quarta-feira, 27 de junho de 2007

Os versos que te fiz - Florbela Espanca


Deixa dizer-te os lindos versos raros

Que a minha boca tem para te dizer!

São talhados em mármore de Paros

Cinzelados por mim pra te oferecer.


Têm dolência de veludos caros,

São como sedas pálidas a arder...

Deixa dizer-te os lindos versos raros

Que foram feitos pra te endoidecer!


Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda...

Que a boca da mulher é sempre linda

Se dentro guarda um verso que não diz!


Amo-te tanto! E nunca te beijei...

E nesse beijo, Amor, que eu te não dei

Guardo os versos mais lindos que te fiz!



Depois de ler tantos outros poemas, acabei por escolher postar “Os versos que te fiz” de Florbela Espanca. Primeiro porque gosto muito das obras da poetisa e depois porque achei este poema marcante face ao tema, o amor.
Florbela aborda muito a ideia de uns “lindos versos” que há para proferir ao seu amado. A maneira tão esperançosa e delicada em que ela descreve os versos oriundos da sua mente, referenciando a transparência destes ou até mesmo o objectivo de endoidecer o receptor, torna-se quase enternecedora.
Mas para mim, a parte que colmata mesmo este amor secreto, é a revelação da poetisa! Aquele amor existia, mas ao que tudo no poema indica, não era recíproco (pelo menos era ainda confidencial). Mas nem esse facto fez com que a esperança desaparecesse. E com esta revelação surge ainda uma promessa. A promessa de um beijo, no qual estão contidos esses “lindos versos”.
Quem sabe se depois desse beijo os “lindos versos” obtiveram uma “linda resposta”! Acho que a poetisa merecia, depois de se dedicar tanto a este amor!
=)
Sara Vila-Chã 10ºC nº22

Exílio


Quando a pátria que temos não a temos

Perdida por silêncio e por renúncia

Até a voz do mar se torna exílio

E a luz que nos rodeia é como grades


Sophia de Mello Andresen


Deste pequeno poema é possível tirar várias conclusões sobre a noção de liberdade. Para mim a liberdade e só a "coisa mais importante do mundo e daí a minha escolha ter recaído sobre este poema.
A liberdade ganha-se, mas também se perde com facilidade. Eu quero com isto dizer que, para sermos livres, não basta apenas conquistá-la, mas também saber mantê-la.
Na minha opnião, este poema demonstra essa perda e conquista da liberdade.
Quando um individuo, habituado a ter liberdade, de repente a perde, abate-se sobre ele a sensação que até o mais banal lugar lhe parece um paraiso e um local de refúgio do mundo.

Rafael Ferreira Nº12 10ºG

Poemas de Sophia...




ESTE É O TEMPO

Este é o tempo
Da selva mais obscura

Até o ar azul se tornou grades
E a luz do sol se tornou impura

Esta é a noite
Densa de chacais
Pesada de amargura

Este é o tempo em que os homens renunciam




25 DE ABRIL

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo







Escolhi estes dois poemas de Sophia de Mello Breyner Andresen porque, apesar de pequenos, dizem tudo e demonstram bem a diferença existente entre o tempo de ditadura e o tempo de liberdade. Na realidade, a ditadura está bem expressa em palavras como “selva obscura” em que o “ar azul se tornou grades”. As injustiças de um regime ditatorial estão presentes na “impura” luz do sol e na “noite” que é “densa de chacais”. Todas estas palavras têm uma conotação negativa, associada à angústia, à “amargura” e à renúncia dos homens.
Pelo contrário, o outro poema é todo ele um hino à liberdade. Em vez de noite temos a “madrugada”, um dia inteiro “inicial” e “limpo”, um começo em que tudo é possível, em que a inocência está presente e afastou a noite e toda a carga negativa a ela associada.






Rui Bonifácio, 10ºC

Ser poeta...


Ser poeta é ser mais alto,é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Áquem e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

Florbela Espanca


Florbela Espanca (Vila Viçosa, 8 de Dezembro de 1894 — Matosinhos, 8 deDezembro de 1930), baptizada com o nome Flor Bela de Alma da Conceição, foi uma poetisa portuguesa. (Eu) Escolhi este poema por ser um poema que me marcou.“E é amar-te, assim, perdidamente.../ É seres alma, e sangue, e vida em mim / E dizê-lo cantando a toda a gente!”... Este terceto transmite uma “coisa” muito forte, transmite um ardente Amor, é por isso que Florbela tem o dom de transmitir este sentimento (Amor) de uma maneira muito forte.


Emília Oliveira Nº11 10ºB

Viver sempre também cansa

Viver sempre também cansa.
O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinzento, negro, quase-verde...
Mas nunca tem a cor inesperada.

O mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.


As paisagens não se transformam.
Não cai neve vermelha,
Não há flores que voem,
A lua não tem olhos
E ninguém vai pintar olhos à lua.


Tudo é igual, mecânico e exacto.


Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem riem e digerem
sem imaginação.



E há bairros miseráveis sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
automóveis de corrida...


E obrigam-me a viver até à Morte!



Pois não era mais humano
Morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois,
achando tudo mais novo?



Ah! Se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima dum divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte.



Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
”Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela.”

E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
A Morte ainda menina no meu colo...


José Gomes Ferreira, Poeta Militante


Apesar de já ter sido estudado durante as nossas aulas, resolvi escolher este poema, uma vez que estou de acordo com aquilo que nos é transmitido através deste.
A meu ver, detalha as nossas vidas de uma forma diferente e espantosa. De facto, é bem verdade que chega a uma certa altura das nossas vidas e já sentimos que os nossos sonhos e objectivos estão praticamente atingidos e concretizados. Eu, como adolescente que sou, gosto de novas aventuras, de curiosidades, de novas experiências e “aflige-me” que um dia tudo isto possa desaparecer! É frustrante, mas a vida é mesmo assim!
Um outro ponto que também é abordado no poema é o facto do aspecto da Natureza não se alterar. Como é referido, o céu é sempre azul, chegando a atingir cores mais escuras, o sol também é sempre igual. Seria bom, de vez em quando, podermos alterar um pouco o aspecto das coisas. Desta forma, nada seria tão monótono.
Na minha opinião, o amor é o único sentimento capaz de nos trazer outras sensações. Eu acho que este sentimento tem o seu toque “especial”, na medida em que nos podemos tornar pessoas diferentes, encarando a vida de outra forma. Daí as coisas tomarem outro rumo.
Pois bem, espero que tenham ficado esclarecidos com a minha justificação. E José Gomes, adoro a tua maneira de interpretar a realidade!


Joana Cordeiro, 10ºA

Fanatismo

Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão de meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!


Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!


"Tudo no mundo é frágil, tudo passa..."
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!


E, olhos postos em ti, vivo de rastos:
"Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!..."

Florbela Espanca


A escolha este poema deve-se, essencialmente, à minha “paixão” pela autora.
Como sou adepta do estilo romântico, sinto-me identificada com o poema. Creio que é uma das mais belas declarações de amor: pelas palavras, pela sonoridade, pela estrutura (o soneto- próprio do estilo Romântico), pelo conteúdo…
Indirectamente, através do poema, considero que o amor não é eterno, mas que cada vez que amamos este nos parece eterno. Algo que se identifica com a citação se Oscar Wilde: “ Toda vez que a gente ama é a única vez que a gente amou”.
O poema faz com que pense que, quando amamos, temos de descobrir o outro, pois todos nós temos um “misterioso livro” a desvendar.
Fica mais uma vez aprovado que, quando amamos, ficamos enlouquecidos.


Inês Fernandes 10ºG

A morte absoluta

Morrer.
Morrer de corpo e de alma.
Completamente.


Morrer sem deixar o triste despojo da carne,
A exangue máscara de cera,
Cercada de flores,
Que apodrecerão – felizes! – num dia,
Banhada de lágrimas
Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.


Morrer sem deixar porventura uma alma errante...
A caminho do céu?
Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?


Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,
A lembrança de uma sombra
Em nenhum coração, em nenhum pensamento,
Em nenhuma epiderme.


Morrer tão completamente
Que um dia ao lerem o teu nome num papel
Perguntem: "Quem foi?..."


Morrer mais completamente ainda,
– Sem deixar sequer esse nome.


Manuel Bandeira


Optei por este poema porque a temática do mesmo despertou o meu interesse.
O sujeito poético demonstra uma enorme sensibilidade perante a morte, desmistificando-a e retirando-lhe a sua carga negativa. A morte, aqui, desprende-se totalmente da sua complexidade, no carácter físico e emocional, é também abordada de uma forma prática, e resolvendo as suas questões, que seriam, certamente, motivo de mágoa e que possuem grande carga emocional junto dos demais.
Foi esta magnífica forma de apresentação que fez com que o poema me tocasse e que me levou a apresentá-lo aqui diante de vocês.



Eva Castanheira 10ºG

"Quase"




Ainda pior que a convicção do não, a incerteza do talvez é
a desilusão de um "quase".
É o quase que me incomoda, que me entristece, que
me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi.


Quem quase ganhou ainda joga,
quem quase passou ainda estuda,
quem quase morreu está vivo,
quem quase amou não amou.


Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos,
nas chances que se perdem por medo,
nas ideias que nunca sairão do papel
por essa maldita mania de viver no Outono.


Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna;
ou melhor, não me pergunto, contesto.
A resposta eu sei de cor,
está estampada na distância e frieza dos sorrisos,
na frouxidão dos abraços,
na indiferença dos "bom dia", quase que sussurrados.
Sobra cobardia e falta coragem até pra ser feliz.


A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai.
Talvez esses fossem bons motivos para decidir
entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são.
Se a virtude estivesse mesmo no meio-termo,
o mar não teria ondas, os dias seriam nublados
e o arco-íris em tons de cinza.
O nada não ilumina, não inspira, não aflige, nem acalma,
apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si.


Não é que fé mova montanhas,
nem que todas as estrelas estejam ao alcance,
para as coisas que não podem ser mudadas
resta-nos somente paciência,
porém, preferir a derrota prévia à dúvida da vitória
é desperdiçar a oportunidade de merecer.


Prós erros há perdão; prós fracassos, chance;
prós amores impossíveis, tempo.
De nada adianta cercar um coração vazio
ou economizar alma.
Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance.
Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode,
que o medo impeça de tentar.

Desconfie do destino e acredite em você.
Gaste mais horas realizando que sonhando,
fazendo que planejando, vivendo que esperando
porque, embora quem quase morre esteja vivo,
quem quase vive já morreu!!

Luís Fernando Veríssimo


Comentário

Escolhi este poema, porque concordo bastante com o poeta. Acho que as pessoas têm medo de arriscar na vida, daí o “quase” e a mensagem que tiro deste poema é mesmo essa: as pessoas deviam aproveitar mais a vida e tirar aqueles “fantasmas” que as impedem de viver. Não sei bem explicar porque razão gosto deste poema, mas acho que todos aqueles que o lerem vão tirar a mesma mensagem e tentar deixar de “quase” fazer e começar a agir mais.
(O poeta é brasileiro, como se pode verificar em algumas palavras apresentadas no poema).



Daniela Esteves, 10ºC

Amor é fogo...





Amor é fogo que arde sem se ver;

É ferida que dói e não se sente;

É um contentamento descontente;

É dor que desatina sem doer;



É um não querer mais que bem querer;

É solitário andar por entre a gente;

É nunca contentar-se de contente;

É cuidar que se ganha em se perder;




É querer estar preso por vontade;

É servir a quem vence, o vencedor;

É ter com quem nos mata lealdade.



Mas como causar pode seu favor

Nos corações humanos amizade,

Se tão contrário a si é o mesmo Amor?





Luís de Camões






(Eu) Escolhi este poema porque, para além de me tocar muito, de me dizer muito, é um poema único para mim. Este poema é uma das maiores maravilhas de Portugal, é uma obra que deve ser muito bem preservada, porque não há muitas tão boas como esta, pelo menos neste campo, a poesia. Também tenho uma grande admiração por este poeta, para mim, é o melhor poeta do nosso país.
Este poema fala-nos de uma coisa que é muito difícil de explicar e, com este poema, podemos ficar a perceber um bocadinho melhor o amor. Este poema tem uma linguagem muito própria, uma linguagem única, que deve ser apreciada e preservada por muitos e muitos anos.







Tiago Luso, 10ºC

terça-feira, 26 de junho de 2007

A Guerra



A guerra que aflige com os seus esquadrões o Mundo,
É o tipo perfeito do erro da filosofia.

A guerra, como todo humano, quer alterar.
Mas a guerra, mais do que tudo, quer alterar e alterar muito
E alterar depressa.

Mas a guerra inflige a morte.
E a morte é o desprezo do Universo por nós.
Tendo por consequência a morte, a guerra prova que é falsa.
Sendo falsa, prova que é falso todo o querer alterar.

Deixemos o universo exterior e os outros homens onde a Natureza
os pôs.

Tudo é orgulho e inconsciência.
Tudo é querer mexer-se, fazer cousas, deixar rasto.
Para o coração e o comandante dos esquadrões
Regressa aos bocados o universo exterior.

A química directa da Natureza
Não deixa lugar vago para o pensamento.

A humanidade é uma revolta de escravos.
A humanidade é um governo usurpado pelo povo.
Existe porque usurpou, mas erra porque usurpar é não ter direito.

Deixai existir o mundo exterior e a humanidade natural!
Paz a todas as cousas pré-humanas, mesmo no homem!
Paz à essência inteiramente exterior do Universo!

de "Alberto Caeiro"

Eu selecionei este poema porque acho que Fernando Pessoa é um excelente escritor, e selecionei um poema de Alberto Caeiro, pois este é o meu heteronimo(autor que assina com um nome ficcionario) favorito.

Tiago Barbosa Nº25 Tª10B