
“Aos Belos o Mundo pertence”, frase incontestável, mais ainda nos tempos que correm do que quando foi dita pela primeira vez, por qualquer Wilde ou Victor Hugo, apesar de não estar a citar directamente… apesar desta certeza à qual me cheira que me garante que já alguém de exacerbado génio, em algum momento da História, o tenha dito.
Enfim, isto para dizer o quê?
É ainda o belo, e não o intelecto, [como deveria ser, se não por qualquer outra razão, para dignificar os pobres humanóides que morreram para se tornarem nos degraus, que prontamente calcamos tendo em vista a evolução], o “supremo-tribunal” que dita a sina de uma pessoa quando esta procura estatuto social, emprego ou uma abébia por parte de um qualquer (digno e incorruptível, não haja dúvida) agente de segurança pública, pois, afinal de contas, quem entre nós não se embrandece com a clemente exposição de um qualquer imaculado seio a estes solarengos ares? Enfim, pormenores, pouco interessam… Em grande parte pelo pouco de raros que ainda são…
Mas, curiosamente, esta pequena dissertação nada tem a ver com o cerne do meu trabalho, bem, talvez um pouco, deixo-vos a tarefa de descobrirem até que ponto o que antecede este frase vem ao encontro do que se lhe seguirá.
Tenho vindo a reparar num fenómeno, quase tão interessante como degradante, no qual assenta a génese de pequenas “tribos” urbanas, que, quer pela música que ouvem, ou tocam, quer pela roupa que usam, quer pelos aparatos de circo com os quais brincam, e até mesmo pelas drogas que consomem, se tentam separar a todo o custo do “todo” da sociedade, que até a estes, bem, inocentes, parece cinzento…
Mas qual o resultado disto?, bem, aos meus olhos, e aos olhos dos que conheço cujo comportamento e gostos se pautam de uma certa constância e imperturbabilidade face [termo que eu tanto odeio, mas me vejo obrigado a usar por falta de alternativa melhor] às “modas”, o fruto desta constante procura por uma posição mais perto do arco-íris leva a uma tal volubilidade ou versatilidade que se torna bastante difícil reconhecer o mesmo sujeito em espaços de tempo tão curtos como um mês, e, face às múltiplas e rudes mutações, torna-se mesmo difícil, pelo menos para mim, acreditar que o cepo humano se queda o mesmo, inviolado nas superfícies guturais onde a opinião externa não pertence.
Um órgão preponderante desta besta à qual previamente chamei “fenómeno”, é a ideia que [e não faço ideia de onde isto nasceu, pelo disparatado que me parece] a adopção de coisas frívolas {quando comparadas com a alma humana} [e nos meios aos quais me refiro, não pretendo insultar todos cujos desígnios coincidam, aparentemente, com o que critico, digo desde já que algumas das escolhas são em mim verificáveis, mas foram plantadas muito antes do Tribal Boom (perdoem-me a expressão, mas julgo que se entende facilmente)] como uma série de piercings, tatuagens, calças à Batatinha, ou um certo estilo de música (tema que vou desenvolver no meu próximo e talvez penúltimo parágrafo) possam dar uma importância ou estatuto social a alguém cuja própria natureza, por mesquinhas que sejam as mentes, é à partida um ser muito mais importante que qualquer acessório. E já que disto falo, deparei-me há já alguns meses com o aparecimento de umas “Elites Culturais”, com suas próprias línguas e vestimentas e que, salvo a possibilidade de se reunirem em seus quintais para discutir algo que nos ultrapasse, escolheram mal o nome... mas enfim, não me parece tema que mereça ser desenvolvido, recuso-me a desperdiçar as, para mim, sagradas letras, estando já estas em perigo por qualquer Acordo acordado (passo o pleonasmo) entre uns desgraçados que não distinguem um Nepalês de um Somali se nenhum deles tiver passaporte.
Música, talvez a arte mais fustigada pela desenfreada procura de, bem, várias coisas, algo entre aceitação e respeito, passando pela procura das raras “Grupies” genéticas que só querem algum machito que outras, e outros, desejem. Isso e ocupar um lugar privilegiado nas hierarquias que se resumem a um grupo de amigos que inclui músicos “domingueiros” que reivindicam audiências quando o seu propósito é algo inferior à criação artística. Perdoam-me, seguramente, as constantes repetições de vocabulário mas, no que diz respeito à música, a tal volubilidade ou versatilidade pelas quais se torna bastante difícil reconhecer o mesmo sujeito em espaços de tempo tão curtos como um mês, é ainda maior quando se atenta à música que se ouve, e com as alterações nos gostos (apesar destas mudanças nada terem a ver com gosto) musicais. Há roupas e acessórios de todo vitais, (como se o órgão receptor das ondas de som provindas de uma qualquer escarpada melodia dos Celtic Frost fossem as biqueiras de aço), que revertem prontamente para a diluição da pessoa por entre as escolhas que a solidão, na grande maioria dos casos, impõe como cura dos males de um espírito fraco e lamacento, que já nada de honroso tem para lá do legado que assenta nos seus ombros, já do fardo esquecidos…
Enfim, restam-me poucas palavras para adicionar a este Sábio enSaio, sendo que o único fruto que dele espero são duas reflexões e uma pequena, mas muito necessitada, catarse, porque devido aos inúmeros pedidos de todos, professora, algumas das ideias não serão de propagação oral e directa, como talvez devessem, não para saciar a minha malvadez, mas para tentar regar e resguardar alguns cepos que se tornaram do domínio público.
P.s.
Peço perdão pelos inúmeros parêntesis, mas vejo-me forçado a eles, dada a articulação do meu discurso interno.