domingo, 30 de novembro de 2008

Hoje de manhã saí muito cedo



Hoje de manhã saí muito cedo,
Por ter acordado ainda mais cedo
E não ter nada que quisesse fazer...

Não sabia que caminho tomar
Mas o vento soprava forte, varria para um lado,
E segui o caminho para onde o vento me soprava nas costas.

Assim tem sido sempre a minha vida, e
Assim quero que possa ser sempre
Vou onde o vento me leva e não me
Sinto pensar.

Alberto Caeiro


Depois de ter lido vários poemas, este foi aquele que mais me cativou. Não sei bem porquê mas talvez por neste momento, de certa forma, estar também a viver conforme o vento me leva.
Viver assim é mais fácil, porque não temos que tomar decisões que, por vezes são precipitadas e, por isso não temos que pensar. E, se algo não acontecer como desejamos, não culpamos a nós próprios, mas sim ao vento, pois foi esse que nos encaminhou para esse destino. O que é bom, porque não temos aquele sentimento de culpa que tanto nos atormenta. Pode ser mais simples viver assim mas, não sei até que ponto é melhor, pois não pudemos criar objectivos, apenas desfrutar o que a vida nos reserva e não explorar outros modos de o fazer. Mas também não quer dizer que, por vezes, não seja necessário ‘fugirmos’ a este pensamento, porque de facto é. Pois só assim nos pudemos abstrair daquilo que nos incomoda, dos nossos medos, das decisões difíceis que surgem ao longo da vida e, assim não temos que “acordar cedo” para pensar no que, muitas vezes, nos faz sofrer.
E, como Caeiro recusa-se a pensar (pois, para ele “pensar é estar doente dos olhos”) esta é uma boa forma de levar a vida, pois deixa de ter tantas responsabilidades e deixa que o vento ‘pense’ por ele. E assim é feliz. Não o condeno. Até porque já deixei que o vento me levasse várias vezes, e talvez possa estar a deixar fazê-lo, mas ao contrário de Caeiro, não quero que aconteça sempre porque, “nada em excesso, nada em defeito, a virtude está no meio”.

Daniela Esteves 12ºC

[texto por editar pela professora]

NÃO SEI SER TRISTE...



Não sei ser triste a valer

Nem ser alegre deveras

Acreditem: não sei ser.


Serão as almas sinceras

Assim também, sem saber?

Ah, ante a ficção da alma


E a mentira da emoção

Com que prazer me dá calma

Ver uma flor sem razão


Florir sem ter coração!

Mas enfim não há diferença.

Se a flor flore sem querer,


Sem querer a gente pensa.

O que nela é florescer

Em nós é ter consciência.
Depois, a nós como a ela,


Quando o Fado os faz passar,

Surgem as patas dos deuses

E a ambos nos vêm calcar.


‘Stá bem, enquanto não vêm,

Vamos florir ou pensar.

Este é mais um dos poemas do nosso queridíssimo Amigo Fernando Pessoa, em que ele nos fala sobre a dor de pensar, consciência introduzindo também o conceito de sinceridade.
É na 1ª quadra que o sujeito poético reflecte sobre a sinceridade das pessoas, para ele estas vêem o “ser sincero” como “ser verdadeiro”, mas ele vê a sinceridade de um ponto de vista intelectual, ou seja, a sinceridade não é entendida em termos de verdade ou mentira, mas sim como a capacidade de usar a inteligência que transforma as sensações em ideias.
Fernando Pessoa escreve sobre a flor, pois esta é desprovida de razão, contrariamente ao Homem, por outro lado, eles são semelhantes, no aspecto em que, tal como a “flor flore” naturalmente, também o Homem pensa, sendo este acto natural.
Vemos então, que a razão pela qual o poeta não consegue “ser triste a valer / Nem alegre deveras” é porque não consegue libertar-se da dor de pensar e viver apenas ao nível do sentir, como acontece com a flor. Ele vê na flor aquilo que deseja ser, pois esta é desprovida de razão.
É também visível no poema a ideia da força esmagadora da morte e do Destino que se abatem sobre o poeta e a flor.
O que me cativou neste poema foi o facto de Pessoa comparar um simples ser inanimado com o ser humano complexo para nos mostrar mais uma vez que a dor de pensar é uma das problemáticas que sempre o acompanha. Fernando Pessoa apercebe-se que a morte é uma coisa certa, pois nascemos logo morremos, enquanto esta não vem, e ele não consegue deixar de pensar termina o poema dizendo “Vamos florir ou pensar”sendo este um verso que se aplica à vida, pois muitas vezes deparamo-nos com situações às coisas não podemos fugir, só nos resta aceita-las.

Emília Oliveira, 12ºB



[texto por editar pela professora]

Não, não é cansaço...


Não, não é cansaço...
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar,
E um domingo às avessas
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo...

Não, cansaço não é...
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Como tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.

Não. Cansaço por quê?
É uma sensação abstracta
Da vida concreta —
Qualquer coisa como um grito
Por dar,
Qualquer coisa como uma angústia
Por sofrer,
Ou por sofrer completamente,
Ou por sofrer como...
Sim, ou por sofrer como...
Isso mesmo, como...
Como quê?...
Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço.

(Ai, cegos que cantam na rua,
Que formidável realejo
Que é a guitarra de um, e a viola do outro, e a voz dela!)

Porque oiço, vejo.
Confesso: é cansaço!...

Álvaro de Campos

Cansaço. Foi o cansaço que me despertou a atenção neste poema. Neste e noutro de Álvaro de Campos que devido ao facto de estar no livro “Página Seguinte” não é válido, logo decidi virar a página de uma peça de teatro elaborada por uns amigos com textos dos maiores poetas do século XX encontrando-o.
Voltando ao poema, devo realçar a intemporalidade do mesmo. Por vezes parece que não há nada para se fazer (puro engano!) e chegamos mesmo a convencermo-nos disso,perdendo assim a vida o encanto primordial. Sentimos dúvidas/incertezas, desiludimo-nos constantemente e não passamos de “cópias iguais” : seres racionais (segundo dizem!) que querem ser diferentes (que na verdade são) mas que passam pelo mesmo que todos outros, tornando-nos assim iguais. Todos já tiveram dias menos bons, dias em que nada corre bem, dias em que parece que o mundo vai acabar (que na verdade nunca mais acaba) provocando uma confusão interior que não conseguimos entender nem sequer expressar em gestos ou palavras. É esta confusão que impede Campos de explicar o cansaço que na realidade sente mas que não queria sentir! Queria ser cego para não ver o mundo e ser capaz de, como os cegos, tocar viola que os compensa de não conseguirem ver, e ao mesmo tempo, a música impede-os de ouvir as coisas más que ele ouve.
Não nos salva sermos cegos, a vida é invadida pelo cansaço. A resistência é uma batalha perdida.

Filipa
12ºF

Tudo Quanto Sonhei

Tudo quanto sonhei tenho perdido
Antes de o ter.
Um verso ao menos fique do inobtido,
Música de perder.
Pobre criança a quem não deram nada
Choras? É em vão.
Como tu choro à beira da erma estrada.
Perdi o coração.
A ti talvez, que não te têm dado,
Darão enfim...
A mim... Sei eu que duro e inato fado
Me espera a mim?

Fernando Pessoa


A escolha deste poema é complicada de explicar. Algo nele me despertou interesse. Provavelmente por causa da pobre criança que chora.
Fernando Pessoa sente a nostalgia de uma criança que passou ao lado da alegria e da ternura. Por isso, chora. Chora uma felicidade passada que ficou na infância.
Há também uma nostalgia de um bem perdido, do mundo fantástico da infância, sendo este o único momento possível de felicidade. A infância é a possibilidade, é a inocência da verdade podendo-se construir sonhos.
A infância é um tempo efémero, com princípio e fim, recordando-nos de uma felicidade que por vezes desejamos. Esta transmite, para além da felicidade, a inocência, a pureza e a segurança.
E neste poema, Pessoa, Sente a comum saudade da infância que é um tempo lembrado e esquecido.


Rosa Daniela
12ºF


[texto por editar pela professora]

Quando é que o cativeiro acabará em mim


Quando é que o cativeiro
Acabará em mim,
E, próprio dianteiro,
Avançarei enfim?

Quando é que me desato
Dos laços que me dei?
Quando serei um facto?
Quando é que me serei?

Quando, ao virar da esquina
De qualquer dia meu,
Me acharei alma digna
Da alma que Deus me deu?

Quando é que será quando?
Não sei. E até então
Viverei perguntando:
Perguntarei em vão.

Fernando Pessoa



Eu escolhi este poema porque me identifico com ele.
Quando será que vou descobrir quem sou, quando é que vou sair da prisão dos meus problemas? A minha alma será digna? Será que Deus foi generoso comigo ao conceder a alma que me pertence?
Mesmo não obtendo as respostas, a nossa vida segue em frente, é um ciclo, à medida que a vida prossegue aparecem novas perguntas para as quais não obteremos sempre resposta.
Estas perguntas podem ser desnecessárias, mas quando estou um pouco em baixo e penso na minha vida, no meu futuro, faço as mesmas perguntas, mesmo sabendo que não vou obter qualquer resposta, mas sempre que estiver em baixo as continuarei a fazer.
Estas perguntas estarão sempre no meu inconsciente à espera de uma resposta que me satisfaça, sem me provocar mais dúvidas no meu interior.

Miguel Pinheiro 12ºB

Mantem-me ignorante...

"POR QUE MENTIAS ?
Por que mentias leviana e bela?
Se minha face pálida sentias
Queimada pela febre, e se minha vida
Tu vias desmaiar, por que mentias?

Acordei da ilusão, a sós morrendo
Sinto na mocidade as agonias.
Por tua causa desespero e morro...
Leviana sem dó, por que mentias?

Sabe Deus se te amei! sabem as noites
Essa dor que alentei, que tu nutrias!
Sabe esse pobre coração que treme
Que a esperança perdeu por que mentias!

Vê minha palidez - a febre lenta
Esse fogo das pálpebras sombrias...
Pousa a mão no meu peito! Eu morro! Eu morro!
Leviana sem dó, por que mentias?"

Álvares de Azevedo

Escolhi este poema porque aborda um dos temas mais interessantes da humanidade, confiança e mentira. No poema que escolhi é a mentira numa relação amorosa, o que nos leva a pensar, nao é confiar o mais dificil que nos fazemos diariamente, confiamos diariamente coisas importantes a terceiros, ou seja, quando confiamos em alguem tornamo-nos vulneraveis, e vice versa, tornamos terceiros vulneraveis perante nós. A simbiose humana que parece que pode sair dos carris a qualquer momento, quando se mantem torna-se mais forte. Mas as vezes pergunto-me se não fosse pelo instinto de sobrevivência, e perdessemos a nossa vertente "animalesca" tornando-nos simplesmente reflexões mentais de nos proprios se conseguiriamos coexistir neste planeta!


Tiago Barbosa 12ºB


sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Carta de Fernando Pessoa a Alberto Caeiro

Carta de Fernando Pessoa a Alberto Caeiro
Lisboa, 8 de Abril de 1914
Meu prezado mestre:

Recordando quem recordações despreza, não resisti em lhe escrever sobre a célebre data em que hoje nos encontramos. Minto, em que o senhor se encontra, pois tive que escrever a carta dois dias antes devido à demora dos correios, que é compreensível pelas vias de acesso que ligam o seu tão amado campo a Lisboa.
Acredito que ainda não tenha tomado consciência do dia em que nos encontramos, uma vez que o tempo para si é limitado ao presente e a consciência só surge no luar, mas em mim esta data surge como o supremo êxtase do meu ser, como o louro que jamais conquistarei. Faz hoje um mês que do meu inconsciente sempre consciente surgiu o ser a quem, inevitavelmente, não poderia dar outro nome que não o de mestre. Foi um mês atrás, que o vi transformar doze folhas de papel em trinta e tantas obras e que vi as minhas mãos falarem o que por blasfémia tomavam.
Nessa mesma noite, escreveu um poema que ontem, em arrumações feitas cá por casa, foi encontrado por baixo da cómoda alta onde se encontravam os papéis que o mestre transformou em arte. E é através de esse mesmo poema que pretendo recordar essa deslumbrante noite.
Passo a citar o poema:

Acho tão natural que não se pense
Que me ponho a rir às vezes, sozinho,
Não sei bem de quê, mas é de qualquer cousa
Que tem que ver com haver gente que pensa...
Que pensará o meu muro da minha sombra?
Pergunto-me às vezes isto até dar por mim
A perguntar-me cousas...
E então desagrado-me, e incomodo-me
Como se desse por mim com um pé dormente...
Que pensará isto de aquilo?
Nada pensa nada.
Terá a terra consciência das pedras e plantas que tem?
Se ele a tiver, que a tenha...
Que me importa isso a mim?
Se eu pensasse nessas cousas,
Deixaria de ver as árvores e as plantas
E deixaria de ver a Terra,
Para ver somente os meus pensamentos...
Entristecia e ficava às escuras.
E assim, sem pensar tenho a Terra e o Céu.

Ao ler o seu poema, mais uma vez lhe digo o que um mês lhe tenho escrito: que tenho inveja da simplicidade do seu ser, da sua interpretação objectiva e natural das cousas, do seu anular do pensamento (“Acho tão natural que não se pense”) e apenas do voltar-se para a visão, eliminando a dor que tanto me atormenta. E é esta inveja com que me encaro, que cria algo estranho e repugnante ao meu ser - um sentimento de admiração e respeito por uma personalidade oposta a minha, um ser em quem, o que me deixa numa angústia e frustração contínua, simplesmente não existe (“Se eu pensasse nessas cousas, (...) Entristecia e ficava às escuras.”).
Algo que também nunca sonhara, inacreditavelmente, nem em pensamentos, era a possibilidade de no mundo surgir alguém a quem o meu masoquismo intelectual, impossível de tratar uma vez que fui condenado à intelectualização perpétua e à infelicidade suprema de nem por um segundo me tornar inconsciente, fizesse fulminar um sorriso (“Que me ponho a rir às vezes, sozinho, (…) Que tem que ver com haver gente que pensa...”). Sorriso, que depois de lido faz algum sentido, visto que provém do Senhor Caeiro, um ser para quem a poesia é construída de sensações, onde o que importa é ver de forma objectiva e natural a realidade com a qual se contacta a todo o momento.
Enquanto reflectia (sentado na cadeira em que o senhor se embalava enquanto escrevera poemas como o “Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do Universo” ou “Li hoje quase duas páginas”) sobre o poema acima citado, apercebi-me de algo que nunca pensara anteriormente - que a minha nostálgica infância, o único momento em que realmente fui feliz e inconsciente, surgiu encarnada no mestre como modo de atenuar a minha eterna saudade da inconsciência, nunca valorizada enquanto vivida.
E foi com esta carta e este poema que pretendi recordar o senhor do jamais esquecido dia pelo ser que o toma como enlevo de uma vida.
Abraça-o o discípulo que muito o estima e admira.






PS: O Campos apareceu hoje por minha casa para escrever poemas que, segundo ele, conduzirão à progressão da sociedade Portuguesa. Já sabe como é o Álvaro. Este, vendo-me a escrever-lhe esta carta, pediu-me para lhe recordar do encontro que marcaram para o próximo fim-de-semana. Por favor não se esqueça, pois se não aparecer, certamente terei que aturar o Campos uma noite inteira a exaltar a civilização moderna e os valores do progresso.


Luis Loureiro 12ºB Nº13
[texto ainda por editar pela professora]

Ah a frescura na face de não cumprir um dever!



Ah a frescura na face de não cumprir um dever!

Faltar é positivamente estar no campo!

Que refúgio o não se poder ter confiança em nós!

Respiro melhor agora que passaram as horas dos encontros.

Faltei a todos, com uma deliberação de desleixo,

Fiquei esperando a vontade de ir para lá, que eu saberia que não vinha.

Sou livre, contra a sociedade organizada e vestida.

Estou nu, e mergulho na água da minha imaginação.

É tarde para eu estar em qualquer dos dois pontos onde estaria à mesma hora,

Deliberadamente à mesma hora…

Está bem, ficarei aqui sonhando versos e sorrindo em itálico.

É tão engraçada esta parte assistente da vida!

Até não consigo acender o cigarro seguinte… Se é um gesto,

Fique com os outros, que me esperam, no desencontro que é a vida.




Álvaro de Campos





Este poema de Álvaro de Campos, que como devem saber é mais um dos muitos heterónimos de Fernando Pessoa, cativou-me porque de uma forma simples expressa a vontade que todos temos, por vezes, em romper com todas as convenções da sociedade.

O poeta começa por associar o desleixo e o não cumprimento de um dever a uma sensação de bem-estar físico, a frescura na face. No entanto, este bem-estar não é completo uma vez que Campos diz “Respiro melhor agora que passaram as horas dos encontros.”, ou seja, o poeta apesar da sua aparente despreocupação sente-se mais aliviado quando a hora do encontro passa e já não pode comparecer.

Nos versos seguintes o poeta informa o leitor que esperou ter vontade para comparecer aos encontros marcados mas esta não chegou.

O “lá” do sexto verso remete-nos para um local controlado por normas sociais estritas e castradoras às quais o poeta tenta escapar, percebemos assim que ele rejeita as normas impostas pela sociedade e que tenta evita-las uma vez que chega ao ponto de marcar encontros à mesma hora faltando a ambos.

Voltando um pouco atrás no poema temos os versos que eu mais gostei neste poema “Sou livre, contra a sociedade organizada e vestida. /Estou nu, e mergulho na água da minha imaginação”.

Nos versos transcritos acima o poeta declara-se um indivíduo livre contra a sociedade que se encontra vestida de preconceito, regras e atitudes politicamente correctas. Do outro lado temos este indivíduo que mergulha nu na sua imaginação, devaneando, errando, imaginando sem dar importância ao que é socialmente aceite, ou seja, despido de todos preconceitos.

Na última estrofe o sujeito poético considera-se um assistente da vida, ou seja, o poeta não toma parte na vida considera-se um mero espectador.

Esta é a única parte do poema com a qual não concordo. Por mais castradoras que a realidade e a sociedade em geral sejam não nos devemos refugiar apenas no sonho e assumirmo-nos como espectadores da vida, devemos tomar parte nela e tentar fazer o mundo um pouquinho melhor, um pouquinho menos preconceituoso, um pouquinho mais humano. Não estou a dizer para deixarmos de parte o sonho, mas sim transportá-lo para a nossa realidade. Acima de tudo devemos fazer de cada dia um sonho tornado realidade, para não termos de marcar encontros à mesma hora para arranjar uma desculpa para não ir a nenhum deles.

Ana Paula Portela. 12ºB

[texto ainda por editar pela professora]

"Quero dormir sossegado, sem nada que desejar"


“Aqui na orla da praia, mudo e contente domar,
Sem nada já que me atraia, nem nada que desejar,
Farei um sonho, terei meu dia, fecharei a vida,
E nunca terei agonia, pois dormirei de seguida.

A vida é como uma sombra que passa por sobre um rio
Ou como um passo na alfombra de um quarto que jaz

O amor é um sonho que chega para o pouco ser que se é;
A glória concede e nega; não tem verdades a fé.

Por isso na orla morena da praia calada e só,
Tenho a alma feita pequena, livre de mágoa e de dó;
Sonho sem quase já ser, perco sem nunca ter tido,
E comecei a morrer muito antes de ter vivido.

Dêem-me, onde aqui jazo, só uma brisa que passe,
Não quero nada do acaso, senão a brisa na face;
Dêem-me um vago amor de quanto nunca terei,
Não quero gozo nem dor, não quero vida nem lei.

Só, no silêncio cercado pelo som brusco do mar,
Quero dormir sossegado, sem nada que desejar,
Quero dormir na distância de um ser que nunca foi seu,
Tocado do ar fragrância da brisa de qualquer céu.”

Fernando Pessoa (Ortónimo)

Eu escolhi este poema, porque todos esperam tudo de nós, incluindo nós, sobretudo nós. Eu quero ser a melhor, quero ter o corpo desta maneira, quero ser mais bonita, quero que gostem de mim. Desejos que nos fazem perguntar “Porquê?!”; porque é que não posso fazer isto, porque é que não posso ser doutra maneira, criando em nós metas a atingir que nos tornam, por vezes, obcecados em atingi-las. Para além disto, os nossos pais colocam em nós demasiadas responsabilidades, esperam de nós algo que não podemos dar, fazendo-nos sentir reprimidos, impotentes, mas tão asfixiados, que nem nos deixam explodir, dizer aquilo que sentimos.
Por tudo isto, precisamos de parar por momentos, não pensar em nada, apenas sentir, ver, ouvir, pois, se não pensarmos em tudo aquilo que pesa, vamo-nos sentir mais em paz, por vezes temos de dar um “grito”, libertar toda a nossa raiva, como dizendo “DEIXEM-ME EM PAZ!”. Tantas vezes sentimos vontade de dormir e não mais acordar, estar numa espécie de transe, de coma, sem termos de pensar nos trabalhos que temos de fazer, naquilo que querem de nós, naquilo que queremos de nós, em tudo aquilo que nos afecta.
Ai! Dormir! Dormir é tão aconchegante, relaxante, mas nem sequer temos a noção de que o estamos a fazer. Sabemos que o vamos fazer e sabemos que o fizemos, mas não sabemos que estamos, de facto, a fazê-lo e, isso, isso é o que nos dá mais paz: fugirmos, nem que seja por momentos, desta realidade e vida exaustiva, desgastante, exigente.


[texto ainda por editar pela professora]

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Olá, guardador de Rebanhos



«Olá, guardador de rebanhos,

Aí à beira da estrada,

Que te diz o vento que passa?»

«Que é vento, e que passa,

E que já passou antes,

E que passará depois.

E a ti o que te diz?»

«Muita cousa mais do que isso.

Fala-me de muitas outras cousas.

De memórias e de saudades

E de cousas que nunca foram.»

«Nunca ouviste passar o vento.

O vento só fala do vento.

O que lhe ouviste foi mentira,

E a mentira está em ti.»

Este poema de Alberto Caeiro foi escrito usando o verso livre, com métrica irregular, é constituído por um terceto e três quadras, sem rima definida. O poema é escrito em linguagem simples, acessível.

Na primeira estrofe, este fala como se fosse um guardador de rebanhos, como já havia falado noutros poemas de sua autoria, e elabora um diálogo com alguém que racionaliza, podendo ser Fernando Pessoa. Neste caso, assisti-se a um diálogo entre Pessoa e Caeiro junto a uma estrada desta nossa vida. Pessoa pergunta-lhe que lhe diz o vento, este responde a coisa mais simples, com ausência de qualquer tipo de racionalização, que é apenas vento e que passou e passará sempre, devolvendo a pergunta. Este [???] tem uma resposta muito mais elaborada, dizendo que lhe traz à lembrança muitas outras coisas para além do vento, dando ao vento a subjectividade própria de um sujeito lírico, com memórias de outrora .

Na última estrofe ocorre uma resposta de Caeiro, colocando a pergunta se ele [?] nunca tinha ouvido o vento, já que o que se ouve é apenas o vento, nada mais, é apenas aquela sensação de passagem. Dizendo que a mentira está dentro deste, entranhada em si, na sua cabeça, no seu lirismo, na sua racionalização.

Este poema gira em volta de interrogações, com uso de repetições e personificações-

Este poema para mim foi importante porque demonstra a capacidade simples de observar e sentir o vento.



Filipe Miranda Mota, 12º B