sexta-feira, 16 de maio de 2008

De neurónios a sementes!






Oh vá lá! Já está na hora de deixar o primeiro-ministro em paz!
Pense bem, caro leitor, ele até oferece computadores portáteis a 150€! E agora? Já vale o esforço, não?
Pois é, meu caro, se pensa que alunos precisam de ter melhores condições nas escolas, materiais adequados, ou até mesmo um rolo de papel higiénico nos lavados, engana-se! O que os alunos precisam é de computadores portáteis e, claro, que venham misturados com uma vasta pauta recheada! Mas se não vierem não motivos de preocupação, porque irá ter muito tempo para estudar quando estiver presente na lista dos “precisa-se de €”, está a ver qual é?
Claro que sim, até porque, português que é português, tem metade da família desempregada. O ministério está assim a pensar no futuro, no grande período de férias que o caro leitor irá ter quando quiser arranjar um emprego. E passar de ano? O que é isso para o ministério?
Eles querem apenas pôr os professores a fazer “babysitting” nas aulas de substituição, e dar boas notas (caso contrário irão pertencer à “listinha”), passar é o menos.
E agora pergunto, acha que a culpa é dos políticos? Claro que não, caro leitor. Pense comigo, eles até estão a tentar tirar Portugal do “buraco”, juntando o maior número de “flores ” no parlamento.
Já pensou na sorte? Daqui a uns dias estamos perante uma enorme reserva de carvão (visto que este se forma a partir de um aglomerado de “florzinhas”), e este serve pelo menos para oferecer aos E.U.A., sim, porque nós somos maus, mas não queremos guerra. Era o que faltava! Destruir agora as enormes auto-estradas que tanto trabalho deram ao governo.
Portugal é um país sortudo, pois somos maus em tudo, mas em termos de flores, ninguém tem espécies tão raras como nós!


Tânia Gomes 11ºB

Portugal em Remodelação!



Durante a época dos descobrimentos, foram muitos os países que se destacaram como grandes potências mundiais, entre eles, um pequeno e aparentemente desprezável, Portugal.
É por ele que preservo, e sempre preservarei, um orgulho imenso, pois admira-me e fascina-me saber que este, apesar das dimensões e fontes de riqueza que possui, conseguiu, num dado momento da história, “ter o mundo a seus pés”. Mas se por um lado me fascina, por outro desilude-me saber que outrora, um povo de nobres valentes guerreiros, se tenha deixado aluir até este ponto.
Um dos pontos que mais destaca o povo Português é o “negativismo”. Foram várias as situações a que eu assisti que realçam esta ideia aqui referida. Tenho conhecimento que, em países como a Alemanha ou a Holanda, as crianças, ou até mesmo jovens e adultos deitam-se por volta das oito e meia da noite, pois a essa hora costuma acabar o horário nobre. Pois bem, em Portugal passa-se completamente o contrário, o horário nobre começa por volta das nove e meia e dormir cerca de seis a sete horas é que é “fixe” e aceite pela sociedade, mesmo tendo esta conhecimento que as horas de sono são vitais para o ser humano.
Por volta dos 16 anos, quase todos os jovens Americanos trabalham, independentemente do estatuto económico, e é também costume irem viver com amigos por volta dos 21. Mas como seria de esperar Portugal tem um sistema bastante diferente. Aqui, trabalhar é um motivo de vergonha e, normalmente, só trabalha quem necessita. Quer dizer, para além da vida económica dos Portugueses que é aparentemente má, “os meninos” não têm de trabalhar, não vá o vizinho pensar que estão cheios de dividas ou com falta de dinheiro. Mas é ainda maior a admiração de certos cidadãos Portugueses ao tomarem conhecimento de que certos jovens Americanos saíam de casa dos pais para irem viver com amigos com apenas 21 anos. Bem, mas é também este ponto aquele que mais me admira e me provoca uma certa incompreensão, não relativamente aos jovens Americanos, pelo contrário, quem me espanta é a sociedade Portuguesa. Como será possível alguém achar esta situação tão estranha e, ao mesmo tempo, darem liberdade excessiva aos seus filhos? É que em Portugal sair de casa é muito estranho, mas sair à noite com apenas 13 anos e apanhar uma bebedeira enorme é perfeitamente normal, próprio da idade. No meu ponto de vista, a adolescência é a idade certa para se começar a organizar a vida, para se irem criando as bases, não para as destruir. São estes e outros comportamentos que se destacam pela negativa, mas que, pelos vistos, são bastante apreciados por esta sociedade.
São constantes as queixas do povo Português: recebem pouco, as reformas são miseráveis, os juros não param de aumentar, etc. Mas assim que chegam as férias, parece que tudo se esquece da má vida que anda a ter, pois são poucos os que por cá ficam. O dinheiro é cada vez menos, as dívidas aumentam, mas há sempre lugar para mais um empréstimo. A gasolina que não pára de subir parece não ser problema para os Portugueses, pois são dos povos Europeus que menos andam a pé ou de bicicleta. Bem, mas pelo menos, alguma coisa mudou desde o tempo de Eça, pois os Portugueses já não se contentam com qualquer coisa, mas como em tudo na vida, ainda não conseguiram encontrar um meio termo.
Apesar desta mentalidade medíocre, há ainda comportamentos e hábitos arrastados desde a ditadura. É perceptível a diminuição de número de crentes em Portugal. Contudo, esta diminuição tem um lado bastante positivo. Com a queda da ditadura, o Cristianismo tornou-se opcional e é precisamente este opcional que faz toda a diferença, pois agora, apesar de poucos, os cristãos são na sua maioria “verdadeiros”. A hipocrisia tem assim diminuído.
A base e toda a estrutura de uma sociedade fazem-se, principalmente, devido ao poder económico, mas não só. Uma mentalidade sã e partilhada por uma grande maioria das pessoas pode fazer a diferença, como é o nosso caso. Infelizmente para nós, esta diferença é feita pelo lado negativo e é uma das principais causas que nos colocam a umas boas décadas dos “Grandes Estados”.


José Pedro Ramião, 11ºC

Uma vida humana com preço


Sempre ouvi dizer que a sociedade, devido aos avanços científicos, ia mudar, mas o que se esqueçeram de mencionar é que talvez não seria para melhor.
Somos "bombardeados" todos os dias pelos meios de comunicação, com notícias sobre homícidios, roubos, escravatura, pedofilia, entre outros. Estas notícias chocam-nos, mas é algo a que simplesmente damos a atenção de pensar que apenas acontece aos outros.
Ultimamente, fomos informados que uma senhora supostamente famosa - mais de metade dos portugueses nunca ouviu falar dela - contratou um homem para assassinar o seu marido. Essa notícia foi alvo de uma tremenda exposição pública, sendo noticiada em todos os telejornais e em jornais. A exposição mediática do caso deveu-se, talvez, a ser um tipo de crime não muito falado em Portugal e a história chamou a atenção aos portugueses que ainda julgavam que isto só acontecia nos filmes da Máfia.
Embora em Portugal este tipo de crime, denominado como "morte por encomenda", seja uma novidade,[?] já não o é noutros países. A tão falada Máfia italiana usava, e talvez ainda use, esta medida para se livrar de pessoas indesejáveis, sem sujar os seus fatinhos caros. Não se pode dizer que eles não sejam inteligentes, porque livram-se das pessoas indesejáveis e não são culpados pela sua morte.[?]
Talvez tenha sido na Máfia que a dita senhora foi buscar a sua inspiração, ao que parece, ela não esteve com muita atenção aos filmes da Máfia, pois está presa e por lá irá continuar por mais vinte e três anos.
A questão será: quanto vale uma vida humana? Li a resposta a esta questão, recentemente, numa revista: por 50€ existe alguém nos bairros de lata capaz de tirar a vida a um ser humano!
Estes senhores e estas senhoras, que contratam uma pessoa para matar outra pessoa, são a vergonha desta sociedade que se encontra cada vez mais degradada. Eles não só destroem a sua vida, como a vida do assassino contratado e do assassinado. Apesar de destruirem as vidas de seres humanos, julgam-se capazes de não serem punidos por isso.
Bem, eu ainda "sonho com o dia em que a justiça correrá como água e a rectidão como um caudaloso rio", tal como o Dr.Martin Luther King, cujo assassinato, curiosamente, pode ter sido por encomenda.



Diana Oliveira,11ºE

365 dias de enjoo


Um ano depois e nada se sabe sobre o paradeiro de Madeleine McCann e, provavelmente, não se saberá. Sabe-se hoje tanto como no primeiro dia: nada, a única “notícia” é que passou um ano. No entanto, a comunicação social voltou à praia da Luz… voltou ao teatro!
Será que toda a “sorte” desta família se deve ao facto de serem ingleses, e de alta classe social? Bem… se voltarmos uns anos atrás, recordamo-nos do desaparecimento de Rui Pedro. A mãe deste não teve acessores de imprensa nem tão pouco era amiga do primeiro-ministro.
Assim, esta história tornou-se um teatro a que todos assistimos. Fomos “obrigados” a conhecer a intimidade de uma família, que de heroína passou a culpada!
Este é dos tais casos que deviam unir as pessoas para que futuros casos não acontecessem, mas não passa de uma utopia. Na verdade, o que se passou foi um sem número de “insultos” à P.J por parte dos ingleses! E o que dizer, à ignorância, da maior parte dos portugueses, que julgavam tratar-se de uma questão cultural? [?]
Se formos minimamente racionais apercebemo-nos que se trata de negligência. Se a lei se fizesse cumprir, o casal ficava sem os outros filhos, a verdade é que não ficou! Ninguém sabe porquê, talvez por serem ingleses!



Cátia Patrícia, 11º E

Todos iguais é que é moda!


Questiono-me se, hoje em dia, andamos todos a competir uns com os outros. “Uns” têm o último grito das sapatilhas da nike e “outros” apressam-se a adquirir umas iguaizinhas. “Uns” compram telemóveis da última geração e “outros” acampam à porta das lojas à espera da última encomenda que os irá tornar mais “in” e mais conhecidos lá na escola.
Estes factos levam-me a questionar, mais uma vez, se o nosso objectivo é sermos reconhecidos pelas nossas diferenças ou ficarmos apagados no meio da “carneirada”. Realmente, o conceito de “carneirismo” cabe como uma luva à nossa juventude. Claro que eu também sou jovem, mas ao contrário que os adultos pensam, consigo pensar e reflectir sobre aquilo com que me deparo diariamente.
Os “meninos bem” vestem marcas da cabeça aos pés e acham um “horror” tudo aquilo que não vem etiquetado com um nome “a dar no olho”. E o que farão os “meninos não tão bem” que já ficam felizes apenas por ter roupa para vestir? São postos de lado, é claro. Não são iguais, ficam excluídos do grupo. Ora então, a diferença e a originalidade traz consigo a discriminação? E logo eu, que acreditava na veracidade e na boa vontade do slogan “ Todos diferentes, todos iguais”. Afinal, só os que são todos iguais podem ser admirados. Por quem? Por aqueles que são iguais a eles, está claro!
Tudo isto me leva a questionar-me de novo. E eu? O que faço? Qual é o meu papel? Torno-me igual aos outros ou arrisco-me a marcar a diferença? Decisão difícil esta!
Tantas decisões, tantas indecisões, tantas pressões com que um jovem de tenra idade tem de lidar. E acresce o facto de tudo isto ser provocado por outros jovens de tão tenra idade. Sim, pelos jovens, porque os pais, adultos e racionais, deixam-se levar pelo coração e de tudo fazem para agradar às suas “criancinhas”. E volto a questionar-me: “quem manda afinal? Os atentos e dedicados pais ou as criaturas manipuladoras que criam dentro das suas casas e que idealizam inocentes e ingénuas?” Cada vez mais acredito que são estas últimas, pois a autoridades está fora de moda (tanto para pais como para professores). Abaixo a autoridade! E assim vou vivendo, não num mar de contentamento, como dizia o poeta, mas num mar de questionamento e dúvida. Certezas? Só uma na vida, e essa sim é a única que é IGUAL para todos.


Ana Cristina Novo, 11º C

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Tempo de Mudar...


Tempo! Só queremos tempo, tempo, tempo… Queixamo-nos sempre de falta de tempo, falamos em perder tempo, ganhar tempo, pedir tempo… Bem que já era “tempo” de mudar e aproveitarmos melhor.

Não controlamos o tempo, o tempo é que nos controla a nós. Por dia olhamos cerca de 2507 vezes para o relógio, talvez como forma de passar tempo e, quando não estamos a ver o tempo, estamo-nos a queixar da falta dele.

Acordamos de manha, cheios de pressa para ir para a escola ou para o emprego, mas, quando lá chegamos, estamos sempre impacientes para que chegue a hora de sair. Outra coisa irónica é o facto de o tempo ser pouco, mas contamos mais tempo que dinheiro.

Quem me visse a escrever isto agora, certamente, diria que já era muito tarde, que andei a perder tempo, este tempo todo, e que já não havia volta a dar. Mas a vida é como um relógio, está sempre a girar e, ora estamos em cima, ora estamos em baixo e aquilo que nos falta é descobrir o “timing” certo para parar o relógio.

Contudo, o que me faz mais confusão é o facto de o tempo ser uma coisa tão imaginária e relativa, mas ao mesmo tempo tão importante. Ora vejamos, eu pergunto as horas a alguém e essa pessoa olha para o relógio e vê 12:03, mas, naturalmente, vai-me dizer que é 12:05 e eu, naturalmente, registo como sendo 12:05. E agora? Vão existir dois tempos? E se existir só um, qual é que está certo? É por isso que eu digo que o tempo não existe e, se existe, não é para ser contado.

Vivemos numa sociedade completamente drogada com o tempo, vemos tempo, ouvimos tempo, sentimos tempo. Se esta tendência não mudar vamos todos enlouquecer, com o tempo. Mas penso que a solução para isso é como o tema do meu texto, pode demorar, mas até chegar, é tudo uma questão de tempo.




Miguel 11ºB

terça-feira, 13 de maio de 2008

Uma família chamada Meirelles

Capítulo I

A família Meirelles encontrava-se, como todos os domingos, empanturrada [?] no sofá agarrando devoradoramente o comando e, sistematicamente, mudando de canal à procura de uma programação de jeito. Tudo lhe parecera igual. O velho e mal cheiroso sofá, as pipocas secas, a mãe que vivia de um lado para outro, ora pondo roupa a lavar, ora lavando loiça. Nada, naquele Domingo, lhe parecera estranho. Mas havia algo: a menina da casa tinha-se mudado ontem para Espanha, acabara o secundário, e por a média de Medicina em Portugal ser muito alta mudara-se para lá, há procura de uma vida melhor.
Os Meirelles viviam no Centro de Lisboa, era uma família de classe média, composta por quatro elementos. O pai com 41 anos, a mãe, uma linda senhora de 36 anos, professora de História, e os seus meninos, a Beatriz de 18 anos, e o pachorrento mas amoroso menino de 10 anos. António e Madalena tinham-se casado muito novos, pois já carregavam o peso de ser pais. Naquele tempo, os pais de Madalena, uma família do interior muito conservadora obrigaram-na a fazer um aborto, pois consideravam um insulto às leis da boa família uma gravidez fora do casamento. Mas nessa mesma madrugada os dois fugiram e mudaram-se para Lisboa, onde mais tarde realizaram o seu casamento e o baptizado da recém-nascida. Desde então, nunca mais falaram com os pais de Madalena. A família Meirelles foi crescendo. António arranjou um emprego numa fábrica têxtil, Madalena formou-se em História, pois desde pequena adorava desvendar todos os segredos das duras e fatais batalhas, e a menina tornara-se a mais inteligente da turma. Passados oito anos nasce um menino, o Nuno, com 4,5kg e apenas com 43cm, o que mostrava já a sua tendência de absorver tudo o estava por perto.
Mas nesse Domingo, Madalena sentira-se só. Sentia a falta da sua menina, e esta ausência trouxera-lhe à memória aquela madrugada, a carta que deixara a seus pais mergulhada em lágrimas de mágoa, e o seu desespero em querer salvar Beatriz. Nada, naquele momento, lhe parecera mais certo e agora também não, mas queria abraçar, sentir o calor da sua mãe, a mão áspera do seu pai, acariciando suas faces. Mas logo, por entre a porta encostada, olhara Nuno e António e via que não podia pedir mais. Só que na vida dos Meirelles tudo ia mudar.




Capítulo II

O Domingo passou. António regressou ao trabalho. Madalena saberia hoje em que escola ia ser colocada. E o menino, bem, esse ainda continuava bem acomodado por entre os lençóis, pois só tinha aulas de tarde.
À noite, ao jantar, Madalena e o seu marido remexiam na comida, só Nuno a devorava sem pestanejar. Sua mãe engoliu a comida em seco, e virando para a sua família disse-lhes:
- Então como correu o vosso dia?
Nuno fixou os olhos no garfo e disse que tinha sido um dia como todos os outros, apenas havia uma diferença, tinha de aturar novos professores.
- E então não gostaste da tua nova escola? Já estás crescido filho. E do 1ºciclo para o 2º é uma grande diferença. E a tua directora de turma é simpática? Já tens novos amigos?
O menino, que então comia, virou-se para mãe e disse:
- Não são perguntas a mais? Sim, gostei da escola, da professora, e quanto aos amigos… bem não posso estar distraído nas aulas, não é. Agora posso comer?
-Sim, podes claro. Só te faço estas perguntas porque me preocupo contigo - Madalena fez um pausa e continuou – Tenho uma coisa para vos dizer, já sei onde fiquei colocada, mas não sei se vos agradará. Fui colocada no interior do país, mais certamente, em Portalegre.
António franziu a sobrancelha e levantando a cabeça que até aí estivera enfiada no prato perguntou:
- Mas isso não é…? O destino às vezes é cruel. Vais aceitar?
- Tenho que aceitar. É preciso colocar dinheiro nesta casa. Temos uma filha a estudar no estrangeiro que precisa de nós para ter um futuro melhor. Portalegre não é assim tão longe, posso ir e vir todos os dias. Só tenho que ir mais cedo e chego a casa um pouco mais tarde. O mundo é muito pequeno e Portugal mais ainda. É preciso ajudarmo-nos uns aos outros.
O silêncio reinou pela casa. E os Meirelles, nesse dia, não trocaram mais uma frase. Durante a noite, António não pregara olho. Tinha uma coisa que não contara à sua família, e prometera que no dia seguinte o faria.
Só que passou um dia, e mais outros. E António sentira que não poderia esconder mais, estava na altura de contar. Chamou a família à sala e pediu para que se sentassem, pois tinha algo importante para lhes dizer. Inspirou e expirou e lá teve a coragem e disse-lhes:
- Não sei por onde começar. E não queria que me interrompessem, pois durante estes dias pensei mil e umas maneiras de vos contar. Segunda-feira, quando cheguei ao trabalho, os portões estavam fechados a cadeado, e apenas se encontrara uma cruel e gélida carta assinada pelo patrão que dizia que a fábrica, devido a falta de encomendas e às dívidas que tinha acumulado durante anos, tinha que encerrar, deixando 250 trabalhadores no desemprego. Peço-vos desculpa por só vos dizer agora, só que toda aquela emboscada que nos preparam, aquela falta de carácter perante os responsáveis tomou o meu corpo e a minha alma.
Madalena olhou fixamente para o seu marido e dissera-lhe:
- Eu já sabia. Uma fábrica daquele prestigio quando se afunda é normal que tudo venha a tona. E todos aqueles dias que saías fingindo que ias trabalhar eu sabia, que ias dar uma volta junto ao mar, pois só isso te acalma. Mas agora não há nada a fazer. Não podemos esperar pelo fundo de desemprego. Normalmente, tem de se esperar pelo menos um mês para se receber, e depois só receberás o salário mínimo. Vamos ter que apertar o “cinto”.
- Ainda por cima agora, com os juros sempre a subir. Como faremos para pagar a casa, o carro, as contas, e as escolas?
- Teremos de comprar só o básico até tu conseguires arranjar um novo emprego. E eu, para o meu emprego, terei de ir de transportes públicos, por causa dos preços dos combustíveis.
Tudo parecia remediado, pelo menos, esclarecido estava. Eram já dez horas. Madalena acabara de falar com a filha e contara-lhe as tristes notícias, fazendo Beatriz prometer à mãe que ia conter-se nas despesas. Todos se encontravam já na cama.
Nuno era o único que ainda permanecera acordado, ficava olhando o tecto vezes e vezes sem conta, matutando na sua pequenita cabeça, o que ouvira seus pais dizer.
- Apertar o “cinto”? Será que vou ter que sair da escola? Que fixe. Ainda bem que o papá ficou sem emprego. Mas por outro lado, os meus docinhos fazem-me falta, e eu já nem consigo viver sem eles.
Toda esta conversa tinha afligido Nuno. Sabia como o papá e a mamã estavam preocupados. Mas a ideia que lhe viera à cabeça de que não iria mais para a escola deixava-o animado. Não que não gostasse das aulas, e dos professores, apenas não gostava dos seus colegas. Desde pequeno Nuno foi gordinho e, por isso, foi ganhando alcunhas e mais alcunhas que descreviam a sua barriguinha saída, as suas coxas enchidas, e a sua face rechonchuda. Nuno não escondia a sua vontade enorme de comer, nem fazia dietas. O que ele mesmo gostava era chegar a casa, rodear-se de chocolates, gomas, bolos, leites chocolatados, e outras coisas recheadas de cacau e cobertas de calorias, diante da sua estimada playstation. Às vezes, ia para a sala e sentava-se no sofá assistindo filmes, desenhos animados, mas mal a sua mãe chegava, escondia a comida debaixo do sofá, ficando lá dias a fio. E por tanto pensar em doces, Nuno acabara por adormecer.



Capítulo III

Passaram-se três anos. A família Meirelles foi sobrevivendo às subidas dos preços, à distancia, à gula do filho, e à falta de tempo para António e Madalena estarem juntos. Há um ano atrás, quase se separaram. Esta vida desordenada e sem rumo trouxera-lhes discussões dias após dias, chegando mesmo Madalena a passar uns dias fora. Mas logo se arrependera e voltara para casa. Nuno cresceu, para o lado, a falta de atenção dos pais fez com que se refugiasse mais nos doces e de dia para dia a sua “dieta” foi aumentando. Agora pesa cento e vinte quilos e, por isso, encontra-se num plano específico para emagrecer, caso contrário passará os seus próximos anos agarrado a uma lista de espera para conseguir colocar uma banda gástrica. Beatriz arranjou trabalho por Espanha, para conseguir ajudar os pais com as despesas, mas quando seu pai arranjou trabalho logo se despediu. António trabalha agora noutra empresa têxtil como encarregado. Este trabalho trouxera-lhe uma nova felicidade a si e à sua família.


Fim
Cátia Sofia Carvalho Ferreira, nº 6, 11ºB

Um mundo ao contrário?


Num país às avessas, onde supostamente devia existir igualdade social, deparamo-nos constantemente com casos tais como a “discriminação económica”.
Assim, deparamo-nos com a dicotomia Pobre/Rico que, em tantas circunstâncias, limita o nosso viver social.
O ensino em Portugal reflecte bem esta dicotomia já que, como costumamos dizer, “os filhinhos dos papás”, ou seja, filhos cujos pais têm mais posses, entram em Colégios Privados cujo ensino é (obviamente) muito mais concentrado neles. Desta forma, na maior parte das vezes, estes alunos beneficiam deste género de “condições especiais” e conseguem melhores resultados, com a consequente entrada no “curso dos seus sonhos”. E quem é que fica de fora? O Pobre, claro.
A Saúde... bem, penso que chegou a altura de soltar uma grande gargalhada! Começando pela Medicina Dentária que não existe a nível público, por enquanto (um por enquanto que dura, dura e dura), passando pelas especialidades mais caras e terminando nas (intermináveis) filas de espera! Pois bem, o rico paga, o pobre sofre! Quem tem dinheiro suporta as despesas, quem não o tem, suporta as doenças!
Assim sendo, penso que deixei bem explícito o meu ponto de vista face a esta sociedade de extremos, onde só vive quem tem dinheiro, pois quem não o tem apenas sobrevive.
Os tempos estão a mudar, em muitos sentidos para pior. As pessoas tornam-se frias e insensíveis face aos problemas dos outros e “só olham para o seu umbigo”. Temos que nos revoltar face a todas estas diferenças e, principalmente, face à nossa indiferença perante os outros.
Um mundo ao contrário? Sim e, infelizmente, cada vez mais.


Filipa, 11ºB

Sábios enSaios Sobre Singelos Semblantes


“Aos Belos o Mundo pertence”, frase incontestável, mais ainda nos tempos que correm do que quando foi dita pela primeira vez, por qualquer Wilde ou Victor Hugo, apesar de não estar a citar directamente… apesar desta certeza à qual me cheira que me garante que já alguém de exacerbado génio, em algum momento da História, o tenha dito.

Enfim, isto para dizer o quê?

É ainda o belo, e não o intelecto, [como deveria ser, se não por qualquer outra razão, para dignificar os pobres humanóides que morreram para se tornarem nos degraus, que prontamente calcamos tendo em vista a evolução], o “supremo-tribunal” que dita a sina de uma pessoa quando esta procura estatuto social, emprego ou uma abébia por parte de um qualquer (digno e incorruptível, não haja dúvida) agente de segurança pública, pois, afinal de contas, quem entre nós não se embrandece com a clemente exposição de um qualquer imaculado seio a estes solarengos ares? Enfim, pormenores, pouco interessam… Em grande parte pelo pouco de raros que ainda são…

Mas, curiosamente, esta pequena dissertação nada tem a ver com o cerne do meu trabalho, bem, talvez um pouco, deixo-vos a tarefa de descobrirem até que ponto o que antecede este frase vem ao encontro do que se lhe seguirá.

Tenho vindo a reparar num fenómeno, quase tão interessante como degradante, no qual assenta a génese de pequenas “tribos” urbanas, que, quer pela música que ouvem, ou tocam, quer pela roupa que usam, quer pelos aparatos de circo com os quais brincam, e até mesmo pelas drogas que consomem, se tentam separar a todo o custo do “todo” da sociedade, que até a estes, bem, inocentes, parece cinzento…

Mas qual o resultado disto?, bem, aos meus olhos, e aos olhos dos que conheço cujo comportamento e gostos se pautam de uma certa constância e imperturbabilidade face [termo que eu tanto odeio, mas me vejo obrigado a usar por falta de alternativa melhor] às “modas”, o fruto desta constante procura por uma posição mais perto do arco-íris leva a uma tal volubilidade ou versatilidade que se torna bastante difícil reconhecer o mesmo sujeito em espaços de tempo tão curtos como um mês, e, face às múltiplas e rudes mutações, torna-se mesmo difícil, pelo menos para mim, acreditar que o cepo humano se queda o mesmo, inviolado nas superfícies guturais onde a opinião externa não pertence.

Um órgão preponderante desta besta à qual previamente chamei “fenómeno”, é a ideia que [e não faço ideia de onde isto nasceu, pelo disparatado que me parece] a adopção de coisas frívolas {quando comparadas com a alma humana} [e nos meios aos quais me refiro, não pretendo insultar todos cujos desígnios coincidam, aparentemente, com o que critico, digo desde já que algumas das escolhas são em mim verificáveis, mas foram plantadas muito antes do Tribal Boom (perdoem-me a expressão, mas julgo que se entende facilmente)] como uma série de piercings, tatuagens, calças à Batatinha, ou um certo estilo de música (tema que vou desenvolver no meu próximo e talvez penúltimo parágrafo) possam dar uma importância ou estatuto social a alguém cuja própria natureza, por mesquinhas que sejam as mentes, é à partida um ser muito mais importante que qualquer acessório. E já que disto falo, deparei-me há já alguns meses com o aparecimento de umas “Elites Culturais”, com suas próprias línguas e vestimentas e que, salvo a possibilidade de se reunirem em seus quintais para discutir algo que nos ultrapasse, escolheram mal o nome... mas enfim, não me parece tema que mereça ser desenvolvido, recuso-me a desperdiçar as, para mim, sagradas letras, estando já estas em perigo por qualquer Acordo acordado (passo o pleonasmo) entre uns desgraçados que não distinguem um Nepalês de um Somali se nenhum deles tiver passaporte.

Música, talvez a arte mais fustigada pela desenfreada procura de, bem, várias coisas, algo entre aceitação e respeito, passando pela procura das raras “Grupies” genéticas que só querem algum machito que outras, e outros, desejem. Isso e ocupar um lugar privilegiado nas hierarquias que se resumem a um grupo de amigos que inclui músicos “domingueiros” que reivindicam audiências quando o seu propósito é algo inferior à criação artística. Perdoam-me, seguramente, as constantes repetições de vocabulário mas, no que diz respeito à música, a tal volubilidade ou versatilidade pelas quais se torna bastante difícil reconhecer o mesmo sujeito em espaços de tempo tão curtos como um mês, é ainda maior quando se atenta à música que se ouve, e com as alterações nos gostos (apesar destas mudanças nada terem a ver com gosto) musicais. Há roupas e acessórios de todo vitais, (como se o órgão receptor das ondas de som provindas de uma qualquer escarpada melodia dos Celtic Frost fossem as biqueiras de aço), que revertem prontamente para a diluição da pessoa por entre as escolhas que a solidão, na grande maioria dos casos, impõe como cura dos males de um espírito fraco e lamacento, que já nada de honroso tem para lá do legado que assenta nos seus ombros, já do fardo esquecidos…

Enfim, restam-me poucas palavras para adicionar a este Sábio enSaio, sendo que o único fruto que dele espero são duas reflexões e uma pequena, mas muito necessitada, catarse, porque devido aos inúmeros pedidos de todos, professora, algumas das ideias não serão de propagação oral e directa, como talvez devessem, não para saciar a minha malvadez, mas para tentar regar e resguardar alguns cepos que se tornaram do domínio público.

P.s.

Peço perdão pelos inúmeros parêntesis, mas vejo-me forçado a eles, dada a articulação do meu discurso interno.

Ala que se faz Deserto!


O
português levantou-se da cama, benzeu-se, encheu as calças com as pernas e vociferando contra as calças e contra as pernas, cambaleou até à varanda do prédio. Pintadas de azul pálido, as paredes assistiam sonolentas aos tenros passos lusitanos que pisavam os últimos bocejos de ramela matinal.
O português abriu a janela de vidro e logo uns raios de brisa lhe espanejaram os restos de poeira nocturna que dormiam ainda no seu rosto. Descalço, olhou a fria tijoleira disposta em mosaico e titubeou ao senti-la com os pés (era pouco prudente, podia apanhar uma constipação). Mas uma vez não são vezes…então, apoiou as mãos sobre as grades para admirar, com firmeza, o horizonte.
Depois, inspirou visceralmente até as veias se dilatarem, e num ímpeto de coração bondoso verbalizou a sua cólera:
- A culpa é do Governo!
O Sol bonacheirão espreitava por entre as nuvens, espalhando o seu festim sob grinaldas d’oiro. Ao longe, afagado no manto verde de colinas frescas, debuxava-se um camelo gigante. Entre as suas louras bossas, suportava o peso da República vestida de escarlate, com uma negra trança esguedelhada e democrática a roçar-lhe o alvo pescoço.
- Isto só neste país…sugam-nos até aos ossos. É tudo por causa do Sistema!
Tolhido, nesse ulular de sociedade em palavras soltas, o camelo da República gemia, rodopiava agoniado, cuspindo uma espiral de baba patriótica que pintava títulos em jornais.
“Portugal e Suécia devem aproximar-se”
“Procurador exige novas medidas do Governo contra a corrupção”


…o português adormecido, com voz e visão trémula, discursava:
- Cada um tem a sua cruz, não é verdade? É nossa obrigação aguentá-la. Fala-se demasiado da boca para fora, é o que é...com a barriga cheia, mas há quem esteja bem pior. Não se pode fazer nada, a vida é difícil.
Por instantes, o pensamento (do) português entregou-se ao silêncio, quando, por becos devotos e devassos, se ouviu o rastejar dum perfil amargo. Era Regina que, encostada ao umbral da porta, se edificava sacramente com a composição duma intriga romanesca lá do bairro. A malvadez enegrecia-lhe as roupas, secava-lhe as peles:

- Deve querer muito apanhar uma gripe homem, p’ra estar aí de pés nus.
- Ora muito bom dia Dona Regina!
O português achou-se simpático, mas a ditosa noveleira virara costas sem responder e presa no gancho de maledicência que lhe puxava os cabelos grisalhos, seguiu a sua procissão de murmúrios e orações.
"Nove peregrinos atropelados em Santa Maria da Feira"
“São já 17 as mulheres mortas vítimas de violência doméstica”

“Cristiano Ronaldo brilha no casamento da irmã”


Subitamente, o camelo decide descer as colinas até à cidade para ver, de perto, os óculos da Ana que passavam na rua. Uma armação exagerada rodeava as lentes de vidro, que espelhavam várias tonalidades de castanho, sobrepostas segundo um grau sequencial de desvanecimento. Lindos. Tutchis. Passeavam-se sumptuosos, pintando a Ana num ornamento viscoso de gloss. Interrompida a sua política de urinol, o português (enquanto olhava) repetiu para si próprio aquela máxima que em poucas palavras encerra um princípio de grande alcance:
- Ei gaja boa!

Os pardais chilreavam um rasto de ninho nos beirais dos telhados e as nuvens, essas, vertendo no céu o azul da sua dança, figuravam navios e heróis saudosos, com as suas formas cinzeladas.
Embaída pelas nuvens, a República não tardou em erguer os seus olhos de azeitona, lançando-os, acidentalmente, à varanda do prédio. O português reconheceu-lhe a trança e numa agitação adolescente, com a sua torrada na mão, cavalgou as escadas, correndo a abraçá-la. Beijou-lhe as facezinhas coradas, afagou-lhe o cabelo, deitando as suas ideias cansadas naquele ombro feminino e consolador. O camelo assistia ruminando um panfleto de publicidade amarelo. Ela envolveu-o com os braços, acariciando-lhe o pescoço, e apertou-o…apertou-o com a força de asfixia, cravando-lhe as unhas na pele, até que o português tombou no chão desmaiado.
Lá ficou, sucessivamente …com a torrada na mão e o papel no bolso das calças, onde anotara as coisas que
tinha de se lembrar e as coisas de que não se podia esquecer.






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