros pensam que sou. Aquilo que sou está em mim longe de qualquer tipo de realidade.


Tânia Gomes, 12ºB

[texto por editar pela professora]

O Meu Olhar Azul


O meu olhar azul como o céu
É calmo como a água ao sol.
É assim, azul e calmo,
Porque não interroga nem se espanta...

Se eu interrogasse e me espantasse
Não nasciam flores novas nos prados
Nem mudaria qualquer coisa no sol de modo a ele ficar mais belo...

(Mesmo se nascessem flores novas no prado
E se o sol mudasse para mais belo,
Eu sentiria menos flores no prado
E achava mais feio o sol...
Porque tudo é como é e assim é que é,
E eu aceito, e nem agradeço,
Para não parecer que penso nisso...)

Alberto Caeiro


"O meu olhar azul como o céu..." inicia-se assim o poema, de facto os olhos de Caeiro eram azuis como Pessoa referiu numa carta que escreveu a Casais Monteiro, em que descreve os seus heterónimos. Pessoa associa esse olhar azul com o céu logo faz uma ligação entre o olhar azul e a natureza(céu azul) sem alguma espécie de analise ou pensamento. Descrevendo depois esse azul como calmo "azul e calmo, porque não se interroga nem se espanta...", calmo porque não tem que pensar porque o céu é azul como são os seus olhos. Caeiro não se interroga porque seria uma atitude absolutamente inútil, pois as coisas são como são e não há nada a fazer a não ser ver, sendo esta a visão filosófica sobre a realidade de Caeiro, objectiva. Dizendo ele depois que mesmo que o Sol mudasse para mais belo e flores nascessem de novo no prado, ele iria sempre preferia as flores e o sol antigo, porque todo é como é e todo deve ser aceite como é, não devendo nada a ser pensado, sendo esta atitude de pensar, para Caeiro, inimiga da natureza, pois a natureza não tem que ser entendida, apenas e simplesmente admirada.

O que mais admiro em Caeiro e nos seus poemas e a sua maneira de pensar em relação a todo, pois para ele as coisas são como são e nada mais e é absolutamente inútil interrogar-se sobre o que fosse, em certa parte concordo com Caeiro pois se as coisas fossem para ser intelectualizadas ou interrogadas, talvez então quem sabe poderíamos dar as nossas opiniões sobre todo o tipo de coisas a algum seres superior antes de estas seres criadas não?

Filipe Vale 12º B

[texto por editar pela professora]

O que há em mim é sobretudo cansaço...

O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.


A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.


Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser…


E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto…
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço…

Álvaro de Campos





Não há dúvida que depois de uma tão intensa e basta leitura de maravilhosos poemas deste tão extraordinário homem que foi Fernando Pessoa e ter que optar por apenas um, acabei por escolher este tão modesto mas fantástico poema.
Embora tenha sido uma escolha complicada considero que foi uma excelente opção visto que me reconheço nestas palavras que acarretam tantos sentimentos, desânimo e cansaço.
Através deste poema Álvaro de Campos transmite-nos um sentimento de plena desmotivação, de puro cansaço, apenas isso, cansaço.
Campo fala-nos de realidades que todos pretendem alcançar, que resultam em cansaço de sentimento inúteis, de paixões violentas e intensas por um suposto alguém, tudo isto o agoniza num cansaço interior extremo.
Confronta-nos ainda dizendo que existem sem dúvida pessoas que conseguem suportar este cansaço, mas talvez não o sintam na realidade, diz ainda que existe quem ame o infinito, quem consiga desejar o inalcançável e ainda quem não queira nada.
Para essas pessoas viverem a vida bastar-lhes-á unicamente o meio entre o tudo e o nada.
Para Campos tratam-se todos de idealistas.
Álvaro de Campos não se encaixava em nenhum desses ideais, pois conseguia alcançar sempre algo mais remoto, amando o infinitamente o infinito, desejando o impossivelmente possível, e querendo tudo ou mais se possível.
Todos estes sentimentos tornar-se-ão numa felicidade inculta, ou seja, no seu cansaço, que ele caracteriza como supremíssimo, íssimo, íssimo cansaço.
Álvaro de Campos está cansado por não atingir o que para esses outros é tão fácil talvez porque os outros não contestam, não são audazes, mesmo quando não desejam nada.
Campos possuía uma enorme intranquilidade, que ele defendia como sendo cansaço, mas que no fundo não passa da sua não aceitanção do seu fracasso no mundo.
Invejava os outros para quem esse meio basta-lhes, vivendo e morrendo sem contestarem a vida, aceitando e vivendo apenas com esse meio entre o tudo e o nada.
No meu entender, é realmente assim que a vida nos deixa, cansados, mesmo para aqueles que o meio entre o tudo e o nada lhes basta o cansaço acabar por os corroer e ninguém consegue viver toda a vida apenas no meio e desse meio, chegará um dia em que se diz basta, e a soluçao é tentar alcançar o topo, o certo é que são poucos os que o conquistam, e ai senti mo-nos inúteis .
Então aí, o cansaço volta a nos corroer… a corroer por dentro, tirando-nos tudo, mesmo a quem nunca desejou nada.



Paula Fernandes 12º F


[texto por editar pela professora]

VIVE





Vive, dizes, no presente,
Vive só no presente.

Mas eu não quero o presente, quero a realidade;
Quero as cousas que existem, não o tempo que as mede.




O que é o presente?
É uma cousa relativa ao passado e ao futuro.
É uma cousa que existe em virtude de outras cousas existirem.
Eu quero só a realidade, as cousas sem presente.



Não quero incluir o tempo no meu esquema.
Não quero pensar nas cousas como presentes; quero pensar nelas como cousas.
Não quero separá-las de si-próprias, tratando-as por presentes.

Eu nem por reais as devia tratar.
Eu não as devia tratar por nada.


Eu devia vê-las, apenas vê-las;
Vê-las até não poder pensar nelas,
Vê-las sem tempo, nem espaço,
Ver podendo dispensar tudo menos o que se vê.
É esta a ciência de ver, que não é nenhuma.
Alberto Caeiro

Para explicar o motivo da escolha deste poema devo começar por dizer que preferi um poema de Alberto Caeiro, pois ele é o heterónimo de Fernando Pessoa que mais me agrada, pois é o mais objectivo, recusando a subjectividade das palavras. De entre alguns poemas de Caeiro este foi o que mais me chamou à atenção, pois tal como o poeta, eu considero que o presente é apenas um momento de transição entre o passado e o futuro, não poderia haver passado nem futuro se não houvesse o presente como forma de comparação.
Segundo o poeta, devemos pensar nas coisas, só como elas são e não nas considerações que temos sobre elas ou que poderemos vir a ter. Devemos considerar o Mundo só como ele é e não julgá-lo pela informação que temos sobre ele. A visão que temos de tudo, não é a realidade, é uma distorção do real que pode variar de pessoa para pessoa.
Concluindo, o poema considera que devemos viver a vida como se não houvesse passado, nem futuro, devemos vivê-la simplesmente, com a inocência de cada dia. Este ideal pode ajudar muitas pessoas a serem um pouco mais felizes.

A ARANHA

A ARANHA do meu destino
Faz teias de eu não pensar.
Não soube o que era em menino,
Sou adulto sem o achar.
É que a teia, de espalhada
Apanhou-me o querer ir...
Sou uma vida baloiçada
Na consciência de existir.
A aranha da minha sorte
Faz teia de muro a muro...
Sou presa do meu suporte.


Fernando Pessoa


Escolhi este poema, pois achei-o bastante interessante pelo seu conteúdo, e mais ainda pelo seu título, um pouco “diferente do normal”, intitulado como: “A aranha”.
Na minha perspectiva, o verso”A Aranha do meu destino”, refere-se ao rumo que a vida de Pessoa levou, afinal não se pode fugir ao destino.
O verso “Faz teias de eu não pensar”, de certa forma pode ser encarado como uma ironia, podemos falar no caso de quando uma casa por exemplo é desabitada, passado algum tempo a casa acaba por ganhar teias, como todos nós sabemos, Pessoa intelectualiza o pensamento, ou seja ele pensa nas coisas da vida “não ganhando assim as teias dentro da sua cabeça”.
Pessoa quando era criança “menino”, não sabia “não soube” se era feliz, pois as crianças não racionalizam, mesmo assim agora em adulto ele tem a consciência, que quando era criança era feliz, pois agora já racionaliza vem daí “na consciência de existir”, isso vai trazer reflexos como, o seu passado (infância) ser idealizado, pois é uma época em que tudo é possível, ao contrario da prisão intelectual do presente.
Os últimos 2 versos, dão-me a sensação que Pessoa está-se a referir a algo que esteja preso, a ideia de fazer teia de muro a muro, é de ele estar na “prisão”, e ser a presa, da própria teia “suporte”, ou seja do próprio destino, nós como seres humanos, envolvemo-nos na teia para encontrar o nosso destino.

Sara Anjo 12ºB

[texto por editar pela professora]

Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta

Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta,
Em que as coisas têm toda a realidade que podem ter,
Pergunto a mim próprio devagar
Porque sequer atribuo eu
Beleza às coisas.

Uma flor por acaso tem beleza?
Tem beleza por acaso um fruto?
Não: têm cor e forma
E existência apenas.
A beleza é o nome de qualquer coisa que não existe
Que eu dou às coisas em troca do agrado que me dão.
Não significa nada.
Então porque digo eu das coisas: são belas?

Sim, mesmo a mim, que vivo só de viver,
Invisíveis, vêm ter comigo as mentiras dos homens
Perante as coisas,
Perante as coisas que simplesmente existem.

Que difícil ser próprio e não ser senão o visível!

Alberto Caeiro


Alberto Caeiro, heterónimo de Fernando Pessoa o frustrado…
Devo dizer que Fernando Pessoa não é um poeta com que eu me identifique muito, contudo, aprecio bastante o estilo de Alberto Caeiro. Para quê complicar? Pensar? Só se estiver doente! Eu apoio Caeiro, “a sensação é tudo”, viva a Natureza…
Uma flor é uma flor, um fruto é um fruto! Mistério? Nenhum. Ah grande Mestre!
Eu acredito que todos devíamos ver o mundo desta maneira, simples e belo, tal como Alberto Caeiro o vê (ou tenta ver). Portanto vamos todos apenas ver, não pensem, não vale a pena, sejam felizes!
Por isso escolhi este poema, não por ser “bonito” ou pela sua musicalidade (inexistente) mas porque me identifico bastante com este pensamento de Caeiro, é simples, objectivo, e embora seja difícil libertarmo-nos dos estímulos e aprendizagens com que somos bombardeados logo à nascença e que nos acompanha no nosso desenvolvimento, e até para Caeiro é difícil como o próprio afirma no poema, vamos tentar não racionalizar e apenas…viver!

André Matos 12ºA nº3

[texto por editar pela professora]

Cada dia sem gozo não foi teu


Cada dia sem gozo não foi teu
(Dia em que não gozaste não foi teu):
Foi só durares nele. Quanto vivas
Sem que o gozes não vives.

Não pesa que amas, bebas ou sorrias:
Basta o reflexo do sol ido na água
De um charco se te é grato

Feliz o a quem, por ter em coisas mínimas
Seu prazer posto, nenhum dia nega
A natural ventura!

Ricardo Reis


O poema que escolhi para este trabalho é de Ricardo Rei, um dos muitos heterónimos de Fernando Pessoa. Nos poemas de Ricardo Reis encontramos marcas epicuristas.
O epicurismo, com a sua máxima, “carpe diem”, considera o prazer como o mais alto dos bens e defende que se deve viver o dia a dia com felicidade. O prazer é, para os epicuristas, o sumo bem do homem e todos os nossos esforços devem tender a obtê-lo. Todavia, não é o prazer grosseiro que importa, mas aquele que provém da cultura do espírito e da prática da virtude. O prazer verdadeiro consiste na ausência de dor. Em suma, o epicurismo pretende responder à questão fundamental da dor e da morte, oferecendo, como resposta, o repouso e a ataraxia (ausência de perturbação), gozando em profundidade, o momento presente. Encontra-se, assim, a definição de carpe diem. Esta expressão significa “aproveita o dia” e provém das palavras que Horácio proferiu a Leucónia, “Carpe Diem quam minimum credula postero” (Goza o dia e conta o menos que possas com o dia de amanhã).

Eu escolhi este poema, visto que a sua mensagem captou a minha atenção. Se, na nossa vida, não se gozassem as coisas boas ou as coisas más nunca seríamos felizes, isto é, não conseguiríamos atingir a felicidade, pois, realmente, não vivíamos, não seríamos capazes de aproveitar cada momento. O poema transmite isso mesmo, que se soubermos aproveitar cada momento, por mais pequeno que seja, já conseguimos ser felizes, é essencial sabermos dar importância a tudo o que nos rodeia “Basta o reflexo do sol ido na água/ De um charco se te é grato”.

Eu sei que não se pode viver cada dia como se fosse o último, pois isso também não nos faria muito felizes, uma vez que viver a pensar que, no dia seguinte, se pode morrer é algo muito mau e não permite que se viva. Devemos viver segundo a máxima “Não deixes para amanhã, aquilo que podes fazer hoje”. Se há algo que queremos dizer ou fazer, devemos fazê-lo, porque a sensação de chegar ao dia seguinte e perceber que, por alguma motivo não controlável por nós, já não se pode fazer aquilo que deveríamos ter feito irá estar, sempre, no nosso interior e dificilmente será esquecida a marca do adiamento para sempre.

O poema transmite que as pequenas coisas, os pequenos momentos, os pequenos gestos são realmente importantes e serão esses que, no fim do dia, nos farão ver como vale a pena viver e, no dia seguinte, continuar, daí não podermos viver com medo da morte, antes ter a certeza que ela existe e que é uma realidade. Devemos chegar ao fim do dia e concluir que fizemos tudo o que tínhamos para fazer e que dissemos aquilo que era importante às pessoas que mais gostamos. Neste sentido não concordo, totalmente, com a frase de Horácio, porque é bom podermos contar com o dia seguinte, é bom poder planear o futuro, mesmo que depois se alterem os planos.

Cada um de nós deve saber distinguir aquilo que é realmente importante, daquilo que pode adiar e do qual não terá qualquer arrependimento, por não ter feito, quando surgiu a ideia. Nunca nos devemos esquecer que são os pequenos momentos dos nossos dias que deixaram marcas importantes em nós e que são esses os que mais devemos aproveitar e guardar, porque esses momentos, em conjunto, formam aquilo a que chamamos Vida.
Vive, não deixes nada para trás.
Colhe as flores e rega o jardim com tudo o que possas fazer para seguir em frente feliz. Não queiras a vitória sem a merecer, antes ama o poder ser. Não vivas a angústia do impossível, esse está longe e faz sofrer.

Vence a morte porque viveste.

Melânia Carvalho, 12º B

[texto por editar pela professora]

domingo, 30 de novembro de 2008

Hoje de manhã saí muito cedo



Hoje de manhã saí muito cedo,
Por ter acordado ainda mais cedo
E não ter nada que quisesse fazer...

Não sabia que caminho tomar
Mas o vento soprava forte, varria para um lado,
E segui o caminho para onde o vento me soprava nas costas.

Assim tem sido sempre a minha vida, e
Assim quero que possa ser sempre
Vou onde o vento me leva e não me
Sinto pensar.

Alberto Caeiro


Depois de ter lido vários poemas, este foi aquele que mais me cativou. Não sei bem porquê mas talvez por neste momento, de certa forma, estar também a viver conforme o vento me leva.
Viver assim é mais fácil, porque não temos que tomar decisões que, por vezes são precipitadas e, por isso não temos que pensar. E, se algo não acontecer como desejamos, não culpamos a nós próprios, mas sim ao vento, pois foi esse que nos encaminhou para esse destino. O que é bom, porque não temos aquele sentimento de culpa que tanto nos atormenta. Pode ser mais simples viver assim mas, não sei até que ponto é melhor, pois não pudemos criar objectivos, apenas desfrutar o que a vida nos reserva e não explorar outros modos de o fazer. Mas também não quer dizer que, por vezes, não seja necessário ‘fugirmos’ a este pensamento, porque de facto é. Pois só assim nos pudemos abstrair daquilo que nos incomoda, dos nossos medos, das decisões difíceis que surgem ao longo da vida e, assim não temos que “acordar cedo” para pensar no que, muitas vezes, nos faz sofrer.
E, como Caeiro recusa-se a pensar (pois, para ele “pensar é estar doente dos olhos”) esta é uma boa forma de levar a vida, pois deixa de ter tantas responsabilidades e deixa que o vento ‘pense’ por ele. E assim é feliz. Não o condeno. Até porque já deixei que o vento me levasse várias vezes, e talvez possa estar a deixar fazê-lo, mas ao contrário de Caeiro, não quero que aconteça sempre porque, “nada em excesso, nada em defeito, a virtude está no meio”.

Daniela Esteves 12ºC

[texto por editar pela professora]