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segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Será isto crível?



A miséria do meu ser,


Do ser que tenho a viver,


Tornou-se uma coisa vista.


Sou nesta vida um qualquer


Que roda fora da pista.


Ninguém conhece quem sou


Nem eu mesmo me conheço


E, se me conheço, esqueço,


Porque não vivo onde estou.


Rodo, e o meu rodar apresso.


É uma carreira invisível,


Salvo onde caio e sou visto,


Porque cair é sensível


Pelo ruído imprevisto...~


Sou assim. Mas isto é crível?



Fernando Pessoa

Não consigo deixar de achar curiosa a quantidade de gente com que me esbarro todos os dias, que aparenta uma felicidade considerável. Falam da vida como quem fala de um parque de diversões, tratam os problemas por tu e jogam às cartas com a felicidade. E mesmo quando reparam que a sorte pode não estar do seu lado e o jogo em risco, limitam-se a flutuar, como balões de mão em mão a ondular, de tão leves que são em si, os efeitos das suas preocupações. Dizem-se felizes, mostram-se felizes, acreditam-se felizes.
Eu a mim própria vou perguntando, qual a credibilidade de tal felicidade. A verdade é que não consigo acreditar em tal conto de fadas. Sei que já fui assim. Em tempos acreditei nessa utopia a quem chamam felicidade, porque no fundo o que todos queremos é viver no sonho da certeza de que não somos nem nunca seremos miseráveis. Projectamos um eu que buscamos toda a vida. Seguimos regras e princípios. Vivemos, conhecemos os outros e o mundo e tentamos a todo o custo que conheçam de nós o que queremos ou queríamos ser, e não a miséria que muitas vezes somos, em que muitas vezes nos tornamos. Moldamo-nos a esse projecto que na sua base seria perfeito, lutamos por ele e pela sua concretização (por vezes cegamente) e, no entanto, o que resulta é a constante e gradual degradação desse eu, agravada pela constatação do falhanço. Deixamos de saber quem somos, surgindo a dúvida de alguma vez o termos chegado a saber. E depois, a solidão que completa a sensação de sacrifício em vão, de vida desperdiçada. E tudo que ambicionamos parece resumir-se num eu estranho, desconhecido por nós próprios, pelos que nos rodeiam, desenquadrado do mundo, da vida, porque tudo o que alguma vez desejou ser ou conseguir caiu por terra, deixando apenas um rasto de gente, “um qualquer” que vai rodando “fora da pista”. Resta apenas o eu e os seus fantasmas, aqueles que acordam bem cedinho de manhã, depois de adormecidos pelo sonho, e que trabalham o dia inteiro, carpinteiros fiéis que martelam as tábuas que restam do móvel que por vazio e inútil, se encontra desfeito.
E depois o duro momento de acção. Chegam os outros e o eu entra em palco. Toda a miséria é mascarada de felicidade ou qualquer coisa que a lembre. E assim aparece gente feliz neste mundo, gente que quando o dia acaba e os outros saem de cena, é apenas a miséria reflectida no espelho e uma máscara de felicidade caída no chão. E cada dia um novo acto desta peça depressiva que vai compondo toda uma vida, até que a força falhe e a vontade esgote, e a máscara caia não apenas à noite, e pelo seu “ruído imprevisto” seja vista essa miséria de ser.
Assim tentei resumir tudo o que este poema me transmite. É este poderoso realismo negativo que me fez escolhê-lo. Talvez a comparação do poema com a realidade que nos rodeia acabe por parecer uma interpretação exageradamente depressiva da mesma, e talvez um transportar excessivo da realidade pessoal para a exterior, mas a verdade é que onde muitos vêem felicidade, eu acabei por aprender a ver outras coisas mais. E quanto mais vivo, quanto mais conheço, quanto mais vejo do mundo que me constitui e me rodeia, mais certeza tenho de que no fundo, todos sentimos o que Fernando Pessoa, quanto a mim, transmite neste poema. Todos nos sentimos miseráveis, uns mais outros menos, uns sempre outros em certas fases da vida, quer o admitamos ou não, quer o queiramos ou não. Há quem tolere esse sofrimento ou prefira fingir que ele não existe, há quem o torne numa “coisa vista”, criando patologias com desfechos mais ou menos drásticos… e depois há Pessoa, que o escreveu e me faz agora, pelo menos a mim, sentir menos só (embora não menos miserável).
E se Pessoa interroga, no final, se será “isto crível?”, eu pergunto se haverá alguém para quem isto não seja crível?... Espero que sim.

Catarina Gonçalves, 12º C


[texto por editar pela professora]

Quando Caeiro diz...


Se às vezes digo que as flores sorriem
E se eu disser que os rios cantam,
Não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores
E cantos no correr dos rios…
É porque assim faço mais sentir aos homens falsos
A existência verdadeiramente real das flores e dos rios.

Porque escrevo para eles me lerem sacrifico-me às vezes
À sua estupidez de sentidos…
Não concordo comigo mas absolvo-me
Porque só sou essa coisa séria, um intérprete da Natureza,
Porque há homens que não percebem a sua linguagem, por ela não ser linguagem nenhuma.


Alberto Caeiro


Ao princípio, tive dificuldades em escolher um poema de Fernando Pessoa ou de um dos seus heterónimos, mas por fim optei por escolher este poema de Alberto Caeiro pois, das poesias que estudamos na aula do Ortónimo e Alberto Caeiro, é com Caeiro que mais me identifico.
A maneira como ele descreve a Natureza na sua poesia, sem lhe dar segundas intenções, sem que entre a subjectividade, é uma coisa impressionante. E depois a linguagem simples que ele usa, mostra que ele não procura significados para as coisas que vê. Estas são algumas das razões que me levaram a escolher este poema. Um poema simples e que é muito caracterizador de Alberto Caeiro.
Os primeiros quatro versos revelam o olhar nítido do poeta, sem passar pelo “crivo” da razão, olhar esse, que para o poeta, é que é o olhar verdadeiro, aquele que é objectivo, aquele que não atribui significados, aquele que vê tudo ao natural:
“Uma flor acaso tem beleza?
Tem beleza acaso um fruto?
Não: têm cor e forma
E existência apenas.
Os 2 últimos versos da 1ª estrofe mostram-nos que o poeta rejeita o pensamento e valoriza as sensações, principalmente a visual. Quando fala dos homens falsos está a referir-se aos homens que privilegiam o pensamento, aqueles que não se contentam em observar apenas, aqueles que preferem ver o lado místico de, por exemplo, uma flor e que a associam logo a emoções e gestos humanos, não se contentando que ser apenas uma flor e nada mais do que isso.
Na 2ª estrofe Caeiro afirma que, às vezes,tem que se sacrificar à estupidez de sentidos dos homens falsos, mostrando que, às vezes, também pensa. Mas para Caeiro, não são os pensamentos que provocam as ideias, estes aparecem como algo passivo que só é utilizado para guardar as ideias, a sua poesia é natural, assim como a natureza. O que está no pensamento é o resultado da percepção imediata e é isso que regista nos seus versos.
Assume-se como o intérprete da natureza, aquele que a percebe, pois não há nada a perceber a não ser que o que existe é a própria natureza.
Nos dois últimos versos o poeta torna a afirmar que a natureza não é mais do que isso, a natureza.
Neste poema, o poeta usa uma linguagem simples, vocabulário pobre, predomínio de nomes concretos, ausência de adjectivos, pois ele não atribui significados, por exemplo, a uma flor, e por isso não precisa de adjectivos, verbos no presente, o que exprime actualidade, permanência, variedade métrica e rítmica, estrofes com seis versos - sextilhas, ligação de orações por coordenação.

Manuela, 12ºB

Os nossos poemas




Os meus pensamentos resumem-se a sensações,
Penso com as mãos e com os pés,
E com o nariz e a boca,
E com os olhos e os ouvidos.

O Mundo não se criou para o pensarmos,
Mas sim para ser observado.
E sei vê-lo, pois vejo-o sem pensar,
E sem pensar consigo sentir
Consigo sentir-me parte dele.

Sinto-me a florir a cada momento,
Pronto a enfrentar aquilo que o Mundo me trouxer.
Sou como poeira,
Navegando ao sabor do vento,
Sem rumo, à deriva…
E sinto-me assim
A cada dia que passa,
Sinto-me feliz!


Alberto Caeiro



Eu escolhi este poema devido a que pareceu me ser um dos mais simples que vi, pois tal como o poema eu penso de uma maneira simples. Senti alguma ligação entre mim e o poema, pois mesmo que seja uma pessoa simples, penso que estamos destinados a certas coisas como a poeira esta destinada a ser levada ao sabor do vento.
Mas claro que como todas as pessoas valentes acho que num determinado tempo todos nós nos levantamos e tentamos ir contra o vento, mesmo que fracassamos, pois ai ainda seremos mais felizes. Esta é a felicidade que Caetano não atingira pois deixou-se ir a deriva.

Rui Lima, 12ºC

[texto por editar pela professora]

Antes o voo da ave


Antes o voo da ave, que passa e não deixa rasto,
Que a passagem do animal, que fica lembrada no chão.
A ave passa e esquece, e assim deve ser.
O animal, onde já não está e por isso de nada serve,
Mostra que já esteve, o que não serve para nada.
A recordação é uma traição à Natureza,
Porque a Natureza de ontem não é Natureza.
O que foi não é nada, e lembrar é não ver.
Passa, ave, passa, e ensina-me a passar!



Alberto Caeiro



Porquê escolher este poema? Logo que li este poema identifiquei-me com ele, talvez por me identificar com o autor, Alberto Caeiro. Embora seja contra a escrita de Caeiro, este poema ensina-nos uma Filosofia de vida: viver a vida no presente sem ter grandes recordações. Não será a melhor forma de viver? Para quê recordar se já não serve para nada o passado? Caeiro mostra-nos isto nos últimos dois versos da primeira estrofe. Tal como nos diz Caeiro o presente e real e objectivo, passado e fruto do pensamento e da recordação que para ele pensar e “estar doentes dos olhos” que nos é mostrado no verso “lembrar é não ver” e o futuro é algo de metafísico e como Caeiro é anti-metafísico o futuro não lhe diz nada.
Neste poema Caeiro utiliza metáfora para nos falar das recordações, sendo essas metáforas com algo concreto e da Natureza (como é seu hábito). Classifica as recordações como rastos de animais. Com o primeiro verso da segunda estrofe Caeiro mostra-nos que a recordação não e própria da Natureza é uma traição pois recordar é pensar e se a Natureza pensasse não era Natureza pois Natureza para Caeiro e o que a visão nos mostra.





Rui Costa 12º A

[texto por editar pela professora]

Sensações verdadeiras


Os meus pensamentos resumem-se a sensações,
Penso com as mãos e com os pés,
E com o nariz e a boca,
E com os olhos e os ouvidos.


O Mundo não se criou para o pensarmos,
Mas sim para ser observado.
E eu sei vê-lo, pois vejo sem pensar,
E sem pensar consigo sentir
Consigo sentir-me parte dele.
Sinto-me a florir a cada momento,
Pronto a enfrentar aquilo que o Mundo me trouxer.
Sou como poeira, Navegando ao saber do vento,
Sem rumo, à deriva… E sinto-me assim
A cada dia que passa,
Sinto-me feliz.




Alberto Caeiro


Este é um típico poema de Alberto Caeiro, não existe a menor da dúvida que quem o começa a ler diz logo sem pensar duas vezes e sem saber a que heterónimo de Fernando Pessoa corresponde diz: “Sem sombra para dúvida isto é do Alberto Caeiro”. Bem eu escolhi este poema pois de todos aqueles que eu li, tanto na sala de aula como em casa, na Internet… Este foi o que mais me interessou. Este poema mostra a importância que Caeiro dá as sensações. Neste poema são também evidentes algumas características da sua poesia o facto de ele defender que o real é o visível, da sua poesia “deambulatória” entre outras. Mostra a recusa dele perante o pensamento. Este é sem dúvida alguma um poema daquele que foi e continuará sempre a ser “O Mestre”. Para Caeiro tudo o que existe no Mundo não é para ser pensado é para ser sentido e observado pois ele é o que nos mostra ser. Este poema tem uma simplicidade incrível, encoraja-nos na minha opinião, a sentir a vida sem rodeios, sem ter que pensar sempre em tudo, pois nós só temos uma vida e se não a aproveitarmos enquanto podemos, como vai ser depois? Apesar de eu também julgar que o raciocínio seja indispensável para a humanidade, às vezes nós (humanos obviamente!) precisamos de esquecermo-nos de tudo por breves instantes e sentir aquilo que o Mundo nos transmite. Concluindo como Caeiro diz “Sinto-me a florir a cada momento, / Pronto a enfrentar aquilo que o mundo me trouxer”.


Vanessa Múrias, 12ºA


[texto por editar pela professora]


Falas de civilização...

Falas de civilização, e de não dever ser,
Ou de não dever ser assim.
Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,
Com as coisas humanas postas desta maneira,
Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos.
Dizes que se fossem como tu queres, seriam melhor.
Escuto sem te ouvir.
Para que te quereria eu ouvir?
Ouvindo-te nada ficaria sabendo.
Se as coisas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.
Se as coisas fossem como tu queres, seriam só como tu queres.
Ai de ti e de todos que levam a vida
A querer inventar a máquina de fazer felicidade!

Alberto Caeiro


Vivemos sempre o dia-a-dia a favor do encontro de uma felicidade plena e irredutível. Guiámos as nossas acções em direcção a uma meta, felicidade. Mas o que é a felicidade? Quando é que a sentimos, se é possível tal coisa? Não existe essa felicidade plena, essa”máquina de fazer felicidade”, na qual é possível carregar num botão e obter a felicidade desejada para toda a vida. A felicidade são momentos, em que nós nos realizamos, nos sentimos superiores á realidade fatal que nos governa. Nós conseguimos atingir essa felicidade em certos momentos, e por isso mesmo, por serem momentos, são passageiros, num momento sentimo-la noutro logo a seguir, já não a vemos…
“Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos, / Com as coisas humanas postas desta maneira,”, nós estamos sujeitos ao que somos, não o podemos mudar, actuamos como devemos actuar, pensamos como devemos pensar, estamos como que fechados num círculo onde tudo o que nos diz respeito já está escrito, marcado com caneta permanente, e por isso quase todos, ou uma grande parte desse todo sofrem. Mas se conseguíssemos ser diferentes, apagar essa caneta, seríamos mais felizes? É um pouco complicado desligarmo-nos do pensamento, pois este é um factor que caminha sempre presente na nossa vida. Mas acredito que caso tal fosse possível a felicidade era muito mais fácil de atingir, porque era tudo mais real, veríamos as coisas tal como elas são na realidade, sem interrogações acerca do seu aspecto, as coisas seriam como elas são, nada mais: “se as coisas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.”
Por isso, devemos aproveitar cada momento, como se fosse o último, e viver mais as coisas como ela são, sem reticências.


Letícia Fortes, 12ºC

[texto por editar pela professora]

Poema do Menino Jesus


http://users.isr.ist.utl.pt/~cfb/VdS/v020.txt (poema completo)

(…)
Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu tudo era falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas -
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque nem era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E que nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!

Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o Sol
E desceu no primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.
(…)
Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?

Alberto Caeiro



Considero-me deveras pecadora, primeiro porque odeio a religião católica, segundo porque cometo pecados, como a preguiça, e terceiro porque por ter preguiça iria deixar passar este poema sem o ler…
Como pecadora que sou quando olhei este poema tive desde logo preguiça, como era muito extenso fechei o documento e abri um outro, contudo não poderia deixar de reter o título: “Poema do menino Jesus”.
Cerrada na minha ignorância não me ocorreu logo que Alberto Caeiro era um poeta antimetafísico, antifilofia e pagão e pensei então que se tratava de mais um poema a enaltecer a religião e a sagrada história de como foi concebido o menino Jesus…Como hereges que sou o título ainda me fez repudiar mais o poema.
Até que me ocorreu que tal poesia não ia de encontro ao que tinha estudado acerca do poeta, era incoerente que ele tivesse escrito um poema deste tipo.
Voltei atrás, apressei-me a ler e foi então que descobri a mais fiel, mais bonita e natural descrição do menino Jesus que até hoje ouvi…
Este poema encantou-me!
A simplicidade com que Caeiro descreve um menino normal e a ousadia com que lhe chama de menino Jesus, humanizando o divino absoluto, é simplesmente perfeita. Aliás, também a forma como descreve todos os outros elementos do divino com comportamentos similares aos dos restantes comuns, como a virgem Maria a fazer meia, reduzindo assim o Céu à Terra e elevando a Terra ao Céu, tudo isto é de um mérito inigualável só concretizado pelo grande Pã.
Então, pecadora? Religiões? Filosofias? Entender o mundo?
O essencial é saber ver o Mundo sensível onde se revela o divino…
“As coisas não têm significado: têm existência.”

Eva Castanheira, 12ºF

[texto por editar pela professora]

Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar
Seria mais feliz um momento…
Mas eu nem sempre quero ser feliz
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural…

Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se,
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva…

O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica…
Assim é e assim seja…

(Alberto Caeiro)



Eu escolhi este poema porque eu prefiro a poesia de Alberto Caeiro a outra que tenha estudado para já. Aquilo que Caeiro exprime neste poema é a sua felicidade, na primeira estrofe, com os versos " Mas eu nem sempre quero ser feliz/É preciso ser de vez em quando infeliz/Para se poder ser natural…" e isto identifica-se com Caeiro que também liga estes versos a Natureza sendo ele o "poeta da Natureza".
Caeiro vê o mundo sem necessidade de explicações "Que haja montanhas e planícies/E que haja rochedos e erva…", para ele é algo maravilhoso e inexplicável. É um poema simples, só Caeiro possui esta característica, apesar de ter alguns versos compridos, que também tem a ver com Caeiro (métrica irregular).
A estrofe que mais aprecio é a última devido ao jogo de palavras que possui. No fundo poema interessantíssimo.
Logo se assim é, assim seja...

Manuel Sarmento, 12ºA

[texto por editar pela professora]

Sou um evadido...



Sou um evadido.
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi.
Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,
Do mesmo ser
Por que não se cansar?
Minha alma procura-me
Mas eu ando a monte,
Oxalá que ela
Nunca me encontre.
Ser um é cadeia,
Ser eu é não ser.
Viverei fugindo
Mas vivo a valer.

Fernando Pessoa

O ser humano orgulha-se de ser o único ser à face da Terra dotado de uma capacidade racional. Esta razão dá-nos uma liberdade imensa.
Contudo, o estatuto de ser humano traz também consigo inúmeras limitações. Ora vejamos: o Homem não tem asas, logo não consegue voar. Todavia, desde o início dos tempos que engenhos são construídos para que possamos vaguear por entre a brisa e descobrir os trilhos que delineiam o destino dos seres genuinamente voadores.
E a verdade é que conseguimos. Temos o avião, o foguetão e até saltamos de pára-quedas.
Outra das nossas grandes ambições era a descoberta do meio marinho. Não temos barbatanas, muito menos brânquias, mas isso não nos fez parar. Se o Homem quer, o Homem consegue!
Hoje em dia temos barcos, submarinos e equipamento de mergulho altamente sofisticado que nos permite mergulhar até muitos e muitos metros de profundidade.
Devem estar a pensar que me enganei e que em vez de estar a escrever sobre um poema de Fernando Pessoa estou a dissertar sobre as grandes descobertas da Humanidade.
Ambas são verdade, uma vez que o poema que escolhi fala sobre a necessidade que Pessoa tinha de desocupar a sua pessoa, ignorar as restrições inerentes à sua condição humana e partir à descoberta de outras que o preenchessem e o realizassem a cada momento.
Daí ele afirmar que é um “evadido” porque não ficou enclausurado nas grades de um comum dos mortais, nascido a 13 de Junho de 1888, pelas 15h20min, no Largo de S. Carlos em Lisboa, denominado Fernando António Nogueira Pessoa.
Não! Viver eternamente e sempre só com isto é demasiado incapacitante e cansativo.
Assim, ele não tem outra opção senão fugir, abandonar-se a si mesmo.
Todavia, a sua alma, o seu intelecto, procura saber o seu paradeiro, procura resgatá-lo e algemá-lo a uma espécie de bilhete de identidade que o tenta definir, mas não consegue porque não o deixa redefinir-se.
Deste modo, Pessoa foge, foge para bem longe porque sabe que a única forma de se encontrar é continuar em fuga. Ele sabe que “ser eu é não ser”.
Assim foi a vida deste foragido, uma vida construída não sobre a ânsia de saber quem é mas sim de viver quem está a ser a cada instante.

Tânia Daniela Teixeira Falcão, 12ºB

Hoje de manhã saí muito cedo





Hoje de manhã saí muito cedo,
Por ter acordado ainda mais cedo
E não ter nada que quisesse fazer...

Não sabia que caminho tomar
Mas o vento soprava forte, varria para um lado,
E segui o caminho para onde o vento me soprava nas costas.

Assim tem sido sempre a minha vida, e
Assim quero que possa ser sempre
Vou onde o vento me leva e não me
Sinto pensar.

Alberto Caeiro


Neste poema o leitor pode observar que este heterónimo de Fernando Pessoa difere muito do seu ortónimo. Quando lemos este poema, ou outro qualquer de Caeiro, apercebemo-nos logo que, ao contrário do seu ortónimo, é espontâneo na sua escrita, tendo assim uns poemas que fogem às regras da poesia, assim dizendo. Caeiro é espontâneo porque ele deambula sem um destino olhando para tudo e vendo a sua essência sem pensar em segundas interpretações, escrevendo assim o que ele está a observar. Caeiro difere de muitos poetas quando recusa a pensar nos sentidos de uma “coisa”, porque pensar é estar doente come ele diz, por exemplo uma flor é uma flor e mais nada, não há que ter uma outra interpretação.
Eu escrevi esta introdução para me ajudar a explicar ao leitor este poema que eu decidi abordar. Neste poema podemos observar logo nas duas primeiras estrofes a deambulação de Caeiro quando ele diz que acordou cedo sem ter nada para fazer e não saber que caminho escolher sendo levado assim pelo vento. Ao mesmo tempo que vemos a característica de deambular, vemos também o seu contacto com a Natureza quando ele se deixa levar pelo vento. Na última estrofe Caeiro descreve resumidamente a sua vida dizendo que sempre foi levado pelo vento sem nunca ter um destino, e ao mesmo tempo vemos que é isso que ele deseja para o seu futuro, porque assim sendo levado pelo vento nunca terá de pensar, e pensar para ele é algo de errado, logo não pensar, a inconsciência para o resto da sua vida é o ideal.
Escolhi este poema porque gosto muito de verificar a diferença contrastante entre Caeiro e Pessoa sendo eles, supostamente a mesma pessoa. Também escolhi porque acho mais interessante a maneira que Caeiro tem de olhar para o mundo, e como deve viver a sua vida sendo um homem livre para poder observar a beleza da essência de uma flor, depois outro factor que me levou a escolher este poema é a sua simplicidade e ao mesmo tempo a mensagem que consegue passar.



Rafael Mendes, 12ºB

[texto por editar pela professora]

Tenho pena e não respondo

Tenho pena e não respondo.
Mas não tenho culpa enfim
De que em mim não correspondo
Ao outro que amaste em mim.

Cada um é muita gente.
Para mim sou quem me penso,
Para outros --- cada um sente
O que julga, e é um erro imenso.

Ah, deixem-me sossegar.
Não me sonhem nem me outrem.
Se eu não me quero encontrar,
Quererei que outros me encontrem?

Fernando Pessoa


De toda a gama de poesia pessoana, Fernando Pessoa Ortónimo é aquele que me fascina absolutamente.
Depois de horas de pesquisa encontrei poemas lindíssimos e com uma transmissão de ideias do outro mundo, por isso, a escolha do poema tornou-se num princípio de uma tentativa falhada.
Decidi depois falar do poema “ Tenho pena e não respondo”, não só pela sua beleza interna mas pelo que nos transmite para o exterior, que na minha opinião, não deixa de ser uma experiência dramática de vida.
Ás vezes dou por mim, a ler poemas de diversos temas, e o eu reflexo é leva-los de imediato para o lado sentimental, e este poema sem dúvida é todo ele sentimentalista. É claro que quando falo de sentimentalista em relação a Fernando Pessoa o significado torna-se literalmente diferente, pois Fernando Pessoa idealiza o sentimento e coloca a razão o intelecto, acima de qualquer tipo de sentimento.
Contudo, na minha opinião essa estética utilizada pelo poeta não se enquadra de todo neste poema, pois ele é de uma intensidade suprema que nos entra directamente para a emoção.
“Tenho pena e não respondo” encaixa-se perfeitamente no meu estado de espírito desde o momento que toca no sentimento eterno, o amor, até á desilusão criada pelo próprio poeta. Essa desilusão só foi criada pelo simples facto de criarem uma imagem para o poeta que jamais seria a dele. E se ele próprio não sabe quem é como e que alguém o pode julgar em vão? Não deixa de ser uma boa pergunta mas acho que de todo é retórica da minha parte. Não existe ninguém que nos conheça melhor que nos próprios Fernando Pessoa não sabe quem é e jamais ira ser o que os outros sonham, pois o que verdadeiramente interessa é o que ele pensa que é. De todo o poema não posso deixar passar ao lado o desfecho emocionante, longe de qualquer tipo de castelo de fadas, mostrando que às vezes a solidão é mais que nossa amiga e as vezes a própria escuridão é que nos trás a felicidade ou ate mesmo, a paz interior. E essa ideia não deixa de ser deliciosa.
Acho que este poema e dos únicos que não me canso de reler e de todas as vezes que o recordo sinto uma imensa vontade de ter sido eu a escreve-lo. Mas infelizmente não sou Fernando Pessoa muito menos aquilo que os outros pensam que sou. Aquilo que sou está em mim longe de qualquer tipo de realidade.


Tânia Gomes, 12ºB

[texto por editar pela professora]

O Meu Olhar Azul


O meu olhar azul como o céu
É calmo como a água ao sol.
É assim, azul e calmo,
Porque não interroga nem se espanta...

Se eu interrogasse e me espantasse
Não nasciam flores novas nos prados
Nem mudaria qualquer coisa no sol de modo a ele ficar mais belo...

(Mesmo se nascessem flores novas no prado
E se o sol mudasse para mais belo,
Eu sentiria menos flores no prado
E achava mais feio o sol...
Porque tudo é como é e assim é que é,
E eu aceito, e nem agradeço,
Para não parecer que penso nisso...)

Alberto Caeiro


"O meu olhar azul como o céu..." inicia-se assim o poema, de facto os olhos de Caeiro eram azuis como Pessoa referiu numa carta que escreveu a Casais Monteiro, em que descreve os seus heterónimos. Pessoa associa esse olhar azul com o céu logo faz uma ligação entre o olhar azul e a natureza(céu azul) sem alguma espécie de analise ou pensamento. Descrevendo depois esse azul como calmo "azul e calmo, porque não se interroga nem se espanta...", calmo porque não tem que pensar porque o céu é azul como são os seus olhos. Caeiro não se interroga porque seria uma atitude absolutamente inútil, pois as coisas são como são e não há nada a fazer a não ser ver, sendo esta a visão filosófica sobre a realidade de Caeiro, objectiva. Dizendo ele depois que mesmo que o Sol mudasse para mais belo e flores nascessem de novo no prado, ele iria sempre preferia as flores e o sol antigo, porque todo é como é e todo deve ser aceite como é, não devendo nada a ser pensado, sendo esta atitude de pensar, para Caeiro, inimiga da natureza, pois a natureza não tem que ser entendida, apenas e simplesmente admirada.

O que mais admiro em Caeiro e nos seus poemas e a sua maneira de pensar em relação a todo, pois para ele as coisas são como são e nada mais e é absolutamente inútil interrogar-se sobre o que fosse, em certa parte concordo com Caeiro pois se as coisas fossem para ser intelectualizadas ou interrogadas, talvez então quem sabe poderíamos dar as nossas opiniões sobre todo o tipo de coisas a algum seres superior antes de estas seres criadas não?

Filipe Vale 12º B

[texto por editar pela professora]

O que há em mim é sobretudo cansaço...

O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.


A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.


Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser…


E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto…
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço…

Álvaro de Campos





Não há dúvida que depois de uma tão intensa e basta leitura de maravilhosos poemas deste tão extraordinário homem que foi Fernando Pessoa e ter que optar por apenas um, acabei por escolher este tão modesto mas fantástico poema.
Embora tenha sido uma escolha complicada considero que foi uma excelente opção visto que me reconheço nestas palavras que acarretam tantos sentimentos, desânimo e cansaço.
Através deste poema Álvaro de Campos transmite-nos um sentimento de plena desmotivação, de puro cansaço, apenas isso, cansaço.
Campo fala-nos de realidades que todos pretendem alcançar, que resultam em cansaço de sentimento inúteis, de paixões violentas e intensas por um suposto alguém, tudo isto o agoniza num cansaço interior extremo.
Confronta-nos ainda dizendo que existem sem dúvida pessoas que conseguem suportar este cansaço, mas talvez não o sintam na realidade, diz ainda que existe quem ame o infinito, quem consiga desejar o inalcançável e ainda quem não queira nada.
Para essas pessoas viverem a vida bastar-lhes-á unicamente o meio entre o tudo e o nada.
Para Campos tratam-se todos de idealistas.
Álvaro de Campos não se encaixava em nenhum desses ideais, pois conseguia alcançar sempre algo mais remoto, amando o infinitamente o infinito, desejando o impossivelmente possível, e querendo tudo ou mais se possível.
Todos estes sentimentos tornar-se-ão numa felicidade inculta, ou seja, no seu cansaço, que ele caracteriza como supremíssimo, íssimo, íssimo cansaço.
Álvaro de Campos está cansado por não atingir o que para esses outros é tão fácil talvez porque os outros não contestam, não são audazes, mesmo quando não desejam nada.
Campos possuía uma enorme intranquilidade, que ele defendia como sendo cansaço, mas que no fundo não passa da sua não aceitanção do seu fracasso no mundo.
Invejava os outros para quem esse meio basta-lhes, vivendo e morrendo sem contestarem a vida, aceitando e vivendo apenas com esse meio entre o tudo e o nada.
No meu entender, é realmente assim que a vida nos deixa, cansados, mesmo para aqueles que o meio entre o tudo e o nada lhes basta o cansaço acabar por os corroer e ninguém consegue viver toda a vida apenas no meio e desse meio, chegará um dia em que se diz basta, e a soluçao é tentar alcançar o topo, o certo é que são poucos os que o conquistam, e ai senti mo-nos inúteis .
Então aí, o cansaço volta a nos corroer… a corroer por dentro, tirando-nos tudo, mesmo a quem nunca desejou nada.



Paula Fernandes 12º F


[texto por editar pela professora]

VIVE





Vive, dizes, no presente,
Vive só no presente.

Mas eu não quero o presente, quero a realidade;
Quero as cousas que existem, não o tempo que as mede.




O que é o presente?
É uma cousa relativa ao passado e ao futuro.
É uma cousa que existe em virtude de outras cousas existirem.
Eu quero só a realidade, as cousas sem presente.



Não quero incluir o tempo no meu esquema.
Não quero pensar nas cousas como presentes; quero pensar nelas como cousas.
Não quero separá-las de si-próprias, tratando-as por presentes.

Eu nem por reais as devia tratar.
Eu não as devia tratar por nada.


Eu devia vê-las, apenas vê-las;
Vê-las até não poder pensar nelas,
Vê-las sem tempo, nem espaço,
Ver podendo dispensar tudo menos o que se vê.
É esta a ciência de ver, que não é nenhuma.
Alberto Caeiro

Para explicar o motivo da escolha deste poema devo começar por dizer que preferi um poema de Alberto Caeiro, pois ele é o heterónimo de Fernando Pessoa que mais me agrada, pois é o mais objectivo, recusando a subjectividade das palavras. De entre alguns poemas de Caeiro este foi o que mais me chamou à atenção, pois tal como o poeta, eu considero que o presente é apenas um momento de transição entre o passado e o futuro, não poderia haver passado nem futuro se não houvesse o presente como forma de comparação.
Segundo o poeta, devemos pensar nas coisas, só como elas são e não nas considerações que temos sobre elas ou que poderemos vir a ter. Devemos considerar o Mundo só como ele é e não julgá-lo pela informação que temos sobre ele. A visão que temos de tudo, não é a realidade, é uma distorção do real que pode variar de pessoa para pessoa.
Concluindo, o poema considera que devemos viver a vida como se não houvesse passado, nem futuro, devemos vivê-la simplesmente, com a inocência de cada dia. Este ideal pode ajudar muitas pessoas a serem um pouco mais felizes.

A ARANHA

A ARANHA do meu destino
Faz teias de eu não pensar.
Não soube o que era em menino,
Sou adulto sem o achar.
É que a teia, de espalhada
Apanhou-me o querer ir...
Sou uma vida baloiçada
Na consciência de existir.
A aranha da minha sorte
Faz teia de muro a muro...
Sou presa do meu suporte.


Fernando Pessoa


Escolhi este poema, pois achei-o bastante interessante pelo seu conteúdo, e mais ainda pelo seu título, um pouco “diferente do normal”, intitulado como: “A aranha”.
Na minha perspectiva, o verso”A Aranha do meu destino”, refere-se ao rumo que a vida de Pessoa levou, afinal não se pode fugir ao destino.
O verso “Faz teias de eu não pensar”, de certa forma pode ser encarado como uma ironia, podemos falar no caso de quando uma casa por exemplo é desabitada, passado algum tempo a casa acaba por ganhar teias, como todos nós sabemos, Pessoa intelectualiza o pensamento, ou seja ele pensa nas coisas da vida “não ganhando assim as teias dentro da sua cabeça”.
Pessoa quando era criança “menino”, não sabia “não soube” se era feliz, pois as crianças não racionalizam, mesmo assim agora em adulto ele tem a consciência, que quando era criança era feliz, pois agora já racionaliza vem daí “na consciência de existir”, isso vai trazer reflexos como, o seu passado (infância) ser idealizado, pois é uma época em que tudo é possível, ao contrario da prisão intelectual do presente.
Os últimos 2 versos, dão-me a sensação que Pessoa está-se a referir a algo que esteja preso, a ideia de fazer teia de muro a muro, é de ele estar na “prisão”, e ser a presa, da própria teia “suporte”, ou seja do próprio destino, nós como seres humanos, envolvemo-nos na teia para encontrar o nosso destino.

Sara Anjo 12ºB

[texto por editar pela professora]

Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta

Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta,
Em que as coisas têm toda a realidade que podem ter,
Pergunto a mim próprio devagar
Porque sequer atribuo eu
Beleza às coisas.

Uma flor por acaso tem beleza?
Tem beleza por acaso um fruto?
Não: têm cor e forma
E existência apenas.
A beleza é o nome de qualquer coisa que não existe
Que eu dou às coisas em troca do agrado que me dão.
Não significa nada.
Então porque digo eu das coisas: são belas?

Sim, mesmo a mim, que vivo só de viver,
Invisíveis, vêm ter comigo as mentiras dos homens
Perante as coisas,
Perante as coisas que simplesmente existem.

Que difícil ser próprio e não ser senão o visível!

Alberto Caeiro


Alberto Caeiro, heterónimo de Fernando Pessoa o frustrado…
Devo dizer que Fernando Pessoa não é um poeta com que eu me identifique muito, contudo, aprecio bastante o estilo de Alberto Caeiro. Para quê complicar? Pensar? Só se estiver doente! Eu apoio Caeiro, “a sensação é tudo”, viva a Natureza…
Uma flor é uma flor, um fruto é um fruto! Mistério? Nenhum. Ah grande Mestre!
Eu acredito que todos devíamos ver o mundo desta maneira, simples e belo, tal como Alberto Caeiro o vê (ou tenta ver). Portanto vamos todos apenas ver, não pensem, não vale a pena, sejam felizes!
Por isso escolhi este poema, não por ser “bonito” ou pela sua musicalidade (inexistente) mas porque me identifico bastante com este pensamento de Caeiro, é simples, objectivo, e embora seja difícil libertarmo-nos dos estímulos e aprendizagens com que somos bombardeados logo à nascença e que nos acompanha no nosso desenvolvimento, e até para Caeiro é difícil como o próprio afirma no poema, vamos tentar não racionalizar e apenas…viver!

André Matos 12ºA nº3

[texto por editar pela professora]

Cada dia sem gozo não foi teu


Cada dia sem gozo não foi teu
(Dia em que não gozaste não foi teu):
Foi só durares nele. Quanto vivas
Sem que o gozes não vives.

Não pesa que amas, bebas ou sorrias:
Basta o reflexo do sol ido na água
De um charco se te é grato

Feliz o a quem, por ter em coisas mínimas
Seu prazer posto, nenhum dia nega
A natural ventura!

Ricardo Reis


O poema que escolhi para este trabalho é de Ricardo Rei, um dos muitos heterónimos de Fernando Pessoa. Nos poemas de Ricardo Reis encontramos marcas epicuristas.
O epicurismo, com a sua máxima, “carpe diem”, considera o prazer como o mais alto dos bens e defende que se deve viver o dia a dia com felicidade. O prazer é, para os epicuristas, o sumo bem do homem e todos os nossos esforços devem tender a obtê-lo. Todavia, não é o prazer grosseiro que importa, mas aquele que provém da cultura do espírito e da prática da virtude. O prazer verdadeiro consiste na ausência de dor. Em suma, o epicurismo pretende responder à questão fundamental da dor e da morte, oferecendo, como resposta, o repouso e a ataraxia (ausência de perturbação), gozando em profundidade, o momento presente. Encontra-se, assim, a definição de carpe diem. Esta expressão significa “aproveita o dia” e provém das palavras que Horácio proferiu a Leucónia, “Carpe Diem quam minimum credula postero” (Goza o dia e conta o menos que possas com o dia de amanhã).

Eu escolhi este poema, visto que a sua mensagem captou a minha atenção. Se, na nossa vida, não se gozassem as coisas boas ou as coisas más nunca seríamos felizes, isto é, não conseguiríamos atingir a felicidade, pois, realmente, não vivíamos, não seríamos capazes de aproveitar cada momento. O poema transmite isso mesmo, que se soubermos aproveitar cada momento, por mais pequeno que seja, já conseguimos ser felizes, é essencial sabermos dar importância a tudo o que nos rodeia “Basta o reflexo do sol ido na água/ De um charco se te é grato”.

Eu sei que não se pode viver cada dia como se fosse o último, pois isso também não nos faria muito felizes, uma vez que viver a pensar que, no dia seguinte, se pode morrer é algo muito mau e não permite que se viva. Devemos viver segundo a máxima “Não deixes para amanhã, aquilo que podes fazer hoje”. Se há algo que queremos dizer ou fazer, devemos fazê-lo, porque a sensação de chegar ao dia seguinte e perceber que, por alguma motivo não controlável por nós, já não se pode fazer aquilo que deveríamos ter feito irá estar, sempre, no nosso interior e dificilmente será esquecida a marca do adiamento para sempre.

O poema transmite que as pequenas coisas, os pequenos momentos, os pequenos gestos são realmente importantes e serão esses que, no fim do dia, nos farão ver como vale a pena viver e, no dia seguinte, continuar, daí não podermos viver com medo da morte, antes ter a certeza que ela existe e que é uma realidade. Devemos chegar ao fim do dia e concluir que fizemos tudo o que tínhamos para fazer e que dissemos aquilo que era importante às pessoas que mais gostamos. Neste sentido não concordo, totalmente, com a frase de Horácio, porque é bom podermos contar com o dia seguinte, é bom poder planear o futuro, mesmo que depois se alterem os planos.

Cada um de nós deve saber distinguir aquilo que é realmente importante, daquilo que pode adiar e do qual não terá qualquer arrependimento, por não ter feito, quando surgiu a ideia. Nunca nos devemos esquecer que são os pequenos momentos dos nossos dias que deixaram marcas importantes em nós e que são esses os que mais devemos aproveitar e guardar, porque esses momentos, em conjunto, formam aquilo a que chamamos Vida.
Vive, não deixes nada para trás.
Colhe as flores e rega o jardim com tudo o que possas fazer para seguir em frente feliz. Não queiras a vitória sem a merecer, antes ama o poder ser. Não vivas a angústia do impossível, esse está longe e faz sofrer.

Vence a morte porque viveste.

Melânia Carvalho, 12º B

[texto por editar pela professora]

domingo, 30 de novembro de 2008

Hoje de manhã saí muito cedo



Hoje de manhã saí muito cedo,
Por ter acordado ainda mais cedo
E não ter nada que quisesse fazer...

Não sabia que caminho tomar
Mas o vento soprava forte, varria para um lado,
E segui o caminho para onde o vento me soprava nas costas.

Assim tem sido sempre a minha vida, e
Assim quero que possa ser sempre
Vou onde o vento me leva e não me
Sinto pensar.

Alberto Caeiro


Depois de ter lido vários poemas, este foi aquele que mais me cativou. Não sei bem porquê mas talvez por neste momento, de certa forma, estar também a viver conforme o vento me leva.
Viver assim é mais fácil, porque não temos que tomar decisões que, por vezes são precipitadas e, por isso não temos que pensar. E, se algo não acontecer como desejamos, não culpamos a nós próprios, mas sim ao vento, pois foi esse que nos encaminhou para esse destino. O que é bom, porque não temos aquele sentimento de culpa que tanto nos atormenta. Pode ser mais simples viver assim mas, não sei até que ponto é melhor, pois não pudemos criar objectivos, apenas desfrutar o que a vida nos reserva e não explorar outros modos de o fazer. Mas também não quer dizer que, por vezes, não seja necessário ‘fugirmos’ a este pensamento, porque de facto é. Pois só assim nos pudemos abstrair daquilo que nos incomoda, dos nossos medos, das decisões difíceis que surgem ao longo da vida e, assim não temos que “acordar cedo” para pensar no que, muitas vezes, nos faz sofrer.
E, como Caeiro recusa-se a pensar (pois, para ele “pensar é estar doente dos olhos”) esta é uma boa forma de levar a vida, pois deixa de ter tantas responsabilidades e deixa que o vento ‘pense’ por ele. E assim é feliz. Não o condeno. Até porque já deixei que o vento me levasse várias vezes, e talvez possa estar a deixar fazê-lo, mas ao contrário de Caeiro, não quero que aconteça sempre porque, “nada em excesso, nada em defeito, a virtude está no meio”.

Daniela Esteves 12ºC

[texto por editar pela professora]

NÃO SEI SER TRISTE...



Não sei ser triste a valer

Nem ser alegre deveras

Acreditem: não sei ser.


Serão as almas sinceras

Assim também, sem saber?

Ah, ante a ficção da alma


E a mentira da emoção

Com que prazer me dá calma

Ver uma flor sem razão


Florir sem ter coração!

Mas enfim não há diferença.

Se a flor flore sem querer,


Sem querer a gente pensa.

O que nela é florescer

Em nós é ter consciência.
Depois, a nós como a ela,


Quando o Fado os faz passar,

Surgem as patas dos deuses

E a ambos nos vêm calcar.


‘Stá bem, enquanto não vêm,

Vamos florir ou pensar.

Este é mais um dos poemas do nosso queridíssimo Amigo Fernando Pessoa, em que ele nos fala sobre a dor de pensar, consciência introduzindo também o conceito de sinceridade.
É na 1ª quadra que o sujeito poético reflecte sobre a sinceridade das pessoas, para ele estas vêem o “ser sincero” como “ser verdadeiro”, mas ele vê a sinceridade de um ponto de vista intelectual, ou seja, a sinceridade não é entendida em termos de verdade ou mentira, mas sim como a capacidade de usar a inteligência que transforma as sensações em ideias.
Fernando Pessoa escreve sobre a flor, pois esta é desprovida de razão, contrariamente ao Homem, por outro lado, eles são semelhantes, no aspecto em que, tal como a “flor flore” naturalmente, também o Homem pensa, sendo este acto natural.
Vemos então, que a razão pela qual o poeta não consegue “ser triste a valer / Nem alegre deveras” é porque não consegue libertar-se da dor de pensar e viver apenas ao nível do sentir, como acontece com a flor. Ele vê na flor aquilo que deseja ser, pois esta é desprovida de razão.
É também visível no poema a ideia da força esmagadora da morte e do Destino que se abatem sobre o poeta e a flor.
O que me cativou neste poema foi o facto de Pessoa comparar um simples ser inanimado com o ser humano complexo para nos mostrar mais uma vez que a dor de pensar é uma das problemáticas que sempre o acompanha. Fernando Pessoa apercebe-se que a morte é uma coisa certa, pois nascemos logo morremos, enquanto esta não vem, e ele não consegue deixar de pensar termina o poema dizendo “Vamos florir ou pensar”sendo este um verso que se aplica à vida, pois muitas vezes deparamo-nos com situações às coisas não podemos fugir, só nos resta aceita-las.

Emília Oliveira, 12ºB



[texto por editar pela professora]

Não, não é cansaço...


Não, não é cansaço...
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar,
E um domingo às avessas
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo...

Não, cansaço não é...
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Como tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.

Não. Cansaço por quê?
É uma sensação abstracta
Da vida concreta —
Qualquer coisa como um grito
Por dar,
Qualquer coisa como uma angústia
Por sofrer,
Ou por sofrer completamente,
Ou por sofrer como...
Sim, ou por sofrer como...
Isso mesmo, como...
Como quê?...
Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço.

(Ai, cegos que cantam na rua,
Que formidável realejo
Que é a guitarra de um, e a viola do outro, e a voz dela!)

Porque oiço, vejo.
Confesso: é cansaço!...

Álvaro de Campos

Cansaço. Foi o cansaço que me despertou a atenção neste poema. Neste e noutro de Álvaro de Campos que devido ao facto de estar no livro “Página Seguinte” não é válido, logo decidi virar a página de uma peça de teatro elaborada por uns amigos com textos dos maiores poetas do século XX encontrando-o.
Voltando ao poema, devo realçar a intemporalidade do mesmo. Por vezes parece que não há nada para se fazer (puro engano!) e chegamos mesmo a convencermo-nos disso,perdendo assim a vida o encanto primordial. Sentimos dúvidas/incertezas, desiludimo-nos constantemente e não passamos de “cópias iguais” : seres racionais (segundo dizem!) que querem ser diferentes (que na verdade são) mas que passam pelo mesmo que todos outros, tornando-nos assim iguais. Todos já tiveram dias menos bons, dias em que nada corre bem, dias em que parece que o mundo vai acabar (que na verdade nunca mais acaba) provocando uma confusão interior que não conseguimos entender nem sequer expressar em gestos ou palavras. É esta confusão que impede Campos de explicar o cansaço que na realidade sente mas que não queria sentir! Queria ser cego para não ver o mundo e ser capaz de, como os cegos, tocar viola que os compensa de não conseguirem ver, e ao mesmo tempo, a música impede-os de ouvir as coisas más que ele ouve.
Não nos salva sermos cegos, a vida é invadida pelo cansaço. A resistência é uma batalha perdida.

Filipa
12ºF