segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

O Meu Olhar Azul


O meu olhar azul como o céu
É calmo como a água ao sol.
É assim, azul e calmo,
Porque não interroga nem se espanta...

Se eu interrogasse e me espantasse
Não nasciam flores novas nos prados
Nem mudaria qualquer coisa no sol de modo a ele ficar mais belo...

(Mesmo se nascessem flores novas no prado
E se o sol mudasse para mais belo,
Eu sentiria menos flores no prado
E achava mais feio o sol...
Porque tudo é como é e assim é que é,
E eu aceito, e nem agradeço,
Para não parecer que penso nisso...)

Alberto Caeiro


"O meu olhar azul como o céu..." inicia-se assim o poema, de facto os olhos de Caeiro eram azuis como Pessoa referiu numa carta que escreveu a Casais Monteiro, em que descreve os seus heterónimos. Pessoa associa esse olhar azul com o céu logo faz uma ligação entre o olhar azul e a natureza(céu azul) sem alguma espécie de analise ou pensamento. Descrevendo depois esse azul como calmo "azul e calmo, porque não se interroga nem se espanta...", calmo porque não tem que pensar porque o céu é azul como são os seus olhos. Caeiro não se interroga porque seria uma atitude absolutamente inútil, pois as coisas são como são e não há nada a fazer a não ser ver, sendo esta a visão filosófica sobre a realidade de Caeiro, objectiva. Dizendo ele depois que mesmo que o Sol mudasse para mais belo e flores nascessem de novo no prado, ele iria sempre preferia as flores e o sol antigo, porque todo é como é e todo deve ser aceite como é, não devendo nada a ser pensado, sendo esta atitude de pensar, para Caeiro, inimiga da natureza, pois a natureza não tem que ser entendida, apenas e simplesmente admirada.

O que mais admiro em Caeiro e nos seus poemas e a sua maneira de pensar em relação a todo, pois para ele as coisas são como são e nada mais e é absolutamente inútil interrogar-se sobre o que fosse, em certa parte concordo com Caeiro pois se as coisas fossem para ser intelectualizadas ou interrogadas, talvez então quem sabe poderíamos dar as nossas opiniões sobre todo o tipo de coisas a algum seres superior antes de estas seres criadas não?

Filipe Vale 12º B

[texto por editar pela professora]

O que há em mim é sobretudo cansaço...

O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.


A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.


Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser…


E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto…
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço…

Álvaro de Campos





Não há dúvida que depois de uma tão intensa e basta leitura de maravilhosos poemas deste tão extraordinário homem que foi Fernando Pessoa e ter que optar por apenas um, acabei por escolher este tão modesto mas fantástico poema.
Embora tenha sido uma escolha complicada considero que foi uma excelente opção visto que me reconheço nestas palavras que acarretam tantos sentimentos, desânimo e cansaço.
Através deste poema Álvaro de Campos transmite-nos um sentimento de plena desmotivação, de puro cansaço, apenas isso, cansaço.
Campo fala-nos de realidades que todos pretendem alcançar, que resultam em cansaço de sentimento inúteis, de paixões violentas e intensas por um suposto alguém, tudo isto o agoniza num cansaço interior extremo.
Confronta-nos ainda dizendo que existem sem dúvida pessoas que conseguem suportar este cansaço, mas talvez não o sintam na realidade, diz ainda que existe quem ame o infinito, quem consiga desejar o inalcançável e ainda quem não queira nada.
Para essas pessoas viverem a vida bastar-lhes-á unicamente o meio entre o tudo e o nada.
Para Campos tratam-se todos de idealistas.
Álvaro de Campos não se encaixava em nenhum desses ideais, pois conseguia alcançar sempre algo mais remoto, amando o infinitamente o infinito, desejando o impossivelmente possível, e querendo tudo ou mais se possível.
Todos estes sentimentos tornar-se-ão numa felicidade inculta, ou seja, no seu cansaço, que ele caracteriza como supremíssimo, íssimo, íssimo cansaço.
Álvaro de Campos está cansado por não atingir o que para esses outros é tão fácil talvez porque os outros não contestam, não são audazes, mesmo quando não desejam nada.
Campos possuía uma enorme intranquilidade, que ele defendia como sendo cansaço, mas que no fundo não passa da sua não aceitanção do seu fracasso no mundo.
Invejava os outros para quem esse meio basta-lhes, vivendo e morrendo sem contestarem a vida, aceitando e vivendo apenas com esse meio entre o tudo e o nada.
No meu entender, é realmente assim que a vida nos deixa, cansados, mesmo para aqueles que o meio entre o tudo e o nada lhes basta o cansaço acabar por os corroer e ninguém consegue viver toda a vida apenas no meio e desse meio, chegará um dia em que se diz basta, e a soluçao é tentar alcançar o topo, o certo é que são poucos os que o conquistam, e ai senti mo-nos inúteis .
Então aí, o cansaço volta a nos corroer… a corroer por dentro, tirando-nos tudo, mesmo a quem nunca desejou nada.



Paula Fernandes 12º F


[texto por editar pela professora]

VIVE





Vive, dizes, no presente,
Vive só no presente.

Mas eu não quero o presente, quero a realidade;
Quero as cousas que existem, não o tempo que as mede.




O que é o presente?
É uma cousa relativa ao passado e ao futuro.
É uma cousa que existe em virtude de outras cousas existirem.
Eu quero só a realidade, as cousas sem presente.



Não quero incluir o tempo no meu esquema.
Não quero pensar nas cousas como presentes; quero pensar nelas como cousas.
Não quero separá-las de si-próprias, tratando-as por presentes.

Eu nem por reais as devia tratar.
Eu não as devia tratar por nada.


Eu devia vê-las, apenas vê-las;
Vê-las até não poder pensar nelas,
Vê-las sem tempo, nem espaço,
Ver podendo dispensar tudo menos o que se vê.
É esta a ciência de ver, que não é nenhuma.
Alberto Caeiro

Para explicar o motivo da escolha deste poema devo começar por dizer que preferi um poema de Alberto Caeiro, pois ele é o heterónimo de Fernando Pessoa que mais me agrada, pois é o mais objectivo, recusando a subjectividade das palavras. De entre alguns poemas de Caeiro este foi o que mais me chamou à atenção, pois tal como o poeta, eu considero que o presente é apenas um momento de transição entre o passado e o futuro, não poderia haver passado nem futuro se não houvesse o presente como forma de comparação.
Segundo o poeta, devemos pensar nas coisas, só como elas são e não nas considerações que temos sobre elas ou que poderemos vir a ter. Devemos considerar o Mundo só como ele é e não julgá-lo pela informação que temos sobre ele. A visão que temos de tudo, não é a realidade, é uma distorção do real que pode variar de pessoa para pessoa.
Concluindo, o poema considera que devemos viver a vida como se não houvesse passado, nem futuro, devemos vivê-la simplesmente, com a inocência de cada dia. Este ideal pode ajudar muitas pessoas a serem um pouco mais felizes.

A ARANHA

A ARANHA do meu destino
Faz teias de eu não pensar.
Não soube o que era em menino,
Sou adulto sem o achar.
É que a teia, de espalhada
Apanhou-me o querer ir...
Sou uma vida baloiçada
Na consciência de existir.
A aranha da minha sorte
Faz teia de muro a muro...
Sou presa do meu suporte.


Fernando Pessoa


Escolhi este poema, pois achei-o bastante interessante pelo seu conteúdo, e mais ainda pelo seu título, um pouco “diferente do normal”, intitulado como: “A aranha”.
Na minha perspectiva, o verso”A Aranha do meu destino”, refere-se ao rumo que a vida de Pessoa levou, afinal não se pode fugir ao destino.
O verso “Faz teias de eu não pensar”, de certa forma pode ser encarado como uma ironia, podemos falar no caso de quando uma casa por exemplo é desabitada, passado algum tempo a casa acaba por ganhar teias, como todos nós sabemos, Pessoa intelectualiza o pensamento, ou seja ele pensa nas coisas da vida “não ganhando assim as teias dentro da sua cabeça”.
Pessoa quando era criança “menino”, não sabia “não soube” se era feliz, pois as crianças não racionalizam, mesmo assim agora em adulto ele tem a consciência, que quando era criança era feliz, pois agora já racionaliza vem daí “na consciência de existir”, isso vai trazer reflexos como, o seu passado (infância) ser idealizado, pois é uma época em que tudo é possível, ao contrario da prisão intelectual do presente.
Os últimos 2 versos, dão-me a sensação que Pessoa está-se a referir a algo que esteja preso, a ideia de fazer teia de muro a muro, é de ele estar na “prisão”, e ser a presa, da própria teia “suporte”, ou seja do próprio destino, nós como seres humanos, envolvemo-nos na teia para encontrar o nosso destino.

Sara Anjo 12ºB

[texto por editar pela professora]

Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta

Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta,
Em que as coisas têm toda a realidade que podem ter,
Pergunto a mim próprio devagar
Porque sequer atribuo eu
Beleza às coisas.

Uma flor por acaso tem beleza?
Tem beleza por acaso um fruto?
Não: têm cor e forma
E existência apenas.
A beleza é o nome de qualquer coisa que não existe
Que eu dou às coisas em troca do agrado que me dão.
Não significa nada.
Então porque digo eu das coisas: são belas?

Sim, mesmo a mim, que vivo só de viver,
Invisíveis, vêm ter comigo as mentiras dos homens
Perante as coisas,
Perante as coisas que simplesmente existem.

Que difícil ser próprio e não ser senão o visível!

Alberto Caeiro


Alberto Caeiro, heterónimo de Fernando Pessoa o frustrado…
Devo dizer que Fernando Pessoa não é um poeta com que eu me identifique muito, contudo, aprecio bastante o estilo de Alberto Caeiro. Para quê complicar? Pensar? Só se estiver doente! Eu apoio Caeiro, “a sensação é tudo”, viva a Natureza…
Uma flor é uma flor, um fruto é um fruto! Mistério? Nenhum. Ah grande Mestre!
Eu acredito que todos devíamos ver o mundo desta maneira, simples e belo, tal como Alberto Caeiro o vê (ou tenta ver). Portanto vamos todos apenas ver, não pensem, não vale a pena, sejam felizes!
Por isso escolhi este poema, não por ser “bonito” ou pela sua musicalidade (inexistente) mas porque me identifico bastante com este pensamento de Caeiro, é simples, objectivo, e embora seja difícil libertarmo-nos dos estímulos e aprendizagens com que somos bombardeados logo à nascença e que nos acompanha no nosso desenvolvimento, e até para Caeiro é difícil como o próprio afirma no poema, vamos tentar não racionalizar e apenas…viver!

André Matos 12ºA nº3

[texto por editar pela professora]

Cada dia sem gozo não foi teu


Cada dia sem gozo não foi teu
(Dia em que não gozaste não foi teu):
Foi só durares nele. Quanto vivas
Sem que o gozes não vives.

Não pesa que amas, bebas ou sorrias:
Basta o reflexo do sol ido na água
De um charco se te é grato

Feliz o a quem, por ter em coisas mínimas
Seu prazer posto, nenhum dia nega
A natural ventura!

Ricardo Reis


O poema que escolhi para este trabalho é de Ricardo Rei, um dos muitos heterónimos de Fernando Pessoa. Nos poemas de Ricardo Reis encontramos marcas epicuristas.
O epicurismo, com a sua máxima, “carpe diem”, considera o prazer como o mais alto dos bens e defende que se deve viver o dia a dia com felicidade. O prazer é, para os epicuristas, o sumo bem do homem e todos os nossos esforços devem tender a obtê-lo. Todavia, não é o prazer grosseiro que importa, mas aquele que provém da cultura do espírito e da prática da virtude. O prazer verdadeiro consiste na ausência de dor. Em suma, o epicurismo pretende responder à questão fundamental da dor e da morte, oferecendo, como resposta, o repouso e a ataraxia (ausência de perturbação), gozando em profundidade, o momento presente. Encontra-se, assim, a definição de carpe diem. Esta expressão significa “aproveita o dia” e provém das palavras que Horácio proferiu a Leucónia, “Carpe Diem quam minimum credula postero” (Goza o dia e conta o menos que possas com o dia de amanhã).

Eu escolhi este poema, visto que a sua mensagem captou a minha atenção. Se, na nossa vida, não se gozassem as coisas boas ou as coisas más nunca seríamos felizes, isto é, não conseguiríamos atingir a felicidade, pois, realmente, não vivíamos, não seríamos capazes de aproveitar cada momento. O poema transmite isso mesmo, que se soubermos aproveitar cada momento, por mais pequeno que seja, já conseguimos ser felizes, é essencial sabermos dar importância a tudo o que nos rodeia “Basta o reflexo do sol ido na água/ De um charco se te é grato”.

Eu sei que não se pode viver cada dia como se fosse o último, pois isso também não nos faria muito felizes, uma vez que viver a pensar que, no dia seguinte, se pode morrer é algo muito mau e não permite que se viva. Devemos viver segundo a máxima “Não deixes para amanhã, aquilo que podes fazer hoje”. Se há algo que queremos dizer ou fazer, devemos fazê-lo, porque a sensação de chegar ao dia seguinte e perceber que, por alguma motivo não controlável por nós, já não se pode fazer aquilo que deveríamos ter feito irá estar, sempre, no nosso interior e dificilmente será esquecida a marca do adiamento para sempre.

O poema transmite que as pequenas coisas, os pequenos momentos, os pequenos gestos são realmente importantes e serão esses que, no fim do dia, nos farão ver como vale a pena viver e, no dia seguinte, continuar, daí não podermos viver com medo da morte, antes ter a certeza que ela existe e que é uma realidade. Devemos chegar ao fim do dia e concluir que fizemos tudo o que tínhamos para fazer e que dissemos aquilo que era importante às pessoas que mais gostamos. Neste sentido não concordo, totalmente, com a frase de Horácio, porque é bom podermos contar com o dia seguinte, é bom poder planear o futuro, mesmo que depois se alterem os planos.

Cada um de nós deve saber distinguir aquilo que é realmente importante, daquilo que pode adiar e do qual não terá qualquer arrependimento, por não ter feito, quando surgiu a ideia. Nunca nos devemos esquecer que são os pequenos momentos dos nossos dias que deixaram marcas importantes em nós e que são esses os que mais devemos aproveitar e guardar, porque esses momentos, em conjunto, formam aquilo a que chamamos Vida.
Vive, não deixes nada para trás.
Colhe as flores e rega o jardim com tudo o que possas fazer para seguir em frente feliz. Não queiras a vitória sem a merecer, antes ama o poder ser. Não vivas a angústia do impossível, esse está longe e faz sofrer.

Vence a morte porque viveste.

Melânia Carvalho, 12º B

[texto por editar pela professora]

domingo, 30 de novembro de 2008

Hoje de manhã saí muito cedo



Hoje de manhã saí muito cedo,
Por ter acordado ainda mais cedo
E não ter nada que quisesse fazer...

Não sabia que caminho tomar
Mas o vento soprava forte, varria para um lado,
E segui o caminho para onde o vento me soprava nas costas.

Assim tem sido sempre a minha vida, e
Assim quero que possa ser sempre
Vou onde o vento me leva e não me
Sinto pensar.

Alberto Caeiro


Depois de ter lido vários poemas, este foi aquele que mais me cativou. Não sei bem porquê mas talvez por neste momento, de certa forma, estar também a viver conforme o vento me leva.
Viver assim é mais fácil, porque não temos que tomar decisões que, por vezes são precipitadas e, por isso não temos que pensar. E, se algo não acontecer como desejamos, não culpamos a nós próprios, mas sim ao vento, pois foi esse que nos encaminhou para esse destino. O que é bom, porque não temos aquele sentimento de culpa que tanto nos atormenta. Pode ser mais simples viver assim mas, não sei até que ponto é melhor, pois não pudemos criar objectivos, apenas desfrutar o que a vida nos reserva e não explorar outros modos de o fazer. Mas também não quer dizer que, por vezes, não seja necessário ‘fugirmos’ a este pensamento, porque de facto é. Pois só assim nos pudemos abstrair daquilo que nos incomoda, dos nossos medos, das decisões difíceis que surgem ao longo da vida e, assim não temos que “acordar cedo” para pensar no que, muitas vezes, nos faz sofrer.
E, como Caeiro recusa-se a pensar (pois, para ele “pensar é estar doente dos olhos”) esta é uma boa forma de levar a vida, pois deixa de ter tantas responsabilidades e deixa que o vento ‘pense’ por ele. E assim é feliz. Não o condeno. Até porque já deixei que o vento me levasse várias vezes, e talvez possa estar a deixar fazê-lo, mas ao contrário de Caeiro, não quero que aconteça sempre porque, “nada em excesso, nada em defeito, a virtude está no meio”.

Daniela Esteves 12ºC

[texto por editar pela professora]

NÃO SEI SER TRISTE...



Não sei ser triste a valer

Nem ser alegre deveras

Acreditem: não sei ser.


Serão as almas sinceras

Assim também, sem saber?

Ah, ante a ficção da alma


E a mentira da emoção

Com que prazer me dá calma

Ver uma flor sem razão


Florir sem ter coração!

Mas enfim não há diferença.

Se a flor flore sem querer,


Sem querer a gente pensa.

O que nela é florescer

Em nós é ter consciência.
Depois, a nós como a ela,


Quando o Fado os faz passar,

Surgem as patas dos deuses

E a ambos nos vêm calcar.


‘Stá bem, enquanto não vêm,

Vamos florir ou pensar.

Este é mais um dos poemas do nosso queridíssimo Amigo Fernando Pessoa, em que ele nos fala sobre a dor de pensar, consciência introduzindo também o conceito de sinceridade.
É na 1ª quadra que o sujeito poético reflecte sobre a sinceridade das pessoas, para ele estas vêem o “ser sincero” como “ser verdadeiro”, mas ele vê a sinceridade de um ponto de vista intelectual, ou seja, a sinceridade não é entendida em termos de verdade ou mentira, mas sim como a capacidade de usar a inteligência que transforma as sensações em ideias.
Fernando Pessoa escreve sobre a flor, pois esta é desprovida de razão, contrariamente ao Homem, por outro lado, eles são semelhantes, no aspecto em que, tal como a “flor flore” naturalmente, também o Homem pensa, sendo este acto natural.
Vemos então, que a razão pela qual o poeta não consegue “ser triste a valer / Nem alegre deveras” é porque não consegue libertar-se da dor de pensar e viver apenas ao nível do sentir, como acontece com a flor. Ele vê na flor aquilo que deseja ser, pois esta é desprovida de razão.
É também visível no poema a ideia da força esmagadora da morte e do Destino que se abatem sobre o poeta e a flor.
O que me cativou neste poema foi o facto de Pessoa comparar um simples ser inanimado com o ser humano complexo para nos mostrar mais uma vez que a dor de pensar é uma das problemáticas que sempre o acompanha. Fernando Pessoa apercebe-se que a morte é uma coisa certa, pois nascemos logo morremos, enquanto esta não vem, e ele não consegue deixar de pensar termina o poema dizendo “Vamos florir ou pensar”sendo este um verso que se aplica à vida, pois muitas vezes deparamo-nos com situações às coisas não podemos fugir, só nos resta aceita-las.

Emília Oliveira, 12ºB



[texto por editar pela professora]

Não, não é cansaço...


Não, não é cansaço...
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar,
E um domingo às avessas
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo...

Não, cansaço não é...
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Como tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.

Não. Cansaço por quê?
É uma sensação abstracta
Da vida concreta —
Qualquer coisa como um grito
Por dar,
Qualquer coisa como uma angústia
Por sofrer,
Ou por sofrer completamente,
Ou por sofrer como...
Sim, ou por sofrer como...
Isso mesmo, como...
Como quê?...
Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço.

(Ai, cegos que cantam na rua,
Que formidável realejo
Que é a guitarra de um, e a viola do outro, e a voz dela!)

Porque oiço, vejo.
Confesso: é cansaço!...

Álvaro de Campos

Cansaço. Foi o cansaço que me despertou a atenção neste poema. Neste e noutro de Álvaro de Campos que devido ao facto de estar no livro “Página Seguinte” não é válido, logo decidi virar a página de uma peça de teatro elaborada por uns amigos com textos dos maiores poetas do século XX encontrando-o.
Voltando ao poema, devo realçar a intemporalidade do mesmo. Por vezes parece que não há nada para se fazer (puro engano!) e chegamos mesmo a convencermo-nos disso,perdendo assim a vida o encanto primordial. Sentimos dúvidas/incertezas, desiludimo-nos constantemente e não passamos de “cópias iguais” : seres racionais (segundo dizem!) que querem ser diferentes (que na verdade são) mas que passam pelo mesmo que todos outros, tornando-nos assim iguais. Todos já tiveram dias menos bons, dias em que nada corre bem, dias em que parece que o mundo vai acabar (que na verdade nunca mais acaba) provocando uma confusão interior que não conseguimos entender nem sequer expressar em gestos ou palavras. É esta confusão que impede Campos de explicar o cansaço que na realidade sente mas que não queria sentir! Queria ser cego para não ver o mundo e ser capaz de, como os cegos, tocar viola que os compensa de não conseguirem ver, e ao mesmo tempo, a música impede-os de ouvir as coisas más que ele ouve.
Não nos salva sermos cegos, a vida é invadida pelo cansaço. A resistência é uma batalha perdida.

Filipa
12ºF

Tudo Quanto Sonhei

Tudo quanto sonhei tenho perdido
Antes de o ter.
Um verso ao menos fique do inobtido,
Música de perder.
Pobre criança a quem não deram nada
Choras? É em vão.
Como tu choro à beira da erma estrada.
Perdi o coração.
A ti talvez, que não te têm dado,
Darão enfim...
A mim... Sei eu que duro e inato fado
Me espera a mim?

Fernando Pessoa


A escolha deste poema é complicada de explicar. Algo nele me despertou interesse. Provavelmente por causa da pobre criança que chora.
Fernando Pessoa sente a nostalgia de uma criança que passou ao lado da alegria e da ternura. Por isso, chora. Chora uma felicidade passada que ficou na infância.
Há também uma nostalgia de um bem perdido, do mundo fantástico da infância, sendo este o único momento possível de felicidade. A infância é a possibilidade, é a inocência da verdade podendo-se construir sonhos.
A infância é um tempo efémero, com princípio e fim, recordando-nos de uma felicidade que por vezes desejamos. Esta transmite, para além da felicidade, a inocência, a pureza e a segurança.
E neste poema, Pessoa, Sente a comum saudade da infância que é um tempo lembrado e esquecido.


Rosa Daniela
12ºF


[texto por editar pela professora]