quarta-feira, 4 de junho de 2008

Cemitério de Movimentos




Eu, apenas eu e poucos mais, realmente paramos para pensar, não só imaginar mas ver, observar, admirar. E pouco adianta porque não vemos nada! Estes tempos parecem paralisados, sem qualquer fugaz escapatória de esforço. A sociedade!
Pelas aulas de História e Ciências, noto a evolução do Homem, como uma constante! Um pleno desejo do homem, um querer de mais até.
O homem descobriu o fogo, excelente! O homem descobriu a roda, fantástico! E por aqui fora numa linha sucessiva de tempo, vemos vários momentos gratificantes para os dias de hoje. Mas será que o momento que revolucionou tudo e todos, e que está mais presente é assim tão bom?
Invenção da máquina, inteligência artificial, tecnologia e tudo o mais que é capaz de nos fazer ficar de olhos esbugalhados, são a decadência e o veneno dos suicidas!
Isto atinge proporções para já imagináveis, mas amanhã, quem sabe? Cada vez mais parados, cada vez mais sedentários, cada vez mais mortos.
Se as máquinas fazem tudo por nós, quem vive? Nós ou elas? Não somos dotados de agilidade e perícia para fazermos o que devemos? Trabalhar é não ficar sentado, a ver os dias a passar. Assim, tornamo-nos pessoas em coma, mas que se mexem num espaço curto. Pessoas que apenas satisfazem os critérios mínimos de vida, que apenas se alimentam!
A pobreza dos dias de hoje! Grandes monumentos, grandes edifícios, comparando estes edifícios da actualidade aos antigos, que não tiveram ajuda a não ser os músculos, ossos, tendões e sistema nervoso, qual tem mais valor? O homem perde tudo quando pára, ou o homem se mexe ou o homem morre! Os jovens que estudam para um futuro estável, podem não o ter porque as emoções fugiram ou deixaram de existir e, esses sim, vão virar os robôs frios e pálidos sem qualquer reacção à vida ou de vida.
Constrói-se, descobre-se, aprende-se, exagera-se e ficamos sem palavras ao ver o próprio empurrão que nos deitou ao precipício! Morremos!







Gonçalo António Vilas Boas da Fonseca,11ºA

A perspectiva adequada

Queridos pais:



Desde que vim para o colégio, sei que não tenho escrito muito e lamento o meu descuido. Vou pôr-vos ao corrente do que tem sido a minha vida, mas primeiro, gostaria que se sentassem antes de continuarem a ler.
Bom. Encontro-me muito bem, agora. A fractura do crânio e o estado de choque que me provocou o salto da janela do dormitório, quando se incendiou, já está curada. Só estive quinze dias no hospital e já quase consigo ver com perfeita normalidade. Só às vezes me dão umas dores de cabeça, durante o dia.

Por sorte, quando o dormitório se incendiou e eu saltei pela janela, houve um rapaz de uma bomba de gasolina que viu tudo e chamou os bombeiros e a ambulância. Depois, até me veio visitar ao hospital e como o meu quarto estava todo queimado e eu não tinha onde ficar, convidou-me a ficar em casa dele. Não é bem uma casa, é mais uma cave. Mas está muito bem decorada. Ele é um rapaz óptimo e estamos muito apaixonados. Pensamos casar. Ainda não sabemos muito bem qual será a data, mas estávamos a pensar que fosse antes que se notasse a minha gravidez.

Sim, queridos pais, estou grávida. Sei que vão gostar de ser avós e que vão receber o bebé muito bem, dando-lhe o carinho e afecto que me deram a mim quando era pequena.

Sei que vocês vão receber o meu noivo, na nossa família, de braços abertos. Ele é carinhoso e, apesar de não ser muito educado, tem ambições. A sua raça e religião são muito diferentes das nossas, mas sei que a vossa frequente tolerância não vos vai deixar preocupados com isso.

Agora que já estão ao corrente de tudo, quero dizer-vos que o meu quarto do dormitório não se incendiou, não tive fractura nem choque, não fui ao hospital, não estou grávida, não tenho noivo e nem sequer há nenhum rapaz na minha vida. A única coisa que aconteceu foi que chumbei a História e passei a Ciências, e gostaria que vissem estes resultados numa perspectiva adequada.



A vossa filha que vos ama,


Maria


Manuel Sarmento, 11ºA

Vamos pró Tibete?




Estou perdido! Este país está perdido! Corrijam-me se estiver errado, mas o dia-a-dia não é um inferno? É que nem dá gosto sair da cama.
O inferno começa logo de manhã, saímos de casa para levar os nossos filhos à escolinha, deparamo-nos logo com uma fila enorme de carros, e isto porquê? Porque os paizinhos dos meninos param no meio da estrada para o filhinho sair do carro e entrar na escolinha, enquanto o paizinho está no meio da estrada a interromper o trânsito, ndiferente à buzina do nosso carro, que está quase com o depósito vazio e não temos dinheiro para o encher.
Chegamos ao trabalho e encontramos duas torres de papéis em cima da secretária para ler, corrigir, reler e entregar ao chefe que foi jogar golfe, mas já volta.
E assim chegamos a meio do dia, já estoirados. Vamos almoçar a um café qualquer e só queremos comer descansados, mas quem havia de estar ao nosso lado? Pois é, as amigas reformadas que põem a cusquice em dia, enquanto nós nos tentamos abstrair e olhar para a televisão para presenciar mais um aumento dos combustíveis.
De tarde, lá vamos nós para o trabalho, depois de estarmos mais meia hora na fila, lá vamos ouvir do nosso “queridinho” chefe porque já é o 3º atraso este mês. Finalmente, depois de muitos e-mails recebidos e muitos papéis preenchidos, lá vamos nós para casa. Mas atenção, antes ainda temos que ir buscar os nossos filhos à escola, e consequentemente estar mais uma hora na fila.
Chegamos a casa e descansamos um bocado no sofá, a ver as inúmeras cartas de contas para pagar, e a pensar porque razão acordamos de manhã neste país. Vamos pró Tibete? Pior não deve ser…



André Coutinho de Matos,11º A

Costumes: Bens essenciais ou Males desnecessários





Outro dia estava eu instalado no meu sofá a ver televisão, quando passa um reclame relativo ao S. João, grandes sardinhadas, vinho sempre a acompanhar, enfim, um costume que traz toda a população local para as ruas.
Até ai, nenhum problema, mas veio-me à cabeça um aspecto, digamos, algo curioso: as marchas de S. João são uma tradição religiosa e, num dia tão religioso, apenas se vêem na rua bêbados a tropeçar e cenas de pancadaria. Como não sou muito supersticioso, não acredito muito em santos, em Deus sim, mas em santos não e esta sociedade, habituada mais a relacionar os seus milagres aos seus santinhos do que a Deus, gosta muito disto. Mas, a propósito, não será isto um bocado contraditório?
Ora vejamos: os santos, supostamente, são pessoas bondosas, gostam de ajudar o próximo e, num dia tão religioso como este, dedicado a tais santos, não deveria a sociedade ir à igreja, pedir os seus milagres e ingerir a sua hóstia? Pois parece que não, preferem, vestir-se a rigor, ir para a rua encontrar os amigos e apanhar uma semelhante bebedeira que no dia seguinte não se levantam.
Agora é altura de cada um se perguntar: será que a sociedade moderna não vê os feriados santos como dias para desanuviar e deixar os problemas para outro dia, ou estará ela a transformar estes dias tão santos, formados em séculos de história, num grande circo em que os santos são os bombos da festa, e a sociedade, as crianças que esperam impacientes por um doce!
O que é certo é que o santinho deixa de ter importância, e olhem que qualquer dia ele enerva-se e aí é que vai ser giro.
Pois é, cada um tem um ponto de vista, mas eu na revelo o meu, pois sujeito-me a ser seguido por cristãos fanáticos, e além disso, os costumes [???] pois eu preciso de dias livres.






Pedro Miguel da Silva Barreto, 11ºA

segunda-feira, 2 de junho de 2008

A Democracia em Portugal



Os nossos políticos passam o tempo a prometer que serão os verdadeiros representantes dos eleitores, quando na verdade a sua profunda preocupação é salvaguardar os seus próprios interesses.
É agradável recordar que já houve democracia directa em Atenas e que o povo grego reunia em assembleia de três em três meses ao ar livre, fazendo intervenções públicas a defender as suas ideias, a expor os seus problemas, a dar as suas opiniões.
As deliberações eram tomadas em função dos votos da maioria, simplesmente, daqueles que estivessem presentes. As pessoas conversavam umas com as outras focando os seus problemas e auscultando a opinião dos parceiros nas lojas, praças, nas tabernas, à mesa, no intuito de aclarar as ideias, encontrar soluções e resolver pela via mais certa e pelo acordo.
As visões alternativas eram apresentadas e a decisão final pertencia aos membros da assembleia. A participação na via pública era feita por sorteio, o que implicava que todos os cidadãos estavam preparados para exercer a administração e a gestão das coisas públicas. Essa actividade era exercida gratuitamente e os poucos que necessitassem ser remunerados tinham um salário inferior ao de um pedreiro.
Sob este sistema de governação e gestão, Atenas foi o Estado mais próspero, mais culto e mais poderoso do mundo grego, durante mais de 200 anos.
Todos os cidadãos podiam votar e propor leis, com a excepção (por força da mentalidade e costumes da época) das mulheres e dos escravos.
Que fizeram alguns pensadores reguilas do fim do séc. XVIII? Foram à filosofia e história da Grécia buscar a “Democracia” e trouxeram só a capa do livro e esqueceram lá o conteúdo. Inventaram a democracia representativa onde o povo elege um representante e este é que vai para a assembleia. Agora surge a pergunta: o representante defende a vontade de quem o elegeu, ou vai defender os seus interesses, os das cúpulas do partido ou, ainda pior, dando apoio, contra a vontade da maioria popular, aos dirigentes da nação, que investem o dinheiro dos impostos pagos pelos cidadãos, em futilidades caríssimas, em obras inúteis e megalómanas, em investimentos que só favorecem empreiteiros amigos e familiares, fomentando uma descarada corrupção e vergonhosas derrapagens.
Aqui fica um desafio às “democracias modernas” que será o de evitar que a regra da maioria se torne em tirania para o povo.
Quase todos os estados do mundo se dizem apoiantes da democracia, mas nenhum a cumpre na prática. Mais flagrante ainda é o caso das denominadas democracias populares que nunca passaram de ditaduras.
O povo é manipulado pelas classes dominantes na hora de tomar uma decisão importante para o país. O cidadão é preterido em relação aos interesses das minorias do poder.
Por tudo o que se vê e tem visto, sou levado a afirmar que, se a democracia fosse realmente aberta, franca, transparente e tivesse como objectivo o bem de todos e fosse assegurada pelas pessoas certas, no lugar certo, ou seja, pessoas com idoneidade política, com cultura histórica sobre a condição humana, com personalidade, com carácter, com consciência limpa e um pouco de respeito pela vida e dia-a-dia de cada um, evitaríamos tanta desordem mental, tanto desrespeito à paz de cada família, tanta corrupção até ao mais alto nível, tanta indisciplina, tanta anarquia, tão pouco respeito pela integridade do ser humano e pela sua vida, tanta indiferença pela miséria que tantos suportam, e, para finalizar, tanta protecção ao criminoso, com tanto desprezo pelas vítimas.
Estamos numa ditadura cruel, desumana, perigosa e aterrorizante. Assenhorearam-se da rádio, da televisão, da imprensa onde se espalha uma má cultura, uma péssima informação e são ministrados certos narcóticos ao “Zé Povinho” para o trazer entretido, tais como concursos de futilidade, novelas de muito mau gosto e um futebol alienante que é tudo menos desporto.
Ò santa democracia, tanta lama te atiraram ao rosto que ficaste cega e não sei quando voltarás a ver a beleza do sol que brilhou cheio de humanidade, nos tempos e nas terras de quem te inventou.
Eu vou esperar, porque haverá sempre alguém que acredita em milagres e eu estou na lista…



José Rafael Soares da Costa, 11ºA

A Vida na Terra





No início do Universo, quando o criaram, ou quando se criou a si próprio (isto é uma questão subjectiva que não vou discutir por agora), praticamente tudo se relacionava em plena harmonia, qualquer divergência era corrigida sem qualquer “stress” e tudo era “normal”, até que a famosa evolução das espécies formou o Homem.
Esta estranha criatura a quem deram alguns “poderes especiais” consegue fazer coisas extremamente engraçadas com esses poderes. A racionalidade é um desses poderes. Mas que fez o Homem com esse poder que o diferenciou das outras criaturas e que o tornou tão especial? Será que se serviu dele para melhorar a vida no planeta que o acolheu e lhe permitiu o seu desenvolvimento? A que assistimos hoje em dia? Porque é que são as alturas de grandes conflitos que permitem desenvolver e melhorar certas invenções? Parece que, afinal, esse poder tão especial em vez de ter conduzido o Homem a um mundo perfeito, apenas o está a levar à sua própria destruição.
A inteligência de certos líderes mundiais, de que George Bush é o expoente máximo, só tem contribuído para a destruição daquilo que poderia ser um paraíso. Alarga-se cada vez mais o fosso entre os países ricos e os pobres. Na Europa, deitam-se fora ou queimam-se, os excedentes agrícolas para que os preços não desçam, enquanto em África se morre à fome. O aquecimento global aumenta cada vez mais o risco de catástrofes naturais e são poucos os paraísos que ainda conseguimos preservar.
Que pretende este Homem fazer? Destruir-se? Suicidar-se? Ou será que conseguirá “dar a volta” e criar um Novo Homem capaz de alterar o que parece inalterável?
A continuar assim, sempre na tentativa de controlar o seu futuro, sem abdicar de determinados privilégios e sem fazer nenhum sacrifício, o Homem só conseguirá destruir a herança do passado e hipotecar o futuro dos seus descendentes.



Rui Bonifácio
11º C

Desabafo





De repente sinto-me outra! Sinto-me diferente! Chego a não me reconhecer.
Cresci, a verdade é que cresci, e mudei, realmente mudei. Até de amigos “mudei”. Os meus amigos parecem não ser os mesmos. Não os consigo reconhecer! O que nos unia deixou de existir e a vontade de partilhar desapareceu no meio da hipocrisia que sinto quando com eles converso.
Esta hipocrisia gera pensamentos maus, muito maus mesmo. Podemos até pôr em causa a verdadeira amizade. Quando alguém chega com o discurso: “vou contar-te uma coisa, mas não podes dizer nada a ninguém”, começo logo a pensar que o que me está a ser contado é algo que deveria ficar entre quem confia e a pessoa a quem foi confiado. Se um “amigo” não sabe guardar o segredo de outro, é quebrada de imediato a relação de confiança que existe entre eles, o que me leva a pensar que, certamente, fará o mesmo quando eu lhe confiar algo confidencial. Isto faz-me sentir incomodada quando estou perto deles, chegando mesmo a deixar de procurar a sua companhia.
Será que tenho alguma culpa por sentir que estou a perder os meus amigos?! Não. Finalmente hoje percebi que não. No entanto, não sei se esteja alegre, por me sentir um tanto ou quanto aliviada, ou triste, por chegar à conclusão de que os amigos mudam, desiludem-nos e crescem, de maneiras diferentes da nossa, o que nos leva a deixá-los.
Será que é isto que acontece quando começamos a “crescer”?! Será que acontece com todos?! Será que me esperam ainda muitas desilusões?!
Certamente que sim, mas consegui hoje também perceber que não será pelo facto de crescermos em sentidos diferentes e os nossos interesses serem divergentes ou os temas de conversa não serem os mesmos, que me vou sentir mal e chorar “baba e ranho”. Acredito que, se existem “amigos” que não nos ajudam e ainda pioram a situação para se sentiram os melhores do mundo e superiores aos outros, também existem amigos para a vida toda e que nos farão sempre sentir bem-vindos e alegres com a nossa companhia!



Eduarda Silva Correia 11º.A

É a isto que chamamos de amor?





Amor…
O que é que entendemos por amor?
Nada?
Mas será que toda a gente pensa assim?
Eu digo que não… E sabem porquê?
Eu digo o porquê! Nem toda a gente pensa assim porque, se nós repararmos bem à nossa volta, o que mais há é hipocrisia e falsidade.[???]
E no amor é o que mais existe… Falsidade, hipocrisia, infelicidade e desrespeito pelo parceiro.
As pessoas já não ligam ao verdadeiro amor. Agora só ligam à aparência, à beleza, se usam roupa ou calçado de marca. E o seu interior não conta? Por não ser tão bonito como a outra [?] quer dizer que não mereça ser amada?
Há pessoas que chegam a amar essas pessoas “ menos bonitas”, só que não admitem. E sabem porquê? Por causa dos amigos, dos colegas, têm medo de serem gozados e postos de parte por causa do seu amor.
Acham justo?
Acham que no amor, a beleza, o dinheiro contam para alguma coisa? De que nos adianta termos isso tudo e não sermos felizes?
O que mais existe agora é casar por dinheiro, pela beleza do parceiro, dizer-se que se ama muito a outra pessoa e, no fundo, ser tudo mentira… Viver na infelicidade, ou, para não viver na infelicidade, arranjar uma segunda pessoa para resolver o problema. Isto no mundo dos adultos, porque no mundo dos adolescentes, bem nem se fala.
Os rapazes têm a mania que só por “comer” muitas miúdas são os maiores e as raparigas têm a mania que são “boas” por andarem tantos rapazes atrás delas! A maior parte desses “ comes” correm mal, porque as pessoas acabam por se apaixonar, mas estas pessoas não andam com pessoas “ menos bonitas”. Primeiro procuram uma vitima que seja bonita, “boa”, com dinheiro para pagar o lanche de vez em quando (ou sempre). E depois “come”, “come” e vão-te embora. Se gostaste, gostaste, senão gostaste paciência, também já não há nada para ninguém.
Onde está o amor?
Aquele onde se corria riscos para estar com o seu amado (a)?
Acabou…desapareceu
Agora vivemos a palhaçada do amor!
(Não quer dizer que seja sempre assim, mas todas sabemos que isto é bem verdade)







Andreia, 11.ºB

domingo, 1 de junho de 2008

Portugal Inventado

Acto 1

Estúdio televisivo preparado para uma entrevista em directo. Aspecto sóbrio: decoração pobre, adequada ao ambiente profissional, em tons cinzentos e negros; mesa preta em forma de meia-lua de fronte para o público. Em cada uma das suas extremidades uma cadeira estofada vermelha. Painel com a bandeira portuguesa atrás da mesa, ao longo do estúdio. Presença de vários holofotes, focos de luz ligados e câmaras de filmar em vários pontos do estúdio.


Cena 1 – Professora Manuela Cabral (PMC), sentada na extremidade esquerda da mesa, ladeada, na extremidade direita, pela entrevistadora (E). Ambas vestem um fato de corte clássico, com blazer. A presidente traja vermelho, a entrevistadora branco. Há também um Assistente de Realização (AR).

AR – 10 segundos.

(ouve-se o genérico)

AR – 3, 2…

E (Para a câmara central.) – Boa Noite. Bem vindos à segunda parte desta Entrevista Extraordinária. Seis meses após a formação da Aliança Ibérica, o Canal de Portugal e da Galiza entrevista, em directo, a nova Primeira-ministra; a carismática ex-líder do Grupo Separatista do Norte, que após vários meses de tentativas de acordos, assinou o tratado que determina a independência da região peninsular norte do resto da recentemente formada Aliança Ibérica. (Dirige-se a Manuela Cabral) Mais uma vez, Boa noite Professora.

PMC – Boa Noite.

E – Professora, tendo já analisado as perspectivas económicas e financeiras durante a primeira parte, as nossas questões abordam agora a visão social que este governo projecta. Começo por lhe perguntar que perspectivas de evolução social tem a região nortenha, muito apesar da convicta propaganda que ambos outrora governos português e espanhol fizeram passar, alastrando a esperança da criação de uma nova super potência com a Aliança Ibérica?

PMC – (Esboça um pequeno sorriso, mantém os cotovelos em cima da mesa, com as mãos unidas, movendo-as.) O que diz respeito ao panorama social inicial que o Estado poderá enfrentar, depende em muito do rumo da mentalidade nacional.

E – E com isso pretende dizer que…?

PMC – … Que nada advirá da independência, se este novo Portugal permanecer submerso no seu fado, nos seus complexos saudosistas.

E – Crê, então, que o progresso da “nova nação” (acentua a palavra) passa pela negação dos costumes, das tradições?

PMC – Não, muito francamente. Não estendo esta ideologia a um nível tão radical, pelo que considero que nenhuma tradição deve ser ignorada, ou proibida. Mas não poderemos questionar o seu nível de qualidade, a imagem que este apego torpe, mesquinho ao provincianismo projecta em nós e no exterior? Eu não acredito no nascer para ser. Mas, por agora, vejo a extinção do estereótipo “Zé da Boina”, do “marialvismo” (vá!), tão perto como Urano.

E – Nessa linha de raciocínio, conclui que dos esforços do separatismo resultará uma nação portuguesa frustrada? Sabemos, da velha idiossincrasia portuguesa, que a região norte sempre foi mais conservadora. Como dirige um governo vanguardista este novo Portugal?

PMC – Uma nação frustrada? Qual quê!... Encomendamos alento aos galegos!... E na verdade, somos ingratos. Abraçaram-nos na luta, e fazem-no na nação. Contudo, ainda não os temos como nós. O que me deixa um tanto desolada: não mereceriam eles ser os donos dessa petulância?... (sorri, jovialmente)
Felizmente temos vários grupos, não só ministérios, dos vários campos (científicos e humanísticos), a realizar estudos e projectos. Por exemplo, o associativismo universitário portuense, em muito, coadjuvou em muito o GSN e continua-a em acção no que respeita à estrutura dos projectos governamentais. Isso denota ânsia, força, num seio de uma geração capaz.
Contudo, é como lhe digo: há problemas de ordem social que poderão constituir entraves ao Estado. Mas, como prioridade social (e até porque das outras já falamos) aspiramos a tornar a escolaridade pública, gratuita e com qualidade. E isso fará toda a diferença, especialmente porque a região norte é também a mais jovem de toda a Europa. O progresso ou o fracasso de uma nação baseia-se no conhecimento que esta possui – tentaremos estimulá-lo! – e esse estímulo não pode passar pela inflação de três valores numa nota académica, em troca de uma mensalidade de 300€, entende-me?
Existe um plano para as igualdades de direitos, no qual também a questão da educação se insere, mas não só. Também a questão da discriminação sexual, das deficiências, a discriminação socio-económica e processos de vitimização provenientes destes factores, entre outros.
Há também projectos de lei, a nível de planeamento e ordenamento de território, como a progressiva eliminação de bairros de lata, através da construção de bairros sociais; (Aparte) Temos que admitir que as TvCabo e os 150 cavalos condizem melhor com estes últimos, não é verdade?

E – Como pretende tornar o ensino exclusivamente público? (Aparte) A mulher sofre de demência aguda! (Continua, impecável) Não teme um surto de revolta? Não temerão os portugueses a expropriação das empresas privadas?

PMC – Dentro três anos, todas as escolas portuguesas serão públicas. A educação deve ser igualitária, não uma forma de hierarquização. Se os cidadãos são iguais perante a lei, então a formação destes também o deve ser. E jamais deverá ser tida como um negócio. A intervenção do Estado fica-se por aqui. Não haverá qualquer expropriação a empresas privadas.

E – Há pouco falávamos da sociedade nortenha, do seu conservadorismo.

PMC – Quanto ao conservadorismo, que na generalidade a caracteriza, não o temo. Começo a crer que os que escolheram ficar, já não procuram partidos; Procuram… Homens, diria? (ambas se riem) Além disso, lisonjeia-me o conservadorismo que coloca uma mulher de esquerda no poder.

E – Como reagirá o país, se a potência da Aliança Ibérica se realizar? Ponderará este Estado fazer parte dela?

PMC – Com todo o devido respeito, por minha experiência lhe digo – só enlaça a demagogia quem a quer. A propaganda da Aliança não busca só eleitores, mas cidadãos, mão-de-obra. Com toda a sinceridade, espero não vir a ver uma potência proletária. Duas nações não se tornam uma com um tratado. Há processos de assimilação cultural, que se estendem, se prolongam por muito tempo. Da anexação poderá haver a desigualdade entre os dois povos. E consigo já adivinhar o que fica por cima.

E – Nasceu daí a formação do GSN? De uma premissa fundamentada no medo? No terror da sublevação do sangue lusitano?

PMC – Não. O GSN brotou de um forte desejo de continuar Portugal! Não tem de ser um sonho utópico, um projecto de vida, um Quinto Império. Contudo, tem de ser a prova da afirmação nacional. De que somos capazes. De atingir a qualidade de vida e a grandiosidade que até agora não conquistamos.

E – Considera que a Aliança é um sinal de impotência das velhas nações, de Portugal particularmente, face a magnitude de outras?

PMC – Absolutamente. No entanto essa impotência, essa pequenez, é puramente psicológica, como já lhe disse que creio. O saudosismo! Nós projectamos em nós mesmos e no exterior algo que nem sempre somos. Não é a falta de inteligência que nos afecta. (Aparte) A prová-lo temos é um défice de auto-reconhecimento, de auto-estima colectiva. Isso não se revê só nesta aliança. Quantos não tiveram de (quase como se se erradicassem da pátria) viver lá fora, para serem reconhecidos? Quantas Paulas Rego, Saramagos, Antónios Damásio não o fizeram pela sobrevivência dos seus sonhos, da sua genialidade? Quantos terão de o fazer? Há um ciclo vicioso em que a única forma de afirmar o que se tem é afirmar o que se é, e vice-versa. Portugal, um novo Portugal, tem de se afirmar. Caso contrário rompe esse ciclo, restando-lhe apenas meia dúzia de biografias heróicas e um choradinho perpetuamente consagrado.


ACTO 2



Decorre em ambiente familiar; sala de estar: Decoração moderna; colorida, tendencialmente clara; traços universitários – livros, encadernações e canetas desorganizadamente empilhadas numa estante, à esquerda. Perto da estante, uma porta de acesso a uma divisão incógnita. Do lado oposto, a porta que divide a sala de estar do hall de entrada. Ouve-se o som oriundo do aparelho televisivo que repousa por cima de uma cómoda. Ao centro, de fronte para a TV, o sofá, sobre o qual se mostram os cigarros, um cinzeiro e uma pedra de marijuana.




CENA 1 – Tiago Rodrigues (T), confortavelmente estirado sobre o sofá, observando a mãe no grande ecrã, ia consumindo um charro morosamente, sorrindo, inebriado a cada bafo, como se deles extraísse o sentido da sua existência. Veste-se informalmente (jeans e t-shirt) e está descalço. Helena (H) Hippie, movimentos e discurso descontraídos.

(ouve-se a porta de entrada a abrir e fechar)

H – Já cheguei. Fui às compras. Trouxe carne, bolachas, cereais e Favaios. (olha para a sala e para o amigo) A Marri?
T – Está lá dentro. (solta o ar travado) A fazer o teste.
H – Então e a tua mamã, que tal fica na Tv?
T – Assustadoramente íntegra para a classe a que se juntou. (risos)
H – De que está a falar agora?
T - Ah! Dos renegados da pátria. Embora eu me questione sempre se não desprezam eles as raízes, que não lhes deram nada senão a fronteira. A minha mãe quer acreditar que não, talvez pelo meu irmão, que…
H – (interrompe-o) É verdade! Saiu no jornal! Então os suíços sempre lhe querem comprar a patente.
T – A minha mãe ainda espera que ele volte a Portugal, qual elefante branco, com o seu protótipo do carro a hidrogénio.
H – E ele?
T – Oh! Tenho p’ra mim qu’ele não volta tão cedo.. Este Estado ainda não tem a maturidade suficiente para os planos dele. E coitada da mamã: morre de desgosto com o filho longe.
H – Deixa ouvir, deixa ouvir (o último “deixa ouvir” é quase sussurrado)

(ouve-se da televisão “Professora, uma última pergunta: relativamente a quando nos falava do estereótipo “Zé da Boina”, e da sua persistência na sociedade moderna deste século XXI. Sabendo que ele se prende com a tradição campesina, agravada pelo atraso da democracia em Portugal, não teme que as forças monárquicas bragançanas, que em tanto apoiaram o GSN, possam vir a ter um peso, para que esta imagem, este estereótipo, não se dilua facilmente?” Diz a Professora “Não. Podemos afirmar que o monarquismo proveniente da velha Bragança, insensato e extremista, é praticamente irrelevante – tanto a nível social como partidário.”)

H – A mulher não tem papas na língua. Qualquer dia ainda lhe acontece alguma.
T – Ela é honesta. Nunca abandonou os ideais. Foi a determinação que lhe arruinou o casamento, e outras relações. Também lhe trouxe algumas quebras de tensão. A força dela é inestimável, tal como o carácter. Admiro-a.
H – Óóó… quão fófinho o filhotinho! (aperta-lhe as bochechas e abana-as) Vá, chega! Vou fazer o jantar, amanhã é a tua vez. (abandona a sala enquanto Tiago apaga o charro.)

Cena 2 – Tiago, Marianne (ruiva, cabelos encaracolados, aspecto desleixado, natural, mas bonita; sotaque francês vincado)

(Marianne entra, Tiago levanta-se)

T – Então?! (com expectativa)
M – (Abana a cabeça afirmativamente, com um sorriso emotivo)
T – Ah! Minha francesa! (Abraçam-se)

Cena 3 – Tiago, Marianne e Helena

(Helena que havia saído entra de novo)

H – Que me dize… (observa os seus semblantes sorridentes, agora com os respectivos olhos nos seus) Ó! Não me digam que o teste à salvação da humanidade deu positivo?
T – Deu sim senhora!
H – Isto é uma loucura! “P’ra contornar a tendência.” E agora? Que faço eu aos favaios? Bebo sozinha? São 23 anos de vida, mulher! Estás-te a arruinar.
M – Mais non! Está no ponto Helena! E non poderás tu reflectir um pouco sobre a questão? Até o vosso poeta diz que o melhor do mundo são as crianças! Eu posso. Sou uma privilegiada. O curso está no fim e ambos possuímos economias para ter a criança. É para contrariar a tendência, amiga!!
H – Há tantas tendências que podem contrariar! O qu’a maconha faz às vossas cabeças, por exemplo! Olha riquinha, não te arrependas. Espero que te não chegue o dia em que desejarias ter contribuído para o “suicídiô colectivô”. (ri-se) E especialmente que não isso não se passe a um Sábado à noite.
M – Non digas essas coisas Helena. Nem tu acreditas que eu sej’assim. Eu sou livre: não me incluo no universo das desinformadas, nem no das imprudentes. Nem no das egoístas. (olhar sugestivo a Helena)
H – Ai sim? E como é se sustenta um filho com um abono de família de 13 euros?
M – Non interessa. Como ia dizendo: hei-de cumprir a maternidade da primeira geração vindoura. Para que neles não corra o vosso arcaico fado, mas o fervor da revolução.
H – Oh, não quererás acrescentar o século XVIII ao ADN da criança?
M – És uma impertinente. (Alegre)
T – E tu ligas-lhe? Ela só está a espera do convite!
H – Por quem me tomas?!
T – (num tom quase clerical) Diria que de típico não tens nada! Crês em Deus todo-poderoso? Não. Crês na sua instituição representativa? Também não. E, no entanto, estás disposta a fazer um juramento junto à Cruz do Messias, que te obriga a educar o baptizado segundo as Leis de Cristo na ausência de seus pais com o intento de lhe poderes beliscar as bochechas gordas com mais força do que toda a restante gente pois tu e ninguém mais possui estatuto para tal?
H – Oh… cinco quilos de injustiça pesam essas palavras. (irónica, alegre)
T- Não sei se o baptizaremos. Não é nossa vontade, mas como não vacila esta ante a vontade de meus pais?
H – Isso, eu não sei. Contudo, tenho a certeza que se a Vossas Senhorias, Donas da Inteligência, lhes ocorre conceber um néné aos vint’e poucos anos, também decerto ocorrerá uma solução.
M – Por falar em soluções, vamos amanhã assistir à ratificação da declaração do Porto como cidade capital de Portugal?




Liliana Freitas, 11ºG

Para reflectir...



Esta é uma daquelas páginas de conversa fiada, que nem sequer vale a pena ler. Daquelas conversas em que nos apetece tamborilar com os dedos na mesa, assobiar uma canção, olhar pela janela...Porém, se ainda não o fizeste, fá-lo agora!

Este texto fala de estudar e tu não precisas que te estejam incansavelmente a repetir e relembrar quais as vantagens disso. E tens razão! Basta olhares à tua volta. Lê um jornal, vê o noticiário na televisão, ouve os debates e está atento às conversas dos "mais velhos", recém-licenciados. Com certeza já ouviste falar na geração dos "500 euros"... queimaram tanto as pestanas e não viveram a adolescência, como a maior parte dos adolescentes, no tempo dos nossos pais e avôs...só têm para contar relatos da vida de um estudante empenhado em concretizar um objectivo: entrar numa faculdade por vocação e mérito e, acima de tudo, realizar o sonho mais importante, que é serem felizes naquilo que fazem profissionalmente! Para isso é preciso trabalhar, trabalhar e trabalhar. Muitas vezes as vinte e quatro horas do dia não chegam para tantos trabalhos, actividades, testes, exames, relatórios, resumos, orais, visitas de estudo, experiências, pesquisas, comer, dormir, e ainda...ufa!...viver!
Contudo, há tanto trabalho, mas só algumas pessoas têm a sorte de subir na vida. Os advogados, médicos, professores, ou engenheiros que saem licenciados da faculdade e não arranjam emprego, viram funcionários de balcão, empregados de mesa, ou cabeleireiros, e continuam a lutar por um futuro melhor, pois neste mundo injusto, onde os “outros” se servem de cunhas ou “livres trânsito”, só os mais fortes é que sobrevivem.
Também, como já deves ter reparado, em todos os locais mais “finos” e “chiques” onde vais, vês que qualquer pessoa “dita” culta (e até com aspecto de inteligente!), não fala de literatura, geografia, história, ou medicina; fala antes de futebol, de moda, ou até do tempo! Mas, no fundo, é esta pessoa que é conhecida e é dela que se lembram as pessoas mais importantes para ti, enquanto os verdadeiros sábios e trabalhadores estão a servir à mesa a “dita” pessoa culta!
E nós cá andamos carregados de livros. Uns trabalham mais (pois têm grandes expectativas quanto ao futuro próximo) para tirar a nota X pretendida pela faculdade onde querem ingressar. Mas, se por mero azar estiveres na turma Z, não irás por um valor entrar naquilo que te faz realmente feliz, naquilo que te fez suar durante três anos consecutivos e para o qual trabalhaste árdua e seriamente, pois apenas obtiveste a nota Y.
Como vês a vida é manhosa, fecha portas cravadas de oportunidades e abre janelas no sétimo andar! Todavia, a esperança é a última coisa a morrer, por isso, vale sempre a pena fazer mais uma tentativa, pois como já dizia o poeta:”Por morrer uma andorinha, não acaba a Primavera!”.