quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Paisagens de Inverno




Paisagens de Inverno


I

Ó meu coração, torna para trás.
Onde vais a correr, desatinado?
Meus olhos incendidos que o pecado
Queimou! o sol! Volvei, noites de paz.
Vergam da neve os olmos dos caminhos.
A cinza arrefeceu sobre o brasido.
Noites da serra, o casebre transido...
Ó meus olhos, cismai como os velhinhos.
Extintas primaveras evocai-as:
_ Já vai florir o pomar das maceiras.
Hemos de enfeitar os chapéus de maias._
Sossegai, esfriai, olhos febris.
_ E hemos de ir cantar nas derradeiras
Ladainhas...Doces vozes senis..._

II

Passou o outono já, já torna o frio...
_ Outono de seu riso magoado.
llgido inverno! Oblíquo o sol, gelado...
_ O sol, e as águas límpidas do rio.
Águas claras do rio! Águas do rio,
Fugindo sob o meu olhar cansado,
Para onde me levais meu vão cuidado?
Aonde vais, meu coração vazio?
Ficai, cabelos dela, flutuando,
E, debaixo das águas fugidias,
Os seus olhos abertos e cismando...
Onde ides a correr, melancolias?
_ E, refratadas, longamente ondeando,
As suas mãos translúcidas e frias...



Camilo Pessanha

'Clepsidra'


terça-feira, 23 de dezembro de 2008

NATAL em noz! :D


Está quase a chegar o Pai Natal... ou o Menino Jesus, conforme as opções... o que interessa é que, por uns momentos, podemos/devemos deixar de nos flagelar pela culpa do excessivo espírito consumista - VAMOS APROVEITAR, MEUS AMIGOS!!!! OFEREÇAM E RECEBAM COM ALEGRIA! :D

Deixo-vos a minha prenda, inspirada por Ricardo Reis,

(...) Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.
(...)
Colhe/ O dia, porque és ele.


(Carpe Diem)


... e com a ajudinha da Daniela Falcão, que soube exactamente do que eu estava a falar e encontrou o "tal" vídeo...



sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Um dia de chuva


Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol.
Ambos existem; cada um como é.



Alberto Caeiro



Este poema, de Alberto Caeiro, inspirou-me pela sua simplicidade, por dizer tanto em apenas dois versos.
Penso que é um dos poemas que melhor define a poesia de Caeiro, cada coisa é como é, tal e qual como a vemos e não como pensamos ou, muitas vezes, queremos ver.
Neste poema conseguimos ver a sua objectividade e amor pela Natureza, pois nem todos dizemos (de maneira tão simples) que um dia de chuva é tão belo como um dia de sol.
Para ele, talvez, pela existência de luz, quer chova ou não, porque o importante é ver, é “sentir com os olhos”, contrariamente ao ortónimo, que intelectualiza tudo o que vê e sente [frase?]. Para este, um dia de chuva era explicado pelo Inverno ou Outono e não simplesmente porque choveu.
Acho que, hoje em dia, todos somos um bocado como o ortónimo, pensamos demasiado e esquecemo-nos do simples e belo, do que é natural. Depois vem a tal “dor de pensar”, a “angústia de viver” e a “frustração”. Nada disso aconteceria se víssemos apenas o que está à nossa frente, sem racionalizações.
Mas como, se isso acontecesse, tudo mudava, limitamo-nos a ser como os outros, a guiarmo-nos pela sociedade e a pensar, pensar e pensar.
Para mim, Caeiro era o “mestre” por se conseguir abstrair tão facilmente e ser feliz dessa maneira.



Sara Beatriz, 12ºB

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

O Argonauta das Sensações Verdadeiras


Procuro despir-me do que aprendi,
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,
E raspar a tinta com que me pintaram os sentido,
Desencaixotar as minhas emoçoes verdadeiras,
Desembrulhar-me e ser eu, nao Alberto Caeiro,
Mas um aninal humano que a Natureza produziu.

E assim escrevo, querendo sentir a Natureza, nem sequer como um homem,
Mas como quem sente a Naturteza, e mais nada.
E assim escrevo, ora bem, ora mal,
Ora acertando com o que quero dizer, ora errando,
Caindo aqui, levantando-me acolá,
Mas indo sempre no meu caminho como um cego teimoso.

Ainda assim, sou alguém.
Sou um Descobridor da Natureza.
Sou um Argonauta das sensaçoes verdadeiras.
Trago ao Universo um novo Universo
Porque trago ao Universo ele-próprio.

Alberto Caeiro


Eu escolhi este poema de Alberto Caeiro, porque este procura ser a voz da Terra, com a sua simplicidade e naturalidade, sem preocupações de ordem metafísica e social. Caeiro desnuda as coisas de sentidos filosóficos, vendo-as tal como são. Este poema também me chamou à atenção pelo facto de ele, como eu, achar que uma pessoa, ao abordar uma situação diferente, deve ir desprovido de pré-conceitos ou preconceitos, pois nunca se deve julgar um livro pela capa e que tambem é humano errar e com esses erros é que nós aprendemos e devemos sempre tentar superar as nossas dificuldades, por muito difícil que seja. E, apesar de todos os erros que possamos cometer, ninguém nos pode apontar o dedo e dizer que somos menos que esse alguém. Gosto principalmente dos dois últimos versos, porque dizem-me que, quando conhecemos alguém, "o Universo" [?], damos-lhe a conhecer uma coisa nova, o nosso Universo.



Ana Monteiro
12º A

O INFANTE



Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,
E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.
Quem te sagrou criou-te portuguez.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!



Fernando Pessoa


Eu escolhi este poema pela referência aos Descobrimentos, que é a época da História Portuguesa que eu prefiro e a única em que o nosso país conseguiu fazer-se notar pela positiva.
Além do tema, gostei da estrutura. Não sendo eu um apreciador de poesia, canso-me menos com o que é directo e bem explícito, como este poema, com rimas e versos populares e linguagem acessível, sem muitas conotações.


Helder Ribeiro, 12ºC

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Vive no presente!


Vive, dizes, no presente,
Vive só no presente.

Mas eu não quero o presente, quero a realidade;
Quero as cousas que existem, não o tempo que as mede.

O que é o presente?
É uma cousa relativa ao passado e ao futuro.
É uma cousa que existe em virtude de outras cousas existirem.
Eu quero só a realidade, as cousas sem presente.

Não quero incluir o tempo no meu esquema.
Não quero pensar nas cousas como presentes; quero pensar nelas como cousas.
Não quero separá-las de si-próprias, tratando-as por presentes.

Eu nem por reais as devia tratar.
Eu não as devia tratar por nada.
Eu devia vê-las, apenas vê-las;
Vê-las até não poder pensar nelas,
Vê-las sem tempo, nem espaço,
Ver podendo dispensar tudo menos o que se vê.
É esta a ciência de ver, que não é nenhuma.

Alberto Caeiro,
In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Fernando Cabral Martins, Richard Zenith, 2001



A escolha deste poema assentou, acima de tudo, em dois pontos: o seu autor ser Alberto Caeiro (Fernando Pessoa) e ser, a meu ver, um dos seus melhores poemas.
Fernando Pessoa, como todos sabemos, foi um autor genial, pela forma como escrevia e, sobretudo, pela sua capacidade de criar e dar vida a novas personagens (heterónimos), sem nunca deixar de ser ele próprio.
De todas as personagens (heterónimos) de Fernando Pessoa, o que me chamou a atenção e me conseguiu cativar foi Alberto Caeiro. Chamou-me a atenção e cativou-me pela sua maneira de ver o mundo, ou mesmo de unicamente ver o mundo e pela maneira exacta e objectiva como o vê. Nessa maneira de o olhar, não há espaço para mal entendidos, nem duplos sentidos, nem mesmo manipulações.
As coisas são como são e o que são. E a minha estima por Alberto Caeiro, resume-se a isto.
Não fugindo à regra, neste poema estão explícitas e implícitas as virtudes anteriormente mencionadas. Mas também nos revela uma outra mensagem interessante, que consiste em não nos deixarmos controlar pelo tempo.
Estamos, por vezes, tão absorvidos com a falta ou com o excesso tempo, que por vezes deixamos de ver. De ver o que realmente é importante e verdadeiro (objectivo), deixamos de ver o mundo como ele é realmente, para o ver dentro do que o tempo nos permite.
Se reflectirmos sobre este ponto de vista, certamente que este poema nos consegue marcar.


Hugo Salgueiro
12ºF

"O amor quando se revela "






O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente
Cala: parece esquecer

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pra saber que a estão a amar!
Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar...

Fernando Pessoa



De toda a poesia pessoana que li, este foi o poema de que mais gostei, embora não seja dos mais conhecidos do autor .
O poema "O amor quando se revela", redigido numa linguagem simples e acessível a todos, traduz em cinco estrofes a complexidade do amor criada pelo ser humano. Este poema confessa algo que a maioria das pessoas não tem coragem de admitir, muitas vezes por medo ou até mesmo por cobardia.
A palavra amor não é mera linguagem, mas também sentimento, algo inexplicável, questionável, como diz Caeiro "Quem ama não sabe porque ama, nem o que é amar". O amor deve ser vivido e não complicado .



Anabela Miranda
12ºC

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Já não me importo




Já não me importo
Até com o que amo ou creio amar.
Sou um navio que chegou a um porto
E cujo movimento é ali estar.

Nada me resta
Do que quis ou achei.
Cheguei da festa
Como fui para lá ou ainda irei

Indiferente
A quem sou ou suponho que mal sou,

Fito a gente
Que me rodeia e sempre rodeou,

Com um olhar
Que, sem o poder ver,
Sei que é sem ar
De olhar a valer.

E só me não cansa
O que a brisa me traz
De súbita mudança
No que nada me faz.

Fernando Pessoa


E aqui…
Eu vi, vi por palavras que a angústia me corrói neste desesperançar de viver-morrer, num amontoado de pensamentos sem o mínimo vislumbre, sem uma fugaz escapatória quase possível… E o aprisionamento a este corpo atrofia-me a nesga quase possível da aragem para o lado de lá…
Enquanto jovem que sou, procuro o meu ser-ter-estar, um propósito sem propósito, um rumo, zumbido de zéfiro, ou o decifrar a nuvem que tudo obnubila.
As palavras mostram-escondem que a minha deriva é contínua… na busca de o não sei o quê… Como posso anular o meu ser antes mesmo de o conhecer, até mesmo, desejar a morte? Não sou suicida, apenas quero um bilhete de ida, de “barco” para o “porto” e não voltar…

Vejo muros pintados pela espessa tinta das sombras: elas rodeiam-me, e eu, sem saber porquê, continuo à deriva, em fuga. Então, por que existo? Há sentido? Há razão? A minha loucura não é suficiente para entender isto e aquilo e aqueloutro?
Para onde quer que vá não haverá o que procuro e morrerei como cheguei ao mundo - sem sentido.
Olharei, sem nada ver; apalparei sem nada sentir; beberei sem parar; respirarei o ar viciado de uma luz tão ténue que nem a vejo; abrirei os ouvidos sem nada escutar e todo o meu corpo está alquebrado pela fúria da palavra.


Eduardo Silva, 12º A

domingo, 14 de dezembro de 2008

Pobre velha música!


Pobre velha música!
Não sei por que agrado,
Enche-se de lágrimas
Meu olhar parado.


Recordo outro ouvir-te,
Não sei se te ouvi
Nessa minha infância
Que me lembra em ti.


Com que ânsia tão raiva
Quero aquele outrora!
E eu era feliz? Não sei:
Fui-o outrora agora.

Fernando Pessoa

Escolhi este tema de Fernando Pessoa por causa da sua temática, memória da infância perdida é o tema que mais me agrada na poesia pessoana. A racionalização dos sentimentos feita por Pessoa não o permite de felicidade [?], refugiando-se então nas suas memórias de infância, quando era contente inconscientemente.
Logo, a referência “Pobre Velha Música” refere-se à infância que ele pretendia viver. Embora ele a queira reviver, Fernando pretende manter a consciência que tinha na sua fase de adulto, e a felicidade. Logo isto, faz-me pensar se serei tão feliz como fui até agora e se o desenvolvimento do racionalismo é um factor positivo para o “eu” de cada pessoa.

Tiago Barbosa 12ºB

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Caeiro apaixonado...


Todos os dias agora acordo com alegria e pena.
Antigamente acordava sem sensação nenhuma; acordava.
Tenho alegria e pena porque perco o que sonho.
E posso estar na realidade onde está o que sonho.
Não sei o que hei-de fazer das minhas sensações.
Não sei o que hei-de ser comigo sozinho.
Quero que ela me diga qualquer cousa para eu acordar de novo.

Quem ama é diferente de quem é
É a mesma pessoa sem ninguém.


Alberto Caeiro


Simples, directo e profundo. Assim é Alberto Caeiro. Os seus poemas são, aparentemente, algo de banal. Mas a poesia não pode ser apenas lida. Ela também tem de ser sentida!
Este verdadeiro sensacionista cativou muitas mentes com os seus poemas. Tornou-se uma grande figura da Literatura Portuguesa.
Alberto Caeiro sempre se baseou nas sensações e nos seus sentimentos para escrever os seus poemas. A Natureza era a verdadeira realidade para ele, porque era tudo o que conseguia ver. Nada mais era tão real do que aquilo que ele via. Para ele, o pensamento era sinónimo de cegueira e de mau estar.
Neste poema, Caeiro sente-se vazio e impotente por não conseguir perceber as suas sensações. Foi por isso que me despertou especial interesse. Eu acho que se as pessoas intelectualizam os seus sentimentos não estão a ser verdadeiras com elas próprias nem com aqueles que as rodeiam. Aquilo que sentimos deverá ser algo de sincero. Assim, concordo plenamente com este heterónimo de Fernando Pessoa quando é atribuído um grande valor às sensações e aos sentimentos. Por vezes, quando não conseguimos descrever no que os nossos sentimentos se traduzem, sentimo-nos perdidos, sem um rumo na vida.
Alberto Caeiro até pode não ter tido muitos estudos, mas foi um ser muito inteligente e dotado de talento. A sua poesia é tão objectiva, mas provoca em nós um montão de interpretações. E assim é um grande poeta.



Joana Cordeiro
12º A

O olhar de Caeiro



O meu olhar azul como o céu
É calmo como a água ao sol.
É assim, azul e calmo,
Porque não interroga nem se espanta...

Se eu interrogasse e me espantasse
Não nasciam flores novas nos prados
Nem mudaria qualquer cousa no sol de modo a ele ficar


(Mesmo se nascessem flores novas no prado
E se o sol mudasse para mais belo,
Eu sentiria menos flores no prado
E achava mais feio o sol...
Porque tudo é como é e assim é que é,
E eu aceito, e nem agradeço.
Para não parecer que penso nisso(...)


Alberto Caeiro




A minha opção pela escolha de um poema de Alberto Caeiro deve-se ao facto de ser um poeta com uma poesia simples e naturalista, o que penso que é o que mais se identifica com a minha maneira de ser. Não optei pela poesia de Fernando Pessoa (Ortónimo), porque foi uma poesia que eu não gostei muito e que não compreendi muito claramente.
Caeiro, no caso concreto deste poema, usa alguns conceitos que ele de resto usa na maioria dos seus poemas, conceitos esses como a Natureza e, principalmente, a visão. No caso da “visão”, esta faz parecer ao leitor uma ideia real do que ele quer transparecer [?]. Ele faz uso deste conceito, por exemplo, no caso do verso “O meu olhar azul como o céu” - com este verso, Caeiro também usa uma figura de estilo muito utilizada por ele que é a comparação. Ele recorre muitas vezes a esta figura de estilo, por ser simples e que, como no caso da visão, também dá uma ideia mais aproximada do real. Com o verso “É calma como a água ao Sol” Caeiro usa o tal conceito da Natureza, quando fala da água e também do sol. Mais uma vez, Caeiro não deixa de usar a comparação.






João Filipe Vilas Boas Aldeia, 12ºA

Falas de Civilização

Falas de civilização, e de não dever ser,
Ou de não dever ser assim.
Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,
Com as cousas humanas postam desta maneira.
Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos.
Dizes que se fossem como tu queres, seria melhor.
Escuto sem te ouvir.
Para que te quereria eu ouvir?
Ouvindo-te nada ficaria sabendo.
Se as cousas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.
Se as cousas fossem como tu queres, seriam só como tu queres.
Ai de ti e de todos que levam a vida
A querer inventar a máquina de fazer felicidade!


Alberto Caeiro



Este poema levou-me a associar dois assuntos, os problemas e as complicações da sociedade, e o desinteresse do autor perante a civilização. O primeiro assunto vem dos primeiros versos, que falam da opinião das pessoas, e da sua infelicidade. Hoje em dia, esse descontentamento permanece nos corações de muitas pessoas por diversas razões, cada vez se diz mais que a vida está difícil, na verdade, não está fácil e isso vê-se bem - a nível económico os mais ricos enriquecem e os mais pobres empobrecem. No segundo assunto [???] baseei-me na afirmação “escuto sem te ouvir”. Alberto Caeiro, ao não racionalizar, sabia que a felicidade tinha de se aproveitar, ele não se importa com a opinião dos outros, porque as coisas acontecem por algum motivo. Para Caeiro era fácil ser feliz: simplesmente se tem de sobreviver, não ter fome e ter os desejos realizados [e é pouco?]. Acho que o que nos acontece de mal serve para nós ver-mos que temos de aproveitar as coisas boas, mesmo que sejam poucas.


João Paulo de Matos Nascimento, 12ºA

Hoje de manhã saí muito cedo






Hoje de manhã saí muito cedo,

Por ter acordado ainda mais cedo

E não ter nada que quisesse fazer...



Não sabia que caminho tomar

Mas o vento soprava forte, varria para um lado,

E segui o caminho para onde o vento me soprava nas costas.



Assim tem sido sempre a minha vida, e

Assim quero que possa ser sempre --

Vou onde o vento me leva e não me

Sinto pensar.



Alberto Caeiro



Eu escolhi este poema porque era exactamente o que eu queria,como quereria viver no futuro, sem um destino traçado, navegar num mar onde a minha rota fosse desconhecida,um pouco como Alberto Caeiro,um acordar todas as manhâs sem ter de pensar.Pensar!!! A dor de pensar,quem não gostaria de acordar todas as manhãs sem ter de pensar no que irá fazer, apreciar o mundo como ele é, ver a sua simplicidade,apenas sentir o vento e rumar com a maré.
Alberto Caeiro dá-nos ideia de liberdade.





Michael Ferreira da Silva, 12ºA

A Não-Filosofia de Caeiro




Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é.
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem por que ama, nem o que é amar...”



Alberto Caeiro





Escolhi este poema, em primeiro lugar porque a sonoridade me chamou atenção. Em segundo lugar porque exprime mesmo a personalidade de Caeiro. Mostra, mais uma vez, que para ele nada é o que é pelo que se pensa e sim pelo que se sente ao Ver.

E ele ama a Natureza porque gosta de a Ver, não porque sabe o que ela é ou o que ela pode fazer ou não. Em terceiro lugar, porque ele diz que não tem filosofia, mas nos últimos versos faz uma grande filosofia do que é amar.

Falas de civilização...
Falas de civilização, e de não dever ser,
Ou de não dever ser assim.
Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,
Com as coisas humanas postas desta maneira,
Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos.
Dizes que se fossem como tu queres, seriam melhor.
Escuto sem te ouvir.
Para que te quereria eu ouvir?
Ouvindo-te nada ficaria sabendo.
Se as coisas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.
Se as coisas fossem como tu queres, seriam só como tu queres.
Ai de ti e de todos que levam a vida
A querer inventar a máquina de fazer felicidade!


Alberto Caeiro



Escolhi este poema, porque o que o Caeiro diz (à pessoa para quem fala) é o que, por vezes, me dá vontade de dizer a pessoas que viveram ainda tão pouco, mas que estão sempre, de alguma maneira, a tentar corrigir os erros dos outros e a desvalorizar as atitudes dos mesmos, por terem opiniões que não se identificam com as delas…

Acho que este poema é uma grande filosofia para “calar” os mal dizeres das pessoas que pensam que são as correctas e que, na realidade, são tão ou menos que o resto das outras pessoas.

“Se as coisas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.”. Acho que não haveria melhor forma de resumir tudo do que este verso. As coisas são o que são e ponto final. E as pessoas que estão sempre a pensar o que os outros fazem de “errado” só estão a perder tempo a fazê-lo, ao invés de olhar e Ver a vida delas…



Tânia Lopes, 12ºF

Chove...




Chove muito, chove excessivamente...
Chove e de vez em quando faz um vento frio...
Estou triste, muito triste, como se o dia fosse eu.


Num dia no meu futuro em que chova assim também
E eu, à janela, de repente me lembre do dia de hoje,
Pensarei eu «ah nesse tempo eu era mais feliz»

Ou pensarei «ah, que tempo triste foi aquele»!
Ah, meu Deus, eu que pensarei deste dia nesse dia
E o que serei, de que forma; o que me será o passado que é hoje só presente?...


O ar está mais desagasalhado, mais frio, mais triste
E há uma grande dúvida de chumbo no meu coração...



Álvaro de Campos

20-11-1914





Escolhi este poema, porque o eu poético questiona o seu futuro. Pergunta-se se este tempo presente será visto como um tempo em que é mais feliz ou como um tempo triste, visto esse futuro ser mais risonho. Esta é cada vez mais, a minha dúvida. Por vezes, pergunto-me se no futuro vou ser feliz, mais feliz do que sou agora, ou se este meu “futuro passado” vai ser lembrado como o tempo mais feliz da minha existência.

“Chove muito (…) estou triste (…) como se o dia fosse eu.”

A chuva é considerada como algo triste. Num dia de chuva as pessoas não riem tanto, ficam em casa, está frio… O dia fica escuro. O eu poético compara-se ao dia em que chove excessivamente e faz um vento frio. O tempo exterior é reflexo daquilo que ele sente. A chuva instala-se e nele a melancolia cresce e se o passado é melancólico e o futuro uma dúvida, o eu poético sente que ficou “mais frio, mais triste”. Uma “grande dúvida de chumbo” inquieta-o, pois a sua angústia parece não ter fim, e o facto de não encontrar respostas angustia-o ainda mais.



Anita Magalhães Faria

12ºC

Leve, breve, suave



Leve, breve, suave,
Um canto de ave
Sobe no ar com que principia
O dia.
Escuto, e passou...
Parece que foi só porque escutei
Que parou.

Nunca, nunca em nada,
Raie a madrugada,
Ou 'splenda o dia, ou doure no declive,
Tive
Prazer a durar
Mais do que o nada, a perda, antes de eu o ir
Gozar.

Fernando Pessoa

Escolhi este poema de Pessoa Ortónimo porque, apesar de ser pequeno (duas estrofes de sete versos cada), diz o essencial sobre o seu problema da consciência/ inconsciência.
O poema inicia-se com três adjectivos – leve, breve e suave – que caracterizam o canto da ave. Este primeiro verso tem um ritmo lento devido às pausas que as vírgulas provocam, que de seguida se torna mais rápido pois os versos seguintes, graças ao encavalgamento, lêem-se sem pausas. Depois desta descrição do canto (no quinto verso), o Eu poético afirma “Escuto e passou”. É aqui que se coloca o problema da consciência. A partir do momento em toma consciência do canto (escutar é um acto intencional muito diferente do acto de ouvir, que é involuntário), o prazer desaparece. A partir do momento em que o poeta passa do plano dos sentidos para o da razão (se torna racional) a felicidade e a alegria que o canto transmite acabam. Na segunda estrofe, o Eu poético está amargurado e exprime essa amargura através da repetição do “nunca” reforçado pela referência aos diferentes momentos do dia (madrugada, meio-dia e o pôr-do-sol) para vincar bem que nunca teve prazer que durasse para lá do momento em que dele tomou consciência. Antes mesmo de o gozar, já esse momento desapareceu, pois a sua consciência sobrepôs-se e impediu-o de ser feliz.
O que me agradou mais foi a capacidade de, em tão poucas palavras, ter conseguido exprimir tão bem a sua incapacidade de ser inconsciente e, por isso mesmo feliz e de ter dito de uma forma tão musical, com tantas variedades de ritmo, recorrendo apenas às pausas e ao encavalgamento.



Rui Bonifácio Viana Lopes, 12ºC

Acordo...


Acordo de noite subitamente,
E o meu relógio ocupa a noite toda.
Não sinto a Natureza lá fora.
O meu quarto é uma coisa escura com paredes vagamente brancas.

Lá fora há um sossego como se nada existisse.
Só o relógio prossegue o seu ruído.
E esta pequena cousa de engrenagens que está em cima da minha mesa

Abafa toda a existência da terra e do céu...
Quase que me perco a pensar o que isto significa,
Mas estaco, e sinto-me sorrir na noite com os cantos da boca,
Porque a única cousa que o meu relógio simboliza ou significa
Enchendo com a sua pequenez a noite enorme
É a curiosa sensação de encher a noite enorme
Com a sua pequenez...


Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XLIV"


Depois da leitura de muitos poemas e da indecisão sobre qual, na verdade, iria escolher, decidi que este era aquele que procurava.
Realmente, é um poema simples, como todos os outros de Caeiro, mas é realmente isso que me deixa curioso.
Caeiro rege-se pelas sensações que os órgãos sensoriais lhe transmitem, e acho que isso está bem patente neste poema…
Agora, a meu ver, acho simplesmente fascinante a maneira como Caeiro vê o mundo, como algo tão simples, quando eu e muitos mais fazemos dele um problema, com ainda mais uns quantos dentro desse mesmo problema, criando preocupações e medos…
Pensamos e pensamos e tornamos a pensar, até que tornamos algo que é estupidamente simples, em algo muito complicado, somos como dizia Caeiro, uns doentes!
Claro que, na minha opinião se todos visse-mos tudo de modo tão simples, não chegávamos a grandes conclusões e nada faríamos a não ser viver e apreciar, não havendo evolução.
Mas não é essa a questão, a questão é que, no meu ver, esta maneira de viver é realmente gratificante para Caeiro, não tem de se preocupar com “nada”, vê as coisas como elas são e não como pensa que realmente são, é quase como um escudo protector de desilusões, que muitos procuramos mas não encontramos, porque não podemos deixar de pensar, em vários pontos de vista sobre o que quer que seja, fazendo-o muitas vezes para tentar entender, o que já está muitas vezes entendido…


Gonçalo Fonseca, 12ºA

[texto não editado pela professora]

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Todas as Opiniões


Nunca fizeram crescer uma erva ou nascer uma flor.
Toda a sabedoria a respeito das cousas
Nunca foi cousa em que pudesse pegar como nas cousas;
Se a ciência quer ser verdadeira,
Que ciência mais verdadeira que a das cousas sem ciência?
Fecho os olhos e a terra dura sobre que me deito
Tem uma realidade tão real que até as minhas costas a sentem.
Não preciso de raciocínio onde tenho espáduas.

Alberto Caeiro


Gostei deste poema e assumi que Alberto Caeiro é um realista/naturalista, que acredita no natural(natureza). Eu identifico-me um bocado com dois versos em que Caeiro fala da ciência ("Se a ciência quer ser verdadeira", "Que ciência mais verdadeira que a das cousas sem ciência?”). Isto é cada vez mais uma verdade pura (para mim, é claro): com o avanço da ciência, durante estes séculos, e os seus resultados incríveis, as pessoas começaram a acreditar que a ciência salva o mundo, que arranja solução para tudo, esquecendo quem lhes forneceu alimento, quem curou (plantas medicinais) milhares de pessoas e permitiu a sobrevivência humana. Estou, certamente, a falar da natureza.
Com as pessoas a acreditar na ciência como a salvadora do mundo, quase um deus, temo-nos esquecido da natureza e estamos a prejudicá-la com os nossos actos violentos: aquecimento global, desflorestamento, água poluída, são alguns exemplos de como nos comportamos com a natureza. As pessoas comportam-se desta maneira devido à crença que têm na ciência: acreditam que o planeta será salvo pela ciência, que uma cura aparecerá, limpará os resíduos tóxicos que poluimos o que nos alimenta. Achamos cruel matar os pais, que nos alimentam, mas é-nos indiferente matar a natureza que também nos alimenta e ajuda durante estes séculos todos. Tantas opiniões que há sobre a Natureza: "Nunca fizeram crescer uma erva ou nascer uma flor.” - Não podemos só falar, temos de agir, vamos ajudar a salvar a mãe natureza e ajudamo-nos nós próprios, não custa nada dar uma mãozinha.


Bruno Pereira, 12º F

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Aniversário

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim mesmo,
O que fui de coração e parentesco.,
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui - ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho... )
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos ...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas - doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado -,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos. . .
Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! ...
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...


O poema “Aniversário”, de Álvaro de Campos, realça a felicidade vivida por Fernando Pessoa na sua infância, rodeado de entes queridos, onde a sabedoria e o pensamento não eram características de um pequeno rapaz, apenas se vivia feliz na simplicidade. A época da infância é, assim, marcada pela inconsciência, pois a criança não tem noção do que se passa à sua volta “Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma”.
O Ser Humano, no seu processo de crescimento, adquire conhecimentos, aprende errando e enfrentando dificuldades e Fernando Pessoa, sendo um pensador nato, um operário da inteligência e sonhador da paz na ignorância, escreve por Campos, um dos mais pesados e sentidos poemas no seu todo, recordando a família e a casa, usando a comparação do passado com o presente julgando que, perdendo os princípios da sua infância, também lhe fora roubado tudo o resto.
“O que eu sou hoje é terem vendido a casa”/ É terem morrido todos, / É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio..."
Álvaro de Campos já não vive na sua casa, já não se senta e festeja o aniversário, tem uma vida diferente daquilo que merece ser chamada de vida. Na infância, apesar de muito aprendermos quando de sorriso aberto falam para nós, somos vítimas do próprio processo de crescimento, e em Campos a infância perdeu-se fazendo com que o poeta sentisse essa perda como a sua identidade feliz.
Quem sabe se, um dia, o tempo retrocede e conquista requintes que no presente julga reviver. No presente, não há mais aniversários “ Hoje já não faço anos” - resta ao poeta durar “Duro”, porque o pensamento o impede de ter a inconsciência de outrora. Sentir saudade do passado é, para Álvaro de Campos, enraizar a sua existência num dos maiores e maravilhosos períodos da vida, na Infância.



Filipa 12ºB

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Escrever é Esquecer

Porque acabámos um pequeno trabalho sobre Fernando Pessoa, ou a maior parte acabou este trabalho, quem melhor do que Pessoa para expressar o seu sentimento acerca da Poesia?


Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. A música embala, as artes visuais animam, as artes vivas (como a dança e a arte de representar) entretêm. A primeira, porém, afasta-se da vida por fazer dela um sono; as segundas, contudo, não se afastam da vida - umas porque usam de fórmulas visíveis e portanto vitais, outras porque vivem da mesma vida humana. Não é o caso da literatura. Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso.

Bernardo Soares, in "Livro do Desassossego"

Posso ter defeitos






Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar algumas vezes irritado,
mas não esqueço que a minha vida é a maior empresa do mundo.
E posso evitar que ela vá à falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver,
apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e tornar-se autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis
no recôndito da tua alma.
É agradecer a Deus em cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo. É ter coragem para ouvir um “não”.
É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.
Pedras no caminho? Guardo-as todas, um dia vou construir um castelo…

Fernando Pessoa


Escolhi este poema de Fernando Pessoa porque desde a primeira vez que o li fiquei fascinado, apesar de não saber quem era o autor. Só mais tarde vim a descobrir que esta era mais uma obra de Pessoa.
Em algumas das fases menos boas da nossa vida, quando tudo parece correr mal e nos vitimizamos e nos martirizamos, pensamos nos “porquês” - “Porquê eu?”; “Porquê a mim?”; “Que mal é que eu fiz para merecer isto?”…
E andamos a pensar, a remexer tudo vezes sem conta, num “ciclo vicioso de porquês”. No entanto, a atitude que devemos ter é [deve ser] igual à que Pessoa descreve: ”Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e tornar-se autor da própria história”. Vitimizarmo-nos só serve para nos deixar “no fundo do poço” e não nos leva a lado nenhum. Devemos levantar a cabeça e recolher forças nas coisas boas que nos aconteceram, e recolher todas as pedras que temos no caminho, para que um dia, também nós possamos construir um castelo. O nosso castelo.

E, para acabar, pegando nas palavras de Pessoa: “Mas não esqueço que a minha vida é a maior empresa do mundo. E posso evitar que ela vá à falência”. Só pensamentos positivos atraem as coisas positivas.



Ivan Torres 12ºB

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Poema em Linha Recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,

Eu que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;

Eu, que tenho sido cómico criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,
Para fora da possiblidade do soco;
Eu que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu que verifico que não tenho par nisto neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo,
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu um enxovalho,
Nunca foi senão - princípe - todos eles princípes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana,
Quem confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que, contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Ó princípes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde há gente no mundo?

Então só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Álvaro de Campos


Bastou-me ler os dois primeiros versos para o escolher. Gostei logo desta primeira confissão. Daí para a frente foi só deparar-me com uma realidade muito actual.
Álvaro de Campos sentia-se sozinho, achava-se muito diferente em relação ao homem comum e, demonstrou-o aqui, radicalmente.
Começo por referir que errar é o que de mais humano há. O problema é que nem todos pensamos assim e então fingimos que fazemos tudo bem, que somos muito inocentes e que somos perfeitos. Mas não existe perfeição, portanto não devíamos ter medo de admitir que erramos, que fazemos asneiras. Quantas vezes acontece de estragarmos algo quando ninguém está a ver e então voltamos a pôr tudo no seu devido lugar, na esperança de que as culpas não recaiam sobre nós?! Também já me aconteceu a mim.
É triste pensar que somos o que de mais vil há e que só os outros são príncipes. Mas para quem ainda pensa assim, é importante referir que há alturas para tudo. Há uma altura em que somos príncipes, uma altura em que somos insignificantes, uma altura em que somos reles, uma altura em que somos hipócritas, outra em que negamos a hipocrisia e passamos a ser verdadeiros. Depois, cada um escolhe como quer ser, como quer ficar.
Aprecio imenso a verdade, e como tal gostei do facto de Campos ter admitido todos os seus problemas, toda a sua sujidade. Nem todos temos coragem para admitir que burlamos os outros, que somos ridículos. Mas mesmo assim ele fá-lo e apela a que os outros o façam.
"Quem me dera ouvir de alguém a voz humana" diz ele. Esta voz humana ainda é pouco recorrente. É pena. Neste poema, Álvaro de Campos, ironicamente, passa a ser superior pois é o único capaz de se mostrar vil e erróneo, sem titubear.
Acabo agora com a moral, não da história, mas sim do poema: "Os pobres da humanidade não são quem erra, mas quem não tem coragem para admitir que errou!".


Sara Vila-Chã 12ºC


[texto ainda por editar, pela professora]

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Tomamos a Vila depois de um Intenso Bombardeamento



A criança loura

Jaz no meio da rua.
Tem as tripas de fora
E por uma corda sua
Um comboio que ignora.

A cara está um feixe
De sangue e de nada.
Luz um pequeno peixe
Dos que bóiam nas banheiras —

À beira da estrada.

Cai sobre a estrada o escuro.
Longe, ainda uma luz doura
A criação do futuro...

E o da criança loura?


Que escolhêssemos um que não estivesse no livro (mas que curiosamente se encontra no verso da folha do seu semelhante que tanto amo*), sem critério de selecção de autor, ortónimo, heterónimo – indiferente. Um. Que nos escolhesse, a nós.

Não, este não me escolheu. Escolhi-o eu entre os demais, não por haver uma identificação piegas-pessoal, não por ser mais ou menos academicamente enquadrado nas temáticas, não por ser linguisticamente belo (até porque a rima é musicalmente descoordenada), nem mesmo por identificação por oposição.
É verdade que comemos também com os olhos, e eu quase devorei papel de encantamento pelo título. Palavra(!): é gigante, atípico e Histórico… e nada esclarecedor.
Eis que num encolher de ombros, e induzida em erro, deixei que os cabelos louros se reflectissem na minha íris, o que não durou mais do que um verso, porque Pessoa não deixa, porque os cabelos que não respiram não brilham, e o sangue que perfilha a glória dos heróis de Homero, não é o mesmo imundo e rasteiro da estrada da Vila.
Não intento alongar-me a expor uma interpretação cuidada, uma defesa acérrima do poema…mas há impressões ressaltam – o comboio que a criança ignora, que sendo a sua consciência ou não, está impregnado de movimento e velocidade até ao tutano; o peixe, que mais vivo que a criança, carecendo da vida desta, permanece à beira da estrada; a última estrofe, no seu todo, sugestiva de um futuro que provém de uma luz que Ainda doura.
“E o da criança loura?” Com este verso, acrescento e concluo que o Ortónimo me deixou um gosto requintado na boca: quase com maldade, ou apenas desalento, remete o seu olhar (e o meu também), uma última vez, para a criança anómica, suspirando.


*O menino de sua mãe




[texto por editar pela professora]

Ontem à tarde um homem das cidades





Ontem à tarde um homem das cidades
Falava à porta da estalagem.
Falava comigo também.
Falava da justiça e da luta para haver justiça
E dos operários que sofrem,
E do trabalho constante, e dos que têm fome,
E dos ricos, que só têm costas para isso.
E, olhando para mim, viu-me lágrimas nos olhos
E sorriu com agrado, julgando que eu sentia
O ódio que ele sentia, e a compaixão
Que ele dizia que sentia.

(Mas eu mal o estava ouvindo.
Que me importam a mim os homens
E o que sofrem ou supõem que sofrem?
Sejam como eu — não sofrerão.

Todo o mal do mundo vem de nos importarmos uns com os outros,
Quer para fazer bem, quer para fazer mal.
A nossa alma e o céu e a terra bastam-nos.
Querer mais é perder isto, e ser infeliz.)

Eu no que estava pensando
Quando o amigo de gente falava
(E isso me comoveu até às lágrimas),
Era em como o murmúrio longínquo dos chocalhos
A esse entardecer
Não parecia os sinos duma capela pequenina
A que fossem à missa as flores e os regatos
E as almas simples como a minha.

(Louvado seja Deus que não sou bom,
E tenho o egoísmo natural das flores
E dos rios que seguem o seu caminho
Preocupados sem o saber
Só com florir e ir correndo.
É essa a única missão no Mundo,
Essa — existir claramente,
E saber faze-lo sem pensar nisso.

E o homem calara-se, olhando o poente.
Mas que tem com o poente quem odeia e ama?



Alberto Caeiro





Opinião Pessoal


Escolhi este poema porque apreciei a perspectiva do poeta em relação á sociedade, ao modo descreve a relação do Homem na sua época.
O poeta fala de um homem que, em jeito de desabafo, relata a situação desconfortável em que vivem as pessoas com menos posses. Alberto Caeiro é enigmático, embora seja um poeta com pouca instrução é um homem obscuro e oculto, é um homem da natureza e diz que quando pensa isso causa-lhe complexidade e desconforto mental.
Como tal o poeta só quer viver no que é belo e simples. E foi o que mais me impressionou no poema, foi a forma como Caeiro, de certa forma, solucionou os graves problemas que incomodavam a sociedade dessa altura, embora para Caeiro obscuros e ocultos. O Mestre “pediu” para as pessoas só se preocuparem com a sua vida com o seu caminho e mais importante, fazer isso bem e “sem pensar muito nisso”.



Tiago Pereira, 12ºC

[texto por editar pela professora]

Cansaço


O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço...

Álvaro de Campos


Por que razão escolhi eu este poema para postar no maravilhoso blogue (graxa!) da nossa tão querida professora (olha?! Mais graxa!)?
A resposta a essa pergunta pode ser dividida em duas partes:
Primeiro, o poema cujo tema era o prazer de não fazer um dever já tinha sido reclamado, e eu gosto de ser original;
Segundo, o que havia em mim era mesmo cansaço, aliás, o que há em mim, neste momento é cansaço, porque, parecendo que não, escolher um poema entre as centenas, senão milhares, de escritos Fernando Pessoa, cansa.
Eu sei que há pessoas que esperavam alguma coisa mais profunda e mais poética. Mas querem algo mais poético do que a verdade, ela mesma poesia? (deixem-me adivinhar. Sim!)
Eu tenho reparado que a maior parte das pessoas fazem análises extensivas ao poema. Eu não. Até porque eu não percebo nada de poesia, e, sinceramente, não tenho interesse neste tipo de escrita. Por isso vou só focar um ou outro aspecto interessante (ou não tão interessante assim) deste poema.
Posso começar por focar cansaço provocado pelas sensações inúteis, nomeadamente, as paixões ardentes e coisas tais, mas eu posso acrescentar, neste contexto, aquilo a que eu chamo: o poetismo extremo, que é um estado mental em que as pessoas vivem no que elas pensam ser um planeta cor-de-rosa poético-filosófico chamado jet-set. Uma conversa com essas pessoas soaria mais ou menos a isto:
- Eurecââââ! Des-co-briiiii?!
- Descobriste o quê? A solução para todos os problemas da Humanidade? Como dividir um ângulo em três com uma régua, um esquadro e um compasso?
- Não. Acabei de pensar na coisâ mâis fútil que o ser humano conseguirá pensareee.
- O quê? - Pergunta a personagem com uma impaciência conformada.
- Estar vievúu é o contrário de estar mortôôôô?!*


*(nota: algumas partes estão escritas em Lili-caneçiano)**

**(nota da nota: isto era totalmente desnecessário mas tenho de desviar a atenção da minha incapacidade de interpretar poemas)***

Mas continuando, eu acho que o que Álvaro de Campos queria dizer com cansaço era, mais a sensação de perda de tempo provocada por estes sentimentos de pura futilidade, que acaba por ser irritante e, até mesmo, cansativa.
Outra coisa que eu gostaria de focar era a felicidade que ele sente por se sentir cansado das coisas mencionadas no poema, que pode ser interpretada como uma sensação de liberdade. Uma liberdade provocada por saber que não é alguém que terá de andar a perseguir amores ardentes, ou a seguir filosofias fúteis. É uma sensação de gozo por nem sequer pensar o que é a vida, se está vivo, ou sequer, se é feliz assim.***


***(De notar que aguentei 625 palavras sem fazer qualquer critica à ministra da educação)


Tiago Cordeiro, 12º C
[texto por editar pela professora]

Caeiro...

Alberto Caeiro, conhecido como o «mestre», entre os outros heterónimos, nasceu em Abril de 1889, em Lisboa, mas viveu grande parte da sua vida numa quinta no Ribatejo. Fez apenas a escolaridade primária, o que combina perfeitamente com a simplicidade e naturalidade da sua escrita, a sua vida foram os seus poemas. Caeiro aparece a Fernando Pessoa de forma espontânea, numa altura em que Pessoa se debatia com a necessidade de ultrapassar o paúlismo (define-se pela voluntária confusão do subjectivo e do objectivo, «associação de ideias desconexas», frases nominais, exclamativas, pelas aberrações da sintaxe, vocabulário expressivo de tédio, vazio da alma, pelo uso de maiúsculas que traduzem a profundidade espiritual de certas palavras), o subjectivismo (trata-se de um sistema filosófico que não admite outra realidade se não a realidade do ser pensante), e o misticismo (Crença numa ordem de realidades sobrenaturais e na possibilidade de uma união íntima e directa com Deus). É nesse momento conflituoso que aparece, e se “ri” desses misticismos, reage contra o ocultismo, nega o transcendental, defendendo a sinceridade da produção poética, rejeita doutrinas e filosofias. É nesse mesmo dia que escreve por pura inspiração trinta e tal poemas, é a esse alguém aquém dá o nome de Alberto Caeiro.



O Único Mistério do Universo
O único mistério do Universo é o mais e não o menos.
Percebemos demais as cousas — eis o erro, a dúvida.
O que existe transcende para mim o que julgo que existe.
A Realidade é apenas real e não pensada.

_______________________________________



O Espelho
O espelho reflecte certo; não erra porque não pensa.
Pensar é essencialmente errar.
Errar é essencialmente estar cego e surdo.


______________________________________


Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol.
Ambos existem; cada um como é.



Escolhi para o meu trabalho estes três poemas de Alberto Caeiro, posso dizer que são dos meus predilectos, e justifico também por serem de pequenas dimensões. Gosto principalmente da forma como se expressa, directamente e sou adepta da sua simplicidade e espontaneidade.“O Único Mistério do Universo” pensar demais sobre o Universo é o que faz o mistério em seu torno, esse é o erro que faz permanecer a dúvida, a realidade é o que existe, o que vemos, não temos de pensar nem questiona-la, por isso ele diz no poema “O Espelho” que o espelho não erra pois ele mostra apenas a realidade, sem a questionar, para Alberto Caeiro pensar é estar surdo e essencialmente cego.
“Um Dia de Chuva”, o que mais gosto neste poema é que se o comparar com o ser humano, esse pensamento seria perfeito. Porquê distinguir o ser por ser mais belo ou menos belo? Todos existimos, e cada um é como é…
Por vezes gostaria de ser um pouco como Caeiro, os momentos de felicidade mais intensos são vividos, e não pensados.


Juliana Barroso, 12ºA


[texto por editar pela professora]

Ora até que enfim..., perfeitamente...



Ora até que enfim..., perfeitamente...
Cá está ela!
Tenho a loucura exactamente na cabeça.

Meu coração estourou como uma bomba de pataco,
E a minha cabeça teve o sobressalto pela espinha acima...

Graças a Deus estou doido!
Que tudo quanto dei me voltou em lixo,
E, como cuspo atirado ao vento,
Me dispersou pela cara livre!
Que tudo que fui se me atou aos pés,
Como a serapilheira para embrulhar coisa nenhuma!
Que tudo quanto pensei me faz cócegas na garganta
E me quer fazer vomitar sem eu ter comido nada!

Graças a Deus, porque, como na bebedeira,
Isto é uma solução,
Arre, encontrei uma solução, e foi preciso o estômago!
Encontrei uma verdade, senti-a com os intestinos!
Poesia transcendental, já a fiz também!
Grandes raptos líricos, também já por cá passaram!
A organização de poemas relativos à vastidão de cada assunto
resolvido com vários -
Também não é novidade.
Tenho vontade de vomitar, e de me vomitar a mim...
Tenho uma náusea que, se pudesse comer o universo
para o despejar comia-o.
Com esforço, mas era para bom fim.
Ao menos era para um fim.
E assim como sou não tenho fim nem vida...

Álvaro de Campos










Decidi escolher Álvaro de Campos, não é que não tenha gostado de Fernando Pessoa Ortónimo ou de Alberto Caeiro, até é pelo contrário, não me conseguia decidir no poema! Então desisti da ideia de escolher entre Mestre e Ortónimo para abrir horizontes a novos heterónimos! A partir do momento em que decidir procurar Álvaro de Campos, este poema foi uma escolha bastante fácil!
Não o escolhi porque me identifico com ele (ou pelos menos esta é a versão oficial e juro-a até à morte!), mas antes escolhi-o porque é simplesmente e loucamente genial! Tem uma visão bastante distorcida de realização pessoal, dá a ideia tresloucada de vida concretizada… ou não!
É quase um grito de libertação das convenções e das ideias pré concebidas de “como se deve viver!”; “o que devemos e não devemos esperar da vida!”… parece que tudo o que fazemos deve ter um fim e esse fim é a perfeição e nunca o lixo!!!
Mal comecei a ler este poema, deu-me uma enorme vontade de me levantar da cadeira, colocar o pé direito em cima dela e de mão ao peito, lê-lo a gritar! E esta foi a razão principal que me fez escolher este poema - por mexeu comigo. E um poema não precisa de ser belo ou de me descrever na perfeição para eu o escolher e gostar dele… precisa de ter aquele toque especial que não sei explicar, mas garanto que este poema tem!
Precisa de ser louco e de quebrar estereótipos.
Adorei este poema e gritei! Sabe muito bem, experimentem!


Daniela Santos, 12ºC

A Criança que fui chora na estrada


I
A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.

Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.

Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,

Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.

II
Dia a dia mudamos para quem
Amanhã não veremos. Hora a hora
Nosso diverso e sucessivo alguém
Desce uma vasta escadaria agora.

E uma multidão que desce, sem
Que um saiba de outros. Vejo-os meus e fora.
Ah, que horrorosa semelhança têm!
São um múltiplo mesmo que se ignora.

Olho-os. Nenhum sou eu, a todos sendo.
E a multidão engrossa, alheia a ver-me,
Sem que eu perceba de onde vai crescendo.

Sinto-os a todos dentro em mim mover-me,
E, inúmero, prolixo, vou descendo
Até passar por todos e perder-me.

III
Meu Deus! Meu Deus! Quem sou, que desconheço
O que sinto que sou? Quem quero ser
Mora, distante, onde meu ser esqueço,
Parte, remoto, para me não ter.


Fernando Pessoa, grande poeta e escritor português, foi um marco importantíssimo na literatura portuguesa, sendo até comparado a Luís Vaz de Camões. Escreveu várias obras e todas elas de grande importância e empenho por parte do poeta, pois poeta é aquele que consegue traduzir melhor por palavras aquilo que sentimos e não sabemos descrever e, em Pessoa, as suas obras são a sua biografia.

“Os poetas não têm biografia. Sua obra é a sua biografia. Pessoa, que duvidou sempre da realidade deste mundo, aprovaria sem vacilar que se fosse directamente aos seus poemas, esquecendo os incidentes e acidentes da sua existência terrestre. Nada na sua vida é surpreendente – nada, excepto os seus poemas.”
Octávio Paz, Fernando Pessoa, o desconhecido de si mesmo, Vega

Escolhi então este poema por ser, para mim, o supra-sumo, o grande, por se basear na infância, na nostalgia do bem perdido e do mundo fantástico da infância, que provoca angústia existencial, entre outros sentimentos. Este poema descreve, para mim, mais do que qualquer outro poema, o sentimento de Pessoa. Faz lembrar um outro menino, que também chorou, numa enorme estrada, que teve que percorrer.
A infância ocupa na obra (o que é mais do que evidente, neste poema) de Fernando Pessoa, uma firme harmonia entre a realidade e o mito. O poeta mostra ao mundo todo o potencial da sua experiência, ao não conseguir realizar-se, idealiza ainda mais o passado. A infância é sempre sinónima de inconsciência, segurança, pureza, felicidade, entre outras. As amarguras desse mundo, sentidas pelo poeta, desaparecem com a dor de saber que esse bem é irrecuperável e, por isso, o presente do poeta é marcado por uma forte saudade da infância perdida.
O poeta sente-se descontente por não ser mais do que é, deseja regressar ao tempo em que foi feliz e voltar a ser a criança que não pensa, só sente. A infância não desapareceu por completo, apenas está submersa na pessoa que é agora, à espera de ser recuperada, já que Pessoa decidiu ser diferente e abdicar dela. Porém, a criança, que deveria ser feliz, chora, ou seja, representa sofrimento e abandono indevido (oposição temporal).
Neste poema está descrito um sentimento de querer/vontade do sujeito poético em que se fala, na 1ª quadra, da nostalgia da infância. Na 2ª quadra, pode-se observar a imobilização psicológica por não encontrar a infância e, também, a condição/possibilidade de conseguir observar a infância perdida através do presente e, ao vê-la, poder recuperá-la ou encontrar um pouco dela em si.
Em termos de gramática, são usadas neste poema frases negativas e declarativas, com vocabulário simples, uso dos verbos copulativos [quais?] (que mostram a dúvida do sujeito poético ao longo do poema), e evidencia-se também a oposição temporal e a interrogativa retórica [onde?]. Estes são os termos gramaticais mais utilizados e evidentes neste poema.


“Querer não é poder. Quem pôde, quis antes de poder só depois de poder. Quem quer nunca há-de poder, porque se perde em querer.”
Fernando Pessoa

Natalia Pereira 12ºB

Para seres grande...

Para ser grande, sê inteiro

Para ser grande, sê inteiro: nada

Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és

No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda

Brilha, porque alta vive.

Ricardo Reis

Por mais difícil que tenha sido de encontrar um poema de Fernando Pessoa encontrei um que se enquadra perfeitamente comigo.

Para quê ficarmos pelo superficial se nos podemos entregar de corpo e alma a todo o tipo de situações? Boas ou más não interessa, o que importa é que sabemos o que fazemos da melhor maneira possível, porque no final só nos traz benefícios. Mas quais benefícios? Como o poema diz: “Assim em cada lago a lua toda/ Brilha, porque alta vive.”, ou seja, a solução está dentro de nós. Se temos a plena noção de que demos tudo por tudo para concretizar algo, por mais simples que seja, então a nossa consciência vai estar completamente tranquila, e é nessa altura que a lua que está dentro de nós vai brilhar lá no alto.

Como um poema tão pequeno nos diz tanto!

Ana Teresa, 12º C



[texto por editar pela professora]

O Binómio de Newton...



O Binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo.
O que há é pouca gente para dar por isso.

óóóó - óóóóóóóóó - óóóóóóóóóóóóóóó
(O vento lá fora.)

Álvaro de Campos

Após ler uma série de poemas de Pessoa Ortónimo e dos seus vários heterónimos, deparei-me com este pequeno poema de Álvaro de Campos. À primeira vista achei esta comparação, do Binómio de Newton com a Vénus de Milo um pouco estranha, contudo o homem no seu esforço constante de compreender o universo acabou por criar uma ciência tão complexa e exacta que pode ser considerada mais divina que humana, a Matemática. Não é de admirar que alguns matemáticos cheguem mesmo a afirmar que têm como principal objectivo desenvolver a beleza e não a utilidade de um determinado teorema, tal como disse Hermann Weyl: "o meu trabalho sempre tentou unir o verdadeiro e o belo, mas, quando tive de escolher entre um e o outro, escolhi normalmente o belo."


O problema é que esta beleza que reside na matemática pode não ser visível aos olhos de toda a gente, aquilo que para um matemático pode parecer magnífico pode não ter qualquer valor artístico para outra pessoa. Pode até admitir que tem alguma funcionalidade ou até que tem uma boa estrutura, mas quanto a sua beleza, existirão várias dúvidas. É claro que isto não sucede apenas na matemática, em qualquer outra arte podem existir várias opiniões sobre a mesma obra. O mesmo quadro pode ser considerado fantástico por uns e ao mesmo tempo ser considerado horrível ou ridículo por outros. Penso que é exactamente a isto que Campos se refere com o poema, que a matemática tem o mesmo valor artístico que qualquer outra forma de arte é apenas diferente.

Carlos Fitas

12ºC



[texto por editar pela professora]

Já não me importo


 
Já não me importo
Até com o que amo ou creio amar.
Sou um navio que chegou a um porto
E cujo movimento é ali estar.
 
Nada me resta
Do que quis ou achei.
Cheguei da festa
Como fui para lá ou ainda irei
 
Indiferente
A quem sou ou suponho que mal sou,
 
Fito a gente
Que me rodeia e sempre rodeou,
 
Com um olhar
Que, sem o poder ver,
Sei que é sem ar
De olhar a valer.

E só me não cansa
O que a brisa me traz
De súbita mudança
No que nada me faz.
 
Fernando Pessoa


A escolha deste poema não foi em vão! Optei por “trabalhar” um poema de Fernando Pessoa Ortónimo pois já estou habituada á sua capacidade de racionalização, e confesso que toda a simplicidade de Alberto Caeiro, único heterónimo de Pessoa até agora estudado por nós, me deixa um tanto ou quanto baralhada, não só por o achar contraditório, mas também pelo facto de já estar habituada, de certa forma a racionalizar tudo, no que diz respeito á poesia pessoana.
Inicialmente quando li este poema não me tinha apercebido das suas características pouco comuns relativamente ao estilo “típico” de Ortónimo, mais tarde apercebi-me de que este apresenta alguns versos longos, e para além de quadras (marcas da lírica tradicional) com rima cruzada apresenta também dísticos, no entanto apresenta outras características mais presentes na poesia de Ortónimo como uma certa musicalidade, o ritmo marcado, bem como o uso de uma linguagem simples. Depois de confirmada a sua autenticidade, decidi que iria “trabalhar” pois esta dúvida inicial poderia ser bastante útil para reconhecer outros poemas de Fernando Pessoa Ortónimo que não apresentassem a estrutura comum da sua poesia.
Este poema demonstra logo de início, o desinteresse do sujeito poético por tudo, revelando alguma indiferença ao que acontece á sua volta, remetendo-nos assim para o desânimo, o tédio e a frustração.
O sujeito poético começa por se identificar com um navio que chegou ao porto e cujo movimento que lhe resta é ali estar. Neste contexto, o porto, pode ser identificado como o destino. No entanto, este destino acaba por se revelar um “não-destino” pois fica atracado á desilusão deste sentimento de incompletude perante um projecto falhado.
Sem destino, limita-se a ser indiferente a tudo e a todos, passando assim por uma angústia existencial. O desinteresse por tudo o que o rodeia é mais evidente, essencialmente na penúltima estrofe, quando o poeta diz que o seu olhar «é sem ar/ de olhar a valer», pretende com isto mostrar que está a olhar apenas por olhar, pois não encontra nada que desperte a sua atenção, ou seja, está presente mas não está a prestar atenção ao que se está a passar á sua volta. Esta é das únicas coisas com que me identifico neste poema, pois de certa forma ás vezes também me acontece o mesmo, ficando a “navegar” no pensamento não prestando atenção que supostamente estamos a ver, ou ao que nos está a ser contado.
Na última estrofe podemos concluir, baseado nos versos, “e só não me cansa/ o que a brisa me traz”, que ao poeta tudo o cansa. O tédio está constantemente presente neste poema, no entanto é de realçar que não se encontra a vontade do próprio sujeito poético em lutar contra este tédio, assim, em vez de viver o tempo deixa-se viver por ele.



Eduarda Silva Correia, 12º.A

[texto por editar pela professora]

Não, não é cansaço...


Não, não é cansaço...

É uma quantidade de desilusão

Que se me entranha na espécie de pensar.

É um domingo às avessas

Do sentimento,

Um feriado passado no abismo...

Não, cansaço não é...

É eu estar existindo

E também o mundo,

Com tudo aquilo que contém,

Como tudo aquilo que nele se desdobra

E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.

Álvaro Campos

O poema que escolhi é um exemplo da fase decadentista que caracteriza o Campos. Tal e qual como Campos também sinto o cansaço da vida monocórdica, calendarizada sem escrúpulos, sem nada de novo apenas engrenagens e mais engrenagens que se vão amontoando e moendo umas as outras numa cadeia de eventos meticulosamente programados por um qualquer entidade (ou a falta dela) com uma agenda bem livre e pouca imaginação no que toca a variabilidade sensacional.

Assim como a Campos as coisas parecem-me não ter sabor de tantas vezes mastigadas ou sem cheiro de tantas vezes que já foram respiradas. Se bem que ao contrário do Campos que parecia não encontrar sentido par a vida eu encontro, o único problema é que o caminho parece demasiado desenxabido e homogéneo. As flores estão lá mas todas da mesma cor…assim como tudo o que não tem cor e que para mim parece ter a mesma cor, que é a mesma que as flores…



Tiago Faria, 12ºC

[texto por editar pela professora]

A Noite é Muito Escura



É noite. A noite é muito escura. Numa casa a uma grande distância
Brilha a luz duma janela.
Vejo-a, e sinto-me humano dos pés à cabeça.
É curioso que toda a vida do indivíduo que ali mora, e que não sei quem é,
Atrai-me só por essa luz vista de longe.
Sem dúvida que a vida dele é real e ele tem cara, gestos, família e profissão.

Mas agora só me importa a luz da janela dele.
Apesar de a luz estar ali por ele a ter acendido,
A luz é a realidade imediata para mim.
Eu nunca passo para além da realidade imediata.
Para além da realidade imediata não há nada.
Se eu, de onde estou, só veio aquela luz,
Em relação à distância onde estou há só aquela luz.
O homem e a família dele são reais do lado de lá da janela.
Eu estou do lado de cá, a uma grande distância.
A luz apagou-se.
Que me importa que o homem continue a existir?


Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"




Decidi
escolher este poema de um dos heterónimos de Fernando Pessoa, Alberto Caeiro, não por me identificar directamente com ele, mas sim por ter tido o privilégio de o ler e o ter apreciado imediatamente. A escolha por Alberto Caeiro foi propositada, devido a achar os seus poemas incrivelmente naturais e simples, levando-nos para um mundo que não parece nosso conhecido, devido à racionalização e comparação excessiva que os humanos tendem a fazer de tudo, mas que realmente é esse mesmo mundo, exterior, que nos rodeia. Caeiro tem este brilhante dom de nos fazer ver (e quando falo de ver, é ver realmente) aquilo que nós quando vemos tendemos de imediato a intelectualizar.

Quando o mestre Caeiro, refere no primeiro verso “É noite. A noite é muito escura.”, é quase como se o poeta estivesse a dizer que está triste por estar noite, pois a noite não o deixa ver a beleza da Natureza, que é tão prezada por este. Para se sentir feliz necessita de ver as cores vivas da luz. Ele procura essa mesma felicidade na luz de uma janela que se encontra a uma grande distância do centro dele. Caeiro, nitidamente, reage como um girassol, que por sua vez age por tropismo. Um girassol roda para onde estiver o sol, mesmo estando ele a uma distância bastante significativa. À noite o girassol não tem luz e por isso pára o seu movimento circular; enquanto que Caeiro agindo de um modo parecido, também, “pára”, ficando triste, porque a noite fá-lo pensar devido a não ter a irreflexão da luz para apenas o fazer ver a realidade das coisas.

Como é referido no verso nove “A luz é a realidade imediata para mim.”, a realidade para Caeiro não passa do momento presente, porque a luz o deixa ver o que é real ali naquele instante. Para que importa o passado e o futuro? O passado não vai além de uma recordação que trai a Natureza, pois a Natureza é a realidade verdadeira e pura daquele momento e se se pensar no que já passou, estaremos, de uma certa forma, a atraiçoá-la. O futuro não passa de um conjunto de meras ilusões e esperanças imaginadas e idealizadas. Quando o poeta diz que nunca passa da realidade imediata, ele refere-se a esta temática. Mostrando, também, que tudo aquilo que ele vê em cada instante e que já tenha visto, repetidamente, seja visto, quase, pela primeira vez e com um pasmo sempre diferente, ou seja, o que está presente nele é sempre o presente.

Nos versos doze e treze, Alberto Caeiro continua a privilegiar a visão como sendo o centro de tudo, pois se ele vê uma coisa, essa coisa nunca irá ultrapassar a veracidade que a visão lhe mostra, não estando mais nada por trás disso.

No momento em que a luz, da casa que se encontra a uma grande distância dele, se apaga (verso dezasseis), deixa de existir a realidade imediata que a luz proporcionava. Se não existia mais aquela luz, tudo que estava por trás dela não importava para Caeiro, porque como é dito por este “Eu nunca passo para além da realidade imediata.”.

No último verso (verso dezassete), não só neste último mas também nos versos seis e sete, nota-se um pouco o anti-socialismo [anti-sociabilidade?...] de Alberto Caeiro. O mestre era anti-social, porque para ele viver feliz apenas lhe chegava ver a Natureza com tudo aquilo que ela é, não podendo por isso nunca cegar, como é referido em alguns dos seus outros poemas, não necessitando do convívio com os outros seres humanos.


Ângela Gandra, 12º B