segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

“Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes,

mas não esqueço que a minha vida é a maior empresa do mundo.

E que posso evitar que ela vá à falência.

Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver, apesar de todos os desafios.

Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas
e tornar-se autor da própria história.

É atravessar desertos fora de si,
mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da alma.
É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.

É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um "não".

É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta .

Pedras no caminho? Guardo todas,

um dia vou construir um castelo... "


Fernando Pessoa


Escolhi este poema especialmente pela mensagem de busca da felicidade e também pelos dois últimos versos, que resumem aquilo que é a nossa vida.
No início do poema, o sujeito poético reconhece ter defeitos, tal como todos nós. No entanto, embora não seja perfeito não se esquece que só ele pode lutar pela felicidade.
Pessoalmente, concordo com este ponto de vista, pois acredito nas capacidades do ser humano. Não me contento com a teoria de que estamos predestinados a ser felizes e infelizes. Acredito na minha auto determinação para fazer as minhas escolhas em busca daquilo que penso que é melhor para mim.
Sujeito poético enuncia aquilo que considera importante para se atingir a felicidade. Mais uma vez reforça a ideia de que tudo depende de nós próprios.
Não posso deixar de concordar com estas afirmações. Muitas vezes as pessoas acreditam ou querem fazer acreditar que são “vítimas da vida”, esperando que sejam os outros a ajudá-las, a decidir e a viver por elas. Penso que as pessoas que se deixam levar por estes tipos de sentimentos nunca conseguiram ser felizes na realidade. É preciso, ter força, vontade, coragem para encontrar o “oásis” dentro de nós, essa força de lutar que nos faz viver.
Em relação aos sentimentos, o sujeito poético refere que não deixemos ter medo deles. Concordo com esta afirmação, embora reconheça que, por vezes, é difícil e até pouco constrangedor falar de nós mesmos e expormos os nossos sentimentos.
No entanto, quando achamos que o devemos fazer, penso que devemos arriscar mesmo que do outro lado a receptividade não seja a melhor. É difícil ouvir um “não” mas, para mim, mais vale arrepender-me de algo que fiz do que ficar a pensar como seria se o tivesse feito.
Penso que as “pedras no caminho”que o sujeito poético refere são os obstáculos, as dificuldades e os erros que vamos cometendo ao longo da vida. Estas “pedras”, embora não representem situações poéticas, devem ser conservadas pois são elas que formam a nossa individualidade. Este “castelo” que o “eu” se propõe construir representa a pessoa humana com todas as dificuldades e experiências pelas quais passou.
Ao ler este poema, apercebi-me de que poderia funcionar como uma lição de vida. Como jovem que sou, ainda com muitos obstáculos para ultrapassar é importante receber este tipo de mensagem de optimismo perante a vida.
Espero ter a força de lutar e seguir o meu caminho, fazendo as minhas escolhas e buscando a felicidade por mim própria. Sem esperar que sejam os outros a faze-lo por mim.

Ana Cristina, 12º C



[texto por editar pela professora]

Quem me dera que eu fosse o pó da estrada
E que os pés dos pobres me estivessem pisando…

Quem me dera que eu fosse os rios que correm
E que as lavadeiras estivessem a minha beira…

Quem me dera que eu fosse os choupos á margem do rio
E tivesse só o céu por cima e a água por baixo…

Quem me dera que eu fosse o burro do moleiro
E que ele me batesse e me estimasse…

Antes isso que ser o que atravessa a vida
Olhando para trás de si e tendo pena…


Alberto Caeiro


Eis a minha escolha, um poema de Caeiro.
Talvez o tenha escolhido pela simplicidade das suas palavras, que, por detrás querem dizer muito.
Gosto deste poema pelo que ele transmite e não pela sua beleza ou pelas suas rimas bem concebidas, gosto porque me faz reflectir acerca daquilo que somos e daquilo que julgamos ser. Vejo neste poema todos aqueles que gostariam de ter mais atenção, mesmo trocando a sua identidade por uma insignificância que os faça feliz.
É, ou deve ser terrível viver uma vida a leste que se sonha, mas, essa infelicidade é o reflexo de ambições desmedidas.
Nada é mais desnecessário que querer ser aquilo que não se pode ser!

Cristiana Ribeiro, 12ºF
[texto por editar pela professora]

Se, depois de eu morrer...

Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples.
Tem só duas datas --- a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra todos os dias são meus.

Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as coisas sem sentimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.
Compreendi que as coisas são reais e todas diferentes umas das outras;
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.
Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso fui o único poeta da Natureza.


Alberto Caeiro


Depois de uma pequena pesquisa para tentar conhecer um pouco melhor este poema de Alberto Caeiro, fiquei a saber que este é um poema inconjunto pois não tem um tema específico. Talvez esta seja a principal razão pela qual escolhi analisar este poema pois apesar de não falar de um tema em concreto, conseguimos identificar alguns temas que costumam estar presentes nos poemas de Alberto Caeiro tais como a ausência da metafísica, a ausência do pensamento e o uso das sensações. Por estas razões acho que este é um poema em que é fácil ficarmos a conhecer um pouco melhor as ideias de Alberto Caeiro. Temos o exemplo do seguinte excerto, “Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento” em que e visível a temática de ausência de pensamento e o uso das sensações. Alberto Caeiro começa o poema por referir-se à sua biografia dizendo que isso seria fácil de fazer porque apenas estaria presente a sua data de nascimento e a data da sua morte. Esta afirmação leva-nos a concluir que Alberto Caeiro era um poeta muito reservado e o que se passava no dia-a-dia só a ele dizia respeito. Pelo meio o poeta define-se, estando evidente o uso das sensações e a ausência de pensamento. Alberto Caeiro era um observador da realidade. Apenas acreditava naquilo que via e não usava o pensamento já que afirmava que “pensar é estar doente dos olhos”. Por fim o poeta refere-se à sua morte e compara-se a uma criança (“Um dia deu-me o sono como a qualquer criança”). Esta metáfora reflecte a posição de Caeiro perante a vida, ou seja, quer aproximar-se da inocência de uma criança.Este foi um poema que despertou a minha curiosidade já que, o poeta, na parte final do poema, fala de uma forma fácil sobre um assunto tão difícil como é a morte comparando-a com um ser tão inocente como é uma criança. Para além disso, como na maior parte dos seus poemas, Alberto Caeiro não usa o pensamento e penso que isso por vezes é importante para se poder aproveitar a vida. Por vezes para podermos aproveitar as situações ao máximo temos de nos “atirar de cabeça” e fazermos as coisas sem pensar. Se acabarem por correr mal…é com os erros que se aprende!





José Rafael Soares da Costa, 12ºA


[texto por editar pela professora]

Um renque de árvores lá longe...



Um renque de árvores lá longe, lá para a encosta.
Mas o que é um renque de árvores? Há árvores apenas.
Renque e o plural árvores não são coisas, são nomes.

Tristes das almas humanas, que põem tudo em ordem,
Que traçam linhas de coisa a coisa,
Que põem letreiros com nomes nas árvores absolutamente reais,
E desenham paralelos de latitude e longitude
Sobre a própria terra inocente e mais verde e florida do que isso!

Alberto Caeiro

No momento em que me deparei com a dificuldade de escolher um poema para a realização de esta actividade, decidi logo que o poema seria de Caeiro, mas escolher o poema é que foi um problema. A minha escolha caiu sobre este poema porque admiro a naturalidade com que Caeiro deambula pela sua vida fora e porque gosto também da maneira objectiva com que Caeiro utiliza as palavras.
É incrível a simplicidade com que Caeiro enfrenta todos os dias, a cada momento a Natureza. Porque haveremos nós de atribuir nomes às coisas se elas são só coisas? Se vemos uma árvore não temos que estar a pensar nela, não temos que dizer se ela é bonita ou feia, temos só que a ver.
Segundo Caeiro aqueles que pensam, que são organizados e que atribuem nomes às coisas são tristes, por isso as pessoas devem somente ver a Natureza como ela é.
Apesar de gostar dos poemas de Caeiro, quando os leio sinto-me triste, por ser incapaz de vaguear pela natureza tal como Caeiro vagueia. Gostava de viver cada momento como se não houvesse passado nem futuro, e por não o conseguir sinto-me triste ao ler os poemas de Caeiro.

Henrique Ferreira 12ºC
[texto por editar pela professora]

“Aquela Senhora tem um piano”



“Aquela Senhora tem um piano
Que é agradável mas não é o correr dos rios
Nem o murmúrio que as arvores fazem.

Para que é preciso ter um piano?
O melhor é ter ouvidos
E amar a natureza.”

Alberto Caeiro


Em primeiro lugar convém explicar aos leitores o que me levou a escolher um poema de Alberto Caeiro e não de Fernando Pessoa.
Talvez tenha sido pelo facto de me identificar mais com a personalidade de Caeiro: pessoa simples, sensacionista e amante da Natureza, tal como eu. Caeiro é dotado de uma linguagem tão simples que se torna quase infantil, sem mecanismos de subordinação ou de pronominalização. Com este tipo de linguagem, o autor procura ser a voz da Terra, com toda a sua simplicidade e naturalidade, sem preocupações de ordem metafísica e social, como Pessoa, desnuda as coisas de sentidos filosóficos vendo-as tal como são.
Passo agora a explicar o que me levou a escolher este poema. Escolhi-o pela sua simplicidade e objectividade. Caeiro vive de impressões, na sua grande maioria visuais embora neste poema se encontre mais vincada a impressão auditiva, “ (…) Que é agradável mas não é como o correr dos rios/ Nem o murmúrio que as arvores fazem/ (…) O melhor é ter ouvidos (…)” Em quase todos os seus poemas, Caeiro faz comparações, comparações estas normalmente relacionadas com a Natureza, pois Caeiro assume-se como sendo o “poeta da Natureza”.
Não há nada mais belo para Caeiro que a Natureza, mas não nos podemos deixar cair na armadilha. Caeiro pretende ser “o descobridor da Natureza”, diz ama-la, mas acrescenta (noutros poemas) que “não a conhece”, que “não sabe o que ela é”. Mas como pode alguém amar uma coisa que desconhece? Caeiro não se importa com isso, simplesmente ama a Natureza. Ele mesmo afirma “Se falo da Natureza não é porque saiba o que ela é,/ Mas porque a amo, e amo-a por isso”. Ele quer, somente, ver as coisas simples da vida. Há nele a inocência de ver as coisas sem abstracções ou formulações de conceitos que levam á “dor de pensar”, como é o caso de Fernando Pessoa ortónimo. Vê a Natureza na sua constante renovação e crê na “eterna novidade das coisas”. A “recordação é uma traição á Natureza”. Interessa-lhe o concreto, o imediato, uma vez que é aí que as coisas se apresentam como realmente são.
Após o estudo de Fernando Pessoa Ortónimo e Alberto Caeiro, cheguei á conclusão que todos nós devíamos “retirar um pedaço” da intelectualização de Fernando Pessoa, e, outro “pedaço” do sensacionismo e naturalismo de Alberto Caeiro…pois só desta forma, do meu ponto de vista, é que conseguiremos ser felizes.

Cláudia Martins, 12ºA


[texto por editar pela professora]

Será isto crível?



A miséria do meu ser,


Do ser que tenho a viver,


Tornou-se uma coisa vista.


Sou nesta vida um qualquer


Que roda fora da pista.


Ninguém conhece quem sou


Nem eu mesmo me conheço


E, se me conheço, esqueço,


Porque não vivo onde estou.


Rodo, e o meu rodar apresso.


É uma carreira invisível,


Salvo onde caio e sou visto,


Porque cair é sensível


Pelo ruído imprevisto...~


Sou assim. Mas isto é crível?



Fernando Pessoa

Não consigo deixar de achar curiosa a quantidade de gente com que me esbarro todos os dias, que aparenta uma felicidade considerável. Falam da vida como quem fala de um parque de diversões, tratam os problemas por tu e jogam às cartas com a felicidade. E mesmo quando reparam que a sorte pode não estar do seu lado e o jogo em risco, limitam-se a flutuar, como balões de mão em mão a ondular, de tão leves que são em si, os efeitos das suas preocupações. Dizem-se felizes, mostram-se felizes, acreditam-se felizes.
Eu a mim própria vou perguntando, qual a credibilidade de tal felicidade. A verdade é que não consigo acreditar em tal conto de fadas. Sei que já fui assim. Em tempos acreditei nessa utopia a quem chamam felicidade, porque no fundo o que todos queremos é viver no sonho da certeza de que não somos nem nunca seremos miseráveis. Projectamos um eu que buscamos toda a vida. Seguimos regras e princípios. Vivemos, conhecemos os outros e o mundo e tentamos a todo o custo que conheçam de nós o que queremos ou queríamos ser, e não a miséria que muitas vezes somos, em que muitas vezes nos tornamos. Moldamo-nos a esse projecto que na sua base seria perfeito, lutamos por ele e pela sua concretização (por vezes cegamente) e, no entanto, o que resulta é a constante e gradual degradação desse eu, agravada pela constatação do falhanço. Deixamos de saber quem somos, surgindo a dúvida de alguma vez o termos chegado a saber. E depois, a solidão que completa a sensação de sacrifício em vão, de vida desperdiçada. E tudo que ambicionamos parece resumir-se num eu estranho, desconhecido por nós próprios, pelos que nos rodeiam, desenquadrado do mundo, da vida, porque tudo o que alguma vez desejou ser ou conseguir caiu por terra, deixando apenas um rasto de gente, “um qualquer” que vai rodando “fora da pista”. Resta apenas o eu e os seus fantasmas, aqueles que acordam bem cedinho de manhã, depois de adormecidos pelo sonho, e que trabalham o dia inteiro, carpinteiros fiéis que martelam as tábuas que restam do móvel que por vazio e inútil, se encontra desfeito.
E depois o duro momento de acção. Chegam os outros e o eu entra em palco. Toda a miséria é mascarada de felicidade ou qualquer coisa que a lembre. E assim aparece gente feliz neste mundo, gente que quando o dia acaba e os outros saem de cena, é apenas a miséria reflectida no espelho e uma máscara de felicidade caída no chão. E cada dia um novo acto desta peça depressiva que vai compondo toda uma vida, até que a força falhe e a vontade esgote, e a máscara caia não apenas à noite, e pelo seu “ruído imprevisto” seja vista essa miséria de ser.
Assim tentei resumir tudo o que este poema me transmite. É este poderoso realismo negativo que me fez escolhê-lo. Talvez a comparação do poema com a realidade que nos rodeia acabe por parecer uma interpretação exageradamente depressiva da mesma, e talvez um transportar excessivo da realidade pessoal para a exterior, mas a verdade é que onde muitos vêem felicidade, eu acabei por aprender a ver outras coisas mais. E quanto mais vivo, quanto mais conheço, quanto mais vejo do mundo que me constitui e me rodeia, mais certeza tenho de que no fundo, todos sentimos o que Fernando Pessoa, quanto a mim, transmite neste poema. Todos nos sentimos miseráveis, uns mais outros menos, uns sempre outros em certas fases da vida, quer o admitamos ou não, quer o queiramos ou não. Há quem tolere esse sofrimento ou prefira fingir que ele não existe, há quem o torne numa “coisa vista”, criando patologias com desfechos mais ou menos drásticos… e depois há Pessoa, que o escreveu e me faz agora, pelo menos a mim, sentir menos só (embora não menos miserável).
E se Pessoa interroga, no final, se será “isto crível?”, eu pergunto se haverá alguém para quem isto não seja crível?... Espero que sim.

Catarina Gonçalves, 12º C


[texto por editar pela professora]


Fernando Pessoa

Primeiro Fausto
Segundo Tema: O Horror de Conhecer






Maurice Denis «Sans titre»,
huile sur toile





















I

O inexplicável horror
De saber que esta vida é verdadeira,
Que é uma coisa real, que é [como um] ser
Em todo o seu mistério
Realmente real.
(...)



A realidade dói com correntes enferrujadas de consciência rotineira. Ainda que a ferrugem, enquanto humana ferrugem, dos elementos químicos, não oxide quimeras. Eis a fuga! A doce, terna e breve…tão breve que amarga, que devora – Fuga!
Erguem-se vórtices de gritos crescentes! São hostes negras que ecoam a voragem de caliginosos demónios! Erguem-se moribundos e babosos, de entre fendas nocturnas!
Isto tudo, dentro do meu café matinal, mais dentro ainda, dentro do eu mexer o café de manhã. Rugem inventados os demónios. Se sonho é verdade, eu tremo! Felicidade?! Sim, nestas migalhas de Tempo, quando estou a sós com os meus demónios e o sonho se espalha em tudo o que é, por não existir. Feliz, sim…até ter de acordar para pagar a conta, arrumar os livros e pôr a caneta no sítio da caneta, e apertar os cordões que por teimosia se desapertam…todos os dias. E isto, que esmaga o anterior isto ali de cima (sempre de cima, porque esse voa), cansa e faz sono. Tanto sono…





Para que a interpretação analítica e objectiva, de certas línguas vesgas, me não acuse, injustamente, de hermetismo complexó-ininteligível (quiçá talvez poético…), deixo uma breve análise, mais precisa e c-l-a-r-a, dum outro poema de Pessoa. Pois sempre saúdo os emproados, com beijos nos seus olhos não abertos.




O que me dói não é
O que há no coração
Mas essas coisas lindas
Que nunca existirão...

São as formas sem forma
Que passam sem que a dor
As possa conhecer
Ou as sonhar o amor.

São como se a tristeza
Fosse árvore e, uma a uma,
Caíssem suas folhas
Entre o vestígio e a bruma.

Fernando Pessoa, 5-9-1933


Os dois primeiros versos são concomitantes da linha de pensamento pessoana, visto justificarem a dicotomia entre a dor espontânea, pertencente ao domínio do sensível, e a dor intelectualizada, do domínio do pensamento.
Há, portanto, uma clara cisão entre a razão e a emoção, sendo que esta última se torna secundária, pois o poeta “sente com a imaginação” (como o diria no poema “Isto”) e não com o coração, ou seja, as emoções são intelectualizadas, de modo a cumprirem com o conceito de veracidade artística.
Assim, de acordo com Fernando Pessoa o poeta não deve senão “sentir literariamente as cousas”, suprimindo a sinceridade humana em detrimento do fingimento artístico.
Neste contexto, o que dói não é “o que há no coração” mas o que existe no pensamento, trata-se, portanto, duma dor transfigurada.
Percorrendo, ainda, a mesma estrofe do poema, surge, logo no verso seguinte, a expressão “coisas lindas”, peculiarmente pessoana.
“Essas coisas lindas” pertencem a uma dimensão de beleza artística idealizada pelo poeta, e são o resultado da transfiguração, através do pensamento, dum conjunto de vivências espontâneas, inseridas no domínio do real, e de vivências constituídas, por sonhos, criadas com o auxílio da imaginação, que por sua vez, é o elemento impulsionador que permite ao poeta fingir sentimentos.
E, de facto, “essas coisas (…) nunca existirão” ao nível do concreto, pois, de acordo com o que foi referido anteriormente, pertencem à dimensão do Ideal, que é forçosamente abstracto.
Finalmente, quanto à última estrofe, a sua estrutura passa inteiramente pelo uso da comparação, que está ao serviço da forma como F.P. pretende transpor a sensação de vago, de subtil, característica dum domínio Ideal e, por isso, impreterivelmente, enigmático e abstracto, daí também a presença dos vocábulos “vestígio” e “bruma”. Curiosamente, se se explorar mais esta ideia, poder-se-á, até, pensar que, quando se não tem um conhecimento concreto das coisas surge a necessidade do uso da comparação, para, neste contexto, descrever as “coisas lindas” na sua ampla concepção imaginária.
.

Quando Caeiro diz...


Se às vezes digo que as flores sorriem
E se eu disser que os rios cantam,
Não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores
E cantos no correr dos rios…
É porque assim faço mais sentir aos homens falsos
A existência verdadeiramente real das flores e dos rios.

Porque escrevo para eles me lerem sacrifico-me às vezes
À sua estupidez de sentidos…
Não concordo comigo mas absolvo-me
Porque só sou essa coisa séria, um intérprete da Natureza,
Porque há homens que não percebem a sua linguagem, por ela não ser linguagem nenhuma.


Alberto Caeiro


Ao princípio, tive dificuldades em escolher um poema de Fernando Pessoa ou de um dos seus heterónimos, mas por fim optei por escolher este poema de Alberto Caeiro pois, das poesias que estudamos na aula do Ortónimo e Alberto Caeiro, é com Caeiro que mais me identifico.
A maneira como ele descreve a Natureza na sua poesia, sem lhe dar segundas intenções, sem que entre a subjectividade, é uma coisa impressionante. E depois a linguagem simples que ele usa, mostra que ele não procura significados para as coisas que vê. Estas são algumas das razões que me levaram a escolher este poema. Um poema simples e que é muito caracterizador de Alberto Caeiro.
Os primeiros quatro versos revelam o olhar nítido do poeta, sem passar pelo “crivo” da razão, olhar esse, que para o poeta, é que é o olhar verdadeiro, aquele que é objectivo, aquele que não atribui significados, aquele que vê tudo ao natural:
“Uma flor acaso tem beleza?
Tem beleza acaso um fruto?
Não: têm cor e forma
E existência apenas.
Os 2 últimos versos da 1ª estrofe mostram-nos que o poeta rejeita o pensamento e valoriza as sensações, principalmente a visual. Quando fala dos homens falsos está a referir-se aos homens que privilegiam o pensamento, aqueles que não se contentam em observar apenas, aqueles que preferem ver o lado místico de, por exemplo, uma flor e que a associam logo a emoções e gestos humanos, não se contentando que ser apenas uma flor e nada mais do que isso.
Na 2ª estrofe Caeiro afirma que, às vezes,tem que se sacrificar à estupidez de sentidos dos homens falsos, mostrando que, às vezes, também pensa. Mas para Caeiro, não são os pensamentos que provocam as ideias, estes aparecem como algo passivo que só é utilizado para guardar as ideias, a sua poesia é natural, assim como a natureza. O que está no pensamento é o resultado da percepção imediata e é isso que regista nos seus versos.
Assume-se como o intérprete da natureza, aquele que a percebe, pois não há nada a perceber a não ser que o que existe é a própria natureza.
Nos dois últimos versos o poeta torna a afirmar que a natureza não é mais do que isso, a natureza.
Neste poema, o poeta usa uma linguagem simples, vocabulário pobre, predomínio de nomes concretos, ausência de adjectivos, pois ele não atribui significados, por exemplo, a uma flor, e por isso não precisa de adjectivos, verbos no presente, o que exprime actualidade, permanência, variedade métrica e rítmica, estrofes com seis versos - sextilhas, ligação de orações por coordenação.

Manuela, 12ºB

Os nossos poemas




Os meus pensamentos resumem-se a sensações,
Penso com as mãos e com os pés,
E com o nariz e a boca,
E com os olhos e os ouvidos.

O Mundo não se criou para o pensarmos,
Mas sim para ser observado.
E sei vê-lo, pois vejo-o sem pensar,
E sem pensar consigo sentir
Consigo sentir-me parte dele.

Sinto-me a florir a cada momento,
Pronto a enfrentar aquilo que o Mundo me trouxer.
Sou como poeira,
Navegando ao sabor do vento,
Sem rumo, à deriva…
E sinto-me assim
A cada dia que passa,
Sinto-me feliz!


Alberto Caeiro



Eu escolhi este poema devido a que pareceu me ser um dos mais simples que vi, pois tal como o poema eu penso de uma maneira simples. Senti alguma ligação entre mim e o poema, pois mesmo que seja uma pessoa simples, penso que estamos destinados a certas coisas como a poeira esta destinada a ser levada ao sabor do vento.
Mas claro que como todas as pessoas valentes acho que num determinado tempo todos nós nos levantamos e tentamos ir contra o vento, mesmo que fracassamos, pois ai ainda seremos mais felizes. Esta é a felicidade que Caetano não atingira pois deixou-se ir a deriva.

Rui Lima, 12ºC

[texto por editar pela professora]

Antes o voo da ave


Antes o voo da ave, que passa e não deixa rasto,
Que a passagem do animal, que fica lembrada no chão.
A ave passa e esquece, e assim deve ser.
O animal, onde já não está e por isso de nada serve,
Mostra que já esteve, o que não serve para nada.
A recordação é uma traição à Natureza,
Porque a Natureza de ontem não é Natureza.
O que foi não é nada, e lembrar é não ver.
Passa, ave, passa, e ensina-me a passar!



Alberto Caeiro



Porquê escolher este poema? Logo que li este poema identifiquei-me com ele, talvez por me identificar com o autor, Alberto Caeiro. Embora seja contra a escrita de Caeiro, este poema ensina-nos uma Filosofia de vida: viver a vida no presente sem ter grandes recordações. Não será a melhor forma de viver? Para quê recordar se já não serve para nada o passado? Caeiro mostra-nos isto nos últimos dois versos da primeira estrofe. Tal como nos diz Caeiro o presente e real e objectivo, passado e fruto do pensamento e da recordação que para ele pensar e “estar doentes dos olhos” que nos é mostrado no verso “lembrar é não ver” e o futuro é algo de metafísico e como Caeiro é anti-metafísico o futuro não lhe diz nada.
Neste poema Caeiro utiliza metáfora para nos falar das recordações, sendo essas metáforas com algo concreto e da Natureza (como é seu hábito). Classifica as recordações como rastos de animais. Com o primeiro verso da segunda estrofe Caeiro mostra-nos que a recordação não e própria da Natureza é uma traição pois recordar é pensar e se a Natureza pensasse não era Natureza pois Natureza para Caeiro e o que a visão nos mostra.





Rui Costa 12º A

[texto por editar pela professora]